Natureza e sociedade: disputas em torno do cultivo da paisagem em Itambacuri
O grande parque, coberto de explendida vegetação, semelhava uma
floresta, cujos exemplares, em promiscuidade, não eram indicados
por uma placa, uma etiqueta, um simples signal que os fizesse
conhecidos. Tudo muito agradável à vista, mas, scientificamente,
em estado deploravel. Isto foi declarado por uma comissão nomeada
pelo governo antes da minha posse.
JOÃO BARBOSA RODRIGUES, 1921-1922
Introdução
Esta reflexão se volta para um trecho ainda bastante intacto de Mata Atlântica
que acolhia (e acolhe hoje) populações Jê, ponto de partida das expedições
naturalistas que convergiram para o Brasil durante o Primeiro Reinado, rumo à
região fronteiriça das províncias de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia. O
texto em epígrafe, uma descrição de João Barbosa Rodrigues sobre a situação do
Jardim Botânico do Rio de Janeiro quase um século depois da sua criação, que
data de 1808, serve de guia a uma visita aos Jardins Botânicos imaginados pelos
viajantes do período joanino: uma pequena mostra da Mata Atlântica original e
as promessas de uma ciência em devir. Busca-se inicialmente acompanhar o
surgimento dos Jardins Botânicos criados no ambiente de clima ameno e mata
virgem exuberante, assim como observar as condições de produção de tratados
científico-políticos viabilizados por estas expedições. Tal exercício nos
permite refletir sobre a ciência natural em ação, sendo que o conceito de
Jardim Botânico referido à produção do conhecimento científico no século XIX
sinaliza, para além do espaço de reprodução artificial das espécies da flora e
da fauna nas instituições das grandes cidades, as próprias expedições
científicas às florestas tropicais. Em um momento em que os museus de história
natural se encontravam em fase preliminar de institucionalização no Brasil,1
serão consideradas como próprias dos Jardins Botânicos as técnicas e as
práticas que viabilizaram as expedições dos naturalistas tendo em vista a
montagem de coleções de história natural; os pontos de encontro de cientistas e
técnicos; a construção e a troca de consensos entre especialistas, levando-se
em conta que estes foram espaços de produção da ciência moderna onde se
descreveu conjuntamente natureza e sociedade.
Para tanto, focaliza-se em um primeiro momento as condições de produção do
conhecimento da história natural praticada no Brasil por cientistas europeus na
primeira metade do século XIX. Em destaque, o grupo de naturalistas que
freqüentou a Fazenda da Mandioca, propriedade do cônsul da Rússia no Brasil, G.
I. Langsdorff - tomada na análise como um laboratório científico de onde
emergiram debates e alguns consensos sobre a natureza e as populações da
América, como também sobre as condições de adaptabilidade do colono europeu, em
um esforço inédito, e em alguns casos inigualável, de classificação dos
recursos não-humanos da fauna e da flora da Mata Atlântica.
A segunda parte do artigo destaca o cenário de configuração dos aldeamentos
indígenas e das colônias de imigrantes que se implantaram na década de 1840 na
região focalizada. Interessa-nos especialmente acompanhar: 1) em que termos; 2)
naquele momento particular; e 3) falando diretamente do local, formularam-se as
noções de natureza/sociedade mobilizadas no projeto de construção e manutenção
dos aldeamentos indígenas.
O mal-estar de Guido Marlière
Iniciamos a jornada com o relato de próprio punho de Guido Marlière, militar
francês naturalizado no Brasil, que atuava em Minas Gerais a serviço do governo
do Império logo depois da chegada da Corte portuguesa. Sua narrativa é o ponto
de convergência de diferentes inscrições relativas às relações entre Natureza e
Sociedade na primeira metade do século XIX. O relato de Marlière configura-se
como o mais próximo tanto das populações identificadas como os Botocudo na
Carta Régia de 1808, que declarou guerra às populações Jê dos Campos de
Guarapuava e Goitacases, como também das viagens científicas que se seguiram à
declaração do Brasil como Reino Unido ao de Portugal (1816). Marlière
acompanhou de perto as práticas missionárias dos capuchinhos que atuaram entre
os Coroados e Puri ao norte da província do Rio de Janeiro.2 Da mesma forma,
entrevemos nas narrativas do militar francês a chegada das primeiras expedições
de naturalistas nos Campos de Goitacases e nelas o cuidado com a exatidão das
descrições, exigência da ciência praticada em campo, que faz de Marlière
importante fonte de referência para naturalistas das diferentes nações
européias que freqüentaram a Mata Atlântica no período, que recorriam a ele
para conferir dados coletados sobre população, fauna e flora locais.3
Na década de 1820, pouco antes de assumir o posto de Diretor Geral dos Índios
da Capitania de Minas Gerais, Guido Marlière se dava conta da estranha condição
de modernidade de seu tempo, quando na região ainda se cultivava a caça aos
índios ("como onças", dizia em uma passagem o militar) no rio Doce e Mucuri, e
também no Jequitinhonha, mais ao norte da província -, prática justificada pela
condição de gentilidade da população nativa:
Os índios tinham um tribunal [a Junta Militar da Conquista e
Civilização dos Índios da Província de Minas Gerais] que os protegia,
este tribunal morreu; os índios estão ao desamparo, mortos,
perseguidos e espoliados alguns de suas terras; os agressores
desculpam-se dizendo que eles não são batizados, e isto no século
XIX!! (Marlière, [1824] 1904).
Compartilhar com Marlière este estado de estranhamento auxilia a nos situarmos
em debates que envolveram naturalistas europeus, militares e missionários
católicos ao longo do século XIX, tendo como foco a Mata Atlântica e as
populações nativas, como recomendava a História Natural de seu tempo. Em 1824,
o militar francês fora empossado Diretor dos Índios, cargo para o qual levava a
experiência anterior de inspetor das divisões militares da província e o
conhecimento adquirido pelo intenso convívio com os Botocudo e os Puri da
região do rio Doce, onde também mantinha uma propriedade rural, a fazenda
Guidowald, na qual sempre contou com o trabalho assalariado dos índios
Botocudo. Essa espécie de amizade patronal que o aproximava dos Botocudo em
Guidowald permitiu a Marlière registrar seu nome nos anais de Minas Gerais como
o pacificador dos Puri da Serra da Onça. Os Puri eram considerados feiticeiros
pelos Botocudo abrigados na fazenda de Marlière e receberão do Império o
tratamento dispensado aos inimigos da coroa, uma forma de negociação bastante
usual na colônia e também no Império, na qual o Estado se apoiava em dissensões
nativas com o objetivo de, por meio delas e das decorrentes ações guerreiras
aos contrários, alcançar objetivos estratégicos.4
Como Diretor dos Índios, Marlière buscou fornecer aos missionários católicos
cabos militares que falassem as línguas indígenas para atuarem na região. Neste
sentido, e apenas neste, Marlière dirigia elogios à missão jesuíta do período
colonial, reconhecendo que os jesuítas souberam dar valor ao aprendizado
sistemático das línguas indígenas e por isso haviam progredido em sua empresa
de aldear os índios, diferentemente do clero nacional que o militar considerava
segmento totalmente contaminado pela aversão popular ao índio.
No mais, o sistema de manejo das populações indígenas que Marlière propunha
diferia diametralmente do sistema jesuíta. Segundo o militar, os jesuítas
"tentavam criar sapos na beira da lagoa", expressão que adotava para criticar
um modelo que considerava por demais aberto e que dava chances aos índios de se
evadirem da missão católica. O "sistema mineiro" proposto por Guido Marlière
consistia em uma aproximação qualificada dos índios, por meio de intérpretes e
do total domínio das línguas, identificação e tratamento diferenciado das
chefias, manutenção de roças, oferta de ferramentas etc. Como os rios, dizia, a
civilização desceria rumo ao litoral, impedindo as populações nativas de
alcançarem em sua fuga o sertão. Marlière, ao contrário do programa dos
jesuítas, queria os índios aproximados e trabalhando nas plantações e na
navegação dos rios; praticara com os Botocudo este tipo de relação patronal que
mais tarde vai inspirar o indigenismo leigo do Estado republicano, para o qual
o militar francês figurou como ícone da "catequese leiga" (Amoroso, 2003).
Assim, podemos considerar que o "sistema mineiro" na definição proposta por
Marlière aludia, para além de uma política de contenção dos índios pelo
Império, a populações nativas da Mata Atlântica, que a despeito da guerra
recente movida contra elas e da militarização crescente na região, mantinham
alguma liberdade e certo domínio de sua história junto à paisagem. Marlière
testemunhou um tempo de convívio com grupos e guerreiros Jê que circulavam
entre as fronteiras provinciais e se refugiavam na Mata Atlântica ainda
bastante intocada, sem abrirem mão do usufruto das roças, das ferramentas e dos
apoios estratégicos trazidos pelos equipamentos do Império. Em 1824 Marlière
recomendava ao governo da província de Minas Gerais interessado em resultados
na contenção dos Botocudo:
[...] o querer porém abrigá-los a domínio fixo seria uma quimera, que
não se verá realizar, nem eu vejo exemplo disto nos Coroados e
Coropos que se estão civilizando desde 1767. Cada família vive
separada das outras e a nação se reúne em dias festivos na povoação
ou capela onde recebem alguma instrução dos ministros do culto e será
prudente seguirmos a esta regra pelo futuro para a cristianização dos
Botocudos (Marlière, [1824] 1904, p. 506).
Veremos a seguir que a particularidade das relações entre as populações nativas
e a Mata Atlântica descritas por Marlière foi também franqueada à observação da
ciência dos viajantes europeus e obteve registro da história natural.
Dos Andes e Amazônia rumo ao crânio do Botocudo de Minas Gerais
Decorridos três anos de sua chegada ao Brasil, G. I. Langsdorff
comprou uma fazenda na província do Rio de Janeiro. Denominava-se:
"Mandioca"; possuía uma casa grande de dois andares, outras casas que
eram arrendadas a viajantes, muitas outras dependências, uma
plantação de café com 30-40 mil pés, plantações de mandioca, milho e
36 escravos, o que transmitia a impressão de tratar-se de uma típica
fazenda brasileira daquela época. [...] O maravilhoso jardim
botânico, a biblioteca que nas palavras dos contemporâneos era
constituída "de livros escolhidos sobre todos os ramos das ciências",
as diversificadas coleções científicas, como também a possibilidade
de receber vários conselhos, fizeram de Mandioca, e da casa do
cientista no Rio de Janeiro, lugares constantemente freqüentados por
viajantes estrangeiros. Ali eles podiam encontrar-se com
representantes da intelectualidade da capital, artistas locais ou
marinheiros russos. Sem dúvida, era um centro cultural do Brasil de
então (Komissárov, 1981, pp. 25-26).
Passamos a acompanhar a montagem das expedições científicas e chamamos a
atenção para a especificidade do conjunto de nações européias que se apresentou
para compô-las: a França da restauração monárquica e os países da Santa Aliança
- Áustria, Rússia e Prússia -, justamente o conjunto de nações que passou a
fornecer neste momento os primeiros grupos de colonos imigrantes para o
Brasil.5 Trataremos os deslocamentos dos naturalistas pela Mata Atlântica como
práticas de pesquisa de campo dos Jardins Botânicos, que resultaram em coleta e
montagem de coleções tomadas in loco, tanto de informantes nativos como de
colonos europeus adaptados, e que nos possibilitam acompanhar a ciência em ação
na primeira metade do século XIX, sendo este modelo de prática científica o que
servirá de inspiração para as descrições da floresta tropical amazônica que se
fará no momento seguinte.
Observemos o grupo de europeus que freqüenta as instalações da Fazenda da
Mandioca, na Serra da Estrela, província do Rio de Janeiro, nas primeiras
décadas do século XIX. Liderados pelo proprietário do empreendimento, o
naturalista e cônsul da Rússia no Brasil, Conde de Langsdorff, o grupo contava
com outros cientistas ilustres como Wilhelm Ludwig Eschwege, o príncipe
Maximilian von Wied-Neuwied, J. Baptista Spix, Karl Friedrich von Martius e J.
Emanuel Pohl, interessados em produzir estudos sobre a natureza e a população
do Brasil, motivados tanto pela leitura da cosmologia de Alexandre von Humboldt
(1769-1859) como pela antropologia física do anatomista J. F. Blumenbach (1752-
1840).
Humboldt conhecera e descrevera os Andes e a Amazônia espanhola a partir de
viagens pela América do Sul e Central que transcorreram entre 1799 a 1804, mas
fora barrado pelas autoridades portuguesas quando manifestou intenções de
estender suas pesquisas até a calha do rio Amazonas. Há, assim, um forte
sentido de continuidade já notado pelos comentaristas entre o projeto do grupo
de cientistas alemães, suíços e austríacos e as teses e programas de trabalho
do autor de Kosmos.
Além dos cientistas, encontraremos já na década de 1820, ocupando as casas
anexas da Fazenda da Mandioca de Langsdorf, por volta de cem colonos alemães e
suíços de diferentes profissões, introduzidos na mesma época no Brasil pelo
cônsul russo, para serem empregados nas suas plantações e na pequena indústria
de sabão que mantinha no local.
Deixemos por ora Blumenbach, sua obra,6 as pesquisas de craniometria comparada
em andamento em seu gabinete em Göttingen e o impacto deste seu trabalho sobre
parte dos cientistas que excursionavam pela Mata Atlântica brasileira.
Focalizemos os temas que emergiram do Jardim Botânico que se constituiu a
Fazenda da Mandioca, onde em meio à observação meticulosa e sistemática da
fauna e da flora tratava-se de descrever as populações nativas da América,
utilizando o método comparativo, que observava as civilizações andinas e
amazônicas em contraste com as populações da Mata Atlântica, assim como
acompanhava a adaptação dos primeiros colonos europeus que começavam a imigrar
para o Brasil.7
A reflexão sobre a Mata Atlântica e suas populações nativas processava-se neste
ambiente compartilhado na Fazenda da Mandioca, onde também se deram as trocas
de conceitos e métodos entre viajantes e naturalistas. Ali, planejaram-se
expedições inicialmente às províncias ao norte do Rio de Janeiro - Minas
Gerais, Espírito Santo e Bahia, - que se dirigiriam mais tarde ao Mato Grosso e
à Amazônia.8 Tais espaços de produção científica guardavam em comum um ponto de
partida - as teses de Humboldt sobre os nativos da América. Humboldt
contrastava as populações nativas do continente sul-americano usando como
critério o grau de civilização apresentado. Destacando aquelas que se
considerava compartilharem um grau de civilização complexa, como as do Peru e
do México - e que o naturalista tivera oportunidade de visitar e descrever -,
opunha-as às populações das terras baixas do continente sul-americano, que
englobavam um conjunto heterogêneo formado desde populações falantes da língua
Tupi, consideradas em estágio insipiente de civilização expresso pelo domínio
da agricultura, passando pelos Tapuios de "fala travada", populações do sertão
do Brasil, subconjunto identificado como caçadores-coletores. As teses da
antropologia física de Blumenbach também entretinham os cientistas da Fazenda
da Mandioca, assim como as certezas da craniologia e tudo o que ela
representava como proposta de um método comparativo.
Nos Jardins Botânicos sonhados e praticados no século XIX na Mata Atlântica
brasileira, as esperanças e as angústias dos novos tempos foram também
compartilhadas entre cientistas e o grupo eclético de patrícios europeus,
formado por colonos recém-imigrados para o continente sul-americano, assim como
por aqueles que estando ainda na Europa alimentavam planos de imigrar para o
novo continente e buscavam nos relatos de viagens de história natural uma
resposta para suas inquietações.
August de Saint-Hilaire tanto freqüentou a Fazenda da Mandioca como imaginou
como seria a sua própria fazenda na Mata Atlântica, o seu Jardim Botânico.
Estando o botânico francês às margens do Jequitinhonha, sonhou adquirir uma
fazenda e nela se estabelecer, criando um jardim à l'anglais, daqueles que se
obtém abrindo trilhas na mata. A fazenda contaria com mão-de-obra africana
escrava, devidamente bem cuidada, e com os índios, que seriam atraídos mediante
a oferta de presentes (Dean, 1996, p. 158). O sonho de Saint-Hilaire, que
retomamos adiante, ilustra a construção de um Jardim Botânico para o estudo da
história natural, onde os homens estavam incluídos em um regime republicano
formado por negros e índios, segmentos incorporados pelo naturalista-fazendeiro
na condição de trabalhadores braçais em regime de escravidão:
Lançando os olhos sobre o Jequitinhonha, os sonhos que acalentara na
primeira juventude após a leitura de S. J. de Crèvecoeur (Cartas de
um lavrador americano) voltaram a se me apresentar perante a
imaginação. Via-me possuidor de algumas léguas de terra às margens do
Jequitinhonha. Chego com um criado fiel e alguns escravos. Levanta-se
às pressas um abrigo semelhante aos dos Botocudos, para passar a
primeira noite. A princípio passo a existência privado de todas as
comodidades da vida; o desejo, porém, de delas gozar, em breve me
anima ao trabalho. Parte dos escravos é empregada em cortar árvores
nos lugares em que se deverá plantar milho e algodão para o ano
seguinte; outros em construir uma cabana. [...] Introduzo leis em
minha pequena república; meus negros são bem alimentados, bem
vestidos, pequenas recompensas estimulam-nos ao trabalho; bons
tratos, provas de interesse tornam-lhes a existência mais suportável,
e fazemnos amar o seu amo. Todos são casados, e acabam por considerar
como sua pátria, a dos filhos, e a casa do senhor como a própria. Não
me esqueço também dos índios. Começo por atraí-los aos arredores de
minha habitação por pequenos presentes. Ficarão certos de receberem
presentes todas as vezes que prestarem o menor serviço. Habito-os
pouco a pouco ao trabalho; compreendem em breve, a vantagem de
cultivar a terra; fixam-se perto de minha habitação, tornam-se
vizinhos prestimosos, e, completo-lhes a civilização tornando-os
cristãos. Esses Botocudos, não há muito antropófagos, vêm à minha
capela orar por seus inimigos, e sua filha conhece, enfim, o pudor
(Saint-Hilaire, 1975, p. 263).
Mas foi o príncipe Maximiliano Wied-Neuwied quem talvez melhor configurou o
lugar do cientista natural no Novo Mundo e vislumbrou as possibilidades que tal
cenário anunciava. Na passagem a seguir, o príncipe permite-se abandonar a um
devaneio às margens do Lago do Taípe, entre Minas Gerais e Bahia, última parada
do naturalista antes de sua expedição retornar à Alemanha. Acompanhava-o na
ocasião um fazendeiro holandês - o Sr. Weyl - que recém adquirira uma
propriedade na região (por sinal, um aldeamento recém-abandonado dos Camacã):
O espetáculo dessa natureza grande, majestosa e selvagem, compensará
o Sr. Weyl da corajosa resolução de deixar a sua pátria para vir
viver unicamente com a sua família nessas remotas paragens. Em
qualquer parte do mundo o homem culto encontrará entretenimento e
ocupação; mas entre todas as classes, é ao naturalista que cabe a
maior vantagem sobre os outros; que campo imenso de observações, que
fonte inesgotável de prazer espiritual não lhe proporcionaria essa
morada solitária nas nascentes do Taípe! (Wied-Neuwied, 1989, p.
345).
Temos aqui o naturalista europeu, sua capacidade inigualável de observação e
gozo dos prazeres da natureza, e em segundo plano o empresário europeu que
adquirira fazendas no Brasil e saberia por certo, e a seu modo, usufruir a
natureza. Quais lugares ocupariam os Camacã, Machacali, Nacnenuc, Krenac,
Pojicha, Puri, Coroado, Botocudo, habitantes da Mata Atlântica e contemporâneos
dos naturalistas? Deixemos a resposta por ora em suspenso e adentremos um pouco
mais no Jardim Botânico da Fazenda da Mandioca, para conhecer seu proprietário.
G. I. Langsdorff (1774-1852)9 formou-se em medicina na Alemanha no final do
século XVIII, na Universidade de Göttingen, onde conheceu J. Blumenbach, que
foi seu orientador, assim como o filólogo e arqueólogo C. Reine. Em 1800,
morando em Lisboa, Langsdorff publicou em alemão e português seus trabalhos na
área de medicina, iniciando estudos de botânica, ictiologia e entomologia, que
possibilitaram a ele a montagem de uma rede de cientistas europeus - entre eles
August de Saint-Hilaire -, alimentada por farta correspondência. Em 1803
tornou-se membro correspondente da Academia de Ciências da Rússia e tomou
conhecimento da montagem de uma expedição científica russa que daria volta ao
mundo, para a qual se apresentou, conseguindo o posto de ictiologista e
mineralogista.
Em 1804 encontramos Langsdorff na costa brasileira, escrevendo sobre a ilha de
Santa Catarina. Seguem-se viagens de estudo aos Estados Unidos, ao Alasca, à
Sibéria e ao Japão. Entre 1808 e 1812, Langsdorff permaneceu na Rússia, onde
empreendeu uma vertiginosa carreira que galgou ocupando inicialmente o humilde
posto de ajudante em botânica da Academia de Ciências de Petersburgo, para a
seguir alcançar renome nos círculos europeus depois da publicação, em
Frankfurt, do resultado de suas pesquisas botânicas realizadas em Kamtchatka e
por fim se estabelecer como Cônsul da Rússia no Rio de Janeiro. Assim, ao mesmo
tempo em que a corte portuguesa declarava a abertura dos portos do Brasil e, do
ponto de vista das ciências da época, o continente sul-americano se abria enfim
à pesquisa, Langsdorff fez-se cientista natural, viajante renomado e membro do
corpo diplomático residente no Brasil. Como cônsul, foi encarregado de estudar
o mercado brasileiro, já que a costa atlântica brasileira era local de parada
obrigatória da frota russa a caminho das possessões do Czar na América do
Norte.
Em 1813 chegou ao Rio de Janeiro e em três anos estabeleceu-se em sua
propriedade, a Fazenda da Mandioca, na Serra da Estrela. Interessado em um novo
campo de estudos que se descortinava no Brasil, Langsdorff manteve a Academia
de Ciências de São Petersburgo informada dos programas de trabalho de história
natural que se processavam aqui, sendo que parte significativa das expedições -
a de W. L. Eschwege, a de Maximiliano von Wied-Neuwied, a de I. Franz Werner, a
expedição austro-húngara composta por J. B. Spix, K. F. Martius, J. E. Pohl, J.
Natterer, e outros - passou por suas propriedades. Conviveu e trabalhou com
Saint-Hilaire, assim como em Minas Gerais conheceu Guido Marlière.
Langsdorff viajou em férias para Minas Gerais em 1816, quando delineava os
planos para uma grande expedição pelo Brasil, que não deixaria a Rússia fora da
corrida científica que aqui se estabelecera. Passando por Paris para atualizar
contatos, seguiu com destino à Rússia, onde pretendeu, e obteve com sucesso,
angariar recursos para a expedição. O cônsul retornou ao Brasil em 1822,
trazendo um novo quadro de cientistas e pintores: o botânico francês E. P.
Ménetriès e o pintor bávaro J. M. Rugendas, além do grupo de imigrantes suíços
e alemães que embarcaram com eles no navio Doris, depois de terem aceitado o
convite para trabalhar nas propriedades do cônsul. No Brasil, somaram-se à
expedição outros cientistas: Ludwig Riedel, exjardineiro em Lion, Nester
Gabrílovich Rubtsov, suboficial da marinha mercante russa, e Georg W.
Freyreiss, cujas habilidades de grande caçador e naturalista serão
freqüentemente destacadas. Este último que conhecera Langsdorff em 1809,
chegará ao Brasil em 1814 e participará do primeiro núcleo de naturalistas e
desenhistas que freqüentava a Fazenda da Mandioca. As opções de Georg W.
Freyreiss ilustram, assim, certo perfil do praticante da história natural neste
momento heróico das ciências naturais: terá oportunidade de acompanhar e
colaborar como colecionador nas diversas expedições de naturalistas, assim como
de fornecer suas próprias coleções para museus da Alemanha, especialmente
depois que decidiu se radicar definitivamente na Colônia Leopoldina, no sul da
Bahia, onde passará o resto de sua vida entre colonos alemães, até sua morte em
1825.
Blumenbach e Humboldt são referências fundamentais para outro membro da Fazenda
da Mandioca, Maximiliano de Wied-Neuwied - príncipe da casa renana, que
cultivou a idéia de uma expedição para o Brasil por influência de Humboldt,
quem conhecera em Paris em 1814, quando este recémchegado da América do Sul,
divulgava seu trabalho na cidade das luzes. Maximiliano alistara-se no exército
prussiano que lutou naquele ano em Paris contra Napoleão. Em sua formação
acadêmica, ele freqüentara, assim como Langsdorff, a Universidade de Göttingen,
onde estudou craniometria com Johann Friedrich Blumenbach e com ele
compartilhou a tese da origem comum do homem americano. Chegou ao Brasil em
1815 e retornou em 1817. No Rio de Janeiro incorporou em sua expedição a dupla
de expedicionários que jamais retornou do Brasil: além de G. Freyreiss, que
passou a morar na Colônia Leopoldina, o zoólogo, botânico e desenhista F. Selow
(1789-1831), autor de inspirados desenhos dos Botocudo colhidos em campo e que
morreu afogado em uma das expedições coordenadas por Langsdorff.10
A Viagem ao Brasil, de Maximiliano foi publicada e obteve grande sucesso na
Europa ainda na década de 1820 (Rostworowski da Costa, 2008). No Brasil, a
recepção da obra do príncipe foi tardia,11 ainda que bastante positiva, pelo
menos entre antropólogos alemães ou monarquistas: o antropólogo H. Baldus
destacava em Maximiliano a sensibilidade de "compreensão de outros fenômenos
culturais, que mesmo em nossos dias é alcançada por poucos" (Baldus, 1954, p.
766), enquanto Câmara Cascudo (1977) atribuía ao príncipe a mais completa
documentação sobre os Botocudo da época, a partir de observação inteligente e
qualificada.
Mas o trunfo de Maximiliano sem dúvida consistiu em ter apresentado ao gabinete
de Blumenbach o crânio de um jovem Botocudo que havia sido recém-enterrado nas
proximidades do quartel de Salto, no rio Belmonte, Minas Gerais. A peça
anatômica, como descreve o príncipe Maximiliano, fora obtida pessoalmente por
ele: munido de picaretas e de certa dose de coragem, enfrentando a opinião
pública local formada pelos parentes do rapaz e por militares do destacamento,
conseguiu por fim extrair da cova o célebre crânio, tratando logo de conservá-
lo para que se tornasse o elemento central de sua coleção (Wied-Neuwied, 1989,
p. 262). O crânio será posteriormente ofertado pelo príncipe ao gabinete de
Blumenbach, possibilitando uma oportunidade inédita para a ciência em geral e
para o gabinete de seu professor em particular.
A esperança de obter um crânio de botocudo foi um outro motivo que me
fez passar aí mais um dia. [...] A uma curta distância das casas,
dentro da mata, no meio de uma vegetação bela e florida, havia sido
enterrado um jovem botocudo de vinte a trinta anos de idade, um dos
mais turbulentos guerreiros de sua tribo. Armados de picaretas
dirigimo-nos à sepultura e retiramos o importante crânio. [...]
Embora tomasse o maior cuidado em guardar segredo sobre a minha
intenção de abrir a sepultura, a notícia em pouco se espalhou pelo
quartel, causando forte sensação entre aquela gente ignara. Impelidos
pela curiosidade, malgrado um secreto terror, vários se acercaram da
porta do meu quarto e quiseram ver a cabeça, que eu, entretanto,
escondi imediatamente na mala e tratei de mandar o mais cedo possível
para a vila de Belmonte. Se bem que os Botocudos como verifiquei, se
sentissem menos chocados com o desenterramento que os soldados do
quartel, não é menos verdade que muitos deles se recusaram a assisti-
lo (Idem, pp. 262-263).
Maximiliano, como é sabido, apresentou às cortes européias e à ciência de sua
época outro jovem botocudo, Quack, este ainda vivo, que seguiu com ele para a
Europa. O crânio humano, a coleção de cultura material, da fauna e da flora,
assim como a presença do jovem Quack, renderam uma série de considerações que
se estabilizaram no ambiente da antropologia física européia desenvolvida por
Blumenbach: a antropologia física irá aproximar o homem americano do tipo
malaio, a última das cinco categorias introduzidas pelo antropólogo na sua
classificação comparativa das raças humanas. Considerado "o Buffon alemão",
Blumenbach adotava a tese da monogenia corrente na biologia do século XIX e
situava sua proposta de uma tipologia das raças humanas como um processo de
degeneração a partir de um tipo principal (Greene, 1959, pp. 222-224).
Câmara Cascudo atribui ainda a Maximiliano a superação da oposição consensual
desde o período colonial e ainda em vigor no Império entre tupis amigáveis e
colaboradores e tapuias intratáveis, guerreiros inconciliáveis e antropófagos,
equívoco que teria orientado os programas de povoamento e colonização do
Brasil. Maximiliano depois de ter convivido com os Botocudo nos destacamentos
militares de Minas Gerais e também em suas aldeias, aproximava-os dos Tupi
descritos pelos cronistas coloniais. Tal aproximação, entretanto, visava de
fato a reduzir os Tupi ao baixo rendimento que os Tapuias representavam na
qualidade de objeto da história natural e da ciência da época: "Nos caracteres
morais os povos indígenas do Brasil assemelham-se tanto quanto na constituição
física. Domina as suas faculdades intelectuais a sensualidade mais grosseira",
afirmava Maximiliano, para ressaltar em seguida que tal característica não
impedia a eles a capacidade de julgamentos sensatos e agudez de espírito.
Seriam ainda capazes de imitar os brancos quando colocados em situação de
convivência, mas não seriam, entretanto, guiados por nenhum princípio moral,
sendo como eram, sem freios sociais, o que os deixava assim levar-se pelos
sentidos e instintos, "tais como a onça nas matas". A preguiça, a indolência
seriam, além de tudo, traços característicos que aproximavam os Tupi dos
Botocudo.
Uma segunda extensão comparativa delineada por Wied-Neuwied ainda sob a
influência de Humboldt aproximava as populações "do Norte e do Sul", isto é, as
populações andinas das terras altas e as populações das terras baixas sul-
americanas; as civilizações andinas descritas por Humboldt e os povos indígenas
visitados e estudados por Wied-Neuwied em Minas Gerais. Diante de tais balizas
comparativas ampliadas, reafirmava que os indígenas de todo continente
americano pertenciam à mesma raça. A macrocomparação que a História Natural
propunha no século XIX para todo o continente sul-americano possibilitava,
entretanto, equacionar as populações da Mata Atlântica - Botocudos ou não - em
relação à civilização andina, restando ao primeiro conjunto a confirmação de
que se tratava, senão pela condição da raça, reconhecida como única, mas sim
pela brutalidade das suas expressões culturais e morais, de uma humanidade
muito próxima dos animais (Wied-Neuwied, 1989).
O que levava o príncipe a tecer tais conclusões, ele que há pouco nos agraciara
com páginas tão inspiradas sobre a exuberância do domínio da Mata Atlântica
apresentada a ele pelos Botocudo, seus grandes parceiros nas caçadas e na
coleta de espécies da flora e da fauna, aqueles que efetivamente viabilizaram a
montagem das inúmeras coleções que o príncipe levou para a Europa? Por certo
não seriam os determinantes da raça: Wied-Neuwied atestara o embranquecimento
gradativo de Quack depois de alguns invernos europeus (Idem, p. 323).
Maximiliano cobrava de seus brutos e amigáveis Botocudo a capacidade política
de se organizar enquanto lideranças e, assim, controlar - como os andinos
descritos por Humboldt - vastos domínios, neles impondo uma cultura da qual
qualquer europeu só poderia se admirar. No Brasil, terra sem monumentos ou
vestígios de hieróglifos, e conseqüentemente sem uma cultura vigorosa, dizia
ele, não se constatavam instituições políticas como os cacicados andinos:
[...] aos chefes dos tapuias não podemos dar o nome de caciques. Este
termo tem sentido muito mais elevado, e não se enquadra com os chefes
dos indígenas do Brasil, que não são objeto de nenhuma veneração
particular, e em nada se distinguem do restante da tribo; para lhes
conferir na horda um voto decisivo, nenhum atributo de superioridade
os assinala, tais como a maior prudência, a experiência ou a
valentia. Caciques devemos chamar os senhores todopoderosos dos povos
mais adiantados do Novo Mundo, como os mexicanos, os peruanos, e
outros, cuja autoridade e cujo poderio, não de raro ilimitado,
constituíram forte obstáculo aos conquistadores espanhóis (Idem, p.
325).
E concluía o naturalista:
Quanto estão longe deles [dos caciques andinos] os brutos habitantes
das matas virgens do Brasil! Reina aqui a mesma lei que entre os
animais, e a maior força dos braços é a única superioridade
reconhecida (Idem, ibidem).
Talvez devêssemos sorrir como recomenda I. Stengers (2002) ao final da
conclusão a que chega o príncipe na Viagem, na qual os Botocudo são condenados
mais uma vez, agora pela ciência, por não portarem instituições que os levariam
a reagir a altura à conquista colonial e mais recentemente à guerra que a coroa
portuguesa recém-desembarcada no Rio de Janeiro movera contra eles. Motivado
pela notícia da publicação do trabalho de von Eschwege, na qual o mineralogista
aludia a uma espécie de monarquia que se delineava entre os Botocudo, onde um
rei negro fora entronado e governava os índios nas matas do Rio Doce e
Jequitinhonha, Maximiliano descarta esta e outras conjecturas do colega
naturalista, demonstrando o quão distante estava a possibilidade de expressão
política dos Botocudo: "Os [índios] do Brasil, portadores de um boné de soldado
português, perderam já a sua originalidade, e só pouco interesse despertam"
(Idem, p. 325).
Os Botocudo rumaram na década seguinte em direção aos aldeamentos indígenas do
Império, que na província de Minas Gerais tiveram por patrono Teófilo Otoni.
Tratava-se agora de uma convivência efetiva com os imigrantes europeus que
desembarcavam em Filadélfia, Minas Gerais, atraídos pela propaganda do Império
do Brasil e pela empresa de colonização do Vale do Mucuri, patrocinada pela
família Otoni (Horta Duarte 2002). O enunciado relacionado com os índios e a
Mata Atlântica sofreu então uma sensível alteração, e vemos a mata virgem se
converter no temor dos missionários italianos e imigrantes europeus, novos
habitantes da região, por representar a selva "a fortaleza dos selvagens".
"Mata", por sua vez, tornava-se uma imagem gradativamente eclipsada pela figura
do "solo salubre e ubérrimo" que, nas palavras de T. Otoni e na dos
missionários capuchinhos, fora abandonado ao domínio das onças e dos selvagens.
Acompanhemos o apagamento da mata que se dá na segunda metade do século XIX,
concomitantemente à chegada do imigrante europeu.
Da Colônia Leopoldina a Itambacuri
O programa de colônias de imigração da Companhia do Mucuri12 conduzido pela
família Otoni dispôs em um primeiro movimento colonos e proletários urbanos
europeus que convergiram para a região no final da década de 1840 contra os
Botocudo. Alegava-se que na propaganda brasileira a favor da imigração
veiculada na Europa os colonos obtinham garantias de usufruto exclusivo das
matas ubérrimas, direito adquirido por contrato firmado com a companhia de
colonização. Em um segundo movimento, entretanto, veremos a Companhia do Mucuri
aproximar os Botocudo dos proletários urbanos,13 à medida que colonos se
organizavam politicamente contra as condições impostas pelos empresários da
imigração, e passavam, do ponto de vista das autoridades locais, a ocupar
posições similares à dos índios selvagens do Mucuri, tornando-se, como estes,
público alvo de policiamento intensivo e de acusações de crime por parte do
programa de colonização dos Otoni e do governo do Império.
Contra os "proletários prussianos" e os selvagens Botocudo, a Companhia do
Mucuri mantinha, com auxílio das verbas públicas, um destacamento de pedestres,
entre os quais alguns cabos falantes da língua dos selvagens - marca deixada
por Guido Marlière? -, e considerava serem estes línguas extremamente úteis em
função do número de índios que habitava as matas da província em meados do
século XIX. O destacamento militar além de "conter em respeito os selvagens"
(Otoni, 2002), garantia a presença assídua dos colonos estrangeiros,
proletários ou não nas fazendas, e também dos nacionais, considerados pela
Companhia do Mucuri como dados à vadiação e à embriaguez.
Desde o ano de 1846 Otoni fixara-se no Mucuri para implantar seu "sistema de
generosidade, moderação e brandura", que consistia, basicamente, na
substituição de práticas de controle armado e de seqüestro das crianças
indígenas pela franca distribuição de brindes, ferramentas e o auxílio na
montagem dos aldeamentos indígenas financiados pelos governos da província e do
Império. Otoni chamava de "bandeira" o novo empreendimento que mantinha
direcionado para os índios, num apego às velhas instituições, e pretendia
convencer os selvagens de "que portugueses e índios do Mucuri [...], todos
estávamos efetivamente mansos" (Idem, p. 51). Escrita por encomenda do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), sua "Notícia sobre os
selvagens do Mucuri" retomava a desgastada oposição Tupi e Tapuia para reter a
imagem dos Tupiniquins de costumes brandos e colaboradores,14 dos quais,
arriscava ele, possivelmente descenderiam os Machacali.
A tese de T. Otoni era a de que as serras, os montes, os vales e os rios do
Alto Mucuri e Jequitinhonha não estiveram sempre sob o domínio ("estúpido") dos
Botocudo, seus atuais moradores. Ali já existira no passado quem soubera fazer
valer os recursos da terra, não os atuais Botocudo, que subsistiam da caça, e
por isso manifestavam grande necessidade de deslocamento, sendo assim "mais
infelizes, e menos industriosos que os tártaros, não têm para conduzir em suas
excursões nem tendas nem rebanhos" (Idem, p. 88). E completava:
Os matos circunvizinhos demonstram a modo irrecusável uma cultura que
cessou há muitos anos, e que aquele solo já foi teatro de uma
civilização mais adiantada. A simples inspeção do terreno, sobretudo
das taperas, prova que seus atuais ocupantes são intrusos. [...] E
não é só a vegetação do país que fala esta linguagem. A terra, para
denunciar a barbaridade dos botocudos, guardou em depósito
instrumentos de indústria, importados de fora por seus antigos
senhores, e os artefatos locais, que não deixam dúvida alguma sobre
esta civilização mais adiantada que ali existiu (Idem, ibidem).
Teófilo Otoni recordava que ele mesmo, auxiliado por alguns colonos europeus de
Filadélfia, podia apresentar telhas coloniais e outros artefatos encontrados
que comprovavam a movimentação dos Tupiniquim da costa para as serras. Os
terrenos que hoje atraíam migrantes e imigrantes pela fertilidade e salubridade
do solo, e que restavam "sob o domínio das onças e dos selvagens", continham,
segundo ele, provas suficientes de que a presença atual dos Botocudo em Mucuri,
Doce e Jequitinhonha era recente. Finalizava sua explanação constatando que
ocorrera uma evidente decadência no tipo de ocupação nativa da região, com o
que se somava à opinião dos primeiros naturalistas. Mas diferentemente destes,
que tendiam a uniformizar a caracterização das populações do continente sul-
americano, Otoni demonstrava tratar-se de tipos diferentes de agrupamentos e,
conseqüentemente, de possibilidades distintas de colonização. Assim, o
interesse pelos Botocudo vivos declinava na exata proporção que se enaltecia o
pretérito encontro colonial com os Tupi da costa, esta sim uma experiência de
convívio profícua, que se mostrava agora inviável com as populações nativas
contemporâneas, habitantes da Mata Atlântica.
Das selvas ao solo ubérrimo
Nas selvas dos vales do Mucuri e do rio Doce(Palazzolo, [1952] 1973)15 é o
título da memória da missão que elege a selva como protagonista principal,
ainda que pretenda em sua singeleza capuchinha tratar da transformação ou
conversão dos índios Nacnenucks, Potes, Giporoks, Pojichá do Aldeamento de
Itambacuri, Minas Gerais. A selva neste enunciado é o desafio que a missão
deveria vencer ao implantar um regime de "desertinação e povoamento",16 seguido
do cultivo extensivo do "solo ubérrimo".
O missionário de Itambacuri, Frei Serafim de Gorísia, trazia sólida formação
acadêmica anterior ao ingresso na Ordem Menor, o que por certo o distinguia do
conjunto de missionários que atuaram no Brasil no período da Missão do
Padroado. Chegou a Minas Gerais na década de 1870, acompanhado de outro
missionário, frei Ângelo de Sassoferrato, tendo por tarefa aldear os Botocudo
do Mucuri, considerados "o maior obstáculo para a colonização européia"
pretendida pela Companhia do Mucuri. O fato de a Propaganda Fide do Vaticano
encaminhar para Minas Gerais missionários que dominavam a língua alemã
revelava, diferentemente do que a narrativa capuchinha buscava afirmar quando
associava missionários exclusivamente à catequese dos índios, que ao órgão
encarregado das missões de catequese o apostolado voltado para os índios
necessariamente envolvia o acompanhamento da adaptabilidade dos colonos
europeus imigrados e a difícil questão da convivência forçada entre índios,
migrantes e imigrantes nos aldeamentos indígenas do Império.
Nos registros da Ordem Menor, Itambacuri foi considerado um dos mais bem-
sucedidos aldeamentos do período. Ali se buscou promover de forma
institucionalizada a mestiçagem, tema caro à antropologia, que pode se debruçar
sobre tal experimento de convívio de agrupamentos variados, promovido pelo
Estado em meados do século XIX e a partir dele acompanhar algumas das questões
que daí emergiu. A primeira delas diz respeito exatamente ao caráter oficial da
mistura das raças que se buscou processar nesta região de Minas Gerais,17
cabendo aqui indagar como isso se deu e de que forma se conferiu os resultados
da política de mestiçagem. Notemos quanto a este ponto que para cumprir seu
lema, a missão, amparada pelo Estado, não pretendeu tornar os colonos europeus
mais adaptados à Mata Atlântica pela via da mistura com os nativos; a mistura
almejada, que tinha por objetivo converter índios em trabalhadores cristãos,
dirigia-se estritamente a índios e imigrantes pobres de Minas Gerais e do
Nordeste.
Chama a atenção a particularidade deste projeto de mestiçagem, no qual a
mistura "oficiosa" praticada em todo continente (Velho, 2005) agora se revestia
de caráter oficial, de política pública do Estado e das práticas missionárias.
A Propaganda Fide e o Vaticano, proclamando a necessidade da romanização do
catolicismo, imprimiam à missão dos capuchinhos italianos do século XIX um
caráter de modernidade: os missionários falavam em nome de um novo tempo que se
implantava no sertão com a chegada das estradas de ferro; das vacinas acionadas
contra as epidemias e outros avanços da medicina; das estradas e das novas
redes de comércio e comunicação. E, principalmente, dos imigrantes europeus. A
modernidade se traduzia, nos aldeamentos indígenas, na conversão, isto é, na
transformação dos índios em cristãos trabalhadores. A purificação, isto é, o
índio convertido em trabalhador católico, era aqui obtida por meio da mistura.
Nesse sentido, os mestiços foram considerados por Frei Serafim de Gorísia a
comprovação do sucesso do aldeamento cristão:
E tem sido justamente em virtude da união e aliança entre
trabalhadores indígenas com lavradores nacionais, que se tem
conseguido aqui a mais acertada e espontânea transformação dos
selvagens prejudiciais em laboriosos nacionais mestiços,
desaparecendo de modo imperceptível pela mesma metamorfose, ou por
morte natural, o alto algarismo de índios puros, terror dos
habitantes desta fértil região, povoando-se a extensa e espessa
floresta, abrigo outrora de feras bravias (Serafim de Gorísia, 1889,
apudPalazzolo, [1952] 1973, p. 172).
A mistura conferia-se por meio da celebração dos casamentos entre índios e
nacionais pobres, promovidos pelo aldeamento, sendo que os missionários, depois
de dispensadas as formalidades do casamento civil, e com isso exercendo o pouco
do espaço de liberdade que detinham diante do Estado, passavam eles mesmos a
documentar o resultado da experiência da mistura racial promovida nos
aldeamentos. Nos censos e registros da missão e do Estado, o índio já não era
mais índio, ou não era assim considerado pela missão. Ao mesmo tempo em que os
missionários eram levados vez por outra a reintroduzir os índios em alguns dos
censos, de forma a garantir as verbas dos governos e a condição diferenciada
dos religiosos, de administradores de aldeamentos indígenas. Talvez porque
nunca se soube ao certo ao longo da segunda metade do século XIX onde mesmo se
encontravam os índios considerados aldeados pelo programa de "Catequese e
Civilização". Uma questão que mobilizava as autoridades dos governos e para a
qual a missão capuchinha dava, invariavelmente, respostas evasivas foi a da
demarcação das terras dos aldeamentos. Os missionários declaravam que era
impossível realizar a demarcação, os índios aldeados continuavam espalhados
pelos rios. Qualquer tentativa de definição mais detalhada dos limites do
território dos aldeamentos mobilizaria a oposição dos colonos abrigados nos
aldeamentos indígenas, de um lado, e, de outro, a oposição dos missionários,
que perderiam catecúmenos indígenas dispostos a 30, 40, 60 léguas da sede da
missão, como se podia ver nos aldeamentos dos vales do Tibagi e Paranapanema,
ao sul da província de São Paulo (Amoroso, 1998).
A segunda questão aborda o tema da "construção da felicidade", que o projeto
cristão compreendia, como mostra B. Latour (2004b), o que em Itambacuri passava
pela transformação dos Botocudo em "laboriosos mestiços nacionais", isto é, a
construção da pobreza, tema caro à Ordem Menor dos Frades Capuchinhos desde o
seu surgimento (Le Goff, 2001). Para avançar um pouco mais nesse ponto somos
levados de volta aos coletivos formados pela Mata Atlântica e os seus nativos,
agora uma paisagem pensada em termos das cidades de Deus erguidas sobre os
terrenos ubérrimosadministrados por missionários italianos e demais cristãos
laboriosos. Neste novo cenário, a mata apresentava-se para a missão dos
capuchinhos como o maior desafio a ser vencido, juntamente com os Botocudo. O
território imenso e a "medonha floresta" são personagens das narrativas do
segundo missionário de Itambacuri, Frei Ângelo Sassoferrato, que alertava
àqueles que consideravam fácil a tarefa de perseguição dos índios salteadores:
"assim só podia arrazoar quem não conhecesse as matas do Brasil, que são de tal
ordem, que serviam para os índios de fortalezas seguras e inexpugnáveis".
Frei Ângelo de Sassoferrato em outra passagem, disposta na estrutura de sua
Memória no tempo anterior à chegada da missão, escrevia sobre a Mata Atlântica:
Aos europeus causavam pasmo as árvores seculares do Brasil, de 30, 40
e mais metros de altura e grossura extraordinária. Estávamos rodeados
destas extensíssimas florestas virgens, abrigo de onças e tigres
ferozes e de selvagens ainda mais temerosos (Ângelo Sassoferrato,
apudPalazzolo, 1973, p. 40).
Dez anos depois de montado o Aldeamento de Itambacuri, em 1883, frei Serafim
descrevia o equipamento missionário como um estabelecimento "belo e pitoresco",
com centenas de quilômetros de terras próprias para a agricultura, água potável
e clima benéfico, onde a mata cedera espaço para a edificação do urbano da
missão. Afirmava que o aldeamento fora chamado a preencher o imenso vácuo de
florestas sem habitante "- afora os selvagens", que mediava "a cidade de
Teófilo Otoni ao rio Doce, e de São Mateus ao Pessanha, e quiçá não seja esta
região a precursora de um esplendido futuro de extraordinária prosperidade
[...]". Um ano antes expunha qual seria o lugar dos índios no projeto:
[...] nenhuma colonização se sujeitará a ser tão firme e perseverante
no trabalho rural desta zona como o indígena uma vez civilizado, que
se acomoda logo a usos e costumes da nação e ambiciona a se aliar aos
pobres lavradores, levando-lhes vantagem de ser pouco exigente e
menos interessado; e afinal os índios, de combinação feita com os
nacionais de gênio industrioso, ocupam-se todos os anos em desbravar
porções de espessas brechas, prestam só com isso o melhor serviço que
se pode exigir deles: o que não se obtém com o terror que perpetua o
ódio entre as raças, consegue-se com a catequese, mão caridosa aos
infelizes (Serafim de Gorísia, ACRJ 20-II-31, 12/7/1882).
As ameaças constantes de ataques de "índios selvagens", no entanto, permanecem.
Frei Serafim de Gorísia referia-se, por exemplo, à "presença de negros fugidos
ou mandados...", vivendo entre os índios Pojichá que, como vimos, é um tropo
recorrente nas narrativas dos naturalistas. Esses líderes africanos "que lhes
dão conselhos e os governam e ajuntam lá no centro de São Mateus, fazendo-se
cada vez mais perigosos".18 Da mesma forma que mata virgem aludia aos espaços
de socialidade que escapavam ao controle do Estado e da Missão, aldeamentos na
retórica missionária seguiam identificados a espaços da fraternidade de índios
trabalhadores. É o que acompanhamos nas notícias dos conflitos, como aquele que
envolveu o Consulado Alemão no Brasil e as autoridades do Império convocadas
pelo recurso de um abaixo-assinado dos colonos europeus e nacionais do
município de Filadélfia a resolver a questão dos ataques dos Pojichá aos
colonos:
Passando assim as coisas, não me admira que os estrangeiros e
nacionais laboriosos dessas paragens queiram o extermínio dos
Pojichás por lei de necessidade, cuja efetuação seja de todo
impossível, porque são numerosos, táticos e desconfiados e podem
chamar em socorro outros índios, aos vizinhos e utilizando às costas
para refúgio a espessa e desconhecida mata virgem (Serafim de
Gorísia, ACRJ 20-III-56, 30/6/1885).
Resta indagar como as práticas dos frades capuchinhos nos aldeamentos do Brasil
dialogaram com as regras da Ordem Menor dos Frades Capuchinhos e os dogmas
vigentes da igreja católica, assim como a ciência dos naturalistas repercutia
nas reflexões e práticas missionárias. Encontrei algumas respostas na obra de
Frei Rocco de Cesinale, historiador da Ordem Menor, que conheceu e acompanhou
de perto o trabalho dos missionários de Itambacuri, como dos demais frades
italianos que estiveram no Brasil e no Congo nesta época. Vale lembrar que F.
Rocco de Cesinale ao tratar dos índios do Brasil abordava as relações que
existiam entre ciência e religião no século XIX, e chegava mesmo a convocar
para o debate o naturalista A. Humboldt, ao destacar o diálogo possível entre a
lingüística e a religião:
A língua, disse Alexandre Humboldt, como criação intelectual da
humanidade, como profundamente inerente a seu desenvolvimento
espiritual, é para a nação da qual ela é própria, de uma alta
importância, para ajudar a reconhecer a semelhança e a diversidade da
raça [Cosmo, I, 334] (Rocco de Cesinale, [1837] 1887, p. 508).
Esta passagem abria o capítulo "Il Tupi" da sua Storia delle missione dei
cappuccini, publicada em Paris em 1837. Nas décadas seguintes, Frei Rocco de
Cesinale tornou-se Comissário Geral da Ordem Menor dos Frades Capuchinhos da
Propaganda Fide no Vaticano, no momento em que a missão de Itambacuri foi
criada em Minas Gerais. Neste cargo conheceu os missionários Ângelo de
Sassoferrato e Serafim de Gorízia em 1872 em Roma, quando estes, vindos de suas
províncias de origem, Ancona e Gorízia, localizadas no interior da Península
Itálica, se apresentaram ao Comissário Geral, pouco antes de embarcarem em
Gênova, rumo ao porto do Rio de Janeiro.19
O contato direto com os missionários que percorreram a África20 e o continente
sul-americano, aliado à posição que ocupou na hierarquia da Ordem Menor dos
Frades Capuchinhos deram as bases para uma reflexão que se fazia em franco
diálogo com a ciência de sua época, no caso, a cosmologia de A. Humboldt; a
lingüística de J. H. Klaprot (1783-1835, orientalista e expedicionário alemão);
os tratados de Conrad Malte Brun (1775-1826, geógrafo dinamarquês), de A. Balbi
(1782-1848, geógrafo veneziano) e Remusat; a botânica de Smith Barton (1766-
1815, médico e botânico norte-americano também formado na Universidade de
Göttingen). A Storia delle missione dei cappuccini, de Rocco de Cesinale (1837)
explicita como a missão cristã do século XIX acompanhou as formulações da
história natural e o debate em torno da origem do homem travado por
monogenistas e poligenistas. A ciência apresentava-se para os religiosos
católicos envolvidos com a missão no Brasil como uma espécie de reflexão
auxiliar, que propiciava à religião cristã uma reorientação de suas práticas de
construção da felicidade nos espaços de atuação dos capuchinhos na África e no
continente sul-americano.
Em um aldeamento indígena no interior do Brasil ou em uma aldeia no Congo, na
África, a missão capuchinha do século XIX pensava em termos da origem comum da
raça humana, sendo a questão da diversidade um ponto polêmico da reflexão
cristã, que se resolvia por meio do estudo das línguas. Assim, refletindo sobre
os Tupi da costa do Brasil e também os do interior do continente - os Apiacá e
os Mundurucu21 -, Frei Rocco de Cesinale usava a língua tupi como documento de
que a humanidade encontrada no continente sul-americano pertencia de fato a uma
só família lingüística.
Para tanto, estabelecia uma aproximação entre os métodos da etnografia
filológica e da antropologia física, esta dedicada aos estudos sobre as medidas
e os aspectos dos crânios, demonstrando que ambas operavam por meio de
comparações sistemáticas. Por fim, afirmava como as ciências modernas em seus
procedimentos de exercício comparativo e de construções de analogias, como os
que se davam nos gabinetes germânicos de antropologia física ou nas bibliotecas
dos filólogos, chegavam a conclusões que guardavam imensas semelhanças com o
que estava expresso na Bíblia. Assim, o exame da estrutura comum a todas as
línguas americanas não deixava dúvida de que estas pertenciam a uma só família.
Os missionários, dizia, observaram desde muito cedo que certas línguas
indígenas no Brasil, como o Tupi, podiam ser consideradas a chave de outros
dialetos, e sobre estas bases construíram o programa de catequese do
continente. Descoberto tal parentesco, tratava-se agora de traçar as linhas de
aproximação do tupi com a língua do antigo mundo, e também nesta vertente de
pesquisa o parentesco entre as línguas seguia confirmado.
Se até aquele momento o Novo Mundo fora pensado em termos das distâncias que
guardava do Velho Continente, e desta apreensão resultara o registro de uma
multidão de línguas isoladas entre si e igualmente distantes e estranhas às
línguas européias, Rocco de Cesinale defendia que a nova ciência que agora
operava a partir da observação dos fatos e da identificação dos sistemas - numa
clara alusão ao paradigma científico inaugurado por A. Humboldt (Gerbi, 1996,
pp. 304-305) - tendia a reduzir a diversidade a poucos sistemas, o que lhe
permitia demonstrar que ciência e religião estavam por demais próximas ou,
melhor dizendo, que a ciência dos naturalistas avançava em direção a conclusões
há muito demonstradas na Bíblia.
Aludindo às condições de implantação do programa missionário no Brasil, que
fora possibilitado pela língua geral, e expondo as coleções de catecismos,
orações dominicais e gramáticas das línguas indígenas coletadas pelos
missionários ao longo dos séculos, Rocco de Cesinale apresentava este tipo de
material como prova das inúmeras semelhanças entre as línguas Tupi.
A missão capuchinha praticada em Minas Gerais pelos missionários italianos
guardava, dessa forma, grande proximidade em sua prática com o exercício de
reflexão de um historiador da Ordem: em ambos os terrenos, tratava-se de
enfrentar a decomposição apenas aparente do universo, tendo em vista sua
representação recomposta. No caso de Itambacuri, a missão católica pretendeu
apresentar a mistura purificadora, da qual emergiria a unidade possível, o
índio que pela mistura das raças era feito cristão laborioso.
Conclusão
Subvertendo a lógica das rotas comerciais do período colonial que abordaram o
continente sulamericano pelo litoral atlântico, a ciência natural do início do
século XIX partiu da Amazônia de A. von Humboldt para descrever a Mata
Atlântica e seus habitantes. No momento seguinte, Spix e Martius seguirão para
uma longa viagem exploratória rumo à Floreta Amazônica levando na bagagem
conclusões compartilhadas na Fazenda da Mandioca pela rede de naturalistas aqui
focalizada. Entre estes dois momentos da ciência natural, Maximiliano de Wied-
Neuwied coletou o crânio do botocudo no rio Doce que passou a figurar no
gabinete de craniometria do anatomista Blumenbach, na Universidade de
Göttingen, como o último elemento da tipologia constituída pelas cinco raças
descendentes de uma única espécie primeva de caucasiano (Stocking Jr., 1987,
pp. 8-45).
Se a ciência dos primeiros naturalistas alemães que desembarcam no Rio de
Janeiro irá propiciar, como mostrou M. M. Lopes (1995), peças, coleções e um
primeiro olhar minucioso sobre as florestas tropicais, que possibilitaram por
sua vez o exercício da ciência natural em muitas das análises que dispomos
sobre as práticas científicas do período, deixou-se de considerar em que
condições tais estabilizações se deram. Tratou-se de uma das mais espetaculares
mobilizações da ciência, tendo em vista "o grande censo universal" (Latour,
[1997] 2000) devidamente precedido de técnicas de coleta, de armazenagem, de
classificação do mostruário, procedimentos que aprofundaram assimetrias.
A tese do monogenismo e a idéia de uma humanidade degenerada encontrada nos
trópicos, que orientou as pesquisas e as conclusões da história natural
produzida nos jardins botânicos implantados em meio à Mata Atlântica,
dialogaram francamente com as demandas trazidas pela premência do programa de
adaptação do colono europeu aos trópicos. Um profundo silêncio imposto aos
nativos do continente resultou de tal configuração. Por vezes, como em algumas
páginas de Saint-Hilaire (1974), reconhecemos traços de uma história profunda
do continente sul-americano identificada nas formas de cultivo e de uso das
plantas e animais. O naturalista francês chamava a atenção nestas passagens
para os "remédios eficientíssimos" feitos a partir de plantas que serviam "para
aliviar seus males", e chegava a recomendar a constituição de uma "matéria
médica brasileira". Nestas passagens que sugerem a existência de formas
diferenciadas de fruição da paisagem da Mata Atlântica na maioria das vezes,
entretanto, o naturalista se referia ao conhecimento dos colonos.
Assim, ainda que a convivência de cientistas e índios nas expedições de coleta
possibilitou uma aproximação da ciência do século XIX de uma história do
cultivo da Mata Atlântica pelas populações nativas, a descrição que a narrativa
dos viajantes privilegiou se fez quase sempre enviesada pela presença do
colono, operação que traduz o silêncio imposto aos coletivos das florestas
tropicais.
Uma cançoneta alemã das primeiras décadas do século XIX usada na propaganda em
prol da imigração inspirou o ensaio de Flora Süssekind (1990) que, pensando as
origens do narrador de ficção no Brasil, se depara com escritores nacionais
que, na mesma época que focalizamos - as primeiras décadas do século XIX -,
recorreram aos naturalistas e viajantes europeus para encontrar o Brasil.
Seguimos em direção contrária: usando os registros da história natural
distinguimos as disputas em torno do cultivo da paisagem para com elas
evidenciar populações nativas do continente no ambiente das florestas
tropicais. Pensar os coletivos natureza/sociedade, aqui chamados a participar
como "seres capazes de falar" (Latour, [1999] 2004a, pp. 120), teve o sentido
de devolver a voz à Mata Atlântica e aos nativos que a freqüentavam no século
XIX.
Notas
1 O Museu Nacional do Rio de Janeiro foi inaugurado em 1818. Sobre a criação
dos museus de história natural no Brasil, ver Margareth M. Lopes (1995).
2 Antes da implantação do aldeamento de Itambacuri na década de 1870, a região
contou com aldeamentos dirigidos por frades capuchinhos ainda na década de 1840
no norte da província do Rio de Janeiro, no Espírito Santo, em Minas Gerais e
na Bahia (Metódio da Nembro, 1958).
3 Sobre a contribuição de G. Marlière à obra de A. de Saint-Hilaire, ver
Marlière ([1824] 1904, pp. 519-522).
4 Marlière utiliza a expressão "usar a mão do gato para retirar as castanhas do
fogo", lembrando a passagem do conto de La Fontaine; no caso, os Campos de
Goitacases das populações Puri ocupando a posição das castanhas do conto.
5 O período do Reino Unido (1816-1822) foi marcado por expedições de
naturalistas ingleses, prussianos e franceses, como mostra a historiadora Wilma
P. Costa (2006).
6 Segundo A. Gerbi (1996, pp. 250-254), J. F. Blumenbach, anatomista alemão
criador da antropologia física ou comparada, foi um dos primeiros a ver o homem
como parte da história natural. Era um nome notório na academia alemã quando da
publicação de seu doutorado De generis humani varietate nativa (Göttingen,
1775).
7 Os estudos sobre a adaptação do imigrante europeu interessaram especialmente
Langsdorf (Manizer, 1967), mas também estão presentes na obra de Maximiliano
Wied-Neuwied.
8 Os pedidos de autorização para a montagem de expedições de história natural
na Amazônia e no Mato Grosso foram sistematicamente negados neste momento pelo
governo do Império, em nome da proteção das fronteiras (Costa, 2006).
9 Sobre outras expedições científicas de G. I. Langsdorff, ver Komissárov
(1981).
10 F. Selow, por sua vez, conhecia Maximiliano de Paris, onde também conhecera
A. de Saint-Hilaire. Este desembarcaria no Brasil um ano mais tarde, em 1816,
permanecendo até 1822.
11 Para um contraste significativo, ver em Costa (2006) a recepção e o impacto
da obra de A. de Saint-Hilaire no Brasil ainda no século XIX.
12 Sobre a colonização do Mucuri e as questões colocadas para as populações
indígenas, ver Horta Duarte (2002), Mattos (2004) e Freitas (2009).
13 Em relação aos colonos, Teófilo Otoni distinguia dois grupos de imigrantes
europeus e ministrava a cada um tratamento diferenciado. Segundo ele, para as
colônias de imigrantes almejava-se a vinda de "colonos que pagassem suas
passagens e viessem comprar terras à Companhia" (Otoni, 2002, p. 98), classe de
imigrantes que identificava como "lavradores". Ocorre que a propaganda da Cia.
do Vale do Mucuri por vezes atraía certa classe de cidadãos "onerosos e
suspeitos", que T. Otoni classificava como sendo de origem urbana, os
"proletariado prussiano", a qual responsabilizava pelos distúrbios freqüentes
nas colônias.
14 Sobre os Tupiniquim do período colonial, discorria Teófilo Otoni: "os quais
francamente aceitando a civilização portuguesa, e aliando-se em casamentos com
os europeus, fizeram prosperar nos primeiros anos a capitania de Porto Seguro a
ponto de começarem logo os colonos a exportar para a metrópole grandes porções
de açúcar. Mas poucos anos duraram a prosperidade da capitania, vítima que foi
dos ataques dos aimorés, pataxós, abatirás [...] a tal ponto que em 1587 só
restava um engenho em toda a capitania, continuando por dois séculos em
completa decadência [...]" (Otoni, 2002, p. 43). A respeito da reedição no
Império do debate colonial sobre a oposição Tupis e Tapuias, ver Monteiro
(2001).
15 Gênero que guarda em comum com outras memórias de missionários do século XIX
forma, tom e abrangência, a memória de Itambacuri apresenta-se como peça
política de defesa da missão católica no contexto regional, como de resto se
volta para o público católico estrangeiro que usualmente teve acesso às
memórias esparsas dos missionários capuchinhos antes do público brasileiro. O
volume examinado, copilado na década de 1950 pelo superior dos capuchinhos F.
Jacinto de Palazzolo, foi veiculado na coleção Brasiliana, da Companhia Editora
Nacional, conquistando grande público, sendo talvez a obra capuchinha mais
conhecida do leitor brasileiro. Alceu de Amoroso Lima cuida da apresentação do
volume, revelando a probabilidade de uma ascendência nobre de F. Serafim de
Gorísia, que pertenceria à nobreza austríaca e privara na juventude da amizade
do Imperador Francisco José (Palazzolo, [1952] 1973, p. 22). Além da memória,
dispomos sobre Itambacuri de uma das mais prolixas correspondências do período,
assinada por seus missionários, Frei Serafim de Gorísia e Frei Ângelo de
Sassoferrato (Arquivo da Custódia do Rio de Janeiro dos Frades Capuchinhos,
ACRJ).
16 ACRJ, Correspondência de F. Serafim de Gorísia, Itambacuri, 12/8/1882.
17 Experiências similares não pretenderam cumprir esta recomendação oficial,
como o Aldeamento de São Pedro de Alcântara, no vale do Tibagi, Paraná,
dirigido por frei Timotheo de Castelnovo. Em São Pedro de Alcântara a missão
capuchinha registrará a inviabilidade de se aproximar colonos migrantes e
imigrantes dos agrupamentos Kaiowá, Mbyá e Kaingang, assim como de reunir em um
mesmo aldeamento grupos indígenas distintos (Amoroso, 1998).
18 Arquivo da Custódia do Rio de Janeiro 20-III-51, 15/3/1885.
19 O Arquivo Histórico do Itamaraty, no Rio de Janeiro, guarda os registros da
chegada dos missionários capuchinhos italianos contratados pelo governo do
Império durante o Segundo Reinado para atuarem nos aldeamentos indígenas nas
províncias do Brasil (ver Ministério das Relações Exteriores, Ofícios da Cidade
do Vaticano, Período 1840-1889).
20 É à Storia delle missione dei cappuccini, de R. de Cesinale, que Pierre
Verger recorre para pensar o lugar da missão católica na construção dos deuses
fetiches entre os Yorubá, no Congo do século XIX (Verger, 1966).
21 A missão capuchinha neste momento implantara-se também no rio Tapajós e
mantinha por lá frei Pelino de Castrovalva, outro missionário italiano e
diretor do Aldeamento Indígena de Bacabal, entre os Mundurucu (Amoroso, 2006).