Escassez de engenheiros no Brasil? uma proposta de sistematização do debate
Tem-se discutido se no Brasil haverá, no futuro próximo, um cenário de falta de
mão de obra qualificada ou um "apagão de mão de obra", ante o crescimento
econômico recente e uma situação de virtual pleno emprego. O debate envolve
tanto uma discussão geral (todas as áreas de formação) como específica (áreas
de saúde e engenharias, notadamente). Este artigo se propõe avaliar e
sistematizar esse debate sobre a área de engenharia. A discussão sobre uma
possível escassez de engenheiros hoje e no futuro está ligada às perspectivas
do desenvolvimento e, mais particularmente, ao tipo de desenvolvimento possível
ou desejável no futuro. Quando se discute a sociedade do conhecimento, o poder
da informação, a inovação tecnológica, discutem-se, direta ou indiretamente, as
atividades desenvolvidas por um conjunto de profissionais, entre os quais os
engenheiros têm destaque.
Para abordar o tema da escassez de engenheiros, lançaremos mão de abordagem
conceitual relativa à caracterização de baixa produção de determinado bem,
conforme proposta por Butz e outros1. A partir dessa abordagem, elaboraremos um
conjunto de hipóteses, lastreadas na discussão recente (que se deu mais pela
mídia cotidiana do que por revistas de cunho mais científico, o que se
convencionou chamar de literatura), em entrevistas e discussões com grupos de
dirigentes empresariais, particularmente das áreas de PD&E (pesquisa,
desenvolvimento e engenharia). Adotamos a abordagem tradicional de buscar
derrubar hipóteses a partir da elaboração de dados oficiais do aparelho
estatístico brasileiro - RAIS/MTE, Censo Escolar/Inep-MEC, Censo Demográfico/
IBGE e de resultados de pesquisas pertinentes (Enade e outras). O texto tem um
caráter eminentemente empírico: busca lastrear a discussão em dados e
evidências concretas. Como resultado, apontamos que ao longo da década foram
detectados alguns sinais de aquecimento, mas que uma eventual escassez de
engenheiros tende a se dissipar no futuro próximo, devido ao fato de que o
fluxo de recém-formados tem sido mais elevado do que o crescimento da demanda.
O que se observa no mercado de trabalho é um hiato geracional, dada a lacuna na
formação de engenheiros décadas atrás, o que implica falta de engenheiros
experientes e com capacitação para liderar projetos hoje, e o problema de
qualidade dos engenheiros formados, ainda que haja poucos dados confiáveis
sobre isso.
O artigo está estruturado de forma a apresentar como o problema da escassez de
mão de obra vem sendo discutido na imprensa (seção 2), para, em seguida, abrir
uma discussão conceitual, destacando a relação entre carreiras técnico-
científicas e o PIB per capita em nível mundial e aspectos do mercado de
trabalho das engenharias (seção 3), avaliar os indicadores de escassez oriundos
da discussão conceitual pela manipulação das bases de dados pertinentes (seção
4), propor uma sistematização desse debate (seção 5) e buscar algumas
conclusões e considerações finais (seção 6).
O DEBATE NA IMPRENSA
Notícias alertando para o risco de um eventual apagão de mão de obra
proliferaram na imprensa brasileira nos últimos anos, principalmente a partir
da segunda metade da década de 2000, quando emprego e renda passaram a crescer
sistematicamente no país, a ponto de, em dado momento, economistas, políticos e
articulistas dos mais diversos matizes chegarem a falar corriqueiramente na
mídia que o Brasil viveria uma situação de pleno emprego2. Com frequência as
manchetes deram destaque a um risco generalizado de escassez de mão de obra3,
enquanto outras situaram o problema em alguns setores4, particularmente na
construção civil5, em tecnologia da informação6 e no setor de petróleo e gás
natural7. Entre os profissionais mais escassos, a julgar por muitas das
inserções a respeito na mídia, estariam os engenheiros8.
Estaria mesmo o Brasil padecendo de um problema generalizado de escassez de mão
de obra qualificada? Estudos empíricos não parecem validar essa hipótese.
Barbosa Filho, Pessôa e Veloso9 concluem que a disponibilidade de trabalho
qualificado no Brasil não foi um fator limitante do crescimento econômico do
país nos anos recentes. Maciente e Araújo10 mostraram que, dadas as tendências
de formação de engenheiros e as projeções de demanda por esses profissionais no
mercado de trabalho, só haveria risco de apagão de mão de obra qualificada se o
Brasil crescesse em padrões indianos ou chineses por toda a década de 2011-
2020, o que não parece ser o caso. Saboia e Salm11 não veem sinais de escassez
entre profissionais de nível superior e consideram que, se algum problema
houvesse, seria em ocupações que exigem baixa escolaridade. Pompermayer e
outros12 conjecturam que alguns problemas regionais, em especialidades
profissionais específicas ou associados à baixa qualidade da formação ou mesmo
à reduzida experiência de muitos postulantes às novas vagas de emprego, talvez
estivessem contaminando a percepção de escassez, levando muitos a tratar o
problema como generalizado.
Valendo-se de achados como esses, Claudio Moura Castro, analista com bom poder
de mídia, sintetizou o problema da seguinte maneira em uma revista de grande
circulação nacional:
As manchetes são pródigas em repetir que o país entrou numa fase de
escassez aguda de mão de obra. As denúncias abundam: faltam tantos
milhares de engenheiros disso ou daquilo. Mas será? Equívocos nos
diagnósticos levam a equívocos nas terapias. Os economistas, uns
chatos, talvez, começam sempre insistindo para que as definições
sejam sólidas. De outra forma, o que parece desacordo é puro ruído
semântico. [...] Para economistas puros-sangues, escassez é quando
aumenta a demanda e, como resultado de mais gente querendo contratar,
os salários sobem. Portanto, apagão se mede com variações de
remuneração, seja ao longo do tempo, seja na comparação entre
profissões parecidas. [...] Voltemos à pergunta: há apagão?
Traduzindo, os salários subiram vertiginosamente? Tudo o mais é
ruído. Algumas pesquisas recentes trazem respostas. Consideremos duas
situações. A primeira é a das grandes obras no meio do nada. A
explosão de indústrias no Porto de Suape, as usinas em São Luís, Belo
Monte, o pré-sal e outras obras monumentais criam, da noite para o
dia, demanda por dezenas de milhares de profissionais de todas as
tribos, em regiões onde não há rigorosamente nenhuma oferta. A prova
é que os salários disparam. A segunda situação é bem mais matizada.
Para o país como um todo, pesquisas mostram salários praticamente
estagnados para graduados de nível superior, em geral. Ou seja, não
há apagão para gente com canudo debaixo do braço. [...] Quando se
cria o apagão, duas coisas acontecem. Com os preços mais altos - no
caso presente, para certos tipos de mão de obra -, passa a ser mais
atraente investir na área em que apareceu o gargalo. Isso vai
aumentar a oferta, acabando por eliminar o pico de escassez
observado, ainda que leve tempo. [...] Ou seja, é o próprio apagão
que cria as reações que vão eliminá-
lo. É preciso que exista aumento de preços ou escassez aguda para que
apareçam as manifestações políticas ou econômicas que vão pôr em
marcha os processos que fazem expandir a oferta de mão de obra disso
ou daquilo. A denúncia na imprensa e o pânico criado contribuem para
que desapareça. São parte da solução, se diagnosticarem o apagão no
lugar certo13.
Independentemente da pertinência ou não dos argumentos, o artigo de Moura
Castro sinalizava que, mesmo nos meios de comunicação, o debate começava a se
encaminhar para a identificação de possíveis focos ou mesmo tipos de escassez,
em vez de só alardear um problema supostamente generalizado. Assim, em vez de
se falar em um "apagão", tornou-se mais comum trazer à tona questões mais
concernentes à qualidade, à experiência, à distribuição espacial e a
habilitações específicas (especialidades) da força de trabalho, levando em
conta, inclusive, as peculiaridades de cada atividade profissional.
O bom desempenho da economia brasileira a partir de meados da década de 2000
(crescimento médio anual de 4,4% entre 2004 e 2010) recolocou em alta as
engenharias, a ponto de, em 2011, o número de ingressos em cursos dessas áreas
superar, pela primeira vez, o de ingressos em cursos de direito14. Não deixam
de surgir, contudo, questionamentos quanto à necessidade de mais e melhores
engenheiros no Brasil15, não apenas pelo fato de o país formar relativamente
pouco desses profissionais em comparação com outros países16, mas também pela
associação que se costuma fazer desse profissional ao desenvolvimento
tecnológico, à inovação e ao próprio crescimento econômico.
Embora as expectativas quanto ao desempenho futuro da economia brasileira
venham se deteriorando nos últimos tempos17, ainda é recorrente a preocupação
com uma eventual falta de engenheiros no Brasil, tanto que notícias veiculadas
na imprensa já dão conta de que viria sendo discutido, no âmbito do governo
federal, um programa específico de importação de engenheiros, análogo ao
Programa Mais Médicos18. A justificativa principal estaria no diagnóstico de
que faltariam, nas prefeituras, "especialistas dispostos a trabalhar na
elaboração de projetos básico e executivo, fundamentais para que a cidade possa
receber recursos da União"19. Em reportagem veiculada em agosto de 201320 sobre
o problema de falta de engenheiros na região Nordeste, declarações atribuídas a
empresários e ao presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e
Engenharia Consultiva apontam para dificuldades em contratar engenheiros
especializados em obras de ferrovias, portos e mobilidade urbana (como metrôs),
bem como para obras públicas de grande porte no interior.
Mas o que é apontado nessa reportagem como maior carência é a de engenheiros
capazes de projetar obras e geri-las do início ao fim. Essa percepção remete a
uma das hipóteses que levantaremos adiante, a partir dos dados apresentados nas
seções seguintes deste artigo: no caso das engenharias, grande parte do
problema está relacionado a uma questão geracional, ou seja, ao fato de que a
baixa valorização da profissão nos anos 1980 e 1990 levou a uma fuga dos cursos
de engenharia na época, resultando hoje em acentuada escassez relativa de
engenheiros na faixa etária dos 35 aos 59 anos - justamente os profissionais
que tendem a ter experiência relevante para os postos de gerência de grandes
obras.
DISCUSSÃO CONCEITUAL
O problema da escassez de recursos é questão central de estudo na ciência
econômica e é, ao mesmo tempo, um motor do próprio desenvolvimento econômico e
tecnológico. Hirschman21 caracteriza o desenvolvimento como uma cadeia de
desequilíbrios e, nesse sentido, é justamente a escassez que induz novos
investimentos, acarretando novos desequilíbrios e levando a um processo
dinâmico de desenvolvimento. Escassez, portanto, não é necessariamente ruim e
tende a levar a reações dos agentes econômicos capazes de desencadear inovações
e ganhos à sociedade.
De maneira geral, Butz e outros22 sugerem cinco sinais de que um país ou região
está enfrentando uma situação de "baixa produção" de determinado bem23:
1. A produção é mais baixa que no passado recente;
2. A concentração de mercado dos líderes tem aumentado ao longo do
tempo;
3. A produção é menor do que o desejado pelos ofertantes;
4. A produção é menor do que o desejado socialmente;
5. A produção não atende à própria demanda de mercado, o que pode ter
reflexo em preços ascendentes.
Economistas ortodoxos costumam defender que, assim como qualquer outro mercado,
o mercado de trabalho deveria ser deixado livre para se ajustar a novas
condições, mesmo quando emergem situações de escassez de trabalho, e que o
tempo de maturação desses ajustes dependerá da velocidade com a qual os agentes
econômicos reagirem aos novos sinais de mercado24. Essa lógica pressupõe que os
agentes dominem todas as informações relevantes do mercado. No entanto, nos
diversos e heterogêneos mercados de trabalho, as informações tendem a ser
custosas e assimétricas, levando a seleções adversas, sem mencionar as falhas
de mercado que podem emergir do poder dos sindicatos, de questões regulatórias
específicas e outras tantas especificidades25.
Assim, o ajuste por meio dos preços nem sempre é imediato em muitos mercados de
trabalho. Além disso, há outras características que podem sinalizar escassez de
mão de obra, tais como as apontadas por Nascimento26:
6. Baixas taxas de desemprego;
7. Proporção crescente de empregados nas ocupações típicas27;
8. Alta rotatividade da mão de obra especializada, que tenderia a
permanecer pouco nos empregos em busca de melhores salários - o que
seria refletido na redução do diferencial entre os salários dos
desligados e dos admitidos;
9. Vagas abertas são preenchidas com dificuldade;
10. Aumento nas horas trabalhadas, com o uso frequente de horas
extras;
11. Concorrência acirrada entre empresas pelos melhores
profissionais;
12. Redução das exigências para a contratação.
Dadas as características específicas do mercado de trabalho para profissionais
de engenharia e a disponibilidade de dados, este artigo se concentra na
avaliação dos itens 1 (formação de engenheiros em nível menor do que
anteriormente), 4 (formação menor que o desejado), 5 (evolução dos salários), 6
(desemprego entre os engenheiros), 7 (ocupações típicas) e 8 (rotatividade e
diferencial de salários entre admitidos e desligados). A análise combinada
desses indicadores possibilita uma avaliação mais consistente da escassez dos
engenheiros no Brasil. A partir desse diagnóstico, o artigo traz uma proposta
de sistematização do debate a respeito da escassez de engenheiros no país.
OCUPAÇÕES TÉCNICO-CIENTÍFICAS E RENDA PER CAPITA
Antes de entrar especificamente na discussão sobre a escassez de engenheiros no
Brasil, cabe destacar a importância das carreiras técnico-científicas para o
crescimento econômico. A contribuição desta seção é mostrar a relação positiva
entre recursos humanos em ciência e tecnologia e renda per capita em diversos
países. A discussão sobre engenharia é muito maior do que a interna à
corporação, às escolas ou aos profissionais; diz respeito ao desenvolvimento e
ao padrão de desenvolvimento de uma nação.
O Gráfico_1 traz a dispersão para as variáveis PIB per capita em 2008 (em
dólares de 2012) e a porcentagem de Recursos Humanos em Ciência e Tecnologia
(HRST, na sigla em inglês) no total de empregados, segundo a OCDE28. Apesar de
esse indicador incluir outros profissionais além dos engenheiros, é a abertura
mais desagregada possível para comparações internacionais.
Percebe-se uma clara correlação entre as duas variáveis (67%), isto é, quanto
maior o PIB per capita, maior a participação dos profissionais envolvidos em
ciência e tecnologia na força de trabalho. Essa relação positiva não chega a
ser uma surpresa, visto que esses profissionais são fundamentais para o
desenvolvimento tecnológico e absorção de novas tecnologias.
Em adição a essa correlação simples, a Tabela_1 traz um modelo econométrico em
painel, com controle para efeitos fixos. Os dados são para 2007, 2009 e 2011. A
vantagem desse tipo de modelo é que a relação estatística entre as variáveis é
controlada por efeitos específicos aos países que são fixos no tempo. Posto de
outro modo, o foco desse tipo de modelagem está na relação incremental entre as
variáveis (quanto a variação de uma variável guarda relação com a variação da
outra), de forma que a correlação entre as variáveis não é "contaminada" por
esses efeitos específicos. Numa linguagem coloquial, nesse tipo de modelagem
leva-se em conta "a Noruega ser a Noruega", "o Brasil ser o Brasil" e assim por
diante29.

Formalmente,
[/img/revistas/nec/n98/04s1.jpg]
onde PIBperCapitait é a renda per capita do país i no ano t, [/img/revistas/
nec/n98/04s2.jpg] i é o efeito fixo referente ao país30, [/img/revistas/nec/
n98/04s3.jpg] 0 é o intercepto, HRSTité a variável que representa a proporção
dos recursos humanos como profissionais e técnicos de ciência e tecnologia, β1
é o coeficiente linear de interesse e εit é o erro aleatório.
Os resultados mostram que, mesmo quando se controlam os efeitos fixos dos
países, a relação entre PIB per capita e os HRST ainda se mantém positiva. Na
última coluna, foi considerado apenas o HRST de nível superior, a fim de
verificarmos a robustez dos resultados. Novamente, a relação entre as variáveis
se mostrou positiva e significante a 1%.
Esses dois testes estatísticos mostram que o crescimento do PIB per capita
guarda alguma relação com as carreiras científicas e tecnológicas em nível
mundial. Isso significa que o debate sobre o crescimento de longo prazo passa
pelo fortalecimento das ocupações em ciência e tecnologia, entre as quais a
engenharia é parte relevante, devido à importância desses profissionais para o
aumento da produtividade e desenvolvimento e aprendizado tecnológicos.
Assim, mostrada a relevância da engenharia para o desenvolvimento, discutiremos
os sinais propostos por Butz e outros31 e as características do mercado de
trabalho conforme propostas por Nascimento32, elencando hipóteses que indiquem
a escassez de engenheiros e buscando evidências para derrubá-las.
UMA AVALIAÇÃO DOS INDICADORES DE ESCASSEZ DE MÃO DE OBRA DE ENGENHARIA NO
BRASIL
Formação, emprego de engenheiros e PIB
Nesta subseção, discutimos se a oferta de engenheiros é decrescente ao longo do
tempo (indicador 1, da introdução) ou se é menor do que o desejado socialmente
(indicador 4). Naturalmente, reconhece-se que na prática é difícil
operacionalizar o conceito de oferta socialmente desejável de engenheiros. No
entanto, pode-se comparar a evolução da oferta de novos engenheiros (aproximada
pelo número de formados em cursos superiores de engenharia) à evolução do
próprio PIB real (a preços de 2012), tendo por pressuposto uma razão teórica
engenheiros/PIB ideal. Essa comparação, assim como as curvas do total de
concluintes do ensino superior, o pessoal ocupado em engenharia e o total de
empregados formais estão no Gráfico_2.
[/img/revistas/nec/n98/04g02.jpg]
Em primeiro lugar, cabe notar que a oferta de engenheiros certamente não é
decrescente ao longo do tempo, seja pelo critério de oferta de novos
engenheiros, seja pelo critério de equilíbrio de mercado observado (oferta e
demanda) nas ocupações de engenharia. Ambas as séries cresceram durante a
década. Em segundo lugar, a oferta de novos engenheiros não apenas cresce ao
longo do tempo como cresce a taxas bem acima daquelas do próprio PIB real. Com
efeito, o pib real aumentou a uma taxa anualizada média de 3,4% ao ano,
enquanto o total de formados em cursos de engenharia cresceu a uma taxa de 8,7%
ao ano.
Suponha-se uma razão teórica engenheiros/PIB ideal. Nesse caso, mesmo que o
Brasil esteja abaixo dela, a tendência é que esse déficit diminua ao longo do
tempo. Some-se a isso a possibilidade de engenheiros formados que exerçam
outras ocupações virem a ser atraídos novamente para as chamadas ocupações
típicas de engenharia. Sobre esse ponto, Maciente e Araújo33 notam que o
percentual de engenheiros exercendo ocupações típicas era de 29% em 2000 e foi
crescendo ano a ano até alcançar 38% em 2009. Por sua vez, usando dados dos
Censos de 2000 e 2010, Menezes-Filho34 afirma que os percentuais de engenheiros
exercendo ocupações típicas cresceram entre 2000 e 2010 em todas as
engenharias. Entretanto, mesmo aquela com maior proporção de engenheiros
exercendo ocupações típicas (engenharia civil) não chega a ultrapassar os 50%,
ao contrário do observado em outras carreiras, como a carreira médica, na qual
esse percentual é de 80%.
Mesmo que se suponha que essa razão teórica engenheiros/PIB cresça ao longo do
tempo à medida que o país se desenvolve e adensa tecnologicamente sua estrutura
produtiva, ainda assim a taxa de crescimento do pib tem sido muito menor do que
o número de concluintes em engenharia na última década. Por essas razões,
entende-se que o indicador 4 (produção menor do que o desejado socialmente), se
ora existente, tende a se esgotar no longo prazo.
Por fim, cabe comentar que as tendências tanto na formação como no próprio
emprego de engenheiros seguiram a tendência geral observada no Brasil durante a
década de 2000. O processo de crescimento do pib na década de 2000 incorporou
mão de obra no setor formal, de modo que o emprego formal cresceu mais que o
próprio PIB. O emprego em ocupações de engenharia seguiu tendência praticamente
idêntica, crescendo 85% em uma década e totalizando aproximadamente 230 mil
profissionais. Em 2011, o emprego em ocupações de engenharia apresentou
crescimento, representando 0,49% do total de empregados formais da economia
brasileira (em 2000, este percentual era de 0,47%).
Também no que tange à conclusão de curso superior, apesar do forte crescimento
em engenharia comentado anteriormente, esse crescimento não foi relativamente
diferente daquele observado no total de formandos no ensino superior
brasileiro. Cabe lembrar que durante a década ocorreu forte expansão do ensino
superior privado e iniciativas públicas como o ReUni, ProUni, Sisu e a reforma
do FIES. Essas iniciativas, somadas à própria expansão do ensino privado,
ampliaram muito o número de vagas. Além disso, o ProUni estimulou tanto a
ampliação como a ocupação de vagas existentes e, com o FIES35, favoreceu a
permanência dos alunos nos cursos superiores.
Esses resultados se alinham com os encontrados em Pereira, Nascimento e
Araujo36, que projetaram a disponibilidade de engenheiros no Brasil em 2020
utilizando três técnicas de projeção demográfica de tendência: linear (cenário
pessimista), ajuste polinomial (cenário intermediário) e exponencial (cenário
otimista). Segundo suas projeções, as quais partiram da taxa média de
crescimento dos concluintes em cursos de engenharia observada entre 2000 e 2008
(8,7% ao ano), as tendências de taxa de crescimento dos concluintes em
engenharia entre 2000 e 2020 são de 6,53%, 8,46% e 9,49% nos três cenários.
Caso se confirme o cenário intermediário proposto pelos autores, em 2020 o
Brasil formaria cinco vezes mais engenheiros do que em 200037.
Aspectos do mercado de trabalho em engenharia
Nesta seção, a atenção se volta para alguns aspectos do mercado de trabalho.
Genericamente falando, a escassez de profissionais levaria a um aumento de
salário. No caso, um eventual aumento do salário dos engenheiros seria poderoso
indicador de procura por tais profissionais acima da demanda. Com relação ao
total de trabalhadores, o diferencial de salário de um engenheiro - quantas
vezes o salário do engenheiro é superior à média - permaneceu relativamente
estável entre 2003 e 2011, flutuando em torno de 4,5. Porém deve-se lembrar que
durante a década houve ganhos salariais por parte dos trabalhadores menos
qualificados, devido aos aumentos de salário mínimo acima da inflação. Por
isso, quando se comparam os salários dos engenheiros em relação ao total de
trabalhadores com nível superior, nota-se que esse diferencial cresce até 2009,
passando de 1,75 em 2003 para 1,95 em 2009, ou seja, em 2009 um engenheiro
tendia a ganhar o dobro da média das outras carreiras de nível superior. A
partir desse ano, esse diferencial passa a cair, provavelmente refletindo a
ampliação da oferta de novos engenheiros recém-formados. Cabe destacar que essa
série de dados é relativamente curta, mas a mudança na CBO (Classificação
Brasileira de Ocupações) em 2002 prejudica a avaliação dos diferenciais de
salário para anos anteriores.
No que tange às taxas de desemprego (indicador 6), Menezes-Filho38 reporta, a
partir de análise dos Censos de 2000 e 2010, que a taxa de desemprego entre os
engenheiros formados caiu de 4% em 2000 para 2% em 2010. Essa variação de 2
pontos percentuais é baixa em termos absolutos, mas deve-se considerar que a
taxa de desemprego dos engenheiros é historicamente baixa (em 2000 era de 4%),
pois sua formação exige habilidades matemáticas e de abstração que podem ser
exercidas em outras áreas39. Para comparação, a taxa de desemprego da população
em geral caiu de 7,1% em 2000 para 6,7% em 2010, passando por um pico de 12,3%
em 2003.40
Quando se leva em consideração o exercício das chamadas ocupações típicas
(indicador 7), Menezes-Filho calcula que a taxa de profissionais em ocupações
típicas subiu entre 2000 e 2010, situando-se em torno de 38% no último ano.
Mais importante, ainda de acordo com Menezes-Filho, o diferencial de salário41
entre os formados em engenharia que exercem ocupações típicas em relação aos
demais formados em engenharia, que costumava ser negativo em 2000, passou a ser
positivo em 2010. Em outras palavras, em 2000 os engenheiros trabalhando em
ocupações fora das típicas da engenharia tendiam a ganhar mais, situação que se
inverteu em 2010. Por exemplo, atualmente um engenheiro civil envolvido em
obras tende a ganhar 10% a mais do que ganharia se fosse exercer uma ocupação
fora daquelas consideradas típicas de engenharia.
[/img/revistas/nec/n98/04t02.jpg]
Nascimento analisa a questão da rotatividade da mão de obra dos profissionais
em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (os chamados trabalhadores
STEM, na sigla em inglês - conceito muito semelhante ao HRST analisado
anteriormente), conjugada ao comportamento da diferença de salários entre
admitidos e desligados na indústria e na construção civil a partir dos
microdados do CAGED/TEM (indicador 8). Espera-se que o salário dos admitidos
seja menor do que o dos desligados, pois geralmente se substituem profissionais
mais experientes por mais jovens. Quanto à rotatividade, embora reconheça que
há diversas formas de cálculo, o autor utiliza a mais simples, a soma de
admitidos e desligados em determinado período dividida pelo estoque de
trabalhadores - nesse caso, fornecido pela RAIS no dia 31 de dezembro do ano
anterior sob análise.
Nascimento realiza sua análise de janeiro de 2003 a maio de 2011 e, em
aparentemente metade dos meses da série, a situação é de estabilidade tanto da
taxa de rotatividade (por volta de 4%) como da diferença salarial entre
admitidos e desligados (por volta de 15%). O autor identifica três períodos de
aquecimento: entre o primeiro trimestre de 2004 e o segundo trimestre de 2005;
de meados de 2007 até o fim de 2008; e do início de 2010 até o final da série.
No primeiro período, a diferença de salário entre trabalhadores STEM desligados
e admitidos caiu, mas a taxa de rotatividade não se alterou. Nos outros
períodos, houve elevação na rotatividade acompanhada de queda na diferença
entre demitidos e admitidos, mas não houve nenhum período em que ambas as taxas
estivessem acima de um desvio padrão de suas médias históricas durante três
meses consecutivos - parâmetro empregado pelo autor para a definição de
"escassez". Em outras palavras, o aquecimento não se transformou em escassez de
acordo com esses indicadores. Nas próprias palavras do autor:
Não fosse a crise desencadeada no último trimestre de 2008, é
possível que a tendência verificada a partir de meados de 2007
tivesse prosseguido até a atualidade, chegando eventualmente a um
cenário de escassez generalizada. Embora seja difícil conjecturar
acerca do que não ocorreu, a expressiva expansão da formação em nível
superior nos últimos anos, particularmente de engenheiros e
tecnólogos [...] faz supor que tal tendência poderia vir a se
reverter e que essa perspectiva não se concretizaria, mesmo sem
crise42.
Balanço dos indicadores de escassez
Com base no exposto, temos o seguinte balanço dos indicadores de escassez,
exposto na Tabela_3.
A análise conjunta de todos esses indicadores quantitativos de mercado de
trabalho leva a concluir que houve alguns momentos de pressão de demanda sobre
os engenheiros no Brasil ao longo da década de 2000, mas essas pressões se
dissiparam nos últimos anos com a entrada de novos profissionais no mercado, e
essa é a tendência para os próximos anos. Com efeito, o rápido crescimento do
número de vagas e alunos em cursos de engenharia, bem como do número de recém-
formados, sinaliza que um eventual déficit de mão de obra em engenharia seria
resolvido pela absorção dos novos engenheiros pelo mercado de trabalho.
Afinal, qual o debate? Uma proposta de sistematização
Excluída a possibilidade de "apagão" generalizado de engenheiros, qual seria o
fundo do debate? A discussão geral quantitativa para o Brasil esconde algumas
dimensões importantes. Tais dimensões foram percebidas em entrevistas com
dirigentes empresariais, particularmente de PD&E, quando procuramos
compreender quais as razões que sustentavam a queixa genérica de falta de
engenheiros. Tais entrevistas foram feitas aproveitando projetos diversos
realizados pelo Observatório da Inovação e Competitividade da USP, envolvendo
trinta empresas de setores diversos ao longo de cinco anos.
A primeira dimensão é a qualidade da formação dos novos engenheiros. Segundo
Gusso e Nascimento43, mais de 40% dos engenheiros formados são oriundos de
cursos de engenharia conceitos 1 e 2 (baixo desempenho) do Exame Nacional de
Desempenho dos Estudantes (Enade). Em contraste, segundo os mesmos autores, não
mais do que 30% dos alunos se formam em cursos tidos como melhores, sejam esses
os que obtêm conceitos 4 ou 5 no Enade, sejam os cursos ministrados em
instituições mais reputadas ou nas que exibem indicadores que as caracterizem,
na taxonomia convencionada, como universidades de pesquisa e doutorado44. Porém
há de se colocar essa questão em perspectiva mais ampla. Para formar
engenheiros de qualidade, é preciso que os ingressantes tenham uma base sólida,
sobretudo em matemática e ciências. E o desempenho do Brasil em exames como o
Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, em sua sigla em inglês),
apesar de alguma evolução entre 2000 e 2009, ainda é ruim45.
A segunda dimensão é geracional, hipótese surgida após entrevistas realizadas
com gestores de P&D e de engenharia de algumas empresas, que afirmaram
sentir falta de engenheiros experientes. Adicionalmente, Maciente e Araújo
(2011) mostram, com dados da RAIS, que em 2009 a participação no mercado de
trabalho de profissionais técnico-científicos com idade entre 35 e 50 anos
caíra de forma expressiva em relação a 2000. Uma análise dos dados dos censos
demográficos do IBGE deixa isso mais evidente, além de dar uma dimensão mais
precisa do problema. Se em termos agregados pode não faltar engenheiros, certo
desequilíbrio na pirâmide etária dessa categoria profissional parece acarretar
uma escassez relativa de pessoal em meio de carreira, capaz de assumir posições
de gerência e liderança (Gráficos_3, 4, 5 e 6).
[/img/revistas/nec/n98/04g03.jpg]
[/img/revistas/nec/n98/04g04.jpg]
[/img/revistas/nec/n98/04g05.jpg]
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Ao longo da década de 2000, a faixa de 35 a 59 anos perdeu participação
relativa na pirâmide etária, enquanto o topo e principalmente a base da
pirâmide se alargaram. Como possíveis razões para isso, destaca-se a explicação
do hiato geracional: como os anos 1980 e 1990 foram de crescimento econômico
modesto, além da paralisação dos grandes projetos de infraestrutura, os cursos
de engenharia perderam atratividade e, ainda, muitos formados provavelmente
tenham se envolvido em atividades não típicas. Quando a economia passou a
crescer nos anos 2000 e a demanda por engenheiros voltou a aumentar, não havia
no mercado oferta suficiente de engenheiros mais experientes. Assim, o déficit
de engenheiros percebido pelas empresas pode não ser exatamente um déficit de
quantidade de engenheiros, e sim uma dificuldade de encontrar engenheiros mais
experientes (entre 35 e 59 anos) para liderar obras e projetos.
Esse fenômeno pode ser evidenciado na comparação das pirâmides etárias entre os
censos de 1970 a 2010. A vantagem de trabalhar com o Censo é que se pode
observar não apenas a pirâmide etária dos engenheiros em suas ocupações
típicas, mas também a pirâmide dos profissionais formados em engenharia -
afinal, pelo menos em teoria, uma possível solução para esse hiato geracional
poderia ser atrair os engenheiros em ocupações não típicas. O problema é que
ambas as pirâmides sofreram a mesma dinâmica: aumento relativo na base e no
topo, e perda relativa nas faixas intermediárias (Gráficos_3_a_6), ou seja,
como mencionado, o crescimento modesto dos anos 1980 e 1990 não apenas afastou
os engenheiros das ocupações típicas, como também afetou a atratividade dos
cursos de engenharia como opção. No entanto, com a retomada do crescimento
econômico e a expansão do ensino, a base da pirâmide etária se expandiu devido
aos engenheiros mais jovens.
Sem embargo, as pirâmides etárias nos Gráficos_4_a_6 evidenciam um
envelhecimento gradual tanto daqueles formados em engenharia como dos que
exercem as ocupações declaradas como típicas de engenharia. Continuando uma
tendência dos anos 1970, em 1980 houve o pico de formação dos engenheiros mais
jovens: mais de 30% dos engenheiros em CBOs de engenharia tinham entre 25 e 29
anos. A partir daí, essa geração foi envelhecendo, e nos dois censos seguintes
- 1991 e 2000 - é ela que vai continuar a ser a parcela etária mais importante
da distribuição, pois não houve reposição na base. Já na década de 2000, o
crescimento econômico aumentou a atratividade dos cursos de engenharia e a base
voltou a crescer. Porém as faixas intermediárias entre 35 e 49, que deveriam
ter se formado nas décadas de 1980 e 1990, formam atualmente um "vale" entre os
maiores de 50 anos e menores de 35. Em um cenário de expansão da atividade
produtiva, e da construção civil inclusive, a necessidade de profissionais já
habituados ao ritmo e ao conhecimento do trabalho se faz essencial, assim como
a capacidade de liderar e gerenciar projetos, a julgar pelos nossos
entrevistados.
Outra forma de retratar a questão geracional é acompanhar a evolução dos
engenheiros em ocupações típicas e não típicas ao longo do tempo, exposta no
Gráfico_7.
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Como se pode observar, até a década de 1980 os formados em engenharia com CBO
de engenharia eram maioria. Entretanto, nos anos seguintes a proporção de
formados em engenharia que possuem outras ocupações cresce vertiginosamente.
Uma vez que, como observado nas pirâmides etárias, tanto aqueles com CBO
típicos de engenharia como os que estão em outras ocupações possuem um mesmo
comportamento, o que sinaliza certa "fuga" das ocupações mais tradicionais de
engenharia. Tal fato pode refletir fatores diversos, difíceis de inferir sem
uma aprofundada pesquisa de campo: a) a ampliação do escopo de atividades que
um engenheiro pode desempenhar; b) decadência das atividades mais tradicionais,
devido ao baixo crescimento econômico; c) crescimento da importância de
serviços, grandes demandadores de engenheiros (para projeto de produtos,
projeto de sistemas, planejamento etc.), que tendem a registrar engenheiros com
outras denominações de CBO (analista de sistema, por exemplo).
A terceira dimensão diz respeito ao recorte das especialidades. Todas as
evidências até agora se referiram ao total de engenheiros, sem levar em conta
as habilidades específicas. Pompermayer e outros50 indicam que há carências em
especialidades como engenharia naval e de petróleo e minas, por exemplo. Por
outro lado, em setores como o aeronáutico não parece haver problemas
generalizados, uma vez que a Embraer mantém curso de especialização que atrai
bons engenheiros recém-formados de todo o Brasil, além de atender à demanda de
engenheiros da empresa, conforme entrevista com responsáveis por RH, manufatura
e desenvolvimento tecnológico da empresa.
A quarta dimensão é regional. A concentração regional de formandos em
engenharia é tradicional e reflete a distribuição dos bons cursos pelo país.
Historicamente, muitos estudantes se mudam para estudar nas universidades,
centros universitários e faculdades consideradas melhores por algum critério.
Também é natural a concentração regional do emprego em engenharia nas áreas
mais densamente industrializadas e, mais recentemente, nas áreas de exploração
de petróleo e gás. Em teoria, a migração poderia resolver o problema, mas é de
se esperar que o ajuste do mercado de trabalho via migração demore um pouco
para ocorrer. Enquanto esse ajuste não ocorre, alguns desequilíbrios podem
acontecer.
Sobre esse ponto, Nascimento51 repetiu a análise de taxas de rotatividade e
diferença de salário entre desligados e admitidos para oito regiões
metropolitanas, desta vez utilizando ocupações relacionadas aos fatores
engenharia e design52. Por exemplo, esse autor reporta que na Região
Metropolitana do Recife a partir do primeiro trimestre de 2010 os salários dos
admitidos chegaram a superar, em alguns dos meses, aqueles dos desligados, com
elevação da taxa de rotatividade. Esse resultado pode indicar alguma escassez
de profissionais naquela região, ainda que o mesmo autor, em outro artigo53,
não tenha reportado tal escassez para o país como um todo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em suma, este artigo demonstrou que não há um risco de "apagão" generalizado de
mão de obra de engenharia no Brasil, ainda que se reconheçam alguns sinais de
pressões de curto prazo no mercado de trabalho. Em termos quantitativos, essas
pressões tendem a ser resolvidas com a ampliação da oferta dos novos
engenheiros, uma vez que os cursos de engenharia voltaram a atrair os alunos.
Porém no artigo também se apontaram quatro dimensões que podem explicar a
percepção de alguns agentes econômicos sobre escassez de mão de obra em
engenharia: (i) qualidade dos engenheiros formados, uma vez que a evolução na
quantidade não foi acompanhada pela mesma evolução na qualidade; (ii) hiato
geracional, o que dificulta a contratação de profissionais experientes para
liderar projetos e obras; (iii) déficits em competências específicas; (iv)
déficits em algumas regiões.
Queremos, contudo, deixar claro que a não existência de gargalos não significa
absolutamente que não haja necessidade de aumentar os investimentos na
ampliação e na melhoria de qualidade do ensino de engenharia. Como mostramos no
início do texto, a engenharia está intimamente ligada ao desenvolvimento
econômico e à inovação e o Brasil apresenta baixo índice de engenheiros por
habitante ou por formados no ensino superior. Ademais, a formação em engenharia
capacita a pessoa a inúmeras atividades, dentro ou fora daquelas chamadas
típicas. Ao contrário do que alguns dizem, não consideramos problema haver
engenheiros trabalhando em bancos, em empresas de serviço, de consultoria, na
produção de pesquisas e textos sobre engenheiros etc.: o problema maior é não
ter engenheiros e ter uma economia que pouco necessite deles.
[1] Butz, W. e outros. "Is there a shortage of scientists and engineers? How
would we know?" Rand Science & Technology Issue Paper. Santa Monica-CA:
Rand Corporation, 2003.
[2] "Entre o pleno emprego e a falta de qualificação". Brasil Econômico, 25/05/
2011, <http://www.brasileconomico.com.br/noticias/entreo-pleno-emprego-e-a-
falta-de-qualificacao_102155.html>, acessado em 20/10/2013. "Lula: Brasil vive
quase pleno emprego". O Globo, 25/10/2010,
<http://www.brasileconomico.com.br/noticias/entre.o.pleno.emprego.e.a.falta.de.
qualificacao__102155.html>, acessado em 20/10/2013. "Brasil está próximo de
atingir o pleno emprego, segundo economistas". Portal ig Economia, 24/06/2010,
<http://economia.ig.com.br/pais.esta.proximo.de.atingir.o.pleno.emprego.segundo
.economistas/n1237678405637.html
>, acessado em 20/10/2013. "'Pleno emprego' aparece no radar de 2010". Gazeta
do Povo, 22/11/2009, <http://www.gazetadopovo.com.br/economia/
conteudo.phtml?tl=1&id=946807_&tit=Plenoemprego.aparece.no.radar.de.
2010>, acessado em 20/10/2013.
[3] "Há vagas. Falta mão de obra". O Globo, 25/04/2013, <http://
oglobo.globo.com/economia/ha.vagas.falta.mao.de.obra.8217386>, acessado em 20/
10/2013. "Dificuldade de encontrar mão de obra qualificada afeta economia
brasileira". Jornal Nacional, 13/08/2012, <http://_g1.globo.com/
jornal.nacional/noticia/2012/08/dificuldade.de.encontrar.mao.de.obra
.qualificada.afeta.economia.brasileira._html>, acessado em 20/10/2013. "O risco
do apagão da mão de obra". Revista IstoÉ, 29/12/2010, <http://www.istoe.com.br/
reportagens/117227_O+RISCO+DO+APAGAO+DA+MAO_+DE+_OBRA>, acessado em 20/10/2013.
[4] "Especialistas alertam para apagão de mão de obra em alguns setores".
Jornal Nacional, edição de 18/02/2011, <http://g1.globo.com/jornal.nacional/
noticia/2011/02/especialistas.alertam.para._apagao.de.mao.de.obra_.
em.algum.setores.html>, acessado em 20/10/2013.
[5] "FGV: há um apagão na construção civil". O Globo, 05/04/2011, http://
oglobo.globo.com/economia/fgv.ha.um.apagao.na.construcao.civil.2801024,
acessado em 03/04/2014. "Falta de mão de obra dificulta expansão da construção
civil". Jornal do Commercio, 26/01/2011, http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.
php?codn=53051, acessado em 03/04/2014
[6] "Empresas enfrentam falta de mão de obra em TI". O Globo, 13/12/2012,
<http://oglobo.globo.com/tecnologia/empresas.enfrentam.falta.de.mao.de.obra.
emti.7040812>, acessado em 20/10/2013.
[7] "Setor de petróleo enfrenta falta de mão de obra especializada, diz
economista". Agência Brasil, 18/08/2012, <http://agenciabrasil.ebc.com.br/
noticia/2012.08.18/setor.de.petroleo.enfrenta.
falta.de.mao.de.obra.especializada.diz._economista>.
[8] "Falta de engenheiros faz com que profissão esteja em alta no Brasil". O
Globo, 11/03/2013, <http://g1.globo.com/jornal.hoje/noticia/2013/03/
falta.de.engenheiros.faz.com.que._profissao.esteja.em.alta.no.brasil._html>,
acessado em 20/10/2013. "Apagão de talentos: a falta de engenheiros". Época
Negócios, 09/2011 <http://colunas.revistaepocanegocios.globo.com/
prazodevalidade/2011/09/09/_apagao.de.talentos.a.falta.de.engenheiros/>,
acessado em 20/10/2013. "Técnicos e engenheiros são profissões com mais
escassez. Folha de S.Paulo, 19/05/2011, <http://classificados.folha.uol.com.br/
empregos/918107.tecnicos.e.engenheiros.
sao.profissoes.com.mais.escassez.shtml>, acessado em 20/10/2013. "Escassez de
engenheiros". Estadao.com, 20/07/2010, <http://www.estadao.com.br/noticias/
impresso,escassez-de-engenheiros,583492,0.htm>, acessado em 20/10/2013.
[9] Barbosa Filho, F. H.; Pessôa, S. A. e Veloso, F. A. "Evolução da
produtividade total dos fatores na economia brasileira com ênfase no capital
humano - 1992-2007". Revista Brasileira de Economia, vol. 64, n-º 2, jun. 2010.
[10] Maciente, A. N. e Araújo, T. C. "A demanda por engenheiros e profissionais
afins no mercado de trabalho formal". Radar: tecnologia, produção e comércio
exterior, vol. 12, fev. 2011, pp. 43-54, Ipea.
[11] Saboia, J., Salm, C. "Tendências da qualificação da força de trabalho".
In: Kupfer, D.; Laplane, M. e Hiratuka, C. (eds.). Perspectivas do investimento
no Brasil: temas transversais. Rio de Janeiro: Synergia, vol. 4, pp. 343-400,
2010.
[12] Pompermayer, F. M. e outros. "Potenciais gargalos e prováveis caminhos de
ajustes no mundo do trabalho no Brasil nos próximos anos". Radar: tecnologia,
produção e comércio exterior. vol. 12, fev. 2011, pp. 7-14, Ipea.
[13] "Apagão de mão de obra", por Claudio Moura Castro, Veja, 16/11/2011, p.
24.
[14] "Pela primeira vez, engenharia tem mais calouros do que direito". Folha de
S.Paulo, 14/04/2013, <http://www1.folha.uol.com.br/educacao/1262233-pela-
primeira-vez-engenharia-tem-mais-calouros-do-que-direito.shtml>, acessado em
28/08/2013. "Brasil busca engenheiros. Vestibulandos candidatam-se". Veja, 13/
11/2011, <http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/aquecimento-da-economia-
atrai-jovens-para-a-engenharia>, acessado em 28/08/2013.
[15] "A falta que bons engenheiros fazem". Exame.com, 03/09/2012, <http://
exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1023/noticias/a-falta-que-eles-fazem>,
acessado em 28/08/2013. "Brasil sente falta de engenheiro que seja líder e fale
inglês". Folha de S.Paulo, 09/06/2013, <http://classificados.folha.uol.com.br/
empregos/2013/06/1291405-brasil-sente-falta-de-engenheiro-que-seja-lider-e-
fale-ingles.shtml>, acessado em 28/08/2013.
[16] "Formação em engenharia no Brasil: comparação internacional".
Engenhariadata, 05/12/2011, <http://engenhariadata.com.br/a
-formacao-em-engenharia-no-brasil-comparacao-_internacional/
>, acessado em 28/08/2013.
[17] Vide o viés de queda que vem sendo observado pelo menos desde o segundo
trimestre de 2013 nas estimativas de crescimento reportadas semanalmente pelo
Boletim Focus, do Banco Central.
[18] "Depois de médicos, Dilma estuda importar engenheiros". Exame.com, 11/08/
2013, <http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/por-prefeitos-dilma-estuda-
importar>, acessado em 28/08/2013.
[19] "Depois de médicos, Dilma estuda importar engenheiros." Exame.com, 11/08/
2013 <http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/por-prefeitos-dilma-estuda-
importar>, acessado em 02/04/2014.
[20] "Procuram-se engenheiros e arquitetos no Nordeste". Você S/A, 08/2013
<http://exame.abril.com.br/revista-voce-sa/edicoes/183/noticias/canteiro-
permanente-de-obras>, acessado em 28/08/2013.
[21] Hirschman, A. O. The strategy of economic development. New Haven: Yale
University Press, 1958.
[22] Butz e outros, op. cit., p. 1.
[23] Cabe notar que Butz e outros (2003) lançam mão dessa estrutura para
analisar um problema de pesquisa semelhante ao aqui apresentado, ou seja, a
existência ou não de escassez de cientistas e engenheiros nos Estados Unidos a
partir de dados de "produção" desses profissionais entre os anos 1970 e 1990.
[24] Ver, por exemplo, Arrow, K. J., Capron, W. M. "Dynamic shortages and price
rises: the engineer-scientist case". The Quarter Journal of Economics, vol. 73,
n-º 2, pp. 292-308, 1959, e Freeman, R. B. "Is a great labor
shortage coming? Replacement demand in the global economy". In: Holzer, H. J. e
Nightingale, D. S. (ed). Reshaping the American workforce in a changing
economy. Washington, D. C.: The Urban Institute Press, 2007.
[25] Autor, D. H. "The economics of labor market intermediation: an analytic
framework". NBER, set. 2008 (Working Paper Series, n-º 14.348); Junankar, P. N. Was there a skills shortage in Australia? Bonn: IZA,
dez. 2009 (Texto para Discussão, n-º 4.651).
[26] Nascimento, P. A. M. M. "Há escassez generalizada de profissionais de
carreiras técnico-científicas no Brasil? Uma análise a partir de dados do
CAGED". Mercado de trabalho: conjuntura e análise, vol. 49, nov. 2011, pp. 19-
28, Ipea.
[27] As ocupações típicas de engenharia são aqui definidas como aquelas que
estão dispostas explicitamente na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações)
com o vocábulo engenharia, mais os professores de ensino superior.
Evidentemente, há muitas ocupações de engenheiros que não recebem o vocábulo
engenharia (como analista, técnico etc.); o recurso à categoria ocupações
típicas, apesar de distorções inerentes (é conservadora), torna viável a
manipulação de grandes bases de dados, como a RAIS/MTE ou o Censo. Ver no
Apêndice como foram delimitadas, neste trabalho, as ocupações aqui consideradas
típicas das engenharias.
[28] Esses profissionais são definidos pela OCDE como Recursos Humanos em
Ciência e Tecnologia (Human Resources in Science and Technology). São
profissionais empregados em ciência e tecnologia cujas atividades geralmente
demandam alta qualificação e o potencial de inovação é alto. São profissões do
grupo 2 e 3 da ISCO (International Standard Classification of Occupations), o
que inclui: físicos, matemáticos, engenheiros, cientistas da vida e
profissionais da saúde, profissionais de ensino, e outros profissionais (grupo
2); e profissionais das mesmas áreas do grupo 2, só que de nível educacional
intermediário. Para mais informações, ver <http://www.oecd.ilibrary.org/sites/
sti_scoreboard.2011.en/02/03/index.html?_contentType=/ns/Chapter,/ns/
StatisticalPublication&itemId=/content/chapter/st
i_scoreboard.2011.14.en&containerItemId=/content/serial/
20725345&accessItem_Ids=_&mimeType=text/html>, acessado em 13/08/2013.
Essa definição é semelhante à definição de Pessoal Ocupado Técnico-Científico
empregada em Nascimento (op. cit., 2011) e em Araújo, B. C., Cavalcante, L. R.
e Alves, P. "Variáveis proxy para os gastos empresariais em inovação com base
no pessoal ocupado técnico-científico disponível na Relação Anual de
Informações Sociais (RAIS)". Radar: Tecnologia, Produção e Comércio Exterior,
n-º 5, dez. 2009, pp. 16-21., Ipea, ainda que neste último
artigo os autores só tenham considerado profissionais de nível superior.
[29] Sobre as técnicas de modelos em painel com efeitos fixos, vide Wolldridge,
J. Econometric analysis of cross section and panel data. Cambridge: MIT Press,
2002.
[30] Como esses efeitos fixos são invariantes no tempo, omite-se o subscrito t.
[31] Op. cit., 2003.
[32] Op. cit., 2011.
[33] Op. cit.
[34] Menezes-Filho, N. "Apagão de mão de obra qualificada? As profissões e o
mercado de trabalho brasileiro entre 2000 e 2010". BraIn Investimento e
Negócios, São Paulo, 2012.
[35] O ReUni é o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das
Universidades Federais, que visa à expansão das universidades federais. Já por
meio do ProUni, as instituições privadas podem conceder bolsas de estudo a
alunos carentes em troca de renúncia fiscal de impostos federais. O FIES é o
programa de financiamento estudantil, passou por uma reformulação em 2010 e
atualmente os juros do empréstimo são de 3,4% a.a., portanto, abaixo da
inflação. Essa mudança levou a um rápido crescimento a partir de 2011, e entre
2011 e 2012 o número de novos inscritos passou de 153 mil para 368 mil. Ao
todo, são financiados mais de 890 mil estudantes. O Sistema de Seleção
Unificada (Sisu) baseia-se na nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Isso permite que um aluno pleiteie vagas em universidades por todo o país,
reduzindo assim a ociosidade.
[36] Pereira, R. H. M.; Nascimento, P. A. M. M. e Araújo, T. C. Projeções de
mão de obra qualificada no Brasil: uma proposta inicial com cenários para a
disponibilidade de engenheiros até 2020. Brasília: Ipea, 2011 (Texto para
Discussão, n-º 1.663).
[37] Entretanto, há de se considerar que a oferta de engenheiros não é afetada
apenas pelo número de formados, mas também pelas tendências demográficas na
pirâmide etária e fatores como migração (entre países e entre ocupações, como a
atração dos engenheiros de volta para ocupações típicas) e aposentadoria.
[38] Op. cit.
[39] Pompermayer e outros, op. cit.
[40] De acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE.
[41] Nesse caso, os diferenciais de salário foram calculados a partir de uma
modelagem econométrica para uma equação de salário (que também contém como
variáveis explicativas idade e gênero, por exemplo), com uma variável dummy
indicando se o indivíduo exerce uma ocupação típica ou não.
[42] Nascimento, op. cit., p. 26.
[43] Gusso, D. A. e Nascimento, P. A. M. M. A formação de engenheiros e pessoal
técnico
-
científico no Brasil entre 2001 e 2012. Brasília: Ipea, no prelo.
[44] É fato que o Enade apresenta distorções para uma análise mais precisa,
pelo boicote de determinadas universidades. De qualquer maneira, tais
distorções pouco incidem sobre a análise geral aqui feita.
[45] A respeito do desempenho brasileiro no Pisa entre 2000 e 2009, ver Soares
e Nascimento Soares, S. S. D. e Nascimento, P. A. M. M. "Evolução do desempenho
cognitivo dos jovens brasileiros no Pisa". Cadernos de Pesquisa, vol. 42, n-º
145, pp. 68-87, jan./abr. 2012.
[46] A quantidade de pessoas que declarava possuir diploma de nível superior em
algum curso de engenharia e que tinha uma ocupação era de 566 mil no Censo
Demográfico de 2000 e de 930 mil no Censo Demográfico de 2010. Em 2000, 133 mil
trabalhavam em ocupações típicas das engenharias (aproximadamente 23% do total
com diploma na área), enquanto em 2010 eram cerca de 240 mil (26%). Esses
percentuais são distintos dos apresentados por Maciente e Araujo (op. cit.,
2011) e pelos mesmos autores em "A demanda por engenheiros e profissionais
afins no mercado de trabalho formal" (Texto para Discussão s/n. Brasília: Ipea,
no prelo), porque há diferenças entre os cursos e entre as ocupações
consideradas neste e naqueles trabalhos. Aqui se buscou um recorte mais
restritivo; os autores citados expandem sua análise para, além de engenheiros,
incluir "profissionais afins", buscando identificar ocupações que sejam típicas
de todos os cursos da grande área de engenharia, produção e construção. Ver no
Apêndice deste texto a estratégia utilizada para a delimitação, nos censos
demográficos de 1970 a 2010, dos cursos e das ocupações típicos das
engenharias.
[47] Em 1970, cerca de 72 mil das pessoas que se declararam ao Censo
Demográfico daquele ano como ocupadas afirmavam possuir diploma de nível
superior em alguma engenharia. Dessas, 46 mil (64%) trabalhavam em ocupações
típicas e 26 mil (36%) em outras ocupações que não as típicas. Em 1980, o Censo
Demográfico apontava um universo de aproximadamente 131 mil pessoas com diploma
em engenharia e que declaravam estar ocupadas. Trabalhavam em ocupações típicas
77 mil delas (59%), enquanto 54 mil (41%) tinham outras ocupações.
[48] Em 1980, cerca de 131 mil das pessoas que se declararam ao Censo
Demográfico daquele ano como ocupadas afirmavam possuir diploma de nível
superior em alguma engenharia. Dessas, 77 mil (59%) trabalhavam em ocupações
típicas e 54 mil (41%) em outras ocupações que não as típicas. Em 1991, o Censo
Demográfico apontava um universo de aproximadamente 380 mil pessoas com diploma
em engenharia e que declaravam estar ocupadas. Trabalhavam em ocupações típicas
150 mil delas (39%), enquanto 230 mil (61%) tinham outras ocupações.
[49] Em 1991, cerca de 380 mil das pessoas que se declararam ao Censo
Demográfico daquele ano como ocupadas afirmavam possuir diploma de nível
superior em alguma engenharia. Dessas, 150 mil (39%) trabalhavam em ocupações
típicas e 230 mil (61%) em outras ocupações que não as típicas. Em 2000, 133
mil trabalhavam em ocupações típicas das engenharias (aproximadamente 23% do
total com diploma na área), enquanto em 2010 eram cerca de 240 mil (26%).
[50] Op. cit., 2011.
[51] Nascimento, P. A. M. M. "Demanda por trabalho qualificado em design e
engenharia nas oito maiores regiões metropolitanas do Brasil". Radar:
Tecnologia, Produção e Comércio Exterior, n-º 23, dez. 2012, pp. 37-56, Ipea.
[52] O conceito de ocupações relacionadas a competências é uma correspondência
entre a Classificação Brasileira de Ocupações e a competências cognitivas
específicas, desenvolvida em Maciente (2012, 2013).
[53] Nascimento, op. cit., 2011.
APÊNDICE
Classificações usadas para compor as ocupações típicas de engenharia e os
cursos considerados como de engenharia
Este trabalho usa dados dos censos demográficos de 1970 a 2010 para as
principais análises que faz sobre cursos e ocupações das engenharias. Este
Apêndice visa esclarecer as variáveis dos censos demográficos efetivamente
utilizadas. No censo de 1970 usamos a variável "Espécie de Curso Concluído",
havendo ali a categoria "Engenharia". No caso das ocupações típicas, há a
variável "Ocupação Principal", contando com a categoria "Engenheiros". No censo
de 1980, para a ocupação, temos uma variável com o mesmo nome e categoria do
censo anterior. No caso dos cursos de engenharia, há duas categorias:
"Engenharia" e "Eletricidade". No censo de 1991 a ocupação era definida somente
com a categoria "Engenheiros". Para os cursos, foram prospectados todos os que
traziam em suas denominações o termo "Engenharia", mesma estratégia usada para
o ano de 2000. Para 2010, foram filtrados, dentro dos cursos da área de
engenharia, produção e construção, os que seriam mais atinentes às engenharias.
As ocupações consideradas típicas em 2000 e em 2010 estão enumeradas na Tabela
5. Já a Tabela_4 traz os cursos de engenharia prospectados nos censos
demográficos de 1991, 2000 e 2010. Para cursos e ocupações dos anos não
enumerados nas Tabelas_4 e 5, ver as observações dos parágrafos anteriores
deste Apêndice.