A mudança nos gostos: que gosto as coisas tinham no começo da era moderna e que
gosto têm agora
A comida já teve um gosto diferente do que tem agora. Muitas pessoas dizem
isso. Geralmente elas se referem a frutas, vegetais, pão, cerveja e carnes que
não são mais o que eram - não mais tão saborosas, tão autenticamente o que
devem ser. Ou as variedades não são criadas para serem saborosas, ou são
produzidas e distribuídas de um modo que as torna desinteressantes e insípidas,
ou perdemos a arte de prepará-las para reter ou realçar seus sabores. A
nostalgia gustativa está muito presente no menu moderno tardio.
É bem possível que tudo isso seja verdade, mas não é esse meu tema aqui.
Deixando de lado as prováveis diferenças físicas em muitas comidas - as
variedades de maçã, repolho, ave e porco que perdemos, os modos desaparecidos
de cultivá-los e prepará-los que afetam seu gosto -, ainda assim, outras coisas
que estão presentes no momento em que a comida é provada também mudaram. Essas
outras coisas não são químicas; são culturais. E essas coisas culturais têm a
ver com o que está na cabeça das pessoas quando elas põem coisas na boca.
O ato de provar o gosto das coisas é, na verdade, tanto cultural quanto
natural. A parte natural tem a ver com a constituição do que está na ponta do
garfo e com o que acontece fisiologicamente quando a comida toca a língua de
alguém. Podemos submeter a primeira à análise química e podemos aprender sobre
a última por meio dos achados da neuropsicologia moderna. E podemos presumir,
sem grande risco, que a forma geral dessas coisas naturais é estável ao longo
do tempo. A parte cultural tem a ver com redes de expectativas e entendimentos
sobre o gosto que as coisas devem ter, com quadros de referência relacionando o
gosto seja à natureza dos alimentos, seja às consequências corporais, e com os
vocabulários disponíveis para falar sobre eles e descrevê-los. E aqui
presumimos que essas coisas são variáveis em termos temporais e culturais. E
também não é evidente que o que acontece no palato pode ser separado do que
acontece na constituição culturalmente variável da mente. Pode bem ser que a
experiência do gosto seja, afinal, afetada mais profundamente por costumes e
expectativas que variam no tempo do que pela mudança nas raças de porco ou pela
perda das artes da culinária camponesa ou cortesã.
Começo descrevendo algumas características de uma cultura do gosto que marcou o
começo da era moderna. Primeiro, há um aspecto ontológico ou cosmológico - as
relações entre aquilo em que as pessoas acreditavam sobre sua comida e o
entendimento que tinham da natureza básica da matéria. Segundo, há uma dimensão
epistemológica - o pensamento sobre as experiências sensórias do gosto (e da
digestão) e seu status como uma fonte de conhecimento sobre o que constitui o
alimento. Terceiro, há características relacionando a ontologia e a
epistemologia do alimento a conselhos médicos práticos e ao que foi chamado de
práticas do eu. Quais são os comestíveis no ditado "Você é o que você come"?
Quem é esse "você"? Como esse "você" sabe sobre esses comestíveis e o que eles
fazem em você e a você?
FALANDO SOBRE QUALIDADES
Comecemos com um vocabulário básico usado da Antiguidade até o começo da era
moderna para descrever a natureza dos alimentos. Alhos-porros são quentes e
secos. Pimenta-do-reino é a mesma coisa, mas mais. Pepinos são semelhantes a
melões, mas não tão úmidos. Marmelos são frios e secos. Figos são quentes e
úmidos. Pato é mais quente que ganso. Carne de boi é fria e seca, embora assá-
la possa torná-la mais úmida e o cozimento, mais seca; ovelha é úmida, mas
assá-la a deixa mais seca. Peixe, em geral, é mais frio e mais úmido do que
carne de animais terrestres. Costumava-se dizer que todos os vinhos são
quentes, considerava-se que tipos diferentes de vinho diferiam marcadamente em
suas qualidades e podiam mudar fundamentalmente ao envelhecer, tornando-se
tipicamente mais quentes1. Discordava-se sobre as qualidades e os poderes das
comidas, mas havia muito em comum entre os juízos sobre elas no Renascimento e
no começo da era moderna.
Esse é o vocabulário galênico, e ele foi usado da Antiguidade latina até pelo
menos o século XVII para descrever o mundo comestível e para prescrever como e
o que as pessoas deviam consumir. Ele se referia às quatro qualidades básicas
das coisas no mundo - qualidades possuídas em pares pelos quatro elementos
(terra, ar, água e fogo) e, no corpo, pelos quatro humores (sangue, fleuma,
bile amarela e bile negra). Mas ao mesmo tempo quentura, frieza, umidade e
secura são qualidades apreendidas pelos sentidos - pelo sentido do tato mas
também pelo sentido do paladar. Para Aristóteles, os sentidos do tato, do
paladar e do olfato eram constitutivamente relacionados: "O que pode ser
provado é sempre algo que pode ser tocado"2. Paladar, olfato e tato eram
entendidos como sentidos de contato - nos quais o objeto sentido, ou (no caso
do olfato) algumas emanações materiais dele, tinha de estar em contato com o
órgão sensor - diferentemente da visão e da audição. Eles podiam ser sentidos
necessários, em alguns casos até confiáveis, mas eram quase sempre considerados
baixos e brutos. Essa avaliação era persistente. Condillac começou sua inspeção
dos sentidos pelo olfato, "porque de todos os sentidos ele é aquele que parece
contribuir menos para as cognições da mente humana". O paladar não era muito
melhor, mas ele afeta seus possuidores mais poderosamente que o olfato3. Kant
foi mais longe: o sentido do olfato "é o mais ingrato e também parece ser o
mais dispensável". Ele tinha uma opinião inferior não só sobre os poderes
discriminantes do paladar e do olfato, mas até sobre sua capacidade de dar
prazer: "Não compensa de modo algum cultivá-lo [o olfato] ou refiná-lo para se
deleitar; pois há mais objetos nojentos que os prazerosos (em especial em
lugares lotados), e, mesmo quando deparamos com algo fragrante, o prazer que
vem do sentido do olfato é fugaz e transitório". O sentido do paladar era
considerado um pouco mais valioso: ao menos ele promove a sociabilidade e nos
avisa sobre comida insalubre4. Cientistas modernos concordaram: "O paladar",
diz o autor de um livro escolar-padrão sobre psicologia da sensação, "é o
'parente pobre' da família de sentidos"5. A visão foi usada de modo
generalizado como um modelo de conhecimento apropriado, a gustação, só em
visões específicas de conhecimento experimental carregado de afeto6. Michael
Polanyi se referiu repetidamente ao julgamento científico como
"connoisseurship" e apontou para os paralelos entre as habilidades do cientista
e aquelas do provador de vinho, mas, à parte as visões de Thomas Khun, esse
tipo de retrato antirracionalista da ciência não se mostrou popular7.
O vocabulário de qualidades não esgotava, evidentemente, a linguagem que os
primeiros modernos usavam para descrever o gosto das coisas. Sobre a alma, de
Aristóteles, dividia as "espécies de sabor" nas categorias opostas doce e
amargo. A primeira incluía o suculento, e a última, o salgado. Em algum lugar
entre eles vinham o pungente, o áspero, o adstringente e o ácido. "Estas
esgotam muito bem as variedades de sabor", dizia Aristóteles, concluindo que
não havia nem necessidade nem possibilidade de um vocabulário muito rico e
extenso de gostos e cheiros: nos seres humanos nenhum dos sentidos era muito
discriminador, embora Aristóteles (e também Galeno) reconhecesse que a gustação
era mais sensível que o olfato8. Mesmo depois de uma tentativa de revolução na
epistemologia dos sentidos no século XVII, John Locke, que a liderou, escreveu
que
A variedade de cheiros, que são quase tantos quanto as espécies de
corpos no mundo, se não mais, requer, na maioria, nomes. Doce e
fétido comumente servem a nossa atribuição para essas ideias; o que,
de fato, é pouco mais que chamá-las de agradáveis ou desagradáveis;
[...] Tampouco os diferentes gostos, dos quais recebemos ideias por
nossos palatos, são muito mais bem providos de nomes. Doce, amargo,
acre, áspero e salgado são quase todos os epítetos que temos para
denominar essa inumerável variedade de sabores, que serão
considerados distintos, não só em quase todo tipo de criatura, mas
nas diferentes partes da mesma planta, fruta ou animal9.
Locke estava certo: os repertórios modernos iniciais para descrever os cheiros
e gostos da comida não eram extensos nem muito discriminadores. Pouco havia
mudado desde a Antiguidade. Afora a terminologia galênica, os termos
vernaculares comuns do início da era moderna para descrever os gostos de
comidas e bebidas eram limitados: doce, amargo, azedo, aguçado, delicioso,
voluptuoso, grosseiro, sápido, salgado, fétido, aromático, estimulante,
picante, fragrante, deleitável, prazeroso, repulsivo, bom, e assim por diante -
mas não indefinidamente. Listas de gostos fundamentais formuladas por
especialistas tipicamente não chegavam a mais de doze itens. Escrevendo em The
anatomy of plants em 1675, Nehemiah Grew elaborou oito "gostos simples", cada
um deles ilustrado por seu paradigma botânico, e deu nome a muitos mais gostos
compostos. Os simples eram amargo (artemísia) e seu contrário, doce (açúcar);
azedo (vinagre) e seu contrário, salgado; quente (cravo) e frio (sal prunella,
provavelmente uma forma de salitre); aromático (que ele insistia ser não só um
odor mas também um gosto, sendo o exemplo o eufórbio) e seu contrário, o
nauseante ou maligno (aloé e ruibarbo)10. Em meados do século XVIII, Lineu
enumerou doce, ácido, amargo, salino, adstringente, picante, viscoso,
gorduroso, insípido, aquoso e nauseante; Albrecht von Haller tinha os
tradicionais (e ainda básicos) doce, amargo, azedo e salgado - acrescentando
grosseiro, urinoso, espirituoso, aromático, acre, pútrido e insípido11.
Compêndios do século XVII exibiam um amálgama de vocabulários aristotélico e
galênico, um deles separando os gostos nas duas categorias de quente e frio. A
primeira incluía "Acrimônia, Amargor, Salgadura, Doçura, Gordura", e a última,
"Acidez, Austeridade e Adstringência"12. No fim do século XVII, o pacifista
vegetariano Thomas Tryon se referiu de passagem às "quatro grandes qualidades,
das quais procedem todos os gostos perfeitos, a saber, o Adstringente ou
Salgado, o Amargo, o Doce e o Azedo". Na metade do século XVI, um autor inglês
lamentou a pobreza dos termos de gosto ingleses que podiam ser usados
confiavelmente para descrever vinhos: ele sabia que os antigos tinham um
vocabulário de gosto para vinho um tanto mais rico, mas se desesperava para
saber como traduzir usos latinos como adstringens, austerum, acerbum e acidus e
como aplicá-los adequadamente13. Uma tentativa do século XVII de descrever
gostos de vinho nomeava apenas quatro - "doce, agudo, austero e suave"14. Em
princípio, todos os outros termos de gosto eram entendidos como derivados das
quatro qualidades das coisas, mas na prática o vocabulário do gosto não era com
frequência referido explicitamente a seus fundamentos cosmológicos. Para os
presentes propósitos, é importante notar que essas qualidades eram categorias
sensórias. Quente, frio, úmido e seco eram todas qualidades de coisas que são
sensíveis como tais - pelos sentidos de contato relacionados do tato e do
paladar.
PROVANDO O MUNDO
"Você é o que você come" é um ditado bastante comum - pode-se encontrar versões
dele tão antigas quanto se quiser e em praticamente todas as culturas -, mas o
vocabulário galênico ligava a natureza de alguém ao alimento, e às experiências
de gosto e digestão, de um modo profundo. Assim como comida e bebida podiam ser
descritas em termos de sua posse das quatro qualidades, o mesmo se dava com os
humores que produziam os temperamentos humanos (aparências ou constituições). O
melancólico era alguém em quem a bile negra predominava e, portanto, que tendia
a frieza e secura temperamental. E assim por diante para aqueles de
temperamento bilioso, fleumático ou sanguíneo.
Havia dois princípios amplos que regulavam conselhos práticos médicos e leigos
sobre dieta. Primeiro, se você fosse uma pessoa com saúde normal, devia
consumir comidas e bebidas cujas qualidades estivessem em harmonia geral com
seu temperamento, tendo em mente que essa harmonia podia dizer respeito a itens
individuais, a uma refeição ou à dieta durante um período de tempo (ajustada às
estações, ao modo e à fase da vida). Como escreveu um aristocrata italiano do
século xiii, "Quem deseja respeitar a natureza, o que é uma coisa saudável a
fazer [...] deve alimentar a natureza de cada pessoa com seu semelhante,
comidas quentes para aqueles cuja natureza é quente, comidas frias para aqueles
cuja natureza é fria, e assim por diante"15. O termo inglês usual para
expressar essa combinação de qualidades era "agreement" [concordância]. Assim,
Luigi Cornaro, veneziano do século XVI autor de De vita sobria, disse que se
devia comer e beber "só coisas que concordem com o estômago"16. A
"concordância" seguia os contornos do temperamento: o médico helmontiano
Everard Maynwaringe observou que "Como há variedade de disposições e
inclinações da mente concordando com e gostando de uma coisa; mas discordando,
resistindo e desgostando de outra: assim é na variedade de corpos e comida: um
corpo tem esta propriedade, este temperamento e este apetite constitucionais;
será adequado e concordará bem com esta carne, e discordará de outra"17. Um
médico do começo do século XVII, escrevendo sobre as variedades de vinho,
advertia que "há diversos tipos de vinho, e ele não é indiferentemente
agradável a toda idade e constituição", notando que "cada homem pode fazer a
escolha daqueles vinhos que sejam mais agradáveis para ele". Mas em geral
vinhos renanos e claret convinham àqueles com uma constituição quente, enquanto
o sherry seco não concordava com os desse tipo18. A anatomia da melancolia, de
Robert Burton, aderia ao saber comum de que o vinho era quente e portanto: "O
vinho é ruim para loucos, e aqueles que são perturbados com calor em suas
partes internas ou cérebros, contrários a eles, mas para o melancólico, que é
frio, como a maioria é, o Vinho é muito bom"19. O autor inglês setecentista de
Every man his own doctor expôs sua posição declarando que era objeto tanto da
razão quanto da experiência aprender "que isto deve concordar com minha
Constituição, e por que aquilo não deve"20. Uma dieta que concordasse com a
pessoa era em geral boa medicina, pois preservava nela aquela harmonia natural
a sua constituição. E o mesmo esquema autorizava a boa medicina que corrigia o
desequilíbrio humoral e extremos que produziam a saúde ruim. Quando alguém
estava doente, quando seus humores estavam desequilibrados, a pessoa precisava
consumir comidas cujas qualidades se inclinavam na direção oposta daquelas que
desordenavam sua disposição: "Sabendo que meu Temperamento é quente e Colérico,
devo evitar aquelas coisas na carne e na bebida que o aumentam, e usar coisas
que aliviam e resfriam o calor"21.
As artes e ciências de cozinhar eram referenciadas e entendidas medicamente,
como apontado por Ken Albala e outros22. Primeiro, gostos que operavam juntos,
e que eram recomendados por sua harmonia e aprazibilidade, eram comumente
combinações de alimentos cujas qualidades equilibravam, ou "corrigiam", as
qualidades um do outro, por exemplo, o melão frio e úmido corrigido pelo
presunto cru quente e seco. Temperos "quentes" costumavam ser recomendados por
essa razão: o cozimento e a digestão eram entendidos como o mesmo tipo de
processo dirigido pelo calor, e os temperos aumentavam a digestibilidade. Na
cozinha medieval e em grande parte da cozinha moderna inicial, os temperos eram
vistos mais como remédios que como condimentos, ou, dito de outro modo, os
condimentos eram remédios. O mesmo esquema de correção e equilíbrio também
informava uma intensa preocupação médica com a ordem de itens em uma refeição e
o momento do dia, a época do ano e a fase da vida em que as comidas eram
ingeridas. Médicos e leigos debatiam, muitas vezes discordando, sobre se uma
combinação de comidas que girasse em seu estômago a qualquer momento era ruim
para você - produzindo humores e gases ruins -, ou se, escolhida
judiciosamente, aquela multiplicidade assegurava um equilíbrio saudável. De
fato, quando se leem textos dietéticos e culinários do Renascimento e do início
da era moderna, é difícil distinguir preocupações médicas galênicas do que
parece, a olhos modernos, uma connoisseurship [conhecimento especializado]
emergente.
Se a frieza e a secura melancólica natural de uma pessoa excedessem a norma
temperamental, comidas e bebidas que aquecessem e umedecessem eram indicadas.
Era um ótimo balanceamento prudencial entre o equilíbrio normal e o
desequilíbrio patológico e portanto entre ingerir alimento que combinasse com
ou corrigisse as qualidades do temperamento constitucional ou momentâneo da
pessoa: assim, o homem comum que pretendia ser seu próprio médico devia
observar as regras de "Simpatia" e "Antipatia", e isso podia exigir tanta
experiência que, como diziam tanto os antigos como os primeiros modernos, podia
demorar até que alguém tivesse 30, 40 ou até 50 anos para que pudesse
verdadeiramente ser seu próprio médico, capaz de seguir seus próprios conselhos
dietéticos23.
O entendimento da concordância era algo que alguém podia obter ouvindo ou lendo
sobre as qualidades do alimento e reconhecendo os sinais de seu próprio
temperamento. Mas havia outras maneiras de conhecer a concordância. Uma delas
era por meio do gosto. O temperamento de alguém era evidente em toda a matéria
de seu corpo, e isso incluía o palato. O ditado Quod sapit nutrit (se tem gosto
bom, é bom para você) tem de ser entendido por meio da ontologia de humores e
qualidades. O que apraz sua língua o faz porque suas qualidades corporais
correspondem - concordam com - as de seu corpo24. Esse era um artigo de bom
senso médico, pelo menos naqueles setores da sociedade que podiam exercer uma
escolha alimentar significativa. Aristóteles observou que "é pelo gosto que se
distingue na comida o agradável do desagradável, de modo a fugir desse último e
buscar o primeiro"25. Em seu entusiasmo por temperos, um texto dietético do
século xiv juntava gosto e digestão saudável: esses "têm valor não desprezível
em uma dieta saudável porque os condimentos tornam a comida mais deliciosa ao
paladar e portanto mais digestiva. Pois o que é mais delicioso é melhor para a
digestão. Os condimentos acrescentam valor nutricional e corrigem propriedades
danosas"26. Adotando o conselho antigo de ser seu próprio médico, Montaigne
apresentou o argumento pessoal. Cético sobre a necessidade de autoridade médica
externa, ele observou que "tudo que eu aceito com aversão me prejudica, e nada
que eu faça com fome e satisfação me prejudica". Todos sabiam que vinho não era
bom para pessoas doentes, e todos também sabiam que os doentes tendiam a perder
seu gosto pelo vinho27. A circunstância era conhecida, e o cartesiano Nicolas
Malebranche usou justamente esse exemplo, escrevendo mais de um século depois:
"Um homem com febre, por exemplo, acha que o vinho é amargo, e então o vinho é
também danoso a ele. O mesmo homem quando está com saúde acha que ele tem gosto
agradável, e então o vinho é bom para ele"28. É nesse aspecto que é útil
lembrar que antes gosto tinha o sentido geral de testar ou experimentar, que
agora só tem no caso da culinária29.
Quod sapit era uma das bases para o hoje aparentemente perverso entusiasmo
médico por coisas doces, embora, como muitas outras comidas e temperos
exóticos, o açúcar fosse havia muito tempo tratado como um remédio e vendido
por apotecários30. Em 1620, um médico inglês anunciou que "o açúcar concorda
com todas as idades, e com todas as constituições"31. Era possível se opor a
esse sentimento - John de Gante, em Ricardo II (I, iii, 236), dizia que "coisas
doces ao paladar se revelam azedas na digestão" - e, embora Albala escreva que
o sentimento médico sobre isso estava mudando no começo do século XVII, médicos
influentes insistiam no valor nutricional de coisas doces até bem entrado o
século XVIII32. William Cullen julgava que a agradabilidade do gosto era um
guia inteiramente confiável para o valor nutritivo: "Em geral, as substâncias
mais doces são todas nutritivas", enquanto "aquelas de natureza acre, amarga,
nauseante são impróprias. Todos, en gros, admitirão a verdade disso". Os corpos
humanos são "muitíssimo delicados" e "o acre, o amargo e o desagradável nunca
podem ser admitidos como alimentos". Cullen evidentemente havia ouvido, e
rejeitado, críticas aos sweet tooth [dentes doces] dos escoceses: o açúcar é
maravilhoso; não estraga os dentes, como alguns alegam, e "os malefícios do que
é chamado na Escócia comer doces são imputados erroneamente ao açúcar"33.
Na década de 1670, Malebranche defendia a confiabilidade dos sentidos,
inclusive o da gustação, como guias para a prudência médica: o gosto das coisas
podia ser um sinal muito bom de seus poderes e efeitos, sugestão também feita
por Hooke e Grew. Uma pessoa saudável, com os sentidos em boa ordem, não
precisava de médico, dizia Malebranche. Ele estava bem consciente da objeção
comum de que "se seguíssemos nossos sentidos, comeríamos com frequência
veneno", mas não acreditava nela: "[Q]uanto aos venenos, não penso que nossos
sentidos jamais nos levem a comê-los; e acredito que se, por acaso, nossos
olhos nos excitarem a provar algo venenoso, não acharíamos que ele teria o tipo
de gosto que nos faria engoli-lo [...]". O exótico alimentar também repelia: o
gosto inicialmente desagradável de comidas desconhecidas nos levaria a não
ingerir nada ou ingerir muito pouco delas, e isso também era prudencial. De
fato, se nossos gostos alguma vez nos desencaminham, isso ocorre porque nosso
corpo não está em seu estado natural, porque nossos sentidos foram corrompidos
por uma dieta ruim ou porque as comidas foram preparadas de modo artificial,
disfarçando sua verdadeira natureza. Cuidado com as misturas elaboradas
preparadas por cozinheiros: "Se os cozinheiros encontraram a arte de nos fazer
comer sapatos velhos em seus cozidos, devemos também fazer uso de nossa razão e
desconfiar dessas falsas carnes que não estão no estado em que Deus as criou".
Era bom comer com simplicidade: então provamos coisas uma a uma e em seu estado
natural34. Mais tarde, David Hartley advertiu contra comidas que tivessem um
gosto "acre", e qualquer coisa inicialmente "desagradável" ao paladar - embora,
como no caso do café, ela pudesse ser "tornada satisfatória pelo costume".
Portanto, a primeira impressão que a pessoa tinha de gosto agradável, e não sua
impressão habituada, era a natural e confiável35.
Essa ampla relação entre gosto, qualidade e consequência estava entrelaçada nas
estruturas epistêmicas da botânica, da matéria médica (substâncias usadas no
preparo de remédios) e da fisiologia do século XVIII. O artigo sobre "Botânica"
na primeira edição da Encyclopedia Britannica codificava o conhecimento comum,
glosando categorias de gosto de acordo com seus efeitos corporais:
As sensações de cheiro e gosto nos dão alguma sugestão da natureza e
das qualidades das plantas. Um gosto ou cheiro agradável raramente é
acompanhado de qualidades nocivas; por outro lado, quando esses
sentidos são afetados de modo desagradável, as qualidades são
geralmente mais ou menos nocivas, sendo ou purgativas, eméticas, ou
venenosas. As plantas que têm gosto doce são geralmente nutritivas;
aquelas que têm gosto salgado são quentes e estimulantes. Plantas de
gosto acre são corrosivas [...] Plantas amargas são alcalinas,
estomáquicas [isto é, favorecem a boa digestão], e às vezes de
natureza sUSPeita. Plantas ácidas são refrescantes, e aliviam a sede;
mas aquelas de gosto austero são adstringentes36.
Filósofos do século XVIII debateram a relação entre discernimento e gosto, e
debateram a extensão metafórica emergente entre gosto palatal e gosto estético.
Ao fazê-lo, eles podiam invocar um padrão de gosto baseado tanto na fisiologia
quanto na teologia, e que resistia à possibilidade de crítica moral: "O gosto
do palato", escreveu Thomas Reid em Essays on the intellectual powers of man,
"pode ser considerado muitíssimo justo e perfeito, quando saboreamos as coisas
que são adequadas à nutrição do corpo, e é repugnado com coisas de natureza
contrária". Esse tipo de gosto era "a intenção manifesta da Natureza", e
podíamos, assim autorizados, procurar as patologias - desarranjo mental e maus
hábitos - que haviam corrompido o gosto natural37. O gosto não era para
connoisseurship; era o que nos capacitava a observar a lei natural. A
connoisseurship autoindulgente, na verdade, era uma das causas do gosto
corrompido.
A EPISTEMOLOGIA DO ABACAXI
No final do século XVII, Tryon escreveu que "os vários e inumeráveis Gostos das
coisas, nos Reinos Animal, Vegetal e Mineral, procedem e surgem todos das
quatro grandes Qualidades antes mencionadas, [...] de modo que há apenas quatro
Gostos perfeitos, sendo eles a Raiz de todos os outros [...]; e de acordo com a
Igualdade desses quatro, ou a fraqueza ou predominância de cada um, tal Gosto
[isto é, aquele em que os quatro gostos perfeitos estavam em equilíbrio] tem o
domínio em todas as coisas, e por conseguinte é o mesmo mais ou menos agradável
ao Palato e ao Estômago, e homogêneo ao Corpo". Aqui Tryon estava descrevendo
provavelmente o mais celebrado novo gosto exótico do início da era moderna - o
abacaxi - e dando uma explicação de por que em sua natureza o abacaxi era tão
incrivelmente delicioso, uma comida tão completamente perfeita. O abacaxi era
"satisfatório", notava Tryon, não só à língua mas também ao estômago, e isso se
referia a um segundo sentido do que era o alimento "concordar"38. Você poderia
saber se alguma coisa "não concordava com você" quando ela não lhe descia bem,
não caía bem em seu estômago, ou quando ela não saía na outra extremidade na
forma e na quantidade devidas. Ocasionalmente, sua capacidade de dormir bem
depois de comer certa comida também era um sinal de concordância39. Já bem
entrado o século XVIII, Galeno era citado sobre as experiências corporais de
concordância: que todas as pessoas "consultem sua razão, e observem o que
concorda com elas, e o que discorda delas, que, como sábios, elas adiram ao uso
de coisas tais que conduzam a sua saúde, e se abstenham de todas as coisas que,
por sua própria experiência, concluam que lhes fazem mal; e que elas tenham
certeza de que por uma observação e uma prática diligentes dessa regra podem
desfrutar muito boa saúde, e raramente ter necessidade de medicina ou de
médicos"40. Por que pagar um médico quando era possível saber por sinais
evidentes o que concordava com você?
Em termos dietéticos práticos, esse entendimento da concordância e o conceito
ontológico de gosto a ele relacionado significavam que seguir seus apetites
podia, e com frequência devia, ser a coisa certa a fazer. Os ascetas, e pessoas
que recomendavam deferência à perícia médica profissional, podiam divergir, mas
a noção de que "Se tem gosto bom, é bom para você" circulou com influência na
sociedade do Renascimento e do início da era moderna. A tradução inglesa feita
por Harington dos versos salernitanos anunciou que não se precisava de nenhuma
outra regra dietética além do "apetite"41. Montaigne preferia o Quod sapit como
conselho médico mais sólido do que as correntes de ferro da perícia
profissional: "Tanto na saúde quanto na doença deixei-me prontamente seguir
meus apetites urgentes. Atribuo grande autoridade a meus desejos e inclinações.
[...] Meu apetite em muitas coisas por si só se adequou e se adaptou de modo
bastante feliz à saúde de meu estômago". Quando molhos picantes não concordavam
com seu estômago, ele os abandonava; quando doente, seu gosto por vinho
desaparecia e ele não tentava se opor ao apetite até que ele voltasse
naturalmente42. Benito Feijóo, beneditino espanhol do século XVIII, seguiu
Malebranche ao dizer que "seria melhor nos governarmos por nosso próprio senso,
na preservação de nossa saúde, que por todas as leis da medicina [...] Um
desejo forte [...] é um sinal de que o estômago tem dentro de si fermento
apropriado para dissolver a matéria que ele deseja tão avidamente". Com
exceções e qualificações, e advertindo contra o vício moral e médico da
glutonia,
podemos e devemos seguir a vontade de nosso apetite na escolha do que
comemos e bebemos. Certo é que a natureza fez uma união entre nosso
palato e nosso estômago, consoante com o hábito de nossos corpos, e
que o que é agradável a um será amigável ao outro. O Todo-poderoso
nos deu sentidos para serem como vigias de nossa preservação, e
apenas o do gosto nos informará o que é conformável ou não a nossa
presente constituição. A experiência mostra que o estômago nunca
acolhe com afeto o que o palato recebe com aversão. Se, todavia, essa
máxima parecer excessivamente geral a qualquer de meus leitores, que
eles sigam a de Hipócrates, que não é muito diferente, e que diz, em
seus aforismos, que devemos preferir aquelas comida e bebida que
sejam mais agradáveis, embora de qualidade geral menor, ao que parece
melhor, mas é mais desagradável a nós43.
A primeira regra da medicina, inscrita no Templo de Apolo em Delfos, era
"Conhece-te a ti mesmo", e na medicina galênica se poderia fazer isso
efetivamente por meio da evidência oferecida de forma abundante e acessível
pelo gosto das comidas e pelas experiências de digestão. No início da era
moderna, gosto e digestão eram condições cosmológicas com implicações
epistemológicas evidentes.
Para resumir: na cultura do gosto do início da era moderna - uma cultura que de
fato permanecia substancialmente estável desde a Antiguidade romana -, o gosto
das coisas tinha suportes ontológicos: testemunhava como as coisas eram em
última instância; o gosto também tinha implicações epistemológicas, no sentido
de que o conhecimento baseado no gosto era considerado seguro; e tinha
consequências práticas, já que o conhecimento experimental que alguém tinha de
seu corpo e de seu alimento lhe possibilitava constituir sua própria expertise
e prescrever seu próprio regime para manter a saúde e, quando doente, recuperá-
la.
O que aconteceu quando essa cultura do gosto começou a mudar e, finalmente,
quando ela praticamente desapareceu da expertise oficial sobre corpos e
alimentos? No finzinho do século XVII, John Locke também tentou se entender com
o gosto do abacaxi, e reconheceu que os vocabulários então correntes para
descrever tal coisa tornavam a descrição impossível44. O abacaxi era tanto um
talismã do exótico sem precedentes quanto um típico objeto dos sentidos. Locke
admitia que a linguagem-padrão que tínhamos para transmitir o gosto a outros
que não haviam consumido uma coisa como aquela não estava à altura da tarefa,
embora, por certo, a objeção devesse se aplicar a experiências subjetivas muito
mais comuns, como o gosto de uma pera. Falamos sobre o gosto que as coisas têm,
mas é principalmente só conversa, e o que atribuímos às palavras devia ser
corretamente atribuído a experiências sensórias anteriores com os objetos do
gosto.
Ideias simples [...] só devem ser obtidas por aquelas impressões que
os próprios objetos deixam em nossas mentes, pelas entradas
apropriadas estipuladas a cada tipo. Se elas não são recebidas desse
modo, todas as palavras do mundo, utilizadas para explicar ou definir
qualquer de seus nomes, nunca serão capazes de produzir em nós a
ideia que ela representa. [...] Aquele que pensa de outro modo, que
experimente se alguma palavra pode lhe dar o gosto de um abacaxi, e
fazê-lo ter a verdadeira ideia do sabor dessa celebrada deliciosa
fruta. Desde que lhe seja dito que ele tem uma semelhança com
quaisquer gostos dos quais ele já tem as ideias em sua memória,
impressas pelos objetos sensíveis, não estranhas a seu palato, desde
que ele possa abordar essa semelhança em sua mente. Mas isso não é
nos dar essa ideia por uma definição, mas excitar em nós outras
ideias simples por seus nomes conhecidos; o que ainda será muito
diferente do gosto verdadeiro daquela fruta45.
Estamos no clássico terreno ontológico e epistemológico da Revolução
Científica, da distinção entre qualidades primárias e secundárias esboçada pela
primeira vez em O ensaísta, de Galileu, e depois encontrada em textos de René
Descartes, Robert Boyle e, sistematicamente, do próprio Locke. As experiências
subjetivas da aparência, da sensação, do som, do cheiro e do gosto das coisas
não devem ser tomadas como indicações confiáveis de como elas são. Assim, Locke
escreveu celebremente que as qualidades sensíveis, como o amarelo da carne do
abacaxi, a agudeza de sua casca, a doçura de seu sabor e qualquer outra, são
"qualidades secundárias". Elas "são na verdade nada" no abacaxi em si; o poder
de produzir essas sensações está no abacaxi, mas elas dependem das "qualidades
primárias" de tamanho, forma, arranjo e movimento de suas partes não sensíveis.
Note aqui que o vocabulário tradicionalmente usado para descrever o abacaxi
como comida - inclusive sua posição no mapa de qualidades galênicas - era
agora, por assim dizer, desontologizado, e o conhecimento que podemos ter do
abacaxi como um objeto cheirado e provado agora aparecia como um problema
epistemológico. O gosto do abacaxi foi talvez o primeiro problema filosófico
verdadeiramente moderno.
O problema epistemológico do abacaxi foi um movimento na filosofia, mas também
marcou uma mudança no status da experiência comum, na medicina e nas práticas
do eu. Eu disse algo sobre como o gosto aparecia na prática e no pensamento
médicos no século XVII e antes. Você é o que você come: os temperamentos, na
medida em que ainda eram invocados depois de Locke, podiam não ter nenhuma
ligação causal com as qualidades dos alimentos. A ligação cosmológica havia
sido formalmente rompida. Com algumas nobres exceções, Quod sapit nutrit se
tornou uma coisa sem sentido para ser dita na cultura médica e científica
oficial. Brillat-Savarin o disse na década de 1820, mas ele era gourmand, não
médico nem filósofo46. A indigestão também perdeu sua ressonância
epistemológica. E, de modo mais geral, toda prática cultural que dependia de o
gosto e o cheiro serem guias confiáveis para o que o mundo era em última
instância foi liberada de suas amarras ontológicas e epistemológicas.
QUALIDADES INFERENTES
Se o gosto tinha agora perdido seu status como um guia filosófico confiável -
como um índice do que era o mundo em última instância -, isso não significou
que ele se tornara inútil. Tampouco ele, ou qualquer dos outros sentidos,
poderia ser considerado inútil em uma cultura que entendia os sentidos como
dados por Deus. Os mesmos sentidos que não mais eram muito bons para nos dizer
sobre as realidades últimas do mundo podiam permanecer valiosos para nos
conduzir no mundo cotidianamente. Foucault e outros escreveram sobre o mundo
pré-clássico das "assinaturas", um mundo em que havia semelhanças eloquentes e
dadas por Deus entre as aparências das coisas, suas naturezas e poderes47.
Essas semelhanças operavam no nível alimentar. Consideremos como isso
funcionava para os vinhos em comentários dos séculos XVI e XVII. A vinhos que
se assemelhavam a sangue eram atribuídos alguns dos poderes deste, assim,
"tent" (ou "tinto") "é um vinho nutritivo grosso, e é muito rapidamente
misturado no sangue, mas ele é opilativo [obstruindo a secreção], e portanto é
muito danoso para aqueles que são sujeitos a obstruções. É adequado àqueles que
são extenuados e fracos, e têm necessidade de muita nutrição, e um tanto
adstritivo [constipante ou adstringente]". E o vinho grego, "que tem cor
vermelha enegrecida, [...] produz sangue muito bom, reanima os espíritos,
conforta o estômago e o fígado e alegra e fortalece excelentemente o
coração"48. Dizia-se com frequência que vinhos de cor e textura leve tinham
consequências médicas que derivavam dessas qualidades sensíveis. Vinhos das
Canárias e vinhos doces são "purgativos, e abrem obstruções nos pulmões"; o
vinho renano é salutar, "diurético, e útil na pedra e na gravela"; o Champagne
"proporciona um repentino surto de espíritos animais, e inspira a
vivacidade"49. O vinho que é "branco, sutil e fino não é turbulento para o
estômago, mas de fácil digestão, logo penetra as veias, provoca urina, e é
proveitoso nas febres"50. Era possível usar os gostos do vinho como um guia
para a ação fisiológica: um médico italiano do século XVI aconselhava usar
vinhos que fossem "agradáveis em gosto e de cheiro doce, de tal sabor (eu digo)
que no gosto não pareciam nem ser muito picantes e ácidos, nem contudo muito
suaves & doces. Pois coisas picantes e ácidas, [...] logo causam
obstruções: primeiro porque constipam, depois porque passam para as veias e
membros não dissolvidos [...]"51.
No quadro galênico de qualidades, a umidade dos vinhos podia ser tomada como
dada e a maior parte do interesse se centrava no grau de calor que eles
continham. Mas a quentura relativa dos vinhos era tradicionalmente parte tanto
da experiência dietética quanto do vernáculo, capaz de ser inferida do gosto e
do efeito fisiológico. Na degustação de vinho moderna, os vinhos costumam ser
descritos como "quentes" quando têm alto teor alcoólico e às vezes quando
carecem de acidez para equilibrar o álcool. Plausivelmente, as mesmas
impressões gustativas subjetivas aparecem em tratamentos do calor vínico do
início da era moderna, embora o conhecimento das condições climáticas das
regiões em que as uvas eram cultivadas também possa figurar. O vinho era em
geral considerado quente, uma inferência sólida de seu efeito aquecedor
fisiológico, e portanto não muito adequado aos jovens, que já eram quentes por
natureza. Mas alguns vinhos eram mais quentes que outros. Acreditava-se que os
vinhos se tornavam mais quentes ao envelhecer - "O vinho, segundo Galeno, é
quente no segundo grau, e, se for muito velho, é quente no terceiro", escreveu
um médico do fim do século XVI - e vinhos fortificados eram considerados mais
quentes que os não fortificados. Mas ele queria que se soubesse que o calor era
relativo ao tipo e à fonte do vinho: "pois quem não sabe que o seco é mais
quente que o vinho Branco ou o Claret, e o Malmsay ou o Moscatel mais quente
que o Seco, e o Vinho da Madeira ou o das Canárias é o mais quente de
todos?"52. Vinhos brancos eram considerados menos quentes que os tintos, embora
isso também se relacionasse a suas origens. Os vinhos brancos da França eram
tidos como menos quentes que os tintos, mas mesmo os tintos da França eram
menos quentes que, digamos, os vinhos brancos espanhóis ou italianos.
Foucault dizia que a cosmologia das semelhanças e assinaturas desapareceu no
começo do século XVII, substituída por um cosmos mecânico sem qualidades, o
mundo da representação53. Mas a história não é assim tão ordenada. Autores
médicos "newtonianos" e "cartesianos" do fim do século XVII e do começo do
XVIII podiam se apegar aos antigos padrões inferenciais ou usar os mais novos
vocabulários mecânicos para justificar inferências tradicionais a partir das
características sensórias do alimento sobre suas qualidades e poderes. No
começo do século XVIII, o médico newtoniano John Arbuthnot, analisando uma
lista-padrão de alimentos e suas virtudes, ocasionalmente endossava o
raciocínio analógico com base no gosto das coisas para um conhecimento
confiável de seus poderes fisiológicos. As maçãs em geral eram "pectorais,
refrescantes e lenitivas" (o primeiro termo significando boa para as queixas
digestivas e respiratórias e o último significando suavemente laxativa ou
calmante), e ele observava que "suas qualidades podem ser facilmente conhecidas
por seu gosto"54. As coisas davam sinais sensórios do que provavelmente fariam
quando comidas.
O vocabulário ligando gosto a poderes não desapareceu de repente - nem era
provável que o fizesse, quando refletimos sobre a gama de práticas
especializadas e leigas em que tais inferências eram institucionalizadas.
Referências a gosto que invocavam qualidades e temperamentos continuaram no
século XIX e depois, especialmente em gêneros médicos populares, embora tenham
começado a rarear nos textos acadêmicos no fim do século XVII e início do
XVIII. Nas filosofias naturais de Boyle, Descartes e Newton, as causas do gosto
e do cheiro eram atribuídas em última instância ao efeito na substância
corpórea de partículas de vários tamanhos, formas, configurações e
movimentos55. Nenhum desses autores tinha muito a dizer sobre gosto e cheiro -
além do ponto de princípio filosófico. Boyle anunciou que a diversidade de
gostos e odores podia inteligivelmente ser explicada pelos princípios mecânicos
usuais - derivando de "tamanho, figura e movimento dos corpúsculos
saporíficos". Os variados gostos específicos de vegetais comestíveis surgiam de
"uma complicação de afecções mecânicas, como forma, tamanho etc. nas partículas
daquela matéria que se diz ser dotada de tal gosto específico". E os gostos
variáveis associados ao amadurecimento das frutas podem, ele especulava, ser
causados pelo movimento dos "corpúsculos saporíficos" que, esfregando-se uns
contra os outros, eram tornados "mais delgados ou finos, e menos rígidos, ou
afiados e ásperos, do que eram antes"56. As sensações diversas do gosto, que
Descartes chamava, "depois do tato, o mais grosseiro dos sentidos", eram
causadas pela "diversidade de figura" nas partículas que colidiam com os nervos
da língua. Na década de 1670, Nehemiah Grew supôs que os gostos de diferentes
plantas e produtos de plantas surgiam de sua química salina - sais ardidos e
pungentes, por exemplo, causavam gostos fortes; os brandos eram responsáveis
por gostos fracos e suaves - e, em uma das raras alusões a gosto na Óptica,
Isaac Newton especulava que "o ardido e pungente gosto dos ácidos" podia
derivar da "forte atração pela qual partículas ácidas atingem e agitam as
partículas da língua"57. Hooke, sempre um otimista em relação à tecnologia,
sugeriu em Micrographia meios engenhosos pelos quais o cheiro e o gosto, e não
apenas a visão, poderiam eventualmente ser restaurados a seus poderes pré-
lapsarianos, notando as técnicas existentes para melhorar a sensibilidade da
degustação de vinhos58.
Coube aos discípulos iatromecânicos do século XVIII preencher o quadro com
detalhes fisiológicos. O médico dietista escocês George Cheyne, seguidor de
Newton, tinha pouco a dizer sobre gosto - compreensivelmente, já que ele
advertia contra um "dente doce" e todas as formas de prazer dietético -, mas
sabia, com certeza filosófica, das propriedades em princípio das partículas
alimentares e dos efeitos dessas propriedades no corpo59. Se Cheyne tivesse
desenvolvido uma teoria do gosto mais completa, ela provavelmente se
assemelharia à visão de seu contemporâneo David Hartley, de que "gostos,
cheiros etc. fortes são, de acordo com a filosofia moderna, marcas de grandes
forças de atração e coesão nas pequenas partículas componentes dos corpos
naturais", forças que causavam dificuldade na digestão e uma resultante
insalubridade. Hartley dizia que queria dar uma explicação de gostos
particulares baseado na doutrina das vibrações, mas acabou não fornecendo essa
explicação, pois tal coisa era "muito difícil"60.
Outros textos do século XVIII estabeleciam um vocabulário químico, às vezes,
mas não necessariamente vinculado a teorias crepusculares da matéria
newtonianas ou cartesianas, isto é, matéria destituída das qualidades e das
forças. Esses vocabulários ofereciam tipicamente um pastiche inferencial,
fornecendo modos com os quais autores modernos ainda podiam ligar o gosto dos
alimentos a sua constituição e suas propriedades nutritivas finais. O gosto
podia continuar a ser epistemologicamente importante, embora em um sentido
muito mais atenuado do que na cultura galênica. Por exemplo, o Essay concerning
the nature of aliments de Arbuthnot, de 1731, que ainda se referia
intermitentemente aos quatro temperamentos galênicos, julgava que "gostos são
os índices das diferentes qualidades de plantas bem como de todos os tipos de
alimento", mas essas qualidades criadoras de gosto não eram a tétrade galênica;
eram antes "diferentes misturas de água, terra, óleo e sal, mas principalmente
de óleo e espírito misturados com algum sal de natureza peculiar". Ao explicar
gostos específicos, como o amargo e o acre, Arbuthnot observou que eles só
diferiam nas "partículas picantes do primeiro, que estão envolvidas em uma
maior quantidade de óleo que aquelas do último". E, nos gostos doces, "as
partículas ácidas parecem ser atenuadas, e dissolvidas no óleo, ao ponto de
produzir só uma pequena e agradável titilação". A real natureza das comidas era
aquelas diferentes misturas químicas, conhecidas por meio do conhecimento
especializado da filosofia natural, mesmo que os constituintes últimos, como
sal, ácido e óleo, correspondessem a experiências competentes de gosto
comuns61.
Um pastiche conceitual semelhante marca o extenso tratamento do alimento e do
gosto por William Cullen em suas Lectures on materia medica, da década de 1760.
Como Arbuthnot, Cullen usava um vocabulário amplamente químico para falar sobre
alimentos e suas funções fisiológicas, e, como ele, o vocabulário químico de
Cullen mapeava de modo grosseiro - não totalmente - as sensações de gosto. As
"quatro qualidades" nas comidas eram acerbidade (não é boa para você), acidez
(tudo bem de forma moderada), textura (afeta o tempo que as coisas levam para
ser digeridas) e doçura (realmente muito boa)62. Portanto, três das quatro
qualidades alimentares indexadas quimicamente eram sensíveis ao paladar, e o
gosto era tido como um guia geralmente confiável para as propriedades das
comidas e seus efeitos fisiológicos sobre a constituição humana63.
Todavia, desenvolvimentos em química no final do século XVIII e no início do
xix, para todos os propósitos práticos, despedaçaram qualquer vínculo
substancial remanescente na ciência acadêmica entre as experiências de gosto e
o conhecimento das reais propriedades e efeitos das comidas. Os textos
fisiológicos do químico inglês William Prout dividiam as propriedades dos
alimentos - os três "princípios estaminais", como ele as chamava - em sacarina
(doçura), oleosa (uma categoria que para ele incluía o álcool) e albuminosa, e,
embora se possa ver em princípio como ao menos o doce poderia mapear a sensação
de gosto, de fato, a obra de Prout na década de 1830 não fazia absolutamente
nenhuma referência à gustação64. E tampouco a ligeiramente posterior, e mais
influente, obra do químico alemão Justus von Liebig, que dividia os
constituintes nutricionais dos alimentos em proteínas, amido e gorduras. Liebig
sabia o que esses constituintes eram quimicamente, e sabia quais efeitos eles
tinham sobre o corpo humano, mas a experiência do gosto não fazia parte dessa
história65. Liebig e outros químicos orgânicos também trabalharam
intensivamente sobre as bases químicas das sensações de sabor, em especial no
vinho. Muitas pesquisas nessa área haviam se concentrado nos componentes brutos
que contribuíam para o gosto e o cheiro (álcool, ácidos orgânicos e açúcares) e
aquelas substâncias ligadas a defeitos do vinho66.
A complexa química orgânica do "elemento-traço" que marca a ciência moderna do
sabor do vinho praticamente não existia no século xix. Havia um reconhecimento
geral de que a presença de ácidos livres (tartárico, málico) era associada a um
sabor bom, mas a procura dos químicos pela base do sabor e do odor do vinho
durante a maior parte do século xix tinha como alvo substâncias que davam ao
vinho suas características "vínicas" em geral, ou os produtos químicos que
davam ao bom vinho seus sabores agradáveis (ou "aromáticos", ou de "vinho
velho"), e não o que distinguia um tipo de vinho de outro. Um relato escocês
sobre os achados de Liebig e Théophile-Jules Pelouze na metade da década de
1830 notava que os químicos "suspeitavam fazia muito tempo" que havia uma
"causa [química] do odor agradável geralmente conhecido como o buquê dos
vinhos", e celebrava Liebig e seu colega por descobrirem, como diziam, um éter
(cuja análise eles forneciam e que chamavam de éter enântico) extraído de uma
amostra de um óleo essencial enviado a eles por um químico francês, "e que, por
todas as suas propriedades, parece ser o princípio por tanto tempo procurado.
[...] [S]eu odor é completamente o de vinho velho, com exceção de sua
intensidade"67. Os químicos diziam que queriam no fim descobrir substâncias
diferenciantes, digamos, entre o sauvignon do Loire e o cabernet sauvignon de
Bordeaux, mas confessavam que passaria muito tempo antes que técnicas
analíticas estivessem à altura dessa tarefa. A química provavelmente seria
muito complexa e as substâncias flavorizantes estariam presentes em quantidades
extremamente pequenas68. Contudo, desde o século xix, julgava-se possível em
princípio substituir a linguagem das qualidades, e mesmo a linguagem de
predicados descritivos, pela dos constituintes. Acabaríamos sendo capazes de
alinhar o vocabulário de gostos com os constituintes químicos específicos que
causavam esses gostos. Não há nenhuma razão para que as pessoas não designem
gostos e cheiros com nomes atribuídos por químicos às substâncias tidas como
suas causas - e alguns enólogos, químicos e provadores de vinho especialistas
hoje fazem exatamente isso. Quando você toma uma taça de claret, pode dizer que
ele tem o aroma de pimentão e, menos provavelmente, pode saber que a substância
responsável por essa sensação é 2-metoxi-3-isobutilpirazina, e fabricantes e
provadores de vinho experimentados costumam dizer que sentem o gosto de tca
(tricloroanisol) em um vinho a que outros se referem como "rolhado", e que
outros ainda dizem ter cheiro de "papelão úmido". Mas a condição de saber como
usar esses termos químicos é a confiança na expertise; não é o tipo de coisa
que é qualitativamente aparente do mesmo modo que o grau de calor do Madeira ou
a umidade de um melão69.
No fim do século xix e no começo do XX, as disciplinas em rápido
desenvolvimento que acabaram sendo conhecidas como ciência da nutrição tinham
efetivamente eliminado o gosto dos recursos que as pessoas possuíam para saber
de que seus alimentos eram constituídos e, quando ingeridos, que efeitos teriam
sobre elas. Você não conhece pelo gosto os constituintes listados nos rótulos
impostos pelo governo que descrevem os componentes nutritivos, ou, nos casos em
que você pensa que conhece, sua capacidade de senti-los é irrelevante para a
identidade e os efeitos desses componentes: colesterol, gorduras saturadas e
trans, fibras, proteína, vitaminas, ferro e, é claro, a categoria energética da
caloria. Você pensa que sabe que coisas doces têm açúcar, que coisas salgadas
têm cloreto de sódio e que coisas de aparência gordurosa engordam, mas, como
hoje sabemos, tanto substâncias que ocorrem naturalmente quanto o produto de
química sintética superaram a confiabilidade científica desse conhecimento
sensório70. Os alimentos agora têm constituintes, e não qualidades e poderes, e
você conhece esses constituintes por cortesia, por meio de especialistas
científicos confiáveis. Na medida em que esses constituintes entram no
vernáculo moderno tardio do "autoconstituir-se", o "você" em "você é o que você
come" é um híbrido de conhecimento leigo e especializado.
OS GOSTOS DO CONNOISSEUR
E quanto ao lugar da connoisseurship [o saber do connoisseur] nessa história?
Até aqui, falei sobre os vocabulários e usos do gosto com referências apenas de
relance ao conoisseur. Fiz isso intencionalmente. O caráter do connoisseur se
conformou plenamente no século XVIII, junto com a importação inglesa do termo
francês, e quero argumentar (embora não possa estabelecer aqui a afirmação) que
o pleno florescimento do vocabulário da connoisseurship alimentar é um fenômeno
do século XX. Se assim for, há uma aparente contraevidência a considerar.
Plínio, o Velho, mencionou um escravo libertado na corte do imperador Cláudio
que podia confiavelmente distinguir vinhos de diferentes origens geográficas,
detectar quais estavam estragados e prever quais se adequariam ao paladar do
imperador71. A cultura emergente de refinamento e sensibilidade no século XVIII
aprovou de forma inovadora a extensão da ideia de um gosto pelos alimentos a um
gosto pelas belas-artes. Para alguns, isso era metafórico; para outros,
testemunhava capacidades genuinamente partilhadas entre as duas formas de
gosto. Em 1712, Joseph Addison escreveu no diário The Spectator sobre o gosto e
como ele podia ser melhorado:
Conheci uma pessoa que possuía [paladar gustatório] em tão grande
perfeição que, depois de ter provado dez tipos diferentes de chá,
distinguia, sem ver a cor dele, o tipo particular que lhe era
oferecido; e não só isso, mas quaisquer dois tipos deles que eram
misturados em proporção igual; e mais, ele levou o experimento ao
ponto de, ao provar a composição de três tipos diferentes, nomear os
pacotes de onde os três ingredientes variados eram tirados. Um homem
de fino gosto na escrita não só discernirá, da mesma maneira, as
belezas e imperfeições gerais de um autor, mas descobrirá os vários
modos de pensar e expressar-se que o diversificarão de todos os
outros autores, com as várias infusões estrangeiras de pensamento e
linguagem, e os autores particulares de quem elas foram
emprestadas72.
Cervantes contou uma história - repetida na metade do século XVIII no ensaio de
David Hume "Do padrão de gosto" - sobre as notáveis capacidades de provação de
vinho de alguns dos parentes de Sancho Pança. Sancho perguntava se um vinho que
era oferecido era do lugar que se dizia ser, e foi nesse contexto que ele se
gabou de suas capacidades constitucionais como provador. Disse que era de uma
família de famosos provadores de vinho e contou uma história sobre vários de
seus parentes. Havia uma aldeia em La Mancha que tinha uma barrica de vinho que
se supunha ser bom, mas os aldeões não tinham certeza e queriam a opinião dos
parentes de Sancho:
Um deles [disse Sancho] o prova, o considera, e depois de uma
reflexão madura pronuncia que o vinho é bom, não fosse por um pequeno
gosto de couro, que percebeu nele. O outro, depois de usar as mesmas
precauções, também dá seu veredito em favor do vinho; mas com a
reserva de um gosto de ferro, que ele pôde facilmente distinguir.
Você não pode imaginar quanto eles foram ridicularizados por seu
julgamento. Mas quem riu por último? Ao se esvaziar a barrica, foi
encontrada no fundo uma velha chave com uma correia de couro amarrada
nela73.
Hume não tinha dúvida de que tais capacidades realmente existiam, no vinho e em
outros domínios do gosto literal e metafórico, de que havia pessoas que as
tinham adquirido e outras que não o fizeram.
A capacidade de falar sobre experiências gustativas estava na época se tornando
uma ferramenta de polidez. Na década de 1750, o conde de Chesterfield instruiu
seu filho que
Há um tipo elegante de conversa tola que você deve ter: a qual, por
frívola que seja, é útil em companhias mistas, e à mesa,
especialmente em seu departamento estrangeiro; quando ele evita
certos objetos sérios, isso pode criar disputas, ou ao menos frieza
por algum tempo. Nessas ocasiões não é impróprio saber como parler
cuisine, e conseguir dissertar sobre o desenvolvimento e o sabor dos
vinhos. Essas, é verdade, são coisas muito pequenas; mas são coisas
pequenas que ocorrem com muita frequência, e portanto devem ser ditas
avec gentillesse et grace74.
Em 1825, o grande connoisseur Brillat-Savarin aplaudia os gourmands que
"conseguem distinguir o sabor do quarto sobre o qual a perdiz se deita do
outro" e os gourmets "que conseguem dizer a latitude em que qualquer vinho
amadureceu com a mesma certeza com que um dos discípulos de Biot ou Arago pode
prever um eclipse"75. E em 1863 um connoisseur inglês, que se professava
incapaz de fazer tais discriminações, escreveu que "O palato, como o olho, o
ouvido ou o tato, adquire pela prática vários graus de sensibilidade que seriam
inacreditáveis não fosse um fato bem certificado. [...] Relata-se dos
epicurianos romanos no tempo de Lúculo que eles podiam decidir se uma ostra era
do lago Lucrino ou da Anatólia". Na Borgonha, disse ele, provadores
experimentados podiam saber até a diferença entre os vinhos vizinhos de
Romanée, Richenbourg, La Tache e Grande Rue76. Os ingleses vitorianos eram
notavelmente insistentes na pertinência de tais discriminações. Um connoisseur
em um dos romances de Trollope insistia na importância de saber a parte mais
saborosa de um salmão - era o pescoço ou o meio? Um paladar bruto era o
equivalente exato de um olho não treinado ou um caráter imoral: "Não distinguir
um vinho '51 de um '58 é olhar para um braço ou uma perna na tela e não dar a
menor importância a se ele está no desenho ou fora do desenho. Não distinguir o
bife de Stubb [o cozinheiro] de outros bifes é dizer que toda mulher é a mesma
para você"77.
Habilidades discriminatórias de gosto tinham havia muito tempo um lugar
importante nas sociedades de corte e educadas, e no século XVIII uma cultura
educada reflexiva de connoisseurship valorizava a discriminação gustatória -
mesmo que muitos escritores continuassem a ter suas dúvidas sobre sua
legitimidade como capacidade estética, no mesmo nível que o gosto por poesia ou
pintura78. "Como pode ter acontecido", perguntou Kant, "de as línguas modernas
[...] designarem a faculdade estética de julgar com uma expressão (gustus,
sapor) que meramente se refere a um certo órgão de sentido (o interior da boca)
e a sua discriminação bem como à escolha de coisas agradáveis? [...] [A]
sensação de um órgão por meio de um sentido particular foi capaz de fornecer o
nome para uma sensação ideal; a saber, a sensação de uma escolha sensata,
universalmente válida em geral"79. Alguns aprovavam esse uso; outros insistiam
em uma firme distinção valorativa entre o julgamento do paladar e o julgamento
da pintura. Mas o desenvolvimento da connoisseurship alimentar é um momento
notável na história do gosto - e tem hoje um corpo de sólido conhecimento
erudito80 -, embora seja preciso fazer algumas qualificações sobre sua
referência e suas relações com processos de gosto antes e depois do século
XVIII. Quase tudo na discriminação gustativa antes do século XVIII, e grande
parte do que apareceu nesse século, dizia respeito à capacidade de discernir
solidez e autenticidade. Especialmente no caso de vinhos, havia uma série de
preocupações práticas tratadas por meio do gosto e do cheiro: o vinho estava
estragado? Estava em boa condição? Estava adulterado? Era ele o que se dizia
ser? Não há dúvida de que certos consumidores também se preocupavam com o gosto
da qualidade, e de que julgamentos de qualidade sobre diferentes tipos de
alimento circulavam em culturas passadas. Mas, uma vez que essas questões eram
tratadas, havia pouca ou nenhuma preocupação com examinar minuciosamente
experiências gustativas e olfativas, refletir sobre elas, analisá-las, atribuir
predicados descritivos a experiências componentes, e depois usar essas
descrições analíticas para fazer algo na cultura que não fosse nem ontológico
nem médico.
Os vocabulários da connoisseurship a partir do século XVIII preencheram parte
do espaço cultural antes ocupado pelas sensibilidades e categorias da filosofia
natural aristotélica e da medicina dietética galênica. Portanto, o declínio
tanto do escolasticismo quanto da medicina galênica deve também ter algo a ver
com a mudança nas linguagens e nas práticas do gosto. E aqui a história do
gosto se intersecta com a história da epistemologia. Em algum momento no final
do século XVII e no século XVIII, a institucionalização da distinção entre
qualidades primárias e secundárias rompeu as redes tradicionais que ligavam
experiências de gosto, conhecimento, identidade pessoal e ação prática. A
sociedade culta passou a considerar o gosto e o cheiro cada vez menos capazes
de servir como sonda para saber como o mundo era e o que suas partes ingeríveis
faziam por e para as pessoas. Para se orientar nessas coisas, agora era preciso
recorrer à expertise externa: não se podia mais provar a realidade ou
experimentar sua constituição por meio da digestão. Experiências e juízos de
gosto foram arquivados na gaveta rotulada "subjetiva", portando o aviso de
saúde epistêmica de que há pouco a ser coerentemente dito sobre elas ou feito
com elas.
Contudo, paradoxalmente, ao longo do século xix e no século XX, acabamos não
dizendo cada vez menos sobre gosto, mas cada vez mais. A remoção das
experiências de gosto das práticas de produção de conhecimento confiável do
mundo e de nossos corpos tornou o gosto um órfão científico e filosófico. Mas,
ao mesmo tempo, tornou o gosto um caso adequado para a connoisseurship. Nossos
connoisseurs modernos exibem sua capacidade de analisar, distinguir entre e
atribuir predicados descritivos a cada um dos milhares de componentes de sabor
do vinho, e de produzir medidas quantitativas aparentemente precisas de quão
bom é o gosto dos "bons" vinhos. O vocabulário do gosto se deslocou, por
conseguinte, do parco para o floreado81. A partir do limitado vocabulário de
gostos de vinho usado no século XVII, agora temos gostos de vinho como "pedras
molhadas", "lírios torrados", "nozes cruas", "semente de funcho cheirosa",
"peles de tomate", "tabaco burley" e até "cadáver de animal recém-atropelado".
Há pessoas que sabem como fazer essas distinções e há aquelas que não sabem.
Não usamos mais o gosto para conhecer as qualidades e poderes do alimento, para
separar o mundo comestível em pedaços que são bons para nós e aqueles que não
são. Para esses propósitos temos a linguagem emprestada, conceitos, capacidades
e instituições de especialistas técnicos. O que é deixado à sociedade leiga é o
uso dessas distinções para separar as espécies de pessoa. E isso é bem o que
queremos dizer quando hoje afirmamos "ter gosto".
STEVE SHAPIN é professor da cátedra Franklin L. Ford de História da Ciência da
Universidade Harvard (EUA)
Tradução de Otacílio Nunes.
[1] Por exemplo, Venner, Tobias. Via recta ad vitam longam, or A plaine
philosophical discourse of the nature, faculties, and effects, of all such
things, as by way of nourishments, and dieteticall observations, make for the
preservation of health with their iust applications unto every age,
constitution of bodie, and time of yeare... (Londres, 1620), p. 31; ver também
Shapin, Steven. "The tastes of wine: notes towards a cultural history". Rivista
di Estetica, no prelo.
[2] Aristóteles. On the Soul, 422a8; tradução de The complete works of
Aristotle, org. Jonathan Barnes, 2 vols. Princeton: Princeton University Press,
1984, vol. I, p. 671.
[3] Condillac, Étienne Bonnot de. Condillac's Treatise on the sensations. Trad.
Geraldine Carr. Los Angeles: University of Southern California, 1930 [1754],
pp. XXXI, 55.
[4] Kant, Immanuel. Anthropology from a pragmatic point of view, org. Robert B.
Louden. Cambridge: Cambridge University Press, 2006 [1798], pp. 50-1.
[5] Geldard, Frank A. The human senses. 2ª ed. Nova York: John Wiley, 1972, p.
480.
[6] Sibley, Frank. "Tastes, smells, and aesthetics". In: Benson, John, Redfern,
Betty e Cox, Jeremy Roxby (orgs.). Approaches to aesthetics: collected papers
on philosophical aesthetics. Oxford: Clarendon Press, 2001, pp. 207-55, 207,
211; também Classen, Constance, Howes, David e Synnott,
Anthony. Aroma: the cultural history of smell. Londres: Routledge, 1994, esp.
pp. 88-90. Sempre se entendeu que o paladar e o olfato são
sentidos não apenas relacionados, mas complementares. Quando me referir aqui a
"gosto", geralmente ficará claro pelo contexto se o significado é paladar ou
uma mistura de paladar e olfato. Mary Carruthers ("Sweetness". Speculum, 81,
2006, pp. 999-1013, pp. 1004-5) nota a ligação etimológica entre sapor (sabor)
e sapientia (conhecimento): "O que o gosto distingue são 'savors' ou 'flavors'
[em português, ambos correspondem a "sabores"], sapores [...] Como atividade de
conhecimento, sentir gosto é diretamente experiencial: ação sobre o coração bem
como sobre a mente, básica para comer e necessária ao crescimento elementar
[...]". Ver também Origgi, Gloria. "Wine epistemology: the role of reputational
and ranking systems in the world of wine". In: Smith, Barry C. (org.).
Questions of taste: the philosophy of wine. Oxford: Oxford University Press,
2007, pp. 183-95, 184-5.
[7] Polanyi, Michael. Personal knowledge: towards a post-critical philosophy.
Chicago: University of Chicago Press, 1958, pp. 17, 56-7, 62, 67, 75, 84, 92,
140-1, 201, 275, 369-70.
[8] Aristóteles, op. cit., 422b10, vol. I, p. 672.
[9] Locke, John. An essay concerning human understanding. 27ª ed. Londres: T.
Tegg, 1836, p. 65. Essa formulação exata escapou à filosofia
e à ciência e foi seguida de perto pelo gourmet francês Brillat-Savarin: "Ora,
até hoje, nenhum sabor jamais foi apreciado com exatidão rigorosa, fomos
obrigados a nos satisfazer com um número limitado de palavras como doce,
açucarado, ácido, amargo e similares, que, quando analisadas em última
instância, são expressadas pelas duas seguintes agradável e desagradável, que
bastam para nos fazer entender, e indicam o sabor das substâncias sápidas a que
se referem. Aqueles que vierem depois de nós saberão mais, pois sem dúvida a
química revelará as causas dos elementos primitivos dos sabores". Brillat-
Savarin, Jean Anthelme. The physiology of taste; or, Transcendental gastronomy.
Trad. Fayette Robinson. Filadélfia: Lindsay & Blakiston, 1854 [1825], p.
62. Para um levantamento da linguagem, ou falta de linguagem, para entender os
odores, ver Classen, Howes e Synnott, Aroma, op. cit., esp. pp. 3-4.
[10] Grew, Nehemiah. The anatomy of plants with an idea of a philosophical
history of plants, and several other lectures, read before the Royal Society.
Londres, 1682, pp. 280-2. Grew também classificava os gostos
por "graus", os quais, junto com gostos compostos reconhecidos, lhe davam -
embora ele não os listasse todos - "1800 Variações de Gosto sensíveis e
definíveis". (A palestra sobre gostos foi lida para a Royal Society em março de
1675.)
[11] Boring, E. G. Sensation and perception in the history of experimental
psychology. Nova York: D. Appleton-Century Co., 1942, pp. 452-5. "Umami" - geralmente glosado como "carnoso" ou "saboroso" e tido como
causado por glutamatos - foi geralmente aceito, desde 1985, como um quinto
gosto básico.
[12] Ainsworth, Henry. The art of logick; or, The entire body of logick in
English. Unfolding to the meanest capacity the way to dispute well, and to
refute all fallacies whatsoever. 2ª ed., corrigida e emendada por Zachary Coke.
Londres, 1657, p. 37.
[13] Turner, William. A new boke of the natures and properties of all wines
that are commonlye used here in England... Londres, 1568, sig. Diiiv-Diiiir;
ver também Best, Michael R. "The mystery of the vintners". Agricultural
History, 50, 1976, pp. 362-76.
[14] É possível que os italianos medievais tivessem um vocabulário mais rico
para o vinho, chegando talvez a nove termos. Grieco, Allen. "Le goût du vin
entre doux et amer: essai sur la classification des vins au Moyen Age". In: Le
vin des historiens. Actes du 1er Symposium Vin et Histoire, Université du Vin:
Suze-la-Rousse, 1990, pp. 8997; "I sapori del vino: gusti e
criteri di scelta fra Trecento e Cinquecento". In: Gaulin, Jean-Louise e
Grieco, Allen J. (orgs.). Dalla vite al vino: Fonti e problemi della
vitivinicoltura italiana nel medioevo. Bolonha: clueb, 1994; também Grappe,
Yann. "Descriptions and representations of taste: historical reflections on
wine". Gastronomic Sciences, fev. 2007, pp. 33-41; Shapin, op. cit.
[15] Siena, Aldobrandino de. Apud: Flandrin, Jean-Louis. "From dietetics to
gastronomy: the liberation of the gourmet". In: Flandrin, Jean-Louis e
Montanari, Massimo (orgs.). Food: a culinary history from Antiquity to the
present. Trad. Albert Sonnenfeld. Nova York: Penguin, 2000, pp. 418-32, 424.
[16] Cornaro, Luigi. The art of living long [com ensaios de outros autores].
Milwaukee: William F. Butler, 1903 [1558], p. 81.
[17] Maynwaringe, Everard. The method and means of enjoying health, vigour, and
long life..., Londres, 1683, pp. 16-7.
[18] Venner, op. cit., pp. 25-8.
[19] Burton, Robert. The anatomy of melancholy. Londres, 1621, p. 473.
[20] Archer. Every man his own doctor. pp. 3-4.
[21] Ibidem, p. 11.
[22] Albala, Ken. Eating right in the Renaissance. Berkeley: University of
California Press, 2000, caps. 3-4; Flandrin, Jean-Louis.
"Seasoning, cooking, and dietetics in the Late Middle Ages". In: Flandrin e
Montanari, op. cit., pp. 313-27.
[23] Archer, op. cit., pp. 3-4, 11.
[24] O ditado é atribuído a Avicena, mas provavelmente é proverbial. A ligação
entre gosto agradável e salubridade era amplamente aceita, mas podia ser
contestada por aqueles inclinados ao ascetismo: ver, por exemplo, Cornaro, Art
of living long, p. 46.
[25] Aristóteles. Sense and sensibilia, 436b15; tradução de The Complete Works
of Aristotle, org. Jonathan Barnes, 2 vols. Princeton: Princeton University
Press, 1984, vol. I, p. 694.
[26] Milão, Magnino de. Apud: Flandrin, op. cit., p. 320 (os destaques são do
original).
[27] Montaigne, Michel Eyquem de. "Of experience". In: The Complete Essays of
Montaigne, trad. Donald M. Frame. Stanford: Stanford University Press, 1965
[1580, 1588], pp. 815-57, p. 832; ver também Shapin, Steven. "How to eat like a
gentleman: dietetics and ethics in early modern England". In: Rosenberg,
Charles E. (org.). Right living: an Anglo-American tradition of self-help
medicine and hygiene. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2003, pp. 21-
58, 41-4.
[28] Malebranche, Nicolas. The search after truth, trad. e org. Thomas M.
Lennon e Paul J. Olscamp; e Elucidations of the search after truth, trad. e
org. Thomas M. Lennon. Cambridge: Cambridge University Press, 1997 [1674-1678],
p. 647.
[29] Ele ainda tinha esse sentido mais amplo para Shakespeare: "Espero, para
justificação de meu irmão, que ele tenha escrito isso apenas como um ensaio, ou
gosto de minha virtude". Rei Lear, I ii. 46.
[30] Aristóteles dizia que a doçura indicava a capacidade de nutrir: "[A]
nutrição é efetuada pelo doce"; Sense and Sensibilia, 442a8; tradução de The
Complete Works of Aristotle, org. Jonathan Barnes, 2 vols. Princeton: Princeton
University Press, 1984, vol. I, p. 701. Para as sensibilidades medievais em
relação ao conceito de doçura, ver Carruthers, op. cit.; para o açúcar como
remédio, ver Mintz, Sidney. Sweetness and power: the place of sugar in modern
history. Nova York: Penguin, 1986, pp. 30, 45, 79, 87; Shaw,
James e Welch, Evelyn. Making and marketing medicine in Renaissance Florence.
Amsterdã: Rodopi, 2011, pp. 18-9, 191-7, 209-10.
[31] Venner, op. cit., pp. 104-5; também Mintz, op. cit., p. 104.
[32] Albala, op. cit., pp. 211-2.
[33] Cullen, William. Lectures on the Materia Medica... Filadélfia: Robert
Bell, 1775 [1772], pp. 45-7, 55, 93-4, 166 (citando pp. 45-47, 93). Esse texto
se baseou em notas de conferência na Universidade de Edimburgo no começo da
década de 1760.
[34] Malebranche, The search after truth, op. cit., pp. 645-646. Aqui
Malebranche estava elaborando comentários nos Princípios de Descartes.
Descartes admitia que as pessoas podiam ser levadas a comer algo venenoso se a
substância tóxica fosse misturada com uma comida que tivesse gosto agradável,
mas disso nada poderia ser inferido sobre a confiabilidade do gosto como um
guia geral para a ação. Descartes, René. The principles of philosophy. In: The
Method, Meditations, and selections from the Principles. Trad. John Veitch. 6ª
ed. Edimburgo: William Blackwood, 1879, pp. 162-3.
[35] Hartley, David. Observations on man, his frame, his duty, and his
expectations. 6ª ed. Londres: Thomas Tegg, 1834 [1749], p. 459. Hartley geralmente advertia sobre a insalubridade de qualquer
alimento que tivesse "um sabor intenso".
[36] "Botany". In: Encyclopædia Britannica: or, A dictionary of arts and
sciences, 3 vols. Edimburgo, 1771-1773, vol. I, p. 632.
[37] Reid, Thomas. The works of Thomas Reid, D. D., ed. Sir William Hamilton.
7ª ed., 3 vols. Edimburgo: Maclachlan and Stewart, 1872 [1785], vol. I, p. 491.
[38] Tryon, Thomas. Friendly advice to the gentlemen-planters of the East and
West Indies. Londres, 1684, pp. 5-6.
[39] Por exemplo, Bullein, William. The government of health. Londres, 1595, p.
26r.
[40] Em uma versão oitocentista, um compêndio médico que seguia de perto Galeno
recomendava que a "experiência" poderia ensinar como comidas diferentes caíam
no estômago. Portanto, cada pessoa "deve consultar sua constituição, e comer só
o que concorda perfeitamente com ela". Fothergell [Fothergill], John. Rules for
the preservation of health..., 6ª ed. Londres, 1770(?) [1762], p. 33; ver
também pp. 31, 49, 68, 74 (para Tibério), 81 (linguagem de Galeno).
[41] Harington, Sir John. The English mans doctor, or The Schoole of Salerne.
Londres, 1624, p. 3.
[42] Montaigne, op. cit., pp. 815-57, p. 832.
[43] Feijó y Montenegro, Benito Jerónimo. Rules for preserving health,
particularly with regard to studious persons. Trad. anon. do espanhol. Londres,
[1800], pp. 76, 78.
[44] Silver, Sean B. "Locke's pineapple and the history of taste". The
Eighteenth Century, 49, 2008, pp. 43-65; também Rousseau,
George S. "Pineapples, pregnancy, pica and peregrine pickle". In: Enlightenment
borders: pre- and post-modern discourses: medical, scientific. Manchester:
Manchester University Press, 1991, pp. 176-200, esp. p. 193.
[45] Locke, op. cit., p. 309. Note a invocação por Hume do mesmo exemplo: "Não
podemos formar para nós uma ideia justa do gosto de um abacaxi, sem ter
realmente provado um". Hume, David. A Treatise of Human Nature, ed. L. A.
Selby-Brigge. Oxford: Clarendon Press, 1888, p. 5; ver também
Reid, Thomas. Lectures on the fine arts, org. Peter Kivy. Haia: M. Nijhoff,
1973, p. 35. Para um estudo da assimilação do gosto de outro comestível
caribenho exótico, ver Norton, Marcy. "Tasting empire: chocolate and the
European internalization of Mesoamerican aesthetics". American Historical
Review, 111, 2006, pp. 660-91.
[46] Brillat-Savarin, Physiology of taste, p. 57.
[47] Foucault, Michel. The order of things: an archaeology of the human
sciences. Londres: Tavistock, 1970, cap. 2; Pagel, Walter.
Paracelsus: an introduction to philosophical medicine in the era of the
Renaissance. 2ª ed. rev. Basileia: S. Karger, 1982, esp. pp. 148-9.
[48] Venner, op. cit., p. 29.
[49] Shaw, Peter. The juice of the grape: or, Wine preferable to water.
Londres, 1724, p. 15; ver também Hancock, David. Oceans of
wine: Madeira and the emergence of American trade and taste. New Haven: Yale
University Press, 2009, pp. 326-31.
[50] Whitaker, Tobias. The tree of humane life, or, the Blood of the grape.
Proving the possibilitie of maintaining humane life from infancy to extreame
old age without any sicknesse by the use of wine. Londres, 1638, p. 26.
[51] Gratarolo, Guglielmo. A direction for the health of magistrates and
studentes, trad. Thomas Newton. Londres, 1574, sig. G ii; também Shapin, op.
cit.
[52] Cogan, Thomas. The haven of health..., Londres: Henrie Midleton, 1584, p.
203; ver também Turner, op. cit., sig. Bii-Biiii.
[53] Foucault, op. cit., pp. 17-8, 51-8.
[54] Arbuthnot, John. An essay concerning the nature of aliments..., 3ª ed.
Londres: J. Tonson, 1735 [1731], p. 252.
[55] Ver Roos, Anna Marie. The salt of the earth: natural philosophy, medicine,
and chymistry in England, 1650-1750. Leiden: Brill, 2007, esp. pp. 14-7, 94-
107, para visões antiescolásticas das causas químicas dos
gostos, e, portanto, do uso do gosto como um índice de estrutura química e
efeito fisiológico.
[56] Boyle, Robert. Experiments and observations about the mechanical
production of tasts. Londres, 1675, pp. 3, 25, 31-3. Há
explicações mecânicas paralelas de cheiros no tratado acompanhante Experiments
and observations about the mechanical production of odours, Londres, 1675.
Ambos são encadernados juntos e paginados separadamente em Boyle, Experiments,
notes, &c. about the mechanical origine or production of divers particular
qualities, Londres, 1676. Ver também Boyle, The origine of forms and qualities,
according to the corpuscular hypothesis, Oxford, 1666, pp. 10, 78, 117.
[57] Descartes, op. cit., p. 253; Grew, Anatomy of plants, pp. 286-90; Roos,
op. cit., pp. 100-1; Newton, Isaac. Opticks. 2ª ed. Londres: W. and J. Innys,
1718, p. 361.
[58] Hooke, Robert. "Prefácio" In: Micrographia. Londres: John Martyn, 1665,
sig. c2.
[59] Cheyne, George. Essay on regimen. Londres: Rivington, 1740, por exemplo,
pp. 58-60, 91-2, 102, 115-6.
[60] Hartley, op. cit., pp. 96, 459.
[61] Arbuthnot, op. cit., pp. 55-6; ver também Forster, William. A treatise on
the various kinds and qualities of foods. Newcastle: John White, 1738, esp. pp.
17-22; Hoffmann, Friedrich. A treatise on the nature of
aliments, or Foods, in general. Londres: L. Davis and C. Reymer, 1761.
[62] Cullen, op. cit., pp. 54-5.
[63] Para um estudo sugestivo do papel variável dos sentidos, inclusive do
paladar, na química do século XVIII, ver Roberts, Lissa. "The death of the
sensuous chemist: the 'new' chemistry and the transformation of sensuous
technology". Studies in History and Philosophy of Science, 26, 1995, pp. 503-
29, esp. pp. 510-12.
[64] Prout, William. Chemistry, meteorology and the function of digestion.
Londres: William Pickering, 1834, pp. 470-7.
[65] Liebig, Justus von. Familiar letters on chemistry. Org. John Gardner. Nova
York: D. Appleton, 1843, pp. 64-112.
[66] Por exemplo, Liebig, Justus von. Chemistry in its applications to
agriculture and physiology. Org. Lyon Playfair. 3ª ed. Londres: Taylor and
Walton, 1843, pp. 311 ss; Mulder, G[errit] J[an]. The
chemistry of wine. Org. H. Bence Jones. Londres: John Churchill, 1857, pp. 138-
87.
[67] Anônimo. "Researches made on the bouquet of wine". Edinburgh New
Philosophical Journal, 22, 1836-1837, p. 392 (as ênfases são minhas).
[68] Mulder, op. cit., esp. pp. v-vi: "Uma deficiência especial permanecerá, na
falta de familiaridade com os componentes particulares de muitíssimos tipos de
vinho, que em cor, cheiro e gosto apresentam variedade quase infindável. E
permitam-me dizer que mesmo este tratado dirá apenas pouco em comparação com o
que finalmente se saberá sobre o vinho".
[69] Shapin, op. cit.
[70] Cloreto de zinco e brometo de sódio têm ambos sabor salgado - embora não
exatamente como o cloreto de sódio; certos sais de chumbo têm gosto doce, como
têm, é claro, os adoçantes artificiais.
[71] Plínio, o Velho. The historie of the world: commonly called, The naturall
historie of C. Plinius Secundus. Trad. Philemon Holland. Londres, 1634, p. 415.
[72] Addison, Joseph. "On taste [essay 409 in The Spectator]". In: Essays
moral and humorous. Edimburgo: William and Robert Chambers, 1839, pp. 111-2, a
p. 112.
[73] Hume, David. "Of the standard of taste". In: Essays and treatises on
several subjects. Londres: A. Millar, 1758, pp. 134-46, pp. 138-9. O original é
Miguel de Cervantes Saavedra, Don Quixote, vol. V de The Complete Works of
Miguel de Cervantes, 12 vols. (Glasgow: Gowans & Gray, 1901), p. 83: "O que
diria, senhor cavaleiro, de eu ter um instinto natural tão excelente para
julgar vinhos que o senhor só tem de me deixar cheirar um e eu posso saber com
certeza seu país, seu tipo, seu sabor e solidez, as mudanças por que ele
passará, e tudo o que pertence a um vinho? Mas isso não é de admirar, porque eu
tive em minha família, do lado do meu pai, os dois melhores provadores de vinho
conhecidos em La Mancha por muitos longos anos, e para provar isso eu lhe
contarei agora uma coisa que aconteceu com eles. Deram a dois deles um vinho de
uma barrica, para provar, pedindo a opinião deles sobre a condição, a
qualidade, a bondade ou a ruindade do vinho. Um deles o experimentou com a
ponta da língua, o outro não fez mais que levá-lo ao nariz. O primeiro disse
que o vinho tinha um sabor de ferro, o segundo disse que ele tinha um sabor
mais forte de couro. O proprietário disse que a barrica estava limpa, e que
nada havia sido adicionado ao vinho de que ele pudesse ter obtido um sabor de
ferro ou couro. Ainda assim, esses dois grandes provadores de vinho mantiveram
o que haviam dito. O tempo passou, o vinho foi vendido, e quando foram limpar a
barrica encontraram nela uma pequena chave presa em uma tira de couro; veja
agora se alguém que vem da mesma linhagem não tem direito a dar sua opinião em
casos como esse".
[74] Chesterfield, Philip Dormer Stanhope (Conde de). The works of lord
Chesterfield including his letters to his son. Nova York: Harper &
Brothers, 1838, p. 480 (carta de 22 de setembro de 1752).
[75] Brillat-Savarin, Physiology of taste, p. 71.
[76] Shaw, Thomas George. Wine, the vine, and the cellar. Londres: Longman
Green, Longman, Roberts, and Green, 1864, p. 340.
[77] Trollope, Anthony. The Claverings. 2 vols. Londres: Smith, Elder, 1867,
vol. I, pp. 238-9.
[78] Korsmeyer, Carolyn. Making sense of taste: taste, food, and philosophy.
Ithaca: Cornell University Press, 1999; Dickie, George. The
century of taste: the philosophical odyssey of taste in the Eighteenth Century.
Nova York: Oxford University Press, 1996.
[79] Kant, op. cit., pp. 139-40; ver também Meville, Peter. "A 'friendship of
taste': the aesthetics of eating well in Kant's Anthropology from a pragmatic
point of view". In: Morton, Timothy (org.). Cultures of taste/theories of
appetite: eating romanticism. Nova York: Palgrave Macmillan, 2004, pp. 203-16.
[80] Por exemplo, Wheaton, Barbara Ketcham. Savoring the past: the French
kitchen and table from 1300 to 1789. Nova York: Touchstone, 1983; Freedman, Paul (org.). Food: the history of taste. Berkeley:
University of California Press, 2007, caps. 7-9; Mennell,
Stephen. All manners of food: eating and taste in England and France from the
Middle Ages to the present. Oxford: Blackwell, 1985, esp. caps. 6-7; Spang, Rebecca L. The invention of the restaurant: Paris and modern
gastronomic culture. Cambridge: Harvard University Press, 2000; Trubeck, Amy B. Haute cuisine: how the French invented the culinary
profession. Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 2000; Montanari, Massimo. Food is culture. Trad. Albert Sonnenfeld. Nova
York: Columbia University Press, 2006; Capatti, Alberto e
Montanari, Massimo. Italian cuisine: a cultural history. Trad. Aine O'Healy.
Nova York: Columbia University Press, 2003; Pinkard, Susan. A
revolution in taste: the rise of French cuisine, 1650-1800. Cambridge:
Cambridge University Press, 2008; Gronow, Jukka. "What is
'good taste'?". Social Science Information, 32, 1993, pp. 279-301.
[81] Para observações sobre connoisseurship de vinho e conversa sobre vinho no
final do período vitoriano e no período eduardiano, ver Shapin, Steven.
"Against the pussyfoots". London Review of Books, 31, n. 17, 10 de setembro de
2009, pp. 32-3; idem, "The tastes of wine", op. cit.