A exaustão das cidades: antienobrecimento e intervenções urbanas em cidades
brasileiras e portuguesas
Introdução
As razões de uma análise comparativa entre Brasil e Portugal, nomeadamente no
que se refere às intervenções urbanas em cidades históricas, têm um duplo valor
heurístico para os estudos urbanos contemporâneos. Primeiro, por permitir
cotejar um aspecto tácito do método comparativo, qual seja, o de verificar as
semelhanças e as dessemelhanças de experiências que foram relativamente
similares em seus fins pretendidos, mas que resultaram em práticas de
intervenção e usos singulares do espaço em cada caso. Segundo, por possibilitar
avançar no refinamento dos marcos conceituais que hoje se denomina de
gentrification (enobrecimento).
A reflexão aqui proposta tem como referentes empíricos as experiências de
intervenção urbana nas cidades brasileiras de Recife e Salvador, e nas cidades
portuguesas de Évora e Porto. Naturalmente muitos outros casos no Brasil e em
Portugal poderiam ser tomados como objeto de estudo, a exemplo dos casos de
Fortaleza, Belém e do Maranhão, no Brasil; e de Lisboa, Sintra e Coimbra, em
Portugal. A escolha dessas cidades justifica-se por uma razão prática e outra
técnica. A razão prática decorre do necessário recorte da pesquisa que ora
desenvolvo, uma vez que o leque de experiências semelhantes no Brasil tem se
alargado muito. A razão técnica justifica-se pelo foco metodológico adotado,
voltado a estudar casos que têm sido, com razoável consenso pelos estudiosos do
tema, considerados paradigmáticos dos processos de enobrecimento.
Gostaria também de esclarecer que não é objetivo deste trabalho realizar um
amplo estudo comparado de casos. Ao contrário, a intenção proposta é discutir
mais as características dos processos de intervenção do que os seus produtos em
si. Dessa feita, os casos aqui utilizados servem como rebatimento empírico de
uma reflexão que venho tentando sistematizar acerca dos processos
contemporâneos de enobrecimento urbano, sobretudo no que se refere às práticas
de consumo cultural do patrimônio histórico e à formação dos espaços públicos
em suas interfaces com os usos e contra-usosdesses espaços enobrecidos (Leite,
2007).
A formação das paisagens espetacularizadas, ou para usar a expressão de Sharon
Zukin (1995), as "paisagens de poder", ganha contornos cenográficos em
decorrência de alguns fatores estético-funcionais e políticos, os quais
constituem os aspectos centrais que gostaria aqui de analisar comparativamente.
Dessa forma, pretendo neste artigo abordar duas características que me parecem
centrais e recorrentes nos processos de enobrecimento: [1] a espetacularização
da cultura; [2] a formação de socioespacialidades e a construção de um espaço
público fragmentado, marcadamente multipolarizado pelo que chamei de contra-
usos (Leite, 2007).
Pretendo argumentar que a confluência desses dois fatores, quando reincidentes,
pode contribuir para fazer desses espaços lugares de disputas práticas e
simbólicas que resultam numa espécie de contra-revanche da cidade, que esvazia
as práticas interativas e desertifica os espaços antes enobrecidos.
Paisagens espetacularizadas
Não é demais iniciar sublinhando que esses processos de enobrecimentoestão
marcados por muitas controvérsias conceituais. Embora com várias décadas de
uso, o termo ainda é relativamente difuso e se presta a explicações acerca de
situações empíricas muito distintas, que não raramente causam o incômodo ao
qual se refere Silvana Rubino (2003), ao analisar como o termo retém certa
polissemia a partir dos diferentes autores que o utilizam.
Desde o seu primeiro enunciado, em 1964, pela socióloga britânica Ruth Glass em
London: aspects of change, o termo tem sido usado para designar diferentes
formas de intervenção urbana, que variam dos processos de "regeneração",
"reabilitação" ou "revitalização" de áreas ou sítios patrimoniais de alto valor
histórico - sejam eles residenciais ou não - às práticas contemporâneas de
reestruturação urbana em larga escala que criam áreas enobrecidas, sejam para
abrigar empresas multinacionais nos chamados megaedifícios inteligentes, sejam
para erguer condomínios residenciais de luxo para as classes médias e altas
(Smith, 1996; Less et al., 2008).
Há muitas razões para o interesse crescente acerca dos estudos sobre os
processos de enobrecimento urbano, como ressalta Loretta Less, Tom Slater e
Elvin Wily (2008), a partir dos estudos de Cris Hamnett e de Brian Berry e
Larry Bourne. A lista dos diferentes interesses acadêmicos pelo fenômeno não
chega a surpreender, mas é curioso como eles destoam em seus significados, que
variam do entendimento de que as práticas de enobrecimento são uma expressão do
neoliberalismo no urbanismo e do entrelaçamento dos processos de globalização;
à idéia de que seriam formas particulares de reinvenção dos recursos simbólicos
das cidades no contexto contemporâneo Em todo caso, tais processos são
considerados importantes aportes teóricos sobre políticas urbanas, que se
configuram como campo de batalha disciplinar para a geografia, a sociologia e a
arquitetura (Less et al., 2008).
Em outra perspectiva, as práticas de enobrecimento ganham relevo por serem
consideradas expressões pós-modernas do planejamento urbano contemporâneo.
Autores como Harvey (1992), Zukin (1995), Featherstone (1995) e Jameson (1997)
têm apostado nessa hipótese, amparados em certas características estéticas e
funcionais predominantes nesses processos, tais como forte apelo visual,
reinterpretações justapostas de estilos arquitetônicos, ênfase na
monumentalidade e na perspectiva mercadológica no trato do patrimônio
histórico.
Resguardadas as diferenças que marcam os distintos tipos de enobrecimento
urbano, pode-se dizer que eles consistem em um tipo específico de intervenção
urbana que altera a paisagem urbana por meio da acentuação ou da transformação
arquitetônica com forte apelo visual, adequando a nova paisagem às demandas de
valorização imobiliária, de segurança, ordenamento e limpeza urbana voltadas ao
uso ou à reapropriação por parte das classes médias e altas, que resulta em
espaços com forte inflexão segregacionista mediante demarcações socioespaciais
que fomentam a fragmentação do espaço em diferentes lugares (Leite, 2009).
Quando os espaços são sítios ou centros históricos, os processos de
enobrecimento agregam outras características, a exemplo do reforço simbólico de
alguma idéia de pertencimento ao lugar - ainda que difusa -, por meio da
retradicionalização da cultura local; ao mesmo tempo que distendem as
possibilidades de visitação e interação com esses espaços históricos, ao
promoverem a destradicionalização do patrimônio (Fortuna, 1997), a
espetacularização da cultura e sua inserção na cultura de consumo
(Featherstone, 1995).
Outro aspecto central nesses processos de enobrecimento é a pretensão, ao menos
em nível discursivo, de reativar aquilo que os urbanistas costumam chamar de
"espaço público". Embora para as ciências sociais esse conceito retenha uma
maior complexidade teórica (Leite, 2002), uma vez que o espaço público como
categoria analítica da vida urbana tem como elementos constitutivos os
conflitos e as diferentes demandas da cultura urbana contemporânea, os gestores
urbanos o entendem como um espaço aberto de convivência, não raramente
confundindo-o com logradouro público. A despeito dessa diferenciação
conceitual, parte substantiva dos projetos de enobrecimento refere-se às
possibilidades de retorno ao centro das cidades e a uma vida pública de
calçadas seguras e vitrines lustrosas, quase numa espécie de nostalgia de uma
belle époqueperdida. O modelo continua a reproduzir tardiamente o princípio da
higienização social da Paris de Haussmann, agora de forma alterada e adequada à
cultura de consumo da sociedade contemporânea.
Parte dos estudos de casos sobre diferentes experiências de enobrecimento no
Brasil e em Portugal (Fortuna, 1997; Pinho, 1997; Scocuglia, 2004; Ferreira,
2005; Rubino, 2003; Botelho, 2006; Peixoto, 2006; Tamaso, 2007; Barreira, 2007;
Leite, 2007; Bezerra, 2008) sinaliza para convergências das características
acima destacadas. Se as aproximações observáveis nesses estudos não permitem
ainda generalizações conceituais robustas, fornecem indicadores para um início
de reflexão comparada acerca das ressonâncias dos processos de enobrecimento em
diferentes contextos urbanos.
Os quatro casos que tomo aqui como referentes empíricos para a inflexão
analítica proposta reforçam certas características reincidentes nesses
processos, ao mesmo tempo em que permitem observar variações e dessemelhanças
típicas e singulares dos diferentes casos. Recife e Salvador, embora tivessem
residências periféricas à época dos seus processos de enobrecimento, as
práticas que ali predominavam foram tipicamente o que se pode chamar de
"enobrecimento de visitação", como sugere a pesquisadora francesa Bidou-
Zachariasen (2006). Esse tipo de intervenção tem forte apelo turístico e
nenhuma intervenção voltada a recuperar moradias da população de baixa renda
que residualmente habitava aqueles sítios. O aspecto residencial dessa
modalidade ocorre pela criação de hotéis de luxo, onde antes eram casarões em
franca deterioração física. Essa modalidade de enobrecimento, que é
predominante no Brasil, reflete a realidade de "decadência" dos centros
históricos brasileiros e do movimento migratório residencial para áreas mais
afastadas da cidade.
As cidades portuguesas do Porto e Évora enquadram-se em outro tipo de
enobrecimento, muito típico das cidades históricas européias, que se pode
denominar enobrecimento residencial. Embora os bairros portuários da área da
cidade do Porto, sobretudo a área Ribeira-Barredo, igualmente a Recife e
Salvador, tivessem uma situação periférica de residências das camadas mais
baixas, havia uma população residente mais densa do que nos casos brasileiros.
Em Évora, a situação era mais caracteristicamente residencial, uma vez que o
núcleo histórico da cidade mantinha uma população residente relativamente
estável, ainda que predominantemente idosa.1
Essas diferenciações entre as cidades aqui elencadas, contudo, não são
excludentes. A rigor, as quatro cidades mantinham características residenciais
em diferentes níveis de adensamento e igualmente foram objeto de intervenções
voltadas à transformação do patrimônio histórico em mercadoria para o consumo
cultural. Sobre esse aspecto, uma das diferenças entre os casos é o tipo de
resultado pretendido em relação à permanência ou não dos moradores antigos. Em
outras palavras, incorporaram-se em seus projetos de intervenção ações voltadas
à recuperação das condições residenciais de permanência dos moradores. Este é
um aspecto importante para a análise dos processos de enobrecimento por duas
razões: pelo atribuído caráter segregacionista dessa forma de intervenção
urbana - que em muitos casos inviabiliza a permanência dos moradores antigos -
e pela intenção de alterar os usos dos espaços para adequá-los às demandas do
mercado. Naturalmente não estou aqui a sugerir que o urbanismo em geral é refém
dos interesses do mercado, mas tão-somente pretendo assinalar um tipo
especifico de política urbana que tem se proliferado em todo o mundo, voltada a
uma acentuada perspectiva mercadológica no trato das cidades e dos patrimônios.
Poderíamos destacar, grosso modo, que as principais etapas pelas quais passam
esses centros históricos se iniciam com a plena existência do centro como
estrutura funcional da vida urbana que agrega as primeiras manifestações de uma
cultura urbana. Em um segundo momento, por vários fatores relacionados com a
crescente urbanização, eles perdem sua importância socioeconômica, sendo
estigmatizados e desvalorizados socialmente. Numa etapa seguinte, reclamam e
adquirem identidade patrimonial, reinserindo-se na pauta das políticas urbanas.
É nesse momento que ocorrem as intervenções que não raramente resultam em
práticas de enobrecimento, mediante a reinvenção do patrimônio e a construção
de uma nova imagem da cidade. Os centros ou sítios históricos passam a ter seu
atribuído valor patrimonial e transformamse em foco nodal de intensivas
políticas urbanas e maciços investimentos públicos e privados (Leite e Peixoto,
2009).
A espetacularização da cultura
O enobrecimento por via da requalificação de sítios históricos se dá mediante a
instalação de serviços e da promoção de uma oferta extensiva de cultura, lazer
e entretenimento para as classes médias e altas.
Em geral, a situação que antecede essas intervenções é caracterizada por um
declínio abrangente do sítio, tanto em seu aspecto físico (deterioração das
edificações, do mobiliário urbano e da infra-estrutura sanitária, entre outros
aspectos), como em seu aspecto simbólico (decaimento da importância do sítio em
relação a outras áreas da cidade; perda de centralidade e crescente
representação social negativa, muitas vezes relacionada com a insegurança e o
caráter inóspito e marginal do local). A despeito desse diagnóstico
problemático, essas áreas mantêm forte significado para a história da cidade,
exatamente por terem sido locais de grande visibilidade e importância
econômica, política e cultural.
O bairro do Recife é o marco zero da cidade e foi o núcleo original que deu
origem ao primeiro plano urbanístico de Recife, por intermédio do holandês
Maurício de Nassau, e que, após a retomada do domínio português, se constituiu
em um dos mais importantes centros financeiros da colônia, em virtude de seu
porto e da economia açucareira. No início do século XX, foi agregado um
considerável valor urbanístico e arquitetônico, por ter o bairro passado pela
mais ampla e polêmica reforma brasileira ao estilo da belle époqueda Paris de
Haussmann, que o reconstruiu no estilo eclético (Leite, 2007). Mesmo em sua
fase mais "decadente", o bairro do Recife manteve no imaginário local a sua
importância histórica, por ter sido o local onde a cidade se originou. Mais do
que isso, para o ufanismo recifense, ali é mais do que o centro do país. Na
última intervenção no bairro, foi inscrita no chão do Marco Zero a
significativa frase: "eu vi o mundo...ele começava no Recife".2
O centro Histórico de Salvador foi, por sua vez, um local de grande importância
para o comércio colonial-escravista na cidade fundada em 1549 por Tomé de
Sousa, o primeiro governador-geral do Brasil. Região predominantemente
residencial da cidade, teve destaque inclusive pela sua posição elevada em
relação à parte baixa da cidade, reforçando as necessidades de defesa da área.
O Pelourinho, situado no centro dessa parte alta da cidade, tornou-se, no
primeiro quartel do século XX, uma região de grande sociabilidade urbana, para
onde convergiam as principais práticas comerciais locais. De modo semelhante ao
Recife, a região do Pelourinho, mesmo "deteriorada" por volta das primeiras
décadas da segunda metade do século XX, manteve sua reserva de importância
simbólica, tanto pelo seu patrimônio arquitetônico como por sua centralidade
histórica. Não é demais lembrar que, na passagem das comemorações dos 500 anos
do descobrimento do país, foi veiculada uma propaganda em rede nacional de
televisão, tendo ao fundo imagens do Pelourinho já "revitalizado", que dizia:
"Bahia: o Brasil nasceu aqui".
A cidade do Porto, em Portugal, foi igualmente um centro estratégico na
economia de toda a região do Douro, em virtude da intensa vida social e
comercial do local. Como se costuma dizer em Portugal, "Lisboa diverte-se, o
Porto trabalha, Coimbra estuda, Braga reza". A atribuição de valor à cidade com
base nas atividades comerciais é antiga e se relaciona com a própria fundação
da cidade, considerada pelos seus patrícios o berço da nação portuguesa. Essa
representação decorre de uma espécie de mito da fundação, no qual é atribuída à
cidade a origem do nome do país, em função da independência do Condado
Portucalense, que teria originado a palavra Portugal, pelas expressões
toponímicas "porto" e "cale" (Fortuna e Silva, 2002). Considerada a "Manchester
portuguesa", Porto reteve esse imaginário de uma cidade ativa, liberal e
progressista. Mesmo no contexto de declínio dos usos de seus bairros
históricos, sobretudo a partir dos anos de 1960 com uma considerável redução de
sua população residente,3 o Porto manteve sua centralidade em decorrência da
forte inflexão histórica que permeia a imagem da cidade.
Évora é, possivelmente, uma das mais antigas cidades históricas de Portugal.
Sua origem está supostamente ligada à romanização da Província da Lusitânia,
cujo processo a teria elevado à condição de municipium Ebora Liberalitas
Juliapelo Imperador Júlio César, quando da exploração da península ibérica
(Câmera Municipal de Évora, 1997). Com vestígios arqueológicos romanos e um
rico conjunto arquitetônico, Évora, com seus palácios e igrejas, foi no medievo
uma importante cidadela murada, residência de nobres e reis de Portugal. Seu
rico acervo contém exemplares da arte e arquitetura renascentista, islâmica,
gótica, manuelina, barroca e neoclássica. Situada na região do Alentejo, paira
sobre Évora a idéia que teria sido a capital do país (Câmara Municipal de
Évora, 1997). O contexto cotidiano da cidade antes das recentes intervenções
era marcado por uma imagem de cidade estagnada, pequena e tradicionalista, com
a predominância de pequenas famílias e grupos de influência (Fortuna, 1997).
Nos anos de 1980, exatamente no contexto em que ocorre a acentuação dos
processos de patrimonialização e enobrecimento em várias cidades do mundo,
inicia-se em Évora as intervenções que iriam transformá-la em pólo atrativo de
lazer e turismo, mediante o que Carlos Fortuna (1997) denominou
"destradicionalização da imagem da cidade". Essas transformações, que
culminaram, em 1986, com a elevação de Évora à categoria de Patrimônio Mundial
pela Unesco, representaram, na perspectiva analítica de Paulo Peixoto (1997),
uma pioneira experiência, em Portugal, do uso dos recursos patrimoniais para a
inserção global da cidade.
A destradicionalizaçãoa que se refere Fortuna consiste em um estratégico
mecanismo do planejamento urbano contemporâneo, voltado à revalorização da
cultura e do patrimônio com vistas à adequação das cidades ao contexto de
"concorrência intercidades":
[...] a destradicionalização é um processo social pelo qual as
cidades e as sociedades se modernizam, ao sujeitar anteriores
valores, significados e acções a uma nova lógica interpretativa da
intervenção. Essa destradicionalização é movida pela necessidade de
revalorizar os seus recursos, reais ou potenciais, como forma de se
reposicionar no mercado da concorrência inter-cidades, cada vez mais
competitivo (Fortuna, 1997, p. 234).
Esse processo, portanto, não significa o abandono da tradição, mas sua
reelaboração à luz das demandas mercadológicas que permeiam as intervenções
urbanas contemporâneas, sejam elas do tipo gentrificationou não. Nos casos em
que as intervenções podem ser consideradas enobrecedoras, essa
destradicionalizaçãose radicaliza ao seu ponto máximo, com a possibilidade de
uma completa alteração dos sentidos atribuídos ao patrimônio, sendo inclusive
acrescidos valores antes inexistentes. E, em decorrência disso, permitem
alterações profundas nos usos e nos usuários, atingindo, sobretudo, antigos
moradores que, em geral, são alvos de uma almejada substituição por outros mais
adequados aos novos usos pretendidos pela intervenção. Em certos casos, essa
alteração ganha contornos drásticos com a expulsão de antigos usuários,
configurando o que Certeau chamou de "curetagem social" (Certeau, 1994).
Noutras situações, pode ocorrer a busca por moradores e usuários com novos
perfis, sem descartar, contudo, aqueles já existentes. Esse é o caso - em menor
grau - do Porto, que manteve parte dos seus moradores usuais, e, em maior grau,
de Évora, que investe até hoje na atração de moradores mais jovens, em virtude
da alta idade da população residente.
Deve-se, nesse ponto, sublinhar uma diferença significativa entre os casos
brasileiros e portugueses, que pode ser considerado em atenuante conceitual
para o enquadramento das experiências portuguesas no tipo de intervenção
enobrecedora. Dada as características residenciais do Porto e de Évora, o tipo
de enobrecimento que ali pode ter ocorrido apresentou uma preocupação menos
incisiva com a substituição de moradores, como foram os casos do Recife e de
Salvador. A propósito, o Estudo sobre o Despovoamento dos Centros Históricos da
Rede Atlante, projeto que visa melhorar as cidades Atlânticas Patrimônio
Mundial da Unesco, do qual fazem parte Porto e Évora, tem em nota introdutória
uma importante observação em defesa da habitabilidade dos centros históricos:
A teatralização do espaço urbano, onde o patrimônio serve unicamente
de cenário para eventos culturais ou para enquadrar as fotografias
dos turistas, não é aceite pela rede das cidades que trabalham em
conjunto uma série de temas que pretendem contribuir para a
revitalização dos centros históricos (Atlante, 2005).
Não deixa de ser interessante observar que, a despeito dos processos
brasileiros e portugueses terem almejado os mesmo resultados, qual seja, a
destradicionalização dos seus patrimônios para a inserção dos seus respectivos
centros históricos na concorrência intercidades, o discurso brasileiro foi mais
abertamente voltado à criação de espaços de espetáculo urbano, talvez porque a
dimensão residencial do Recife e de Salvador era menos acentuada. Por outro
lado, a preocupação portuguesa em não criar meros cenários não evitou que a
destradicionalização ocorresse no Porto e em Évora, promovendo inclusive a
mesma espetacularização da cultura dos casos brasileiros.
O que entendo por espetacularização da cultura é a acentuação ou a criação de
traços culturais que objetivam caracterizar a singularidade de um espaço urbano
por um forte apelo visual e práticas sociais momentâneas, com vistas à
apreensão consumível da história e da cultura na forma de uma mercadoria. A
idéia de espetacularização da cultura sempre esteve presente, nas mais diversas
formas, nos processos de intervenção urbana. A monumentalidade arquitetônica
talvez seja a mais conhecida delas, e tem sido a parte mais notável e
constitutiva desse discurso espetacular que certas reformas intentam imprimir,
em busca de maior visibilidade, distinção e apelo estético. A perspectiva que
alia monumentalidade e visibilidade não é nova: tem estado presente há muito no
urbanismo, a exemplo da conhecida reforma de Haussmann, em Paris, e das
intervenções de Otto Wagner, na Viena do Ringstrasse (Schorske, 1990).
Contudo, a monumentalidade arquitetônica e urbanística não é a única forma de
espetacularização da cultura. No Brasil, o forte apelo da suposta e discutível
autenticidade da cultura popular tem sido um dos mais poderosos recursos para a
retradicionalização desses espaços enobrecidos, em uma perspectiva espetacular
e mercadológica da cultura.
O processo é bastante conhecido: como já pude observar anteriormente quando
estudei o Bairro do Recife (Leite, 2007), a ação consiste em fomentar a
apresentação de manifestações da cultura local, como forma de ativar certos
parâmetros de legitimidade cultural desses espaços. Entretanto, muitas vezes
são manifestações que nada têm a ver com a localidade e que são apresentadas
como típicas, a fim de criar esses possíveis lastros de identidade. O problema
é que, de fato, trata-se tão-somente de uma espetacularização
retradicionalizada, na medida em que o objetivo é criar uma identidade
tematizada (Costa, 2002) para estimular consumidores. O objetivo é, em última
análise, atrair novos usuários, tendo como referência as possibilidades de
consumo do espaço na forma do acesso a bares e restaurantes ou do consumo
simbólico dessas manifestações artístico-culturais.
Dessa feita, a noção de espetacularização da cultura aqui sugerida é derivativa
do conceito de destradicionalização, pelo fato de que supõe uma ressignificação
dos valores culturais e do patrimônio, mas a extrapola na direção de uma
exacerbação visual e cenográfica do espaço urbano e das práticas sociais
voltadas ao consumo simbólico. As principais ressonâncias da espetacularização
da cultura nos processos de enobrecimento, sejam eles residenciais ou não,
permanecem numa forte demarcação socioespacial da vida pública, uma vez que os
usuários são espacialmente orientados em suas interações cotidianas, em função
dos usos desejados/pretendidos para aqueles espaços intervindos. Não raramente,
essa demarcação incide sobre a forma de estar nesses espaços, cujas
sociabilidades públicas estão fortemente marcadas pelas possibilidades ou
impossibilidades de interação, aspecto sobre o qual me deterei no tópico
seguinte.
A espetacularização da cultura nas quatro cidades se deu em moldes semelhantes
em todas a partir do final dos anos de 1980, período em que começou a se
multiplicar esse tipo de intervenção em muitas cidades americanas e européias.
A busca da monumentalidade visual reforçou os aspectos cenográficos dos espaços
mediante a restauração das edificações com forte ênfase nas fachadas e nos
efeitos de luz ou mediante intensa publicidade sobre as potencialidades
turísticas dos locais. O incremento das atividades artístico-culturais reforçou
a ambientação voltada às atividades de lazer, consumo e entretenimento.
Após as intervenções e as ações de restauro, as áreas consideradas inóspitas e
deterioradas dessas cidades ganharam novos mobiliários urbanos, nova iluminação
e algumas melhorias na rede sanitária. Velhos casarões foram transformados em
hotéis, lojas de vinho e artesanato, pubse sofisticados restaurantes. As
rotinas cotidianas mudaram: intensificada a presença de turistas, os próprios
habitantes das cidades passaram a freqüentar esses espaços com mais
regularidade, após terem sido transformados em locais de encontro, de festas e
de novas sociabilidades urbanas. O bairro do Recife transformou-se numa
importante centralidade do ufanismo pernambucano, convergindo para o seu velho
centro atividades de cunho cultural e político, com direito a homenagens a
Maurício de Nassau (outrora, um invasor) e à reativação da memória de um bairro
que fora holandês (Leite, 2007). Até hoje, o bairro se presta a megaeventos
artísticos, ainda que suas atividades tenham se arrefecido consideravelmente.
O centro histórico de Salvador sofreu uma discutida intervenção, à revelia dos
órgãos oficiais de preservação, que alterou rápida e superficialmente as
fachadas do casario, pintados com cores berrantes. Com forte apelo
publicitário, o centro foi transformado em local de referência da baianidade,
numa carnavalização consumível de uma negritude feliz e harmoniosa, bem
distinta da dura realidade da maioria da população negra da periferia de
Salvador. O Pelourinho, ou simplesmente Pelô, como é conhecido, transformou-se
num local de convergência simbólica de uma idéia de Bahia, fortemente marcada
por uma imagem turística (Fernandes et al., 1995; Pinho, 1997).
Com o projeto "Porto Feliz", a cidade do Porto reverteu a imagem "decadente" da
Ribeira e seu entorno, criando um espaço de encontros festivos e animação
cultural, imprimindo forte visibilidade à antiga área portuária. Sobretudo a
partir da criação do Comissariado para a Renovação Urbana da Área da Ribeira-
Barredo - Cruarb, as intervenções ganharam corpo alargando-se para a outra
margem do Rio Douro e atingindo parte da área portuária de Vila Nova de Gaia.
As duas cidades criaram suas próprias dinâmicas competitivas, mas ao final uma
se beneficiou da "revitalização" da outra. Como uma imagem a se refletir pelas
águas do rio, criou-se uma espécie de "Miraporto" em contraponto à freguesia
Miragaia, bairro famoso da cidade do Porto.
Uma importante nota se faz necessária nesse momento. Os processos de
intervenção no Recife, em Salvador, no Porto e na Vila Nova de Gaia apresentam
duas conhecidas características dos processos de enobrecimento: o realojamento
de antigos moradores que, sob o argumento da iminência de desabamento de
algumas edificações, foram deslocados para outras áreas da cidade, e o
contraste visível ao transeunte entre os espaços intervindos e as áreas do
entorno que não sofreram intervenção.
Nos casos citados, o acesso aos espaços "enobrecidos" se dá necessariamente por
ruas e praças que ficaram fora do perímetro "revitalizado", anunciando a face
real da cidade, com as edificações deterioradas em estado "natural" de
envelhecimento, com as ruas pouco iluminadas e sem recursos adicionais de
vigilância humana e eletrônica. Esse aspecto reforça o caráter cenográfico para
quem chega a pé a essas localidades. Os itinerários urbanos que orientam os
deslocamentos são anunciados de um tipo de planejamento estratégico que está
mais preocupado com a imagem a ser exposta do que com a integração dos seus
moradores à renovação do patrimônio edificado (Peixoto, 2006).
O caso de Évora tem uma variante em relação às demais cidades em foco. As
intervenções ocorreram especificamente no centro histórico, que se constitui na
pequena parte murada da cidade, fato que atenuou os contrastes entre áreas
"revitalizadas" e as não-intervindas. Assim, ao se percorrer o centro histórico
de Évora tem-se a impressão de uma intervenção mais completa e cuidadosa.
Ademais, a descoberta de vestígios arqueológicos romanos, a exemplo da casa de
banhos no interior onde funciona a Câmara Municipal de Évora, certamente
contribuiu para uma intervenção restauradora mais focada em aspectos
históricos. Contudo, Évora não evitou a espetacularização da sua cultura. Foram
redescobertas suas potencialidades atrativas, o que a tornou um importante
ponto da rota do turismo histórico da Europa. Com ênfase na sua típica
gastronomia alentenjana e singular conjunto arquitetônico de vários séculos,
Évora se reinventou como uma das mais importantes cidades históricas da Europa,
fato reforçado pelo reconhecimento da Unesco de seu estatuto de patrimônio da
humanidade (Fortuna, 1997; Peixoto, 1997).
Em todos os casos referidos, houve uma considerável reanimação do comércio
local, a inserção das cidades nos fluxos turísticos nacionais e internacionais,
a reativação dos usos do espaço e das sociabilidades urbanas, o realce das
características monumentais do patrimônio, associado ao forte apelo visual dos
conjuntos arquitetônicos, e a revalorização das particularidades históricas,
revelando casos típicos de destradicionalização e espetacularização da cultura
e do patrimônio.
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Socioespacialidades
Uma das principais ressonâncias negativas das intervenções urbanas
enobrecedoras e que afeta sua sustentabilidade é inerente à sua própria
estratégia urbanística: a criação de uma forte demarcação socioespacial dos
usos do espaço. É um dilema insolúvel. Para reativar os usos do local e
restabelecer nichos de consumo diferenciado para atrair consumidores, essas
intervenções apostam na "requalificação" dos espaços, criando fronteiras
relativamente bem demarcadas entre diferentes usuários. Não raramente,
excluindo parte significativa da população local, impossibilitada de interagir
nesses espaços, em virtude da forte inflexão mercadológica que os elitiza. Em
conseqüência, são criadas pelos não-usuários zonas de instabilidade que
circundam esses espaços, ou neles adentram, instituindo pontos de tensão pela
disputa prática e simbólica da cidade. Penso que esse fato decorre também de
outras razões, entre elas a ultrapassada idéia de que o patrimônio cultural é
capaz de forjar um único sentido de pertencimento a toda uma população,
servindo de fator de coesão social. Estudos consistentes sobre os significados
polissêmicos do patrimônio (Canclini, 1997; Arantes, 1997; Fortuna, 1998) já
demonstraram o grau de complexidade simbólica que um patrimônio pode ter para
diferentes grupos sociais.
Diferentes formas de apropriação ocorrem quando esses espaços são intervindos,
de acordo com a forma com que os distintos usuários se vêem ali representados.
Ademais, uma forma de conflito latente entre moradores e usuários visitantes se
estabelece quando ocorrem essas intervenções, razão pela qual dificilmente esse
tipo de intervenção se sustenta por muito tempo. Seja porque os moradores
antigos, ainda que residuais, não se vêem beneficiados pelas intervenções
(casos do Recife, de Salvador e do Porto), seja porque a presença dos novos
usuários altera as rotinas cotidianas, imprimindo certo dinamismo nem sempre
desejado por parte da população local (caso de Évora).
Uma conclusão parece óbvia ao se comparar esses processos: independentemente
dos contextos e das variações, o tipo de intervenção voltada à
destradicionalização e à espetacularização da cultura e do patrimônio
restringe-se às possibilidades interativas, em decorrência do menor ou maior
grau de socioespacialidades criadas. O problema é que o modelo, na forma como
concebido, não escapa da armadilha que ele próprio criou: para criar nichos de
consumo, precisa selecionar usuários; ao inibir certos usos que seriam
contrários ao pretendido para esses espaços, fragiliza a pretendida harmonia
urbana ao gerar reações diversas que muitas vezes ganham a conotação do que
sugeri ser uma tática simbólica de contestação e afrontamento, na forma
denominada contra-usos (Leite, 2007).
Não cabe aqui propor nenhum receituário para soluções do problema, mas parece
claro que intervenções enobrecedoras, em suas formas mais típicas, esbarram em
uma inviabilidade tácita: os diferentes interesses e motivações sociais para os
processos interativos não cabem em um modelo urbanístico que almeja um único
uso predominante. Em alguns casos, a solução encontrada para minimizar os
efeitos dos contra-usosfoi demarcar ainda mais radicalmente os espaços
intervindos, criando diferentes zonas de animação cultural. O caso do Recife
ilustra bem essa igualmente equivocada solução. No auge do seu processo, a
prefeitura municipal criou diferentes pólos de animação em zonas distintas do
antigo bairro, como forma de atender os diferentes públicos consumidores
existentes. Em um primeiro momento, parecia que a idéia daria certo, uma vez
que reforçou as distâncias fronteiriças entre os diferentes lugares do bairro.
Mas as zonas de contato permaneceram fluidas, as fronteiras negociadas foram se
desfazendo e logo se viam pontos de tensão, na medida em que usos de uma área
acabavam se transformando em contra-usosem outra. Essas permeabilidades urbanas
são inevitáveis nesses processos. Em Salvador, estudo recente demonstrou como a
pequena "Favela da Rocinha", incrustada no Centro Histórico da cidade,
adentrava o espaço enobrecido do Pelourinho, da mesma forma que este último
resvalava nas sociabilidades da favela (Araújo, 2007). Situação semelhante
podia ser observada no Recife, com os conflitos e as permeabilidades entre a
"Favela do Rato" e a área enobrecida (Souza, 2007) ou no processo de
"revitalização" da Praia de Iracema, com a favela "Poço da Draga" (Sousa, 2007;
Bezerra, 2008).
O Porto não tem favelas no sentido brasileiro, mas os antigos moradores da
Ribeira que permaneceram em suas residências não pareciam estar muito contentes
com o cenário em que o bairro se transformou.
Quando das minhas pesquisas de campo no Porto, presenciei a insólita cena de
uma moradora reclamar em voz alta do barulho e da presença incômoda de tantos
visitantes a rodear sua casa. Obviamente que nem todas as ações de animação
cultural serviram para alimentar essas desmarcações sociosimbólicas da vida
pública. Dois eventos ilustram iniciativas menos segregadoras que contribuíram
para reativar um certo espírito de convivência pública. Em Évora, o evento Viva
a Rua! contribuiu para alterar a paisagem cultural da cidade, promovendo,
segundo Carlos Fortuna (1997), uma certa democratização do espaço aberto, numa
cidade tão marcada pela convivência nas esferas da domesticidade. No Recife,
também existiu algo semelhante, denominado Domingo na Rua, evento que promovia
certa convivência pública de diferentes camadas sociais, sem demarcações
sociais muito rígidas. Contudo, essas manifestações são exceções à regra dos
processos de gentrification, caracterizadamente voltados a demarcações
socioespaciais mais definidas e excludentes.
Quando me refiro às (im)possibilidades ou restrições à interação nos espaços
espetacularizados, penso, sobretudo, nos constrangimentos sociais advindos dos
processos de enobrecimento. A sofisticação de certos espaços, com restaurantes
e hotéis de luxo, a adequação extensiva dos espaços para turistas e a pouca
atenção dada aos moradores e usuários locais parecem contribuir
significativamente para a criação de pontos de tensão que, se permanecerem de
modo reincidente, culminam numa certa configuração espacial conflitante, que
pode ser uma variável importante para se compreender o declínio subseqüente que
esses espaços enobrecidos acabam por sofrer.
Esse aspecto remete diretamente o debate ao entendimento sobre os processos
construtivos dos espaços públicos nesses contextos enobrecidos. Creio ser ainda
oportuno diferenciar o que para as ciências sociais se constitui um espaço
público. Ao contrário das concepções correntes no urbanismo, o conceito de
espaço público aqui operado não o confunde com o espaço urbano de natureza
pública. Como já pude desenvolver em trabalho anterior (Leite, 2007), a noção
aqui utilizada se refere a uma categoria analítica da sociologia que o vê como
um espaço interativo construído a partir das interfaces entre espaçoe
ação.Embora se constitua no espaço urbano, é possível entender o espaço
públicocomo algo que ultrapassa a rua; como um conjunto de práticas que se
estruturam num certo lugar. Como espaço social, um espaço público não existe a
prioriapenas como rua(que, ao contrário, é sempre rua, vazia ou não), mas se
estrutura pela presença de açõesque lhe atribuem sentidos. Dessa feita, retomo
uma definição proposta anteriormente, com a qual entendo o espaço público como
uma categoria sociológica constituída pelas práticas que atribuem sentidos
diferenciados e estruturam díspares lugares, cujos usos das demarcações físicas
e simbólicas no espaço os qualificam e lhes atribuem diferentes e assimétricos
sentidos de pertencimento, orientando ações sociais e sendo por elas
delimitados reflexivamente. Como espaço de poder, o espaço público é locusde
pertencimentos, com possibilidades diversas de vínculos e atribuições de
significados; e não está obviamente imune às assimetrias do poder e das
desigualdades sociais que perpassam sua construção social.
A questão que se problematiza a partir dessa categoria é como uma noção de
espaço público que insiste na liberal noção cívica de convivência, típico dos
projetos de "revitalização" urbana, no Brasil ou em Portugal, pode se manter em
meio às disputas e dissensões que caracterizam esses espaços enobrecidos.
Considerações finais
Uma das importantes repercussões dessas políticas urbanas revela-se na
concepção de um espaço público ordenado, higienizado e minimizado de seus
aspectos conflituosos, no qual "o patrimônio é cada vez mais apresentado como a
expressão material de uma idéia pacífica de espaço público, construído com base
em uma suposta idéia de passado comum e de tradições compartilhadas" (Leite e
Peixoto, 2009).
Constatada a inevitável fragmentação desses espaços em lugares de disputa, a
questão fundamental é responder em que medida um espaço público pode ser
constituído no interstício dos lugaresque demarcam espacial e simbolicamente as
diferentes identidades. Para Simmel, as possibilidades de coexistência entre
diferentes "grupos" somente poderiam ocorrer no espaço que existe "entre" os
lugares, porque a coexistência "se verifica siempre realmente entre los dos
lugares del espacio, en el que cada cual ocupa un sitio designado y que sólo él
llena" (1986, p. 646).
Quando sugiro que os entrelugaresconfiguram e qualificam os espaços urbanos
como espaços públicos, é exatamente porque são eles que se tornam locais de
visibilidade, de disputas simbólicas, práticas de consumo e da busca de
reconhecimento público da diferença. Esse tipo de espaço resulta de uma espécie
de desentendimento(Rancière, 1996) entre os sentidos construídos pelos lugares
- que refletem diferentese desiguaisrepresentações, relações sociais e
modalidades de interação. Em decorrência do processo de descentramento do
sujeito (Hall, 2006), da fragmentação do espaço urbano e das fortes assimetrias
que configuram as relações de poder na cidade, essas interações que ocorrem em
tais espaços públicos não poderiam ser pacíficas. A espacializada e conflitante
cultura urbana contemporânea precipita e expressa relações de poder, tensões e
disputas que caracterizam a vida social, qualificando e diferenciando certos
espaços da vida urbana cotidiana como espaços públicos. Seria normativamente
válido e desejável que as pessoas e os grupos se dispusessem a conviver com o
outro, respeitando a diferença. Mas nem sempre é assim, e nem sempre pode ser
assim, razão pela qual as dissensões são tão insurgentes, parecendo que estão a
solapar a vida pública na cidade contemporânea. A proliferação da diferença,
contudo, é constitutiva da vida social (Deleuze, 2006), e creio que ainda é
preferível a possibilidade de desentendimento- que assegura um tipo de espaço
público na contemporaneidade - à impossibilidade do encontro com o estranho
(Sennett, 1976).
Como já pude sugerir em outra ocasião (Leite, 2009), os diferentes modos da
vida na cultura contemporânea nem sempre são de fato reconciliáveis. Porém,
persistem itinerários sociais nos quais os encontros com o diferente são por
vezes inevitáveis ou mesmo desejados. Essa quase inevitabilidade ocorre
precisamente mediante as práticas, sobretudo as do tipo táticos, que ocorrem
justamente nos espaços certeaunianos, cujas zonas fronteiriças permitem que
surja a insinuação que perturba o cotidiano e desafia o espaço disciplinar,
tomando a forma de contra-usos.A desterritorialização urbana a que se refere
Guattari (1985) reconhece o sentido predominantemente desordenado da cultura
urbana contemporânea, tal qual reconhece Certeau o caráter polifórmico do
andante que inscreve, nos passos pela cidade, os diferentes jogos de astúcia do
agir. O grau de dispersão de significados atribuídos aos espaços e a
multiplicidade de estilos de vida tornam volátil a rigidez dos lugares que
parecem ceder à pressão dos "espaços como lugar praticados".
São essas zonas fronteiriças e os conflitos advindos dos lugares identitários
que contribuem para a formação dos espaços públicosem áreas enobrecidas e
carregam a marca da cidade contemporânea: caótica, desordenada, marcada por
contra-usos. Nesses espaços intervalares, muitas vezes marcados pela
efemeridade, a negociação socioespacial é fundamental, a violência é latente, o
conflito é inevitável: mas neles estão possibilidades concretas da
experimentação do imprevisível. São neles que corre a vida cotidiana e ainda
persiste a rica possibilidade do encontro com o estranho na experiência urbana
contemporânea (Leite, 2009). Não sendo isso, a alternativa que se revela pela
observação empírica do estado atual desses sítios históricos "revitalizados" é
um lento e inexorável esvaziamento, numa espécie de "antienobrecimento" gradual
pela impossibilidade de o modelo de gentrificationabsorver essas demandas
assimétricas pelos usos do espaço.
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A noção de "antienobrecimento" aqui sugerida pretende designar especificamente
o processo terminal das áreas enobrecidas, quando cessam suas possibilidades
atrativas e funcionais. Refere-se, portanto, à etapa subseqüente ao
enobrecimento, caracterizada pelo arrefecimento dos usos esperados pelas
políticas urbanas.
Etapa que se poderia chamar de fase pós-revanchista (Leite e Peixoto, 2009),
que atinge o auge do contexto de patrimonialização e de suas vulnerabilidades,
e encerra um desfecho inevitável e indesejado para gestores e capital.
Sugestivamente, esse pós-revanchismo sinaliza, por outro lado, uma abertura da
cidade àqueles que não tinham espaço nas políticas de enobrecimento. Contudo, o
alto preço por essa curiosa e tardia "inclusão social" é a volta desses espaços
a condições de esvaziamento e deterioração crescentes.
À exceção dos grandes eventos, sobretudo as festas populares como o carnaval
brasileiro, o bairro do Recife se esvaziou e pouco resta da efervescência que
marcou o auge do seu processo de enobrecimento; o Pelourinho em Salvador parece
ter esgotado suas capacidades atrativas; a Ribeira do Porto mais parece um cais
abandonado, quase às escuras nas noites de domingo. Évora permanece em sua
busca por novos moradores que assegurem e justifiquem o contínuo investimento
para manter a cidade, mas parece caminhar igualmente para uma indesejável
estagnação.
De tudo isso é possível apreender que algo parece não estar se encaixando muito
bem: ou as práticas urbanísticas estão deletérias demais ao supor ser possível
criar uma cidade sem levar em conta as diferenças entre as pessoas em suas
rotinas cotidianas, ou a vida urbana é por definição fugidia a controles
excessivos, posto que é o locusfundamental do dissenso que anima a vida
pública. Desconfio que as duas razões tenham pertinência. Ambas retêm
considerável alcance explicativo para se entender as dinâmicas contraditórias
da cultura urbana contemporânea.
Mas uma terceira hipótese começa a reclamar maior atenção, quando esses
processos resultam numa espécie de retorno ao "abandono" inicial: por que não
incluir nas políticas urbanas mecanismos que assegurem que certas edificações
envelheçam com a dignidade de uma ruína preservada como ruína? Por que
perseguir com tanta obsessão a idéia de uma cidade esteticamente ordenada,
higienizada e pacífica, preferencialmente sem as marcas da história incrustadas
no patrimônio histórico envelhecido, quando as dinâmicas sociais insistem em
revelar que a cidade não é passível de uma colonização tão incisa dos espaços
públicos (Fortuna, 2002) como pretendem esses modelos de intervenção urbana?
Embora não seja recomendável, não é incomum terminar uma reflexão com outras
tantas dúvidas que as respostas anteriormente alcançadas geraram. Contudo, não
estou propondo que a ruína seja uma alternativa aos espaços enobrecidos: apenas
estou sublinhando que os agentes, sejam eles residentes ou não, não são
passivos diante dessas intervenções. Que se leve mais em conta suas aspirações,
suas visões de mundo construídas no curso da vida cotidiana, suas
representações sobre o patrimônio e os lugares simbólicos por meio dos quais
constroem suas múltiplas identidades. E findo a reflexão lembrando mais uma vez
uma pertinente sugestão analítica que deveria anteceder a elaboração das
políticas de enobrecimento: "é preciso pensar em pessoas utilizando e
transformando os espaços em que vivem. [...] Paisagens vazias podem ser
enganadoras" (Arantes, 1997).
Notas
1 Em relação a Évora, devemos ainda ponderar em que medida de fato poderíamos
denominar o processo ocorrido como enobrecimento. Certas características
típicas desses processos estão ausentes, a exemplo da substituição de
moradores. Contudo, o forte apelo visual das intervenções ali realizadas,
somado ao esforço de tornar o patrimônio histórico da cidade atrativo para o
circuito de consumo turístico e cultural, torna o processo bastante próximo das
políticas de enobrecimento.
2 O desenho do piso, com a rosa dos ventos e a referida frase, foi concepção do
artista plástico pernambucano Cícero Dias, radicado em Paris e falecido
recentemente, baseado em sua própria obra.
3 Segundo dados da Rede Atlante (2005), entre 1940 e 2001, a população
residente na região histórica do Porto baixou de 16% para 5% da população total
da cidade.