A tendência autobiográfica do romance contemporâneo: Coetzee, Roth e Piglia
Adriano Schwartz
"Nossas mentiras revelam tanto de nós quanto nossas verdades."
Elizabeth Costello/J.M. Coetzee
Paul Rayment sofre um acidente e precisa amputar a perna. Recusa-se a usar uma
prótese e é auxiliado por várias enfermeiras, das quais não gosta, até que
conhece Marijana, por quem se apaixona. Esse é um resumo das primeiras noventa
páginas do drama de Homem lento, de J.M. Coetzee1. Quando a campainha da casa
do personagem toca e entra em cena Elizabeth Costello, tudo muda. Ela viera
encontrar o seu incrédulo personagem. Logo depois, sem acreditar no que
acontecia, Rayment lhe pergunta:
Está escrevendo um livro e vai me colocar nele? É isso que está
fazendo? Se for, que tipo de livro é, e por que não acha que precisa
de meu consentimento antes?
Costello esclarece que as coisas não funcionam assim:
Se eu fosse colocar você num livro, como diz, simplesmente iria em
frente. Mudaria seu nome, uma ou duas circunstâncias da sua vida,
para evitar a lei da difamação, e pronto. Com toda a certeza não
precisaria vir morar com você. Não, você veio a mim, como eu disse: o
homem com a perna ruim2.
Como a conversa sugere, essa seria a forma mais fácil de refletir sobre a
tendência autobiográfica do romance contemporâneo: assumir que o trânsito entre
vida e obra é direto e que um grande número de autores recentes apenas trocou
de nome e alterou algumas circunstâncias de suas vidas em seus romances. Assim,
Coetzee se transformaria em Costello, Ricardo Piglia se transformaria em Emilio
Renzi, Philip Roth se transformaria em Nathan Zuckerman. A escritora ficcional
nega a facilidade. Ela lembrara, aliás, pouco antes do diálogo aqui
reproduzido, que "histórias assim existem aos montes". E deixara um aviso: "Vai
ter que achar uma desculpa melhor para o seu caso"3.
***
Essa mistura de ficção e autobiografia é uma das características mais marcantes
do romance contemporâneo. Basta pensar em uma lista muito reduzida dentre os
inúmeros escritores de gerações diferentes que nos últimos sessenta anos fazem
essa mescla de maneiras bastante distintas, além dos três já mencionados acima:
Primo Levi, Thomas Bernhard, W.G. Sebald, Georges Perec, Giuseppe Berto, Saul
Bellow, Imre Kertész, Claudio Magris, Ernesto Vila-Matas, António Lobo Antunes,
Julian Barnes, Art Spiegelman, Paul Auster, Bernardo Carvalho, Michel Laub,
Ricardo Lísias.
É possível especular algumas razões para que o fenômeno tenha se intensificado
nesse período. Relaciono a seguir, de modo sintético e apenas indicativo, duas
delas e, em seguida, busco delimitar alguns de seus contornos nos três autores
do título deste texto, mas especialmente em um romance de Coetzee, quando
arriscarei uma hipótese sobre as condições de existência da própria forma
romanesca em uma época nada favorável, ou, para introduzir uma frase que será
repetida algumas vezes neste artigo, nesta nossa nova "idade das trevas"4.
A CONFISSÃO E A AUTOBIOGRAFIA
Em artigo publicado em uma revista norte-americana, Bernardo Carvalho afirma
que essa "contaminação" do mundo ficcional pelo mundo real indica uma reação:
O que mais me interessava, em parte como provocação, em um mundo que
reduzia paulatinamente a literatura à expressão direta da experiência
e do passado do autor, era inventar ficcionalmente minha própria
experiência5.
A tendência autobiográfica do romance seria o sintoma literário da exacerbação
de algo muito mais amplo, que vem progressivamente acontecendo, de um
"condicionamento" do ser humano cujas raízes remontam pelo menos ao Concílio de
Latrão e à imposição da regra da confissão em 1215. A partir dali, todos os
cristãos precisavam relatar os seus pecados com regularidade, o que significava
praticar sistematicamente um exercício de autorreflexão. Essa obrigação teria,
ao se generalizar, modificado a "vida religiosa e psicológica dos homens e
mulheres do Ocidente"6, ao mesmo tempo que se valorizava cada vez mais a
própria ideia de indivíduo7. É esse fenômeno que, amplamente disseminado e
instaurado na contemporaneidade, Peter Brooks chama de "modelo confessional"8 e
Beatriz Sarlo, ao estudar outra vertente da questão, de "guinada subjetiva"9.
Para atestar em outros âmbitos como o "modelo" ou a "guinada" estão
onipresentes, basta notar o crescimento dos programas de "reality show" em
televisões de todo o planeta, o lugar cada vez mais proeminente que as
biografias e autobiografias "puras" ocupam nas vendagens de livros ou a
implosão da noção de privacidade proporcionada pelos modernos meios de captação
de imagem e pelo instrumento de transmissão de dados poderoso que é a internet.
Paralelamente, o próprio gênero autobiográfico vem se transformando. A própria
autobiografia tem uma longa tradição. A partir das Confissões de Agostinho, diz
George Gusdorf10, "cada homem é responsável por sua própria existência, e as
intenções têm tanto peso quanto os atos - de onde uma nova fascinação com os
jorros secretos da vida pessoal". Se antes se valorizava a permanência ("não há
nada de novo sob o sol"), a repetição, a esfera pública, passa-se, com
Agostinho (e, posteriormente no Renascimento, no Romantismo ou no pós-guerra,
para citar três períodos históricos que consolidam e, principalmente, reajustam
o gênero), a dar cada vez mais peso para a mudança, a diferença, a esfera
privada, para uma vida que se considera única e importante a ponto de ser
transformada em narrativa e passada adiante. Como afirma Starobinski a respeito
das obras confessionais de Rousseau, era então "preciso" tornar a "alma
transparente para o leitor":
Tudo se passa então como se a transparência não fosse um dado
preexistente, mas uma tarefa a realizar. Mais exatamente, tudo se
passa como se a clareza interna da consciência não pudesse mais
bastar-se a si mesma, enquanto permanece estritamente "interior",
enquanto ela não é acolhida pelos outros, ela é paradoxalmente uma
transparência velada e solitária; não é uma transparência em ato, mas
"em potência" [...] será transparente em ato somente quanto tiver uma
testemunha a quem aparecer como transparência11.
O IMPACTO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Se o fenômeno vem sendo bastante comentado por analistas de tantas áreas, essa
interpenetração entre autobiografia e ficção12 ainda precisa ser mais bem
discutida dentro dos estudos literários13, uma vez que - e é essa a hipótese
deste estudo - assume sua configuração corrente nas últimas décadas14, depois
da Segunda Guerra Mundial, ou, mais apropriadamente, em decorrência dos eventos
ocorridos na Segunda Guerra Mundial15. Não há coincidência no fato de que os
romances em que essa mistura é evidente tenham íntima ligação com algum aspecto
daquele conflito ou de seus desdobramentos: é o caso de boa parte da obra de
Philip Roth (o mesmo vale para Sebald ou Bernhard); de Ricardo Piglia, de cujo
Respiração artificial16 um trecho decisivo é o encontro entre Kafka e Hitler;
de J.M. Coetzee e todas as polêmicas em que sua personagem recorrente, a
escritora Elizabeth Costello, se envolve; George Perec, em sua "autobiografia
ficcional" da infância diretamente afetada pelo nazismo, W ou memória da
infância17.
É como se houvesse uma necessidade fundamental de retornar à cena em que tudo
implodiu. Não por acaso outro momento de corte possível para marcar essa nova
configuração do romance é a publicação da trilogia Molloy, Malone morre e O
inominável, de Samuel Beckett, entre 1946 e 1953. O último, por exemplo, começa
cheio de dúvidas ("Onde agora? Quando agora? Quem agora? Sem me perguntar.
Dizer eu. Sem pensar. Chamar isso de perguntas, hipóteses...") e termina de
modo não menos enigmático ("...é preciso continuar, não posso continuar, vou
continuar"). Entre um trecho e o outro, o romance dinamita quase todas as
convenções do romance: não há personagens, enredo, progressão temporal,
ambiente, representação; apenas uma voz que fala, fala e fala, sabe-se lá de
onde, sem nenhuma motivação. Ali, a experiência modernista é levada ao extremo,
a uma espécie de marco regulatório final, a partir do qual seria preciso
retroceder se se quisesse continuar. Se o homem encolhera, se a humanidade
atingira o fundo do poço, talvez esse retorno, esse recomeço, passasse por um
olhar ficcionalizado para a própria história pessoal, para a constituição
contraditória e incerta desse único sujeito que talvez se possa conhecer e
desconhecer minimamente, o pequeno eu.
***
Algumas questões poderiam ser formuladas a partir do que se viu até aqui: 1)
por que conciliar essa "transparência em ato" de que fala Starobinski, a
suposta transmissão de uma verdade íntima e factual, com a imaginação ficcional
de um romance?; 2) de que formas acontece essa transfiguração do biográfico no
fictício?; 3) de que modos os autores justificam essa incorporação em
entrevistas ou textos ensaísticos?; 4) como, formalmente, esses livros se
apresentam, como ficcionais ou como autobiográficos?; 5) como, concretamente,
esse texto híbrido se organiza em autores específicos?
É impossível tentar respondê-las todas em um artigo. Fazem parte de um projeto
de pesquisa em andamento, que está preocupado principalmente com a última, com
a discussão dessa transfiguração na obra de autores como Philip Roth, Ricardo
Piglia ou J.M. Coetzee.
Roth, por exemplo, tenta explicar Nathan Zuckerman, seu personagem mais famoso,
para muitos críticos seu alter ego, como uma grande diversão, naquela que é
provavelmente sua declaração mais citada:
Nathan Zuckerman é uma encenação. É a arte da personificação, não é?
Essa é a dádiva novelística fundamental. Zuckerman é um escritor que
quer ser um médico personificando um pornógrafo - que então, para
compor a personificação, e complicar as coisas, finge ser um crítico
literário famoso. Inventar biografias falsas, história falsa,
elaborar uma existência imaginária a partir do drama real da minha
vida é a minha vida. Deve haver algum prazer nesse trabalho, e é
esse18.
Mais do que um "prazer", contudo, há na obra de Roth um trabalho permanente de
avaliação das possibilidades de existência e sentido da arte no mundo
contemporâneo, como, aliás, ocorre em quase todos os romances dessa linhagem
lembrados neste artigo. Em O escritor fantasma19, para citar um de seus
primeiros livros, acompanhamos a confirmação difícil de uma vocação de escritor
em uma única noite, rito de iniciação rememorado mais de vinte anos depois,
quando uma série de dúvidas sobre a vida e a literatura conduz o jovem Nathan
Zuckerman, então com 23 anos, a transformar tudo que cercava sua visita ao
consagrado autor Lonoff em um conto primoroso no qual narra uma variação da
biografia de Anne Frank. Nessa pequena história dentro da história, uma
invenção (Anne morreu) importa mais do que a verdade (Anne está viva). Roth
exibe aí uma consciência profunda dos dilemas da ficção no período do pós-
guerra e, ao mesmo tempo, dá uma mostra de como lidar com eles a partir de um
assunto bastante complexo, tematizando a incorporação de uma das mais
conhecidas vítimas do Holocausto ao universo do entretenimento20.
Há no romance, além disso, o evidente contraste entre o escritor velho que
buscava separar a todo custo a sua vida de sua obra ("Eu viro frases pelo
avesso. Essa é a minha vida. Escrevo uma frase e viro-a pelo avesso. Depois
olho para ela e viro-a pelo avesso de novo.")21 e o jovem aspirante que se
recusa a abandonar na sua obra a bagunça de sua própria vida.
Como comenta Pia Masiero22, a ficção de Roth ao longo de toda a saga Zuckerman,
que se prolonga por nove livros, chegando ao fim apenas em 2007 com Fantasma
sai de cena23, oscila entre duas metáforas, a do fantasma, aquele ser que está
presente e ausente ao mesmo tempo, e a do ventríloquo, figura que confunde a
origem da voz. Em O escritor fantasma, Zuckerman lembra como adquiriu a sua voz
e cria uma variação nada epifânica do seu retrato de um artista quando jovem,
comparação com a obra de Joyce estabelecida diretamente pelo título do segundo
capítulo do livro de Roth, "Nathan Dedalus", que termina com um grande discurso
em louvor da imaginação da "vida real":
[...] Ah, como eu gostaria de ter sido capaz de imaginar a cena que
eu acabara de ouvir às escondidas! Quem me dera poder inventar coisas
com a imodéstia da vida real! Se um dia eu conseguisse ao menos me
aproximar da originalidade e da efervescência daquilo que
efetivamente acontece [...]24.
Philip Roth é um autor mais voltado para o problema do desenvolvimento do
enredo, da elaboração de tramas complexas. O fenômeno percebido nele, no
entanto, verifica-se de igual modo em um escritor mais voltado para o trabalho
com os limites ou margens da linguagem literária como o argentino Ricardo
Piglia. Ele batizou o protagonista de vários de seus romances e contos de
Emilio Renzi, nome extraído de seu nome completo, Ricardo Emilio Piglia Renzi,
e a diluição da vida na ficção já fica evidente nos títulos de obras como
Respiração artificial ou Nome falso25.
Em seu caso, essa ruptura do padrão é onipresente. Já houve quem apontasse a
estranheza de o volume Formas breves (1999) ter recebido o prêmio de livro do
ano de crítica literária da Fundación Bartolomé March, em 2001, quando ele
estaria mais próximo de uma narrativa híbrida, inclinada principalmente para a
ficção, proximidade à qual a crítica vinha dando pouca atenção26. Para
sustentar a ideia, o autor recorre ao uso constante de atribuições falsas ou
errôneas, tão característica de Piglia, também em seu texto ensaístico e dá
como exemplos a incorporação de frases de Blanchot e Borges. Desse modo, mesmo
quando utiliza um discurso aparentemente ligado ao universo da crítica e da
reflexão, o escritor argentino faz questão de confundir os registros e de
mesclar o ficcional e o não ficcional. O recurso atravessa toda a sua produção.
Do "conto inédito" de Arlt publicado em Nome falso (1975), que, para desespero
de tantos críticos, posteriormente se descobriu ser uma adaptação de um texto
de um escritor russo do final do século xix, início do século XX, Leonid
Andreiev, às inúmeras entrevistas em que versões de histórias inventadas são a
cada vez modificadas e contadas como verdadeiras, a fala/texto de Piglia está
sempre nesse lugar entre o real e o irreal, a vida e a literatura, o biográfico
e o romanesco. Nos espaços em que se espera a "verdade" - o ensaio, a crítica,
a entrevista, o diário -, invenção; nos espaços em que impera a invenção - o
romance, o conto -, a história cultural e política argentina e as constantes
remissões autobiográficas27. A solução é engenhosa e traiçoeira: ao colocar
todos esses diferentes "lugares" em xeque, o escritor reinsere neles um grau
necessário de instabilidade e revaloriza o papel ativo do leitor no jogo
literário, bem como o próprio jogo.
Já em Coetzee, a mescla entre o ficcional e o biográfico ocorre de um modo mais
próximo ao de Roth, seja pela presença de escritores-personagens parecidos com
ele (Elizabeth Costello, no romance homônimo de 2003, ou J.C., em Diário de um
ano ruim, de 2007), seja pelo uso ficcionalizado de seu passado em um país
despedaçado pelo racismo. Mas ele é também, como Piglia, um professor de
literatura de renome internacional e também um estudioso importante do gênero
confessional, tendo publicado um artigo fundamental sobre o assunto,
"Confession and double thoughts: Tolstoy, Rousseau, Dostoevsky"28. Nesse texto,
ele recupera a ideia de que toda confissão parte de um mesmo esquema:
transgressão, arrependimento, confissão e absolvição. Num plano secular, todos
esses itens estão mais ou menos anulados, exceto o próprio ato, mas ele está
preso, segundo Coetzee, ao que um de seus principais intérpretes chamou de a
"interminabilidade estrutural da confissão", que acaba por relativizar a sua
importância:
Todo ato de confissão está sujeito ao escrutínio autorreflexivo: sua
motivação pode ser questionada, e sua impureza (ou a inevitável
falsidade de qualquer pretensão de pureza) confessada, e a motivação
para esse novo questionamento confessada, e assim infinitamente29.
O ponto aqui a notar é como existiu uma clara preocupação de Coetzee de buscar,
na sua produção, uma estratégia ficcional que evitasse o problema que ele
levantara teoricamente. Em seus dois romances mais diretamente biográficos,
Infância (1997) e Juventude (2002), a narração ocorre toda em terceira pessoa e
no presente. Desse modo, Coetzee elimina qualquer visada retrospectiva e deixa
a avaliação de tudo que ele conta para o leitor, a quem, como atesta Attridge,
é negado o conforto de uma perspectiva na qual o julgamento do autor pudesse
ser feito30.
Outro tipo de julgamento é produzido pelos três livros que o escritor publica
depois de sair da África do Sul, na esteira da conturbada recepção que Desonra
(1999) teve no país, e se muda para a Austrália. Em Elizabeth Costello, Homem
lento (2005) e Diário de um ano ruim (2007), Coetzee mantém os fortes vínculos
autobiográficos nas narrativas, mas agora, diante da lei, surge a própria forma
romanesca, é a viabilidade do romance em tempos sombrios, esta nova "idade das
trevas"31, que é posta à prova.
Mais do que brincadeira pós-moderna ou a transformação da obra em um "museu
pessoal", como afirma em outro contexto o crítico de arte alemão Hans Belting,
um museu sem história que inclui a ficção de que é possível se apropriar de
tudo pela memória de cada um32, o enfrentamento direto com as melhores obras de
autores como Roth, Piglia, Coetzee e vários dos outros autores mencionados
sugere a hipótese de que está em curso, por meio de um instrumento improvável,
o recurso autobiográfico, e de uma exaustiva e minuciosa autoavaliação, uma
tentativa de reinvenção do ficcional, ou talvez, mais modestamente, de suas
possibilidades em um ambiente pouco propício. Ou, nos termos do crítico de arte
Hal Foster, o romance vai "living-on"33.
Tomemos Diário de um ano ruim para testar a hipótese. Para discuti-lo, é
necessário apresentá-lo brevemente, já que a forma tradicional do romance está
nele bastante desfigurada. O volume é dividido em faixas (a cada página, às
vezes apenas uma, às vezes duas, às vezes três camadas ocupam o espaço) e
composto de duas partes, as "Opiniões fortes" e o "Segundo diário". Em ambas, a
divisão em faixas funciona de modo semelhante: a camada mais alta é ocupada
pelas opiniões de um escritor já cansado e envelhecido, J.C., que fora um dos
seis autores convidados por um editor alemão a redigir o que quisesse sobre
qualquer assunto que escolhesse, "quanto mais controverso melhor"34; a camada
do meio traz uma espécie de diário do escritor e se ocupa principalmente de
suas impressões a respeito de Anya, a belíssima moça que se diz filipina, a
quem ele conhece na lavanderia e que convida para datilografar as suas
opiniões; e a última camada, na faixa horizontal inferior da página, é a
narrativa em primeira pessoa da própria Anya, na qual aparece também o seu
namorado interesseiro, Alan.
A camada do alto, a das "opiniões fortes", lida com questões do mundo
contemporâneo, Guantánamo, a Al-Qaeda, o apartheid, o design inteligente, os
direitos dos animais. É a face aparentemente "não ficcional" do romance e
aquela que, para leitores ingênuos e, às vezes, não tão ingênuos assim, pode se
apresentar como a mais relevante, sensação intensificada pelo fato de muitas
das opiniões de J.C. corresponderem a ideias defendidas ou debatidas pelo autor
real J.M. Coetzee, de quem o personagem fictício toma emprestado parte das
iniciais, bem como uma série de outros dados biográficos (ambos produziram um
romance chamado À espera dos bárbaros, ambos possuem um volume de ensaios sobre
a censura, ambos são sul-africanos radicados na Austrália etc.).
As duas partes inferiores, as narrativas do escritor e de Anya, tratam de temas
mais propriamente romanescos, o amor impossível de um homem velho por uma
jovem, o ciúme, as tentações do dinheiro, o namorado aproveitador. Elas compõem
a face declaradamente ficcional do romance e transmitem uma sensação inicial
inversa à da faixa superior. As personagens ali parecem um pouco artificiais,
as situações do enredo talvez um pouco banais. Comparado ao que é discutido na
camada de cima, camada que une a densidade argumentativa do ensaio à
"concretude" biográfica, há ali a construção deliberada da representação de
algo pouco importante35. Como afirma a certa altura J.C., "a vida é curta
demais para tramas"36.
O esquema de três camadas, por si já pouco usual, fica ainda mais complicado se
percebermos que ele combina uma engenhosa assincronia sincrônica37. Explicite-
se, primeiro, a assincronia. As faixas de baixo narram fatos que se passam
antes da redação da camada de cima, porque a camada de cima a que o leitor tem
acesso possui uma "dupla autoria" (é a transcrição feita por Anya das opiniões
do escritor), o que significa que elas contêm, necessariamente, imprecisões,
distorções, interpretações38. Logo no início da "opinião forte" 11, por
exemplo, lê-se que:
Num livro sobre religião grega antiga, um ensaio de um homem chamado
Versnel, de Leiden, sobre as inscrições de certas tábuas de chumbo
recuperadas de templos do mundo antigo39.
O texto está evidentemente "mal escrito" para os padrões de um premiado autor
internacional, alguém que nunca redigiria algo como "um ensaio de um homem
chamado Versnel"...40
Existem assim dois tempos que não coincidem, e não raro o leitor se depara com
conversas nas camadas de baixo que foram apresentadas na camada de cima muitas
páginas antes41. Há, contudo, também, um componente sincrônico no texto, que
pode ser constatado na repetição de palavras nas faixas de cima e de baixo ou
na reiteração ou contraste de argumentos, como acontece já na primeira
opinião42. Na camada de cima, o "analista" está debatendo as "origens do
Estado" e introduz em seu argumento um estágio muito precoce do
desenvolvimento" deste retratado em Os sete samurais (1954), de Akira Kurosawa.
Para ele, o final do filme é um "tanto sonhador", porque os aldeães recusam a
oferta de proteção permanente dos samurais que eles haviam contratado para
livrar o local dos bandidos, e estes aceitam a recusa e vão embora. No plano
"não ficcional" do texto relata-se um episódio ficcional em que um desejo (que
os samurais partam) é atendido. O contrário acontece na camada de baixo, no
plano diretamente ficcional do romance, em que se conta, a partir da visão do
"derriére tão próximo da perfeição quanto da angelitude" da filipina, um desejo
real e bastante concreto ("Deus, me conceda um desejo antes de morrer"), que
logo é retirado ("fui tomado de vergonha pela especificidade do desejo e
retirei-o"). J.C. tem 72 anos, Anya, 29. Um quadro comparativo do que se tentou
dizer acima seria o seguinte:

Existem outras instâncias em que essa sincronia entre as diferentes camadas do
texto é menos confusa43, mas essa surge já no começo do romance e reitera um
jogo que fora mencionado anteriormente entre gradações de valor do ficcional e
do não ficcional (o primeiro tendendo à ingenuidade, o segundo, dela
escapando), que, acredito, é fundamental para a compreensão da obra, um jogo no
qual a própria noção de confusão cumpre papel determinante.
A instabilidade anunciada por essa assincronia sincrônica coincide com a
instabilidade do protagonista, que abandona o ofício que o consagrara ("não
tenho mais paciência para escrever um romance"44) para apontar o que "está
errado no mundo hoje"45, nesta nova "idade das trevas"46. Ele vê, nesse
instante da vida, valor apenas no plano do real. E, se há algo errado com o
mundo para este escritor virado ensaísta, o problema passa pela questão da
honra/desonra, dilema que reaparece em vários trechos:
[...] diante dessa vergonha a que estou sujeito, como me comporto?
Como preservo a minha honra?
A desonra não respeita distinções sutis. A desonra cai sobre os
ombros da pessoa e depois que caiu, por mais que se insista, não se
dissipará.
[...] o objetivo não apenas de americanos de consciência, mas de
indivíduos ocidentais em geral, deve ser encontrar uma maneira de
salvaguardar a própria honra.
A desonra é um estado de ser que vem com tonalidades e gradações? Se
existe um estado de desonra profunda, existe também um estado de
desonra leve, desonra light?
A geração de sul-africanos brancos à qual pertenço e a geração
seguinte, e talvez a geração depois dessa também, curva-se debaixo da
vergonha dos crimes cometidos em seu nome.
[...] porque vocês têm a má-sorte de serem netos de seus avós; porque
vocês herdaram uma maldição.47
Estamos em um campo que Coetzee conhece bem e com o qual lidou profundamente em
toda a fase inicial de sua produção literária, que vai de seu primeiro livro,
Dusklands (1974), até o romance Desonra (1999). Interessa-nos agora, contudo,
que esse escritor fictício, J.C., não quer mais escrever ficção e está obcecado
com a questão da honra/desonra. A desistência indica uma resposta bastante
negativa, ainda que provisória, à pergunta que paira no ar, sugerida por suas
ações e reflexões: qual o valor, neste mundo decaído, de um texto literário? O
escritor fictício põe em dúvida a relevância da ficção e dela abre mão.
Exemplar, nesse sentido, é a relação que ele estabelece entre fato e ficção a
partir da constatação de que um filme como Lolita (1962), dirigido trinta anos
antes por Stanley Kubrick, não seria hoje possível, porque não seria possível
utilizar, como então, uma atriz com um rosto infantil que sabidamente não era
criança:
O fato (o ficto-fato, a ideia) de que o personagem ficcional é uma
criança é mais forte que o fato de que a imagem na tela não é de uma
criança. Quando a questão é sexo com menores de idade, a lei, com a
opinião pública latindo atrás dela, simplesmente não tem disposição
para distinções mais finas48.
Ou seja, de acordo com essa linha de pensamento, a arte não ultrapassa mais o
tabu, a ficção não ultrapassa mais o real, o que implica, logicamente, que a
representação tem valor de real e, portanto, torna-se dispensável. O campo das
distinções finas, como ele aqui menciona, ou das distinções sutis, como afirma
na segunda das citações acima sobre a questão da honra/desonra, o campo fluido
e instável do estético, não é mais necessário. A opção do escritor é por ideias
peremptórias, por afirmações definitivas, por "opiniões fortes".
Só que nem todo mundo concorda com isso, e é a criatura ficcional Anya, a
inculta e bela datilógrafa, que tenta demover o escritor de seu abandono à
ficção, é a "parte de baixo da página", que surge já com o romance em
andamento, na altura da sexta "opinião forte", e sempre ocupa um espaço
comparativamente menor, que tenta mostrar para a "parte de cima" que a sua
existência é discutível. Para ela, aqueles textos são primeiro chatos, fazem-na
"bocejar", depois, mostrando uma percepção mais profunda do que estava em jogo
ali, são um grito que busca silenciar todo o resto:
Política é berrar para calar a boca dos outros e conseguir o que você
quer, não é uma coisa lógica. Escreva sobre passarinhos49.
Fica-se sabendo que a moça inculta era também ela uma espécie de contadora de
história, a inventar vivências sexuais ardentes para o namorado para deixá-lo
inflamado, e inventar histórias é o que ela gostaria que ele voltasse a fazer:
Por que o senhor escreve esse negócio? Por que não escrever outro
romance em vez disso? Não é nisso que o senhor é bom, em romances?
[...] Mesmo assim, todo mundo tem uma opinião, principalmente sobre
política. Se o senhor contar uma história, pelo menos as pessoas vão
calar a boca e escutar50.
Apaixonado ("se tivessem me dito que a última das minhas paixões seria uma
garota de maneiras provocantes"), o escritor ouve até que deveria redigir as
suas memórias amorosas, uma coisa "mais humana, mais carne e sangue". Afinal,
era preciso se livrar daquele "tom de sabe-tudo. É tudo tão curto e seco: Sou
eu que tenho todas as respostas, é assim que é, não discuta"51.
O golpe definitivo vem logo. Ambos conversam e buscam descobrir qual dos dois
consegue ver mais fundo no outro. J.C. diz que as opiniões que ela está
digitando não vêm necessariamente do mais fundo dele. Ao que ela rebate com uma
citação - "A desonra cai sobre os ombros da pessoa" - e uma constatação: "Isso
para mim parece sair do mais fundo". E narra a história de quando ela e uma
amiga foram estupradas por três americanos e como foi a elas sugerido que
esquecessem o caso, para não ficarem desonradas. Ambas recusaram e prosseguiram
com a acusação:
Quando o senhor me conta que anda por aí curvado debaixo da cruz da
desonra, penso naquelas garotas de antigamente que tinham o azar de
ser estupradas e aí tinham que usar roupa preta o resto da vida -
usar preto e ficar sentada num canto, não ir nunca a festas e não
casar nunca. O senhor não entendeu direito, mister C. Ideia antiga.
Análise errada, como diria o Alan. Abuso, estupro, tortura, não
interessa o quê: o negócio é que, contanto que não seja culpa sua,
contanto que você não seja o responsável, a desonra não gruda em
você. Então o senhor tem sofrido à toa52.
O estrago está consumado. Ele não concorda inicialmente com ela, tenta explicar
por quê, ela se cansa, avisa que não vai mais digitar as "opiniões fortes", mas
nada disso conta muito naquele momento. A presença da moça modificara o velho
escritor:
O que começou a mudar desde que eu entrei na órbita de Anya não são
tanto as minhas opiniões em si, mas minha opinião sobre as minhas
opiniões53.
O tempo das "opiniões fortes" e de sua irônica piscadela nabokoviana terminara,
era a vez das "opiniões brandas", que começam a aparecer na segunda parte do
livro, intitulada simplesmente de "Segundo diário". Antes, contudo, surge uma
última "opinião forte" no esquema tradicional da página dividida em três
faixas, a trigésima, chamada "Da autoridade da ficção". Nela, o escritor divaga
sobre o mistério da autoridade de Tolstói ou Walt Whitman, tidos ao final da
vida como sábios, iluminados, quando "nenhum dos dois tinha muita sabedoria
para oferecer: sabedoria não era o negócio deles. Eram poetas acima de tudo"54.
O que gera a potência de saber de um texto que não tem nada a ver com o saber
ou a ausência de saber de seu autor, nem com aquilo que o texto está
efetivamente dizendo? A literatura serve para debater ideias? A literatura
serve para alguma coisa? A literatura é eticamente possível em uma nova "idade
das trevas"? Essas são questões com as quais a obra de Coetzee sempre lidou e
que reaparecem em Diário de um ano ruim. Na segunda parte da obra, numa nova
chave, a das "opiniões brandas", ele parece sugerir uma resposta a elas. E essa
resposta, uma sofisticada performance, está diretamente vinculada ao formato
incomum do romance, como se gerasse a explicação quase de modo desconectado com
o que está sendo dito, reiterando portanto a disjunção "sabedoria do autor"
(vida, não ficção) versus "sabedoria" do texto (romance, ficção) apresentada
naquela última "opinião forte" com o esquema tradicional da página dividida,
ou, como diz o escritor ficcional nas linhas finais da "opinião forte" 31 - a
derradeira da primeira parte, onde já não há qualquer divisão -, e ela não por
acaso se chama "Do pós-vida":
A persistência da alma em uma forma irreconhecível, desconhecida para
si mesma, sem memória, sem identidade, é outra questão inteiramente
diferente55.
Brincando um pouco com as palavras e já desembaralhando um pouco o quebra-
cabeça, é disso que se trata: de persistência, de formas irreconhecíveis, de
memória e de identidade. Só que estamos falando do romance, uma "questão
inteiramente diferente".
No "Segundo diário" os assuntos são outros: sonhos, família, envelhecimento,
pássaros, compaixão, crianças, tédio. Quando ele começa, a divisão da página
assume outra configuração, a camada central deixa de existir: as impressões de
J.C. que ela reproduzia estão incorporadas às "opiniões brandas". Na camada de
baixo, começa a reprodução de uma longa cena na qual Anya e seu namorado vão
jantar na casa do escritor. Nas discussões durante a noite, a moça se
desencanta com ele e resolve que vai encerrar a relação e sair da cidade. Na
edição brasileira do romance, esse trecho ocupa a camada inferior do volume da
página 171 à 229. Antes disso, na página 182, onde começa a quinta "opinião
branda", ressurge a camada do meio, para que J.C. narre o último encontro com a
moça, que acontece cronologicamente na manhã seguinte ao jantar. Ela fora se
despedir. Essa cena dura da página 182 à 202. A correlação página/evento é
importante para que se perceba a centralidade que Anya, a personagem de ficção,
assume no livro. A partir desses dois acontecimentos, rompimento com o namorado
após o jantar e despedida na manhã seguinte, ela, que já alterara completamente
a proposta da camada superior, assume o controle das duas camadas inferiores do
texto, ocupando-as até o final do volume. A camada intermediária é preenchida
por uma carta que ela escreve a J.C., e a camada inferior, por um encontro
imaginário entre ela e o escritor já perto da morte, ou seja, nos dois casos há
um salto: na camada do meio, o escritor cede a voz para a personagem; na camada
de baixo, a personagem de ficção se permite ficcionalizar, assume uma nova voz.
Na última "opinião branda" do romance, a 24ª, cujo nome é "De Dostoiévski", que
retoma as "opiniões fortes" finais, J.C. conta que releu o quinto capítulo da
segunda parte de Os irmãos Karamazóv e se viu "chorando descontroladamente".
Ele se pergunta então por que, apesar de discordar dos argumentos presentes no
texto, ele se emociona:
A resposta não tem nada a ver com ética nem com política, e tudo a
ver com retórica [...] É a voz de Ivã, tal como concebida por
Dostoiévski, não sua argumentação, que me arrebata56.
Pouco depois ele fala do "padrão ao qual todo romancista sério deve aspirar,
mesmo sem a menor chance de chegar lá":
O padrão do mestre Tolstói de um lado e do mestre Dostoiévski do
outro. Com os exemplos deles somos artistas melhores; e com melhores
não quero dizer mais hábeis, mas eticamente melhores57.
De um lado a voz de Anya que se sobrepõe, que ganha vida na ficção e assume o
primeiro plano, de outro um escritor fictício concebido a partir da biografia
do próprio autor, que baixa o tom, que abandona a dureza das "opiniões fortes",
cede o espaço e se propõe a ser "eticamente melhor" ao reconhecer a importância
da voz no texto, talvez por causa dessa voz no texto: eis o saldo final da
leitura do romance, saldo que deixa bastante invertidas aquelas gradações de
valor entre o ficcional e o não ficcional que seu início sugerira.
A intenção da parte final deste artigo sobre a tendência autobiográfica do
romance era mostrar como em uma obra específica dessa linhagem - linhagem,
reitere-se, cuja existência está fortemente ligada a distintas condicionantes
históricas - aconteceria aquilo que fora anunciado algumas páginas atrás e que,
assume-se por hipótese, se repete de formas diferentes em outros textos dessa
mesma linhagem: a recorrência de instâncias não ficcionais, principalmente
biográficas, em obras de autores como Coetzee, Roth, Piglia "mascararia" uma
discussão profunda, e esperançosa, da validade do gênero romanesco na nossa
nova "idade das trevas", para repetir uma última vez a avaliação forte do
protagonista de Coetzee. Não me parece ser outro o sentido da última frase de
Diário de um ano ruim, com sua expectativa tensa e otimista sobre o próprio
ofício do escritor: "Eles aniquilam nossas pretensões mais impuras; eles
esclarecem nossa visão; eles fortalecem nosso braço [no original, 'fortify
one's arm']"58.
ADRIANO SCHWARTZ é professor de literatura da Escola de Artes, Ciências e
Humanidades da Universidade de São Paulo (each-USP) e vice-diretor do Centro
Universitário Maria Antonia (Ceuma-USP)
[*] Parte deste texto foi produzido durante um pós-doutorado na Universidade de
Princeton, nos Estados Unidos, para o qual o autor contou com uma bolsa de
estudos da Fapesp.
[1] Coetzee, J.M. Slow man. Nova York: Vintage Books, 2005. Ed. bras.: Homem
lento. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
[2] Ibidem, p. 97.
[3] Ibidem, p. 90.
[4] Coetzee, J.M. Diary of a bad year. Londres: Vintage Books, 2007.
[5] Carvalho, Bernardo. "Fiction as exception". Luso-Brazilian Review, Madison:
University of Wisconsin Press, vol. 47, nº 1, 2010, p. 3.
[6] Delumeau, Jean. A confissão e o perdão. São Paulo: Companhia das Letras,
1991.
[7] Ver, por exemplo: Elias, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994; Trilling, Lionel.
Sincerity and autenthicity. Cambridge: Harvard University Press, 1973; Weintraub, K. J. The value of the individual. Chicago: Chicago
University Press, 1978.
[8] "O modelo confessional é tão poderoso na tradição ocidental que mesmo
aqueles cuja religião ou não religião não tenha nada a ver com a prática da
confissão católica são profundamente influenciados por ele. De fato, ele
permeia nossa cultura." (Brooks, Peter. Troubling confessions. Chicago: The
University of Chicago Press, 2000, p. 2). Ver também
Foucault, Michel. História da sexualidade. Rio de Janeiro: Graal, 1997, vol. 1,
pp. 57-66.
[9] Sarlo, Beatriz. Tempo passado, cultura da memória e guinada subjetiva. São
Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2005, p. 18.
[10] Gusdorf, Georges. "Conditions and limits of autobiography". In: Olney,
James (org.). Autobiography. Princeton: Princeton University Press, 1980, p.
33.
[11] Starobinski, Jean. A transparência e o obstáculo. São Paulo: Companhia das
Letras, 1991. Cf. Olney, op. cit.; Lee, Hermione. "Biography.
Oxford: Oxford University Press, 2009. Misch, Georg. A
history of autobiography in antiquity. Cambridge: Harvard University Press,
1951, 2 vol.; Galle, Helmut. "Elementos para uma nova
abordagem da escritura biográfica". Revista Matraga, Rio de Janeiro, 2006.
[12] Uma variação desse tema, escritores propondo biografias ficcionais de
outros escritores, é estudada por Leyla Perrone-Moisés: "É curioso que, no
mesmo momento em que a teoria literária anunciava a morte do autor (Barthes,
Foucault), os estudos acadêmicos atacavam o 'cânone ocidental', em nome do
politicamente correto, tantos romancistas privilegiassem, em suas obras,
aspectos biográficos de seus antepassados canônicos. A impressão que se tem é
de que esses escritores atuais veem em seus antecessores grandes personagens de
uma história grandiosa, já terminada, uma história que merece ser contada e
comparada com a prática atual da literatura de ficção". "Os heróis da
literatura". In: Estudos Avançados, São Paulo, v. 25, n. 71, 2011, p. 264.
[13] Como afirma Galle (op. cit., p. 80), a respeito de duas tentativas amplas
de compreensão do fenômeno (Lejeune, Philippe. O pacto autobiográfico. Belo
Horizonte: Ed. da UFMG, 2008; Genette, Gérard. Fiction & diction. Ithaca:
Cornell University Press, 1993): "estas sistematizações, tanto a de Lejeune
quanto a de Genette, não fazem jus a um grande número de textos que geralmente
são considerados 'romances autobiográficos', cuja ambiguidade reside no fato de
o autor negar o pacto referencial e, não obstante, haver semelhanças entre a
história e os fatos de sua vida".
[14] Sobre a relação entre a vida dos autores e suas obras ao longo do século
XIX e no alto modernismo, antes do período aqui proposto, um bom estudo recente
é Latham, Sean. The art of scandal. Nova York: Oxford University Press, 2009.
[15] Aqui é preciso tomar cuidado para distinguir essa literatura de tendência
autobiográfica de uma outra corrente que se torna muito forte a partir de
publicações ligadas aos acontecimentos trágicos da Segunda Guerra e que depois
se expande para outros campos da história humana, a da literatura de
testemunho, com a qual ela tem às vezes inúmeros pontos de contato: seria
possível argumentar que um livro como Complô contra a América, de Philip Roth
(Houghton Mifflin Harcourt, 2005; ed. bras.: trad. Paulo Henriques Britto.
Companhia das Letras, 2005), ficcionaliza uma fronteira entre ambas, por
exemplo, e, como deixa claro o caso Wilkomirski (Cf. Whitehead, Anne. "Telling
tales: trauma and testimony in Binjamin Wilkomirski's Fragments". Discourse,
Detroit, 2002), essa separação pode ser bem complicada. A discussão sobre a
literatura de testemunho é imensa e já compreende centenas de títulos. Entre os
textos a respeito, pode-se citar Agamben, Giorgio. Remnants of Auschwitz - The
witness and the archive. Nova York: Zone Books, 2002;
Lacapra, Dominick. Escribir la história, escribir el trauma. Buenos Aires:
Nueva Vision, 2005; Friedlander, Saul (org.). Probing the
limits of representation. Cambridge: Harvard University Press, 1992; e Seligmann-Silva, Márcio. O local da diferença. São Paulo: Editora
34, 2005.
[16] Trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Iluminuras, 1980.
[17] Trad. Paulo Neves. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
[18] Lee, H. "The art of fiction". In: Conversations with Philip Roth. Searles,
G.J. (ed.). Jackson: University of Mississipi Press, 1992, pp. 166 e 167. De
fato, a estratégia biográfica de Roth cria efeitos curiosos. Na segunda página
de Exit ghost (2007), a editora informa os títulos das obras já publicadas por
ele. No alto, lê-se "Books by Philip Roth" e, em seguida, vêm listados os
livros a partir de uma divisão estabelecida por seus protagonistas: livros de
Zuckerman (The ghost writer, Zuckerman unbound, American pastoral etc.), livros
de David Kepesh (The breast, The dying animal etc.), livros de Philip Roth (The
facts, Patrimony, Operation Shylock, The plot against America etc.) e "other
books". Ou seja, existe um autor Philip Roth e existe um personagem Philip
Roth, que alterna com outros personagens a aparição em textos do escritor. Além
do nome próprio, (res)surge nesses romances a referência a lugares, pessoas,
atividades profissionais e eventos reais. Para tornar a questão ainda mais
complexa, não é apenas a criação fictícia Roth que traz em si muitas das
características de seu criador. Existe também Zuckerman, que, como vimos acima,
tem inúmeras semelhanças com ele (o judaísmo, a cidade natal, a carreira, a
trajetória de vida alterada a partir de um sucesso repentino).
[19] Roth, Philip. The Ghost Writer. Nova York: Farrar, Strauss & Giroux,
1979. Ed. bras.: Zuckerman acorrentado - Três romances e um epílogo. Trad.
Alexandre Hubner. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
[20] Sobre a banalização da história de Anne Frank, ver o excelente "Who owns
Anne Frank?", de Cynthia Ozick. Quarrel and quandary. Westminster: Alfred A.
Knopf, 2000.
[21] Roth, The Ghost Writer, p. 21.
[22] Philip Roth and the Zuckerman books. Nova York: Cambria Press, 2001.
[23] Exit Ghost. Boston: Houghton Mifflin, 2007. Ed. bras.: Trad. Paulo
Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
[24] Roth, 2011, p. 90.
[25] O trecho a seguir, sobre Piglia, retoma um artigo em que analiso
especificamente Respiração artificial, que será publicado em 2013 pela Revista
USP e se chama "A biografia de uma ficção: o romance dentro do romance em
Respiração artificial, de Ricardo Piglia".
[26] Álvarez, José Manuel González. En los 'bordes fluidos' - Formas híbridas y
autoficción en la escritura de Ricardo Piglia. Bern: Peter Lang, 2009, p. 53.
[27] "A mescla deliberada de autobiografía, crítica e ficção é uma forma de
ocultar o outro Piglia em uma reescritura engenhosa e expandida de 'Borges e
eu'. O crítico, que estudou como poucos as táticas de Borges e os mitos do
escritor, cria um espaço de leitura para as ficções do escritor e aperfeiçoa a
estratégia borgiana de desorientar. Menos espetacular que os desaparecimentos
de Salinger ou Pynchon, o desaparecimento de Piglia simula uma visibilidade e
uma civilidade." Speranza, Graciela. "Autobiografía, crítica y ficción - Juan
José Saer y Ricardo Piglia". In: Carrión, Jorge (org.). El lugar de Piglia.
Barcelona: Candaya, 2008.
[28] Comparative literature, vol. 37, no 3, 1985, pp. 193-232.
[29] Attridge, Derek. J.M. Coetzee and the ethics of reading. Chicago: Chicago
University Press, 2004, p. 142.
[30] Ibidem, p. 143.
[31] Coetzee, J.M. Diário de um ano ruim. Trad. José Rubens Siqueira. São
Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 80.
[32] Belting, Hans. Art history after modernism. Chicago: The University of
Chicago Press, 2003, p. 179.
[33] Foster discute, no artigo "The funeral is for the wrong corpse", as
possibilidades de a arte seguir adiante após uma série de anúncios de seu fim.
Design and crime (and other diatribes). Nova York: Verso Books, 2002.
[34] Coetzee, Diário de um ano ruim, op. cit., p. 29.
[35] James Woods, por exemplo, afirma que "na verdade, lê-se a seção de cima de
cada página com crescente entusiasmo, e as seções de baixo um tanto por
obrigação". "Squall lines". The New Yorker, dez. 2007.
[36] Coetzee, Diário de um ano ruim, op. cit., p. 17.
[37] H. Porter Abbott discute a questão do tempo em um contexto diverso: "A
separação enfática entre os tipos de texto narrativos e explicativos e a
consequente reorientação cognitiva que essa separação página a página provoca
no leitor geram um aprofundamento afetivo contínuo pelo conteúdo do livro.
Apesar de seu efeito disruptivo, isso funciona porque muitos dos motivos e
temas desse romance estão vinculados à diferença entre estar no tempo e estar
fora do tempo, uma diferença que sentimos quando passamos alternadamente de um
tipo de texto ao outro.". "Time, narrative, life, death and text-type
distinctions: the example of Coetzee's Diary of a bed year". Narrative, vol.
19, 2011, p. 192.
[38] "Dou uma ajeitada também, aqui e ali onde eu posso, onde falta alguma
coisinha, um certo umpf, embora ele deva ser o grande escritor e eu só uma
pequena filipina." (p. 37)
[39] Coetzee, Diário de um ano ruim, op. cit., p. 56.
[40] No original, o problema também ocorre: "In a book on ancient Greek
religion, an essay by a man named Versnel from Leiden about certain inscribed
lead tablets recovered..." (p. 47). Diary of a bad year. Londres: Vintage
Books, 2007.
[41] A primeira "opinião forte", que será discutida no próximo parágrafo, é,
por exemplo, retomada por Anya na página 43, quando na parte superior da página
está sendo apresentada a sétima "opinião forte".
[42] Por estarem acima e por serem numeradas, as "opiniões" fornecem um
critério de localização no romance mais fácil de ser adotado. Todos os textos
citados nesse exemplo encontram-se nesta página.
[43] Ver, por exemplo, a página 60, em que a presença ou ausência de filhos
reverbera nas três camadas.
[44] Coetzee, Diário de um ano ruim, op. cit., p. 64.
[45] Ibidem, p. 29.
[46] Ibidem, p. 80.
[47] Ibidem, pp. 48-61.
[48] Ibidem, p. 62.
[49] Ibidem, p. 44.
[50] Ibidem, pp. 64 e 65.
[51] Ibidem, pp. 71-8.
[52] Ibidem, pp. 118-20.
[53] Ibidem, p. 151.
[54] Ibidem, p. 165.
[55] Ibidem, p. 167.
[56] Ibidem, p. 234.
[57] Ibidem, p. 236.
[58] Ibidem, p. 236.