Sociedade e Economia do "Agronegócio" no Brasil
Introdução
A associação entre "modernidade" e "agricultura" no Brasil tem uma longa
história. Desde, pelo menos, a segunda metade do século XIX, pensadores e
homens de ação opõem propostas de uma "agricultura" ou mesmo de uma "indústria
rural" moderna ao que seria uma agricultura "tradicional" ou "práticas
tradicionais" das empresas agrícolas. Assim foi com a introdução dos engenhos a
vapor e com as usinas de açúcar no Nordeste canavieiro; ou com o uso
sistemático de máquinas no arroz e no trigo no sul do país nos anos de 1950.
Mas foi, sobretudo a partir dos anos de 1970 ' com a política de "modernização
da agricultura" promovida pelo regime militar ', que se começou a falar mais
explicitamente da existência de uma "agricultura moderna" ou de uma
"agricultura capitalista" no Brasil, de "empresas rurais" (figura contraposta
no Estatuto da Terra ao "latifúndio") e de "empresários rurais".
Com a importância assumida pelas exportações de produtos agropecuários e
agroindustriais e com o envolvimento nesses empreendimentos de capitais das
mais diferentes origens, e não só do chamado "capital agrário" (Palmeira e
Leite, 1998), a própria resistência dos grandes proprietários de terras às
tentativas de mudança do sistema fundiário deslocou-se da defesa da
"propriedade" e das "tradições" para a defesa do que seria a "atividade
empresarial" no campo e "as (grandes) propriedades produtivas", "responsáveis
pelo desenvolvimento do país".
Nos anos de 1980 e início da década seguinte, autores com diferentes formações
profissionais e com referenciais teóricos e ideológicos os mais variados
começam a substituir a expressão "agricultura (ou agropecuária) moderna" por
"agroindústria" e a figura dos CAI (Complexos Agroindustriais) passa a ser
moeda corrente (Graziano da Silva, 1991; Kageyamaet al., 1990; Muller, 1981 e
1982, entre outros). A preocupação era assinalar a integração agricultura-
indústria pelas "duas pontas": insumos e produtos, expressão que teria assumido
a "industrialização da agricultura" (Graziano da Silva, 1995) formulada por
Kautsky ([1899] 1986) no final do século XIX. A ideia do agronegócio será uma
espécie de radicalização dessa visão, em que o lado "agrícola" perde
importância e o lado "industrial" é abordado tendo como referência não a
unidade industrial local, mas o conjunto de atividades do grupo que a controla
e suas formas de gerenciamento. O boom das exportações de produtos agrícolas e
agroindustriais nos anos mais recentes levou à adoção da expressão
"agronegócio" ou da sua matriz agribusiness por associações de produtores (como
a Associação Brasileira de Agribusiness ' Abag, de 1993) e até pelos próprios
empresários. Da perspectiva da análise dos economistas rurais é interessante
notar, adicionalmente, que a resistência do mainstream ao uso de uma abordagem
"intersetorial" agricultura-indústria até meados dos anos de 1980 (por
considerarem que tal perspectiva feria a propriedade do setor agrícola em
atestar os atributos de concorrência pura ou perfeita na análise das funções
econômicas e produtivas) é completamente revertida no início da década de 1990,
quando se verifica uma adesão, política é certo, aos novos termos (agribusiness
primeiramente e, na sequência, agronegócio) e sua capacidade "explicativa", em
termos da análise econômica, do novo estatuto do setor agropecuário, agora
funcionando de forma "integrada".1
Da "agricultura moderna" à "sociedade do agronegócio"
As fronteiras entre "agricultura moderna", "complexos agroindustriais" e
"agronegócio" não são exatamente coincidentes. Mesmo que esses rótulos apontem
alguns elementos recorrentes e, com frequência, sejam utilizados como
sinônimos, as combinações feitas e as ênfases atribuídas são distintas.
O uso de "máquinas e insumos modernos" está presente nas três expressões, mas o
direcionamento para exportação não tem nas duas primeiras o mesmo peso que na
última. A integração agricultura-indústria não era o maior destaque que se dava
à "agricultura moderna" tal como formulada nos anos de 1970 (Mendonça, 2005). O
gerenciamento de um negócio que envolve muito mais que uma planta industrial ou
um conjunto de unidades agrícolas é uma das tônicas da ideia de "agronegócio".
Mesmo que a grande propriedade territorial esteja associada às três formas, na
segunda, ela é vinculada às práticas de "integração" que envolvem também
pequenos produtores; e no terceiro, mesmo que as grandes propriedades sejam uma
marca das atividades rurais do "agronegócio", a referência à propriedade
territorial desaparece das formulações de seus técnicos e há até quem tente, no
plano ideal dos projetos, associá-la com perspectivas favoráveis aos pequenos
produtores.2 Os trabalhos (técnicos, acadêmicos e jornalísticos) sobre o
agronegócio, que se multiplicaram desde os textos pioneiros de Ney Bittencourt
de Araújo, no início dos anos de 1990 (Araújo et al., 1990), agora estão
referidos a um espaço muito mais extenso que aquele das áreas consideradas
"capitalizadas" ou modernizadas no Sul e no Centro-Sul, incluindo as chamadas
novas fronteiras agrícolas e áreas até há pouco tempo consideradas
tradicionais.
As coisas não são menos ambíguas quando se quer precisar que produtos são parte
do agronegócio. As definições abrangentes do tema e o deslocamento do interesse
dos que o estudam, das atividades locais para as relações intersetoriais e para
a questão do gerenciamento dessas relações, faz com que haja uma tendência no
sentido que toda atividade agrícola com expressão comercial seja nele incluída
e de que a importância dos produtos varie de acordo com o foco do analista. Não
é por acaso que no início da década atual, estudiosos ligados à Abag ainda
estivessem preocupados em "estabelecer, com rigor técnico, os limites do
'complexo agroindustrial brasileiro'" (Nunes e Contini, 2001, p. 12) e
assinalassem a "necessidade de analisar separadamente as principais cadeias
[produtivas]" e recomendassem "análises regionais do CAI, para identificar as
especificidades do complexo agroindustrial em cada região do país"
(Idem,ibidem).
Assim ao tratarmos dos processos relacionados com o "agronegócio", é preciso
compreendê-los como algo que extrapola o crescimento agrícola e o aumento da
produtividade, alusões mais comuns nos debates sobre o setor. Seja para
refletirmos sobre as circunstâncias que informam o movimento de expansão das
atividades aí inscritas, seja, igualmente, para pensarmos a validade do seu
contraponto, isto é, o conjunto de situações sociais que não estariam aí
compreendidas. Em boa medida a permanência destas últimas tem sido apontada
como "obstáculo", "atraso" ou, ainda, como experiências "obsoletas" num meio
rural cada vez mais industrializado. Isso implica, entre outras coisas, em
questionar a capacidade da "noção" de agronegócio em tornar-se a chave
explicativa das mudanças agrárias em curso.
Mas o que chama sobretudo atenção no que tem sido escrito sobre o
"agronegócio", tanto nos textos apologéticos (Menezes e Pinheiro, 2005, entre
outros) como nos textos de denúncia (Canuto, 2004; Welch, 2005), mas também nos
textos supostamente mais distanciados, é não aparecerem elementos que nos
permitam visualizar que tipo de sociedade (no sentido mais amplo do termo)
existe ou se está produzindo dentro e em torno do agronegócio. Se, graças aos
estudos desenvolvidos em várias frentes, ao longo dos anos, "visualizamos" as
sociedades das áreas de plantation "tradicional" (açúcar, café, cacau no
Nordeste e no Sudeste) e as relações "capitalizadas" entre pequenos produtores
e agroindústrias de vinho, fumo e carnes no Sul dos anos de 1980,3 o mesmo não
se pode dizer, em linhas gerais, do que vem sendo chamado de agronegócio e dos
processos sociais que embasam tal "paradigma".
Tendo em vista essas considerações, o objetivo da pesquisa da qual deriva o
presente trabalho foi conhecer a(as) sociedade(s) do "agronegócio", apoiando-se
nas informações levantadas durante a pesquisa de campo em três regiões
diferentes: o Norte mato-grossense (seguindo o trajeto da BR-163), o Triângulo
Mineiro e o Oeste baiano. Tratou-se de focar não apenas os agentes diretamente
envolvidos nas atividades agrícolas, industriais ou de gerenciamento. É
importante, sem dúvida, apreender com mais detalhes as relações que se
estabelecem entre os que administram a produção agrícola e industrial e seus
subordinados que, é bom lembrar, em textos mais genéricos, são considerados
inexistentes: como se o uso de máquina eliminasse os que as manejam do processo
produtivo e como se a utilização de insumos industrializados descaracterizasse
seu trabalho como trabalho na terra.
No entanto, nossa preocupação foi mais ampla que a unidade agrícola ou a planta
industrial: tratou-se de identificar/estudar o(s) conjunto(s) de posições e de
oposições sociais que permitem ao chamado agronegócio existir como tal.
Adicionalmente, interessou-nos, ainda, observar como tais posições se
consolidaram (ou se opuseram) em relação a um conjunto de políticas públicas,
setoriais ou não, que marcaram e continuam a definir a forma de intervenção do
Estado nessas áreas, ainda que tais mecanismos de política tenham sido
percebidos de forma distinta pelos diferentes grupos sociais e implementados a
partir de estratégias governamentais não necessariamente sinérgicas.
É bom frisar, ainda, que uma investigação sobre um objeto com limites tão
fluidos como esse teve um caráter necessariamente exploratório. As indefinições
conceituais em torno do agronegócio' que refletem, em larga medida, disputas
políticas de natureza diversa ' e a falta de consenso em torno de sua
localização geográfica e dos segmentos sociais por ele envolvidos levaram-nos a
adotar uma estratégia de pesquisa de caráter gradualista, que nos permitiu ir
definindo, paulatinamente, nosso(s) objeto(s). Tratou-se menos de questionar
interpretações do que preencher um vazio, contribuindo na produção de um quadro
amplo, inclusivo, de base quantitativa e qualitativa disso que tem sido
designado como agronegócio, valendo-se inclusive de um conjunto de estudos
etnográficos ' alguns com características mais convencionais; outros mais
centrados em questões que foram se apresentando ao longo da pesquisa ', "dando
carne" a esse ente meio fantasmagórico com que nos defrontamos todos os dias
nas páginas da grande imprensa, nas discussões sobre a política econômica do
país, nos estudos em torno da questão fundiária etc. Dessa forma, o presente
texto apresenta alguns resultados e considerações preliminares do estudo, que
ainda se encontra em desenvolvimento.
Processos sociais e regiões envolvidas no contexto das transformações agrárias
Revisitando essa cadeia de transformações da agricultura nacional, veremos que,
na realidade, um dos fenômenos a ser destacado do período conhecido como
"modernização da agricultura" é a intensificação das transações econômicas e
seus rebatimentos políticos e sociais, sejam elas mercantis, financeiras e/ou
tecnológicas, entre o setor agrícola propriamente dito e os setores
industriais, financeiros e de serviços a ele adstritos (Muller, 1982). Sem
entrarmos, nesse momento, no mérito sobre a questão da periodização ou não
desse processo, o importante a destacar é que a partir dos anos de 1970, e de
forma mais consolidada nos anos de 1980, estas cadeias agroindustriais passam a
conformar um novo patamar de acumulação e uma nova forma de articulação entre
esses setores e o aparato estatal (Graziano da Silva, 1993; Kageyama, 1990),
ainda que a própria definição e capacidade explicativa das noções de complexo
agroindustrial e "agronegócio" ofereçam um cardápio metodológico extremamente
variado para sua mensuração (Silva et al., 2006), bem como um questionamento
sobre sua validade enquanto unidade analítica do meio rural brasileiro, como
ressaltamos anteriormente.4
A Figura_1 ilustra o intenso processo de espacialização da produção de soja no
país, entre 1990 e 2009, anteriormente concentrada na região Sul, para as áreas
compreendidas pelos cerrados, seja nos estados da região Centro-Oeste, seja em
direção ao cerrado mineiro ou aos cerrados nordestinos. Na década atual é
possível verificar, ainda, sua expansão para a região amazônica, especialmente
nos estados do Amazonas (na região de Humaitá) e do Pará (sudeste e, em
especial, oeste paraense, na região de Santarém). A tonalidade das cores
informa a presença da produção de soja nas micro e mesorregiões brasileiras (do
cinza claro, quando a produção local é baixa, ao preto, que reflete uma alta
produção concentrada espacialmente, tendo como referência as escalas descritas
na legenda da figura) e o seu espraiamento em direção ao norte do país,
formando praticamente um "Y", quando consideradas as áreas de maior
concentração produtiva.
Na mesma figura também estão plotadas as diferentes agroindústrias de
esmagamento da soja para produção de farelo, óleo, ração e outros produtos
derivados. Destacamos nos mapas a localização das empresas multinacionais
(tradings), em particular o chamado grupo A, B, C, D (ADM, Bunge, Cargill,
Dreyfus). A participação do capital internacional no total do capital aplicado
no setor agroindustrial de esmagamento do grão que era de 16% em 1995 sobe
violentamente para 57% em 2005, caracterizando um forte processo de
concentração econômica e desnacionalização do setor. No caso desse último
período, as primeiras posições são ocupadas pelo grupo supra referido.
A Figura_1 traz, ainda, a localização das empresas do grupo Maggi (Amaggi),
ligadas à família do governador do estado do Mato Grosso, Blairo Maggi, que
atua igualmente na produção da soja propriamente dita. Pode-se verificar aí um
deslocamento geográfico na posição dessas empresas que alteram sua estratégia
anterior de compra de antigas unidades de grupos empresariais nacionais,
situadas na região Centro-Sul até o final dos anos de 1990, para a construção
de novas plantas industriais na área dos cerrados na década atual.
Na Figura_2, podemos visualizar as regiões de trabalho do estudo, objeto de um
survey, que permitiu identificar situações e levantar dados preliminares
fundamentais ao desenvolvimento do trabalho.5
A cadeia da soja, para ficarmos no exemplo já mencionado e reforçando a
justificativa da nossa escolha, constitui-se numa das rubricas mais expressivas
da pauta de exportações do chamado "macrossetor agrícola" (ainda que as vendas
do produto em grão tenham crescido numa velocidade superior aos produtos
processados a partir da soja ' farelo, óleo etc. ', o que corrobora uma certa
especialização nas exportações com menor capacidade de geração de valor
adicionado, aumentando o grau de vulnerabilidade externa), macrossetor que
representa hoje algo próximo a 40% do valor das exportações totais (Leite,
1998). É certo que a recente retomada dos saldos superavitários da balança
comercial brasileira tem sido acompanhada, para alguns analistas até
impulsionada, pelo movimento das exportações rurais, redundando num aumento da
geração de divisas comerciais. Esse movimento, de certa forma, tem justificado,
para alguns estudiosos e parte do campo político e midiático, o aprofundamento
dessa estratégia. Mesmo que isso se faça às custas de um endividamento
crescente do setor patronal e os custos consequentes assumidos pelo Estado, ou
que, ainda, tal diretriz se constitua a partir de relações de intensa
exploração e precarização do trabalho na sua base (ainda que identifiquemos
durante nosso trabalho outras formas de apropriação dessas oportunidades de
trabalho que não passam necessariamente pelo crivo da "precarização", quebrando
certa linearidade em voga nas interpretações correntes), aspectos que não
costumam pontuar o noticiário a respeito. Isso nos leva a examinar melhor
questões como a forma de intervenção do Estado e as condições nas quais emerge
o debate e a questão do "agronegócio".
Estado, agronegócio e o contexto institucional das mudanças recentes
Dados e informações sistematizados a partir do estudo de campo indicaram a
importância da intervenção do Estado na base do processo de transformação das
regiões pesquisadas a partir dos anos de 1970. Por exemplo, a implementação do
Prodecer (Programa de Cooperação Nipo-Brasileira de Desenvolvimento Agrícola da
Região dos Cerrados) foi fundamental à introdução do cultivo de soja e à
atração de agricultores de outras regiões do país (em particular da região Sul)
para as três áreas pesquisadas. No Triângulo Mineiro em particular, dentre as
principais políticas que impulsionaram o desenvolvimento da agricultura na
região podem ser destacados o II PND ' Plano Nacional de Desenvolvimento (1974-
1979), o Polocentro ' Programa de Desenvolvimento dos Cerrados (criado em
1975), o PCI ' Programa de Crédito Integrado e Incorporação dos Cerrados
(1972), o Padap ' Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba (1973),
além do próprio Prodecer (1974), acima referido (Pessoa, 1988).
Se, como vimos, a presença do Estado na agricultura dos anos de 1970 e 1980 é
assinalada por quase toda a bibliografia especializada, essas referências não
são tão presentes nas décadas seguintes. O que a bibliografia constata, e as
visitas às áreas de campo da nossa pesquisa nos mostram, são os enormes
investimentos que põem em evidência o fato de que não se pode falar do
agronegócio sem pensar no Estado e nas políticas públicas, que não só
viabilizam sua origem mas também sua expansão. No início essa presença se
traduziu na política de terras (assentamentos), mas logo se manifestou na
política de inovações tecnológicas e de pesquisa, naquilo que alguns autores
denominaram "recriação dos solos", por intermédio da correção da acidez das
áreas de cerrados, ou ainda pelo melhoramento genético de sementes, na
implantação de insfraestrutura local etc. (Castro, 2007).
A presença do Estado não elimina, por certo, aquela dos grandes grupos
empresariais, que se somaram aos fazendeiros tradicionais, aos colonos também
presentes (Tavares dos Santos, 1993), ou ainda, a atuação in loco das empresas
multinacionais (tradings) etc. Mas, a leitura corrente desse processo deixa
explícita a ideia de que as transformações operadas nessas áreas a partir do
final dos anos de 1980 e durante todo período seguinte foram tributárias
exclusivamente da iniciativa privada, reforçando a construção do mito do
pioneiro externo ("gaúcho") que, desembarcando nessas terras "vazias",
dedicaram-se ao trazer o processo civilizatório (e sua correspondente variante
tecnológica agropecuária) para uma região supostamente desprovida de
investimentos públicos e de atividades à cargo de grupos locais.
Por outro lado, a prática de políticas direcionadas ao setor patronal rural,
como aquela relacionada com a renegociação do endividamento do setor (Graziano
da Silva et al., 2006), tem envolvido uma complexa trama de relações que
mesclam apoio (condicional) parlamentar ao Poder Executivo (o exemplo imediato
é a constituição da Bancada Ruralista) e o enfrentamento de constrangimentos
(ambientais, trabalhistas etc.) aos projetos agroindustriais oriundos tanto da
própria administração pública como de outros segmentos organizados da sociedade
civil (Bruno, 2006; Ortega, 2005).
Isso nos leva ao tema do arcabouço institucional dos programas direcionados ao
ambiente rural. O que nos parece relevante aqui é destacar a "localização" de
tais programas na esfera governamental. Até o presente momento a "problemática
agrária" está alocada em ministério próprio (Ministério do Desenvolvimento
Agrário, MDA), desvinculada daquele destinado a tratar dos "assuntos
agrícolas", ou ainda para "estabelecer o conceito do agronegócio",6 a cargo do
Ministério da Agricultura, Pecuária e Alimentação (MAPA). Essa divisão
apresenta aspectos positivos e negativos sobre os quais seria desejável uma
reflexão mais apurada que escapa aos objetivos do presente texto.
Com a retomada do "modelo agroexportador", sobretudo a partir de 1999, para
fazer frente a algumas exigências da política econômica, o setor patronal,
ainda que marcado por diferenciações internas importantes, reassume posição
estratégica no desenho das políticas setoriais e na capacidade do MAPA em
alavancar recursos, mesmo num contexto administrativo em que teve que disputá-
los com o MDA e outros ministérios da chamada "área social", com programas
incidentes também no meio rural (Ministério do Meio Ambiente, da Previdência
Social, da Integração Nacional, e do Desenvolvimento Social etc.).
Articulados num novo patamar de produção e comercialização (Kageyama, 1990), o
setor "agrícola" modifica sua forma de ação, especialmente na sua relação com
as políticas de governo. Nesse contexto, em função da crise fiscal da década de
1980, inviabiliza-se o principal instrumento promotor da "modernização
conservadora", qual seja, a política de crédito rural. Isso não significa, no
entanto, que o setor agrícola não gozasse mais de incentivos, como pareceu
demonstrar o discurso empresarial (Rodrigues, 1993). Na realidade, e
confessadamente pela própria retórica das lideranças do agribusiness, as
políticas de interesse ao setor passavam notoriamente pelas esferas
macroeconômicas mais amplas, como a política cambial, favorável ao interesse do
setor exportador; a política de comércio exterior (antidumping); a política
tributária e a política salarial.
Assim, a análise dos processos sociais rurais em curso, que informam o
paradigma do "agronegócio", não pode estar desvinculada das práticas de
mecanismos e instrumentos de políticas ' setoriais ou não ' implementados pelo
Estado brasileiro. Ainda que tal forma de intervenção tenha se alterado ao
longo do tempo (por exemplo, da política de crédito rural dos anos de 1970 à
renegociação de dívidas no final dos anos de 1990 e início de 2000), um exame
mais cuidadoso da atuação governamental é importante para identificar as bases
que subsidiam a expansão das atividades, bem como aliviam os constrangimentos
encontrados nessa trajetória que qualifica o que estamos denominando aqui por
"sociedade do agronegócio" e suas implicações nas configurações sociais
regionais, que efetivamente "dão carne" ao processo real de transformação
operada nas chamadas novas fronteiras agrícolas, para o qual concorrem as
políticas públicas ali implementadas.
Políticas públicas, mecanismos de intervenção e configurações regionais
No que diz respeito às políticas públicas, parece-nos que um conjunto de
esferas e instrumentos possui (ou possuiu ' para citar os casos dos antigos
programas de desenvolvimento regional/local) uma capacidade maior de atuação
local e incorpora-se, em maior ou menor grau, no cálculo estratégico dos
"atores" em jogo. Esse conjunto inclui: a) políticas relativas ao ordenamento
territorial e a disputa (em curso ou já "realizada") em torno da terra; b)
políticas referentes ao trabalho (incluindo o combate ao trabalho escravo) e
seu rebatimento sobre as formas e as relações existentes e os fluxos
migratórios delas derivados; c) políticas ambientais e os marcos regulatórios
que as orientam, introduzindo uma "nova" variável na composição e na
representação dos interesses dos segmentos direta e/ou indiretamente
envolvidos; d) políticas de crédito, financiamento e seus constrangimentos '
financeiros, tecnológicos e institucionais; e) políticas de infraestrutura, que
materializam num certo sentido a ação do Estado. Estas últimas, em particular,
têm aumentado sua importância nos últimos dez anos, sobretudo com a discussão
em torno dos eixos modais de escoamento dos produtos agropecuários
(direcionados à exportação), e, recentemente, com os investimentos em
pavimentação de estradas, na construção de ramais ferroviários e no aumento da
navegação fluvial executados no âmbito do Programa de Aceleração do
Crescimento.
De fato, quando tomamos, por exemplo, a distribuição do crédito rural no estado
do Mato Grosso, onde a especialização produtiva avançou sobremaneira durante o
período entre 1980 e 2000, podemos constatar que a soja se manteve como produto
alvo da maior parte dos recursos emprestados (absorvendo entre 50 a 75% do
montante total), bem como o grosso dos valores (cerca de 95%) foi destinado aos
agricultores compreendidos no grupo "não familiar" (ou seja, não atendido pelo
Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar ' Pronaf).
No caso da Bahia, por exemplo, foram aplicados no crédito rural em 2004 R$
1,245 bilhão, envolvendo um total de 191 mil contratos, montante que foi quase
o quádruplo do total de recursos verificados em 2001. Igualmente crescente, até
2004 pelo menos, foi a participação dos valores das operações baianas sobre as
operações nacionais, que saltaram, no mesmo intervalo, de praticamente 2% para
3% das operações brasileiras do sistema. No entanto os recursos são fortemente
concentrados nos contratos mais elevados, o que não necessariamente pode
representar uma contradição com um determinado modelo de agricultura e sim uma
consequência. Visto de uma outra perspectiva, porém, tal concentração tem
levado ao acirramento de algumas condições financeiras (como o endividamento),
sociais e ambientais que podem colidir com os objetivos mais amplos previstos
nos planos e nas estratégias de desenvolvimento regional. De qualquer forma,
tal concentração pareceu crescente no contexto baiano, visto que, para ficarmos
num exemplo, em 2003 e 2004, em movimento contrário aos dois anos antecedentes,
os contratos acima de R$ 150 mil passaram a responder por mais da metade dos
recursos, apesar de constituírem-se apenas 1% das operações. Essa enorme
participação nos recursos contradiz, obviamente, o reduzido peso que o setor
patronal/empresarial tem no conjunto dos estabelecimentos rurais e na sua
capacidade de absorção de mão de obra, e mostra que o acesso da agricultura
familiar ao financiamento é ainda pequeno se considerado o seu "tamanho" no
número de propriedades e no pessoal ocupado na atividade agropecuária (ao redor
de 80%).
Um olhar rápido pela Tabela_1, mostrará que o crédito está extremamente
concentrado também espacialmente, privilegiando a região Oeste do estado, em
especial. Com efeito, nos anos aqui considerados poucos municípios detêm a
maior parte dos recursos. Se tomarmos os dez primeiros em cada ano, como consta
da tabela, veremos que essas dez cidades acumulam entre 50 a 60% de todo o
crédito rural, com destaque para os municípios de São Desidério, Barreiras e
Formosa do Rio Preto, refletindo adicionalmente a extensão territorial dos
mesmos e a concentração dos chamados polos dinâmicos e competitivos. Somente
São Desidério chegou a representar mais de 1/5 dos recursos nos anos de 2003 e
2004. Essa situação reflete ainda um forte processo de concentração fundiária.
Para tomarmos o município citado, as Estatísticas Cadastrais do Incra, de 1998,
indicavam que os imóveis acima de 5 mil hectares representavam apenas 0,5% do
total de imóveis, mas 43% do total da área. Em Barreiras a situação é
semelhante: o mesmo intervalo equivalia a 1,85% dos imóveis e a 34% da área.
Retomando o tema das políticas públicas, é interessante observar que tais ações
têm ultrapassado a prática usual das reivindicações por crédito propriamente
dito, para dar lugar a mecanismos mais "difusos", como os subsídios à
comercialização de produtos do agronegócio ou ainda valendo-se de toda sorte de
incentivos fiscais, patrocinados pelos governos estaduais e municipais, como é
o caso da conformação de distritos (agro)industriais em cidades como Uberlândia
(MG), Rio Verde (GO), Luiz Eduardo Magalhães (BA) etc., provocando na
localização espacial dos setores produtivos um reordenamento territorial que já
havíamos observado para a instalação das famílias e seu respectivo padrão de
segregação urbana. Ou ainda, tratando dos mecanismos especiais de renegociação
das dívidas agrícolas.
Sobre esse tema, o estudo de Graziano da Silva, Del Grossi e Del Porto (2006)
mostra que nas negociações que resultaram no programa de securitização de 1995,
os contratos de até R$ 50 mil representavam 65% do número total de operações e
8% dos recursos; já os contratos acima de R$ 200 mil compunham 14% das
operações e 71% do estoque da dívida. Na renegociação dos contratos maiores,
alguns anos depois, conhecida como Programa Especial de Saneamento de Ativos
(PESA), a participação dos pequenos contratos, de até R$ 50 mil, somava 19% das
operações e praticamente nada do estoque do endividamento do setor. Já as
grandes operações (acima de R$ 200 mil) respondiam por 50% dos contratos e 98%
do total da dívida. Isso indica que a política de financiamento, em termos de
custo para o Estado, tem uma contrapartida importante nos gastos quando a
situação de endividamento passa a desempenhar um papel importante nas
negociações entre governo e produtores rurais em torno das políticas agrícolas.
Entre 2002 e 2005 foram comprometidos cerca de R$ 9 bilhões na renegociação das
dívidas, subdivididos entre a dívida mobiliária propriamente dita, encargos dos
diferentes programas e a remuneração dos bancos. Assim, levando-se em conta que
a maior parte desse custo se refere ao refinanciamento de grandes agricultores,
parece adequado dizer que o gasto do governo com o setor patronal não deve ser
compreendido apenas pelas despesas diretas do MAPA e dos empréstimos do crédito
rural, mas integrar, igualmente, os gastos com o carregamento da dívida
(ascendentes). Atente-se para o fato de que até aqui se tratou apenas do custo
público do carregamento da dívida, e não do estoque (privado) da dívida
propriamente dito. Este último tem sido estimado em um montante que varia de R$
80 a R$ 131 bilhões, de acordo com a fonte consultada.
Esse quadro é útil para compreender os termos da negociação do endividamento
envolvendo agricultores patronais e suas organizações representativas,
parlamentares da chamada bancada ruralista e representantes do governo federal
(em particular do Ministério da Fazenda e do MAPA), fato que transposto para a
esfera local/regional, onde tais atores concretizam seus investimentos e
atividades, nos leva a ressaltar a forma como tais configurações são definidas
concretamente.
Diversidade das configurações sociais
Se hoje já contamos com uma bibliografia importante, sobretudo de geógrafos e
de alguns economistas, sobre a "dinâmica" do agronegócio (e das suas áreas de
expansão) ainda são muito poucos os estudos mais qualitativos direcionados ao
tema.7 Em geral constatamos a existência de trabalhos sobre produtos, sobre
determinados grupos empresariais ou ainda sobre trabalhadores ou, numa outra
perspectiva, sobre projetos específicos. Trata-se, em boa parte, de trabalhos
importantes, porém pontuais, pois ainda que forneçam dados relevantes sobre
essa realidade em transformação, não permitem uma visão do conjunto (ou, se
preferirmos, de uma imagem do conjunto) da "sociedade" do agronegócio.
Com efeito, até os anos de 1970, as terras dos estados do Centro-Oeste, hoje
cobertas pela soja, eram consideradas inadequadas para agricultura e eram
ocupadas por populações indígenas e pequenos posseiros, além de algumas
fazendas de pecuária extensiva dispersas ao longo de um vasto território. Já
regiões como o Triângulo Mineiro e o Oeste baiano eram áreas tradicionalmente
ocupadas pela criação de gado, praticada sobretudo em grandes fazendas, e
cultivos ligados à pequena produção agrícola destinada ao consumo local e
regional. Se, nas suas chapadas, usadas para o criatório, havia uma população
rarefeita, seus vales, ao contrário daqueles do Centro-Oeste, abrigavam uma
população de certa monta, no caso do Triângulo cidades de importância
econômica, sendo a região ela própria cortada por estradas que ligavam o Sul e
o Sudeste ao Centro e ao Norte do país.
Como vimos, os programas governamentais de ocupação dos cerrados desencadeados,
com algumas variações, em diferentes estados, nos anos de 1970, levariam junto
com a soja e outros produtos agricultores com um perfil que consideravam
adequado ao tipo de agricultura que planejavam desenvolver, minimamente
familiarizados com certo paradigma tecnológico. Assim, a presença de parte
substancial da população que movimenta o chamado agronegócio nessas regiões
também é fruto de políticas públicas. Deslocamentos promovidos diretamente pelo
Estado, como assentamentos do Incra que estiveram na origem de alguns
municípios sojicultores em Mato Grosso; ou outros em que o Estado esteve
associado a cooperativas do Sul ou do Sudeste do país para fixar colonos
interessados em estabelecerem-se no cerrado, como ocorreu no Triângulo Mineiro;
ou ainda seu estímulo à ação de colonizadoras privadas, foram responsáveis por
uma ocupação mais densa dessas áreas ou pela substituição de populações
preexistentes, e iriam marcar profundamente a configuração das relações
sociais. John Comerford, em relatório de pesquisa sobre o Triângulo Mineiro/
Alto Paranaíba, assinala que as intervenções fundiárias do governo foram
pontuais, combinando colonização dirigida, de caráter demonstrativo, com
incentivos mais amplos e difusos para a agricultura tecnicamente intensiva e
empresarial.
O privilégio dado pelo Estado a colonos do Sul fez com que eles fossem os
primeiros a chegar em áreas como o Alto Teles Pires, em Mato Grosso, vendo-se e
sendo vistos, em poucos anos, os "do lugar", os desbravadores do que teria sido
até então um "espaço vazio", ancorados em uma ideologia do "pioneirismo", em
que o Estado desaparece como protagonista como mostra Ana Claudia Marques em
Relatório de Pesquisa sobre o Mato Grosso.
E, como os "da terra", os "pioneiros" ou os "seus filhos" viriam a se contrapor
aos que ' de fora do seu circuito ' chegariam (atraídos por oportunidades de
diferentes naturezas) aos seus municípios. Em Minas, pelas características que
sinalizamos do Triângulo, a ideologia do pioneirismo assumiria uma forma mais
moderada, pois os recém-chegados defrontaram-se com uma população com uma
identidade bem definida e com uma classe dominante diversificada (grandes
fazendeiros, grandes empresários comerciais e industriais) e bem estabelecida.
Diferentemente de Mato Grosso, no caso de Minas, tal como mostra John
Comerford, o caráter de pioneirismo não estaria ligado ao fato de ocupar uma
região "livre", mas seria atribuído àqueles que têm introduzido a produção de
café em grande escala na região.
Os dados estatísticos deixam claro que esses deslocamentos envolveram,
basicamente, famílias de outras regiões do país. Os naturais do Paraná,
seguidos pelos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, na região mato-
grossense, e pelos paulistas, nos municípios estudados no Triângulo Mineiro,
são majoritários em ambos os casos. A presença de migrantes vindos de estados
de outras regiões, de outros municípios, do Mato Grosso inclusive, em Sorriso e
Lucas do Rio Verde só crescerá a partir dos anos de 1990, com o estabelecimento
de um número importante de pessoas provenientes do Nordeste, em especial do
Maranhão. Nos municípios do Triângulo, a migração de paranaenses e paulistas
anda pari passu com a de nordestinos, onde os baianos se destacam (embora menos
hegemônicos que os maranhenses em Mato Grosso) e ambas têm o seu pique nos
mesmos anos de 1990.
Não parece, pois, casual que o "mapa social" elaborado pelos que vivem nessas
regiões remeta ao local de nascimento efetivo ou suposto das pessoas a quem
estão se referindo: "gaúchos" e "maranhenses" na área de soja em Mato Grosso;
"paulistas" ou "paranaenses" e "baianos", além dos "mineiros" na área cafeeira
do Triângulo Mineiro.8 É valendo-se desse tipo de classificação que as pessoas
dos lugares estudados reportam a pesquisadores a história dos lugares onde
vivem, que elas se localizam no cotidiano ("falei hoje com um maranhense"; "na
festa só tinha gaúcho" ou "a fazenda é de um paranaense"; "encontrei um baiano
na rodoviária") ou mesmo classificam os espaços de sua cidade ("bairros de
gaúcho", os mais valorizados, e "bairros de maranhense", os de condições mais
precárias, para ficarmos apenas com o exemplo de Mato Grosso), estabelecendo ou
confirmando uma segregação geográfico-social que tem impressionado visitantes.
Essa segregação manifesta-se também nas imagens que os sulistas elaboram a
respeito dos maranhenses (ou em Minas, os paranaenses acerca dos baianos), os
quais concentram, a seus olhos, todos os vícios e são responsabilizados pela
violência que estaria se instaurando nas cidades da região, sem que haja
acusações tão contundentes na direção oposta. O trabalho de campo nessas
regiões, todavia, mostra que não há coincidência perfeita entre as
classificações locais e as classificações estatísticas oficiais. Assim, ser
considerado gaúcho não significa ter nascido no estado do Rio Grande do Sul e
muito menos ter nascido nos pampas, como nos ensinam os dicionários. Se a
maioria absoluta dos que vivem na área de soja que estudamos em Mato Grosso vem
do Sul do Brasil, entre estes predominam, desde os primeiros momentos da
ocupação, os nascidos no estado do Paraná e há também um grande volume de
nascidos em Santa Catarina. "Gaúcho", às vezes, é intercambiável com "sulista",
mas identidades associadas a outros estados específicos, como os majoritários
paranaenses, não são socialmente correntes. Referências ao estado do Paraná e
aos paranaenses aparecem, vez por outra, em placas singularizando casas
comerciais ou seu proprietário ' "Armazém Paraná" ou "Restaurante O
Paranaense", que continua, entretanto a ser incluído genericamente entre os
gaúchos.
No Triângulo Mineiro em áreas dominantemente sojicultoras, como Iraí de Minas,
município onde primeiro se estabeleceriam colonos do Sul, apoiados por
programas governamentais nos anos de 1970, "gaúcho" opera como termo
classificatório de modo semelhante a Mato Grosso. O mesmo parece ocorrer em
municípios mais ao norte, onde, associados ao cultivo da soja ou de outros
produtos, migrantes do Sul são assim identificados.9 Todavia, no conjunto do
Triângulo Mineiro, onde os paranaenses, como no Alto Teles Pires, são migrantes
majoritários e, em especial, nas áreas cafeicultoras, "paranaense" e/ou
"paulista" é o termo que designa os que vêm do Sul. O primeiro tende a
prevalecer, ainda que, especificamente na área do café, os próprios paranaenses
possam se declarar "paulistas" de origem ' se dizem de famílias cafeicultoras
paulistas que teriam se deslocado para o Paraná e que mais recentemente teriam
inaugurado o cultivo do café do cerrado no Triângulo ' assinalando uma certa
"tradição" de produtores de café, que seria a sua marca.
Uma explicação concebível para essa dissociação entre identidade vinculada à
origem e a natalidade efetiva seria a confusão entre local de procedência e
local de nascimento. Mas nem em termos estatísticos nem em termos das
formulações locais isso se sustenta. Mesmo que uma grande quantidade de
migrantes, nos dois casos estudados, tenha provindo de estados ou municípios
diferentes daqueles seus de origem, os censos separam, com clareza, estado e
município de origem de estado e município de nascimento. E, quando se trata das
representações das populações estudadas, fica claro que as pessoas, na maior
parte das vezes, englobam sem problemas um paranaense ou um catarinense na
categoria "gaúcho", mesmo sabendo que ele não é nascido no Rio Grande. O que
parece estar em jogo são certos atributos sociais, que, por sua vez, não são
fixos, variam.10
A primeira impressão que se tem é que essas classificações servem para agrupar,
em dois conjuntos distintos, proprietários rurais e outros agentes sociais
ligados ao mundo do agronegócio em oposição a migrantes nordestinos vinculados
ao mundo do trabalho. Afinal de contas, a confirmar essa aproximação estariam
as estatísticas que nos mostram que, nos dois municípios estudados de Mato
Grosso, todos os proprietários rurais são provenientes da região Sul e que,
naqueles de Minas Gerais, onde os "mineiros" representam a maioria deles, há um
percentual expressivo de proprietários de terras do Sul do país, enquanto são
pouquíssimos os nordestinos em tal condição. Mas essa nitidez se desfaz quando
verificamos nessas mesmas estatísticas que os sulistas também são majoritários
entre os empregados na agricultura, tanto entre os que têm carteira de trabalho
assinada como entre os que não têm contratos de trabalho formalizados,
identificados comumente como os trabalhadores com piores condições de vida e
trabalho. Por outro lado, a observação direta das áreas evidencia uma grande
diversidade no interior das categorias sociais "produtores" e "trabalhadores".
Entre os produtores, "empresários", "agricultores", "chacareiros",
"assentados". Entre os trabalhadores, "braçais", "operadores de máquinas" e o
"pessoal das oficinas", dentro das fazendas; além da massa dos trabalhadores
fixos ou temporários, que, em boa parte, escapa ao filtro das classificações
estatísticas, que circulam entre os bairros periféricos das cidades e as
fazendas, entre atividades agrícolas e o emprego nos silos e nas indústrias de
beneficiamento nos núcleos urbanos (Novaes, 2009). Complexificando mais ainda
esse quadro, a constatação de que "assentados" e "chacareiros", que são
proprietários de lotes de terra relativamente pequenos, trabalham diretamente
suas terras com suas famílias, mas também "agricultores" com superfícies de
terra expressivas não apenas gerenciam suas propriedades como também "sobem no
trator", quando não executam outros trabalhos junto com membros da família e
alguns empregados. E, no outro extremo, a constatação de que os que migram do
Maranhão para Mato Grosso, para trabalhar nas plantações de soja não são os que
nos lugares de origem se encontram em pior situação econômica, havendo casos de
proprietários de terras com trabalhadores fixos em suas fazendas naquele estado
que descem para o Centro-Oeste, buscando, mediante o trabalho assalariado nas
plantações de soja, recursos monetários para expandir seus negócios no estado
de origem (Rumstain, 2009).
A consideração dessa complexidade leva-nos a questionar a ideia de que esse
encontro de populações possa ser explicado simplesmente em torno de conexões
causais lineares, como a suposição de que o agronegócio, abrindo perspectivas
de lucro para uns e de emprego para outros, estaria atraindo excedentes
populacionais de outras regiões. Pelo menos nas áreas que estudamos, os "fluxos
migratórios" não parecem ser exatamente complementares. Os próprios grandes
conjuntos em que a sociedade se vê dividida não preexistem à sua convivência,
ainda que algumas oposições entre as categorias que são acionadas e dos
atributos positivos ou negativos que a eles se associam pudessem existir
previamente.
Um fato comum aos que vieram do sul do país é que esse deslocamento para Mato
Grosso ou outros estados não representou uma primeira experiência. A grande
maioria deles, para não dizer a quase totalidade, tinha experiência própria, à
frente de suas famílias ou, no caso dos mais jovens, acompanhando a sua família
de origem, de deslocamentos anteriores dentro da região Sul e/ou deslocamentos
ocorridos no interior do próprio estado onde hoje vivem, antes de chegar ao seu
local atual de moradia. Esses deslocamentos, coletivos ou individuais, mas
sempre geridos pela família, fizeram com que alguns dos atuais residentes na
região estudada tenham deixado parentes mais ou menos próximos (pais, filhos,
irmãos, tios, primos etc.) nos locais de origem e também em regiões por onde
passaram, essas redes se estendendo por vezes a áreas mais à frente, ainda em
processo de incorporação à produção agrícola "moderna". As relações com esses
parentes são atualizadas de várias maneiras, uma delas sendo as visitas no
período da entressafra ou nas festas de final do ano. Esses mecanismos que
funcionaram no passado continuam a ser acionados e condicionar as decisões de
mudança. A perspectiva de deslocamento parece ser tão essencial ao planejamento
da reprodução social dessas famílias quanto a existência de terra para exercer
a sua atividade produtiva. Longe de ser alguma coisa que só se coloca em
situações-limite, a possibilidade de deslocamento para outro lugar, onde, sendo
os primeiros em chegar, possam ter acesso a uma parcela de terra ou a uma
parcela maior, é avaliada cotidianamente (Desconsi, 2009). Mesmo os que se
deslocam como trabalhadores assalariados, em sua maioria, obedecem a uma
estratégia familiar e têm a propriedade de uma parcela de terra, seja no mesmo
local ou em locais mais distantes, onde o preço da terra é menor, em seu
horizonte.
Mesmo que também orientados por estratégias familiares, os deslocamentos de
maranhenses para Mato Grosso e de baianos para Minas Gerais oferecem uma
dinâmica distinta. Nem os municípios do Alto Teles Pires nem aqueles do
Triângulo Mineiro representam um ponto de chegada para uns e outros, nem a
obtenção de terra nessas regiões significa um objetivo maior. Para muitas
famílias, fundamentalmente, a infraestrutura rodoviária aberta nas áreas de
agronegócio é um meio de acesso ao mercado de trabalho em áreas agrícolas ou
agroindustriais no centro, no sudeste e no sul do país. Essas famílias perfazem
um trajeto que passa pelo trabalho temporário em diversas regiões, conforme a
safra de diferentes produtos, retornando ao final a seus locais de origem.
Assim, há maranhenses que trabalham na colheita de soja em Mato Grosso, dali
seguem para a apanha de café no Triângulo Mineiro, deslocando-se posteriormente
para São Paulo ou Paraná, para o corte de cana-de-açúcar ou para a colheita do
algodão, retornando, ao final ao Maranhão, repetindo esse ciclo anualmente. O
mesmo acontece com os baianos que trabalham, com alguma regularidade, na
colheita de café em Minas Gerais e que, uma vez acabado o ciclo agrícola desse
produto, seguem roteiro similar ao dos maranhenses, antes de retornar aos seus
roçados no Nordeste. Tanto no caso dos "maranhenses" como no caso dos
"baianos", mesmo que alguns acabem se estabelecendo nos lugares para onde se
deslocam em busca de trabalho, com emprego na construção civil ou no pequeno
comércio, prevalece o modelo de sua casa continuar sendo no estado de origem.
Assim, a perspectiva de trabalho em uma região mais próxima da família e/ou a
oferta de salários mais altos pode transformar aquele longo percurso em um
movimento de idas e vindas entre a área de residência e área escolhida como
local de trabalho, como parece estar acontecendo hoje em Mato Grosso. Os
recursos obtidos no trabalho nas fazendas de Mato Grosso não são, neste caso,
utilizados para a compra de terra ou de outros bens que permita aos maranhenses
estabelecerem-se nesse estado, mas são canalizados, pelo menos idealmente, para
o reforço da posição de suas famílias no Maranhão, o que pode incluir compra de
terra ou gado ou simplesmente o incremento do padrão de consumo dessas famílias
(Rumstain, 2009).
Se, numa primeira aproximação, formos falar de conflitos ou disputas entre
"gaúchos" e "maranhenses" no Mato Grosso da soja ou entre "paranaenses"/
"paulistas" e "mineiros" ou "baianos" no Triângulo do café do cerrado, diremos
que estamos diante de uma "disputa imperfeita". Não se trata de uma disputa
entre grupos assimétricos (como efetivamente são) por um mesmo objeto. Há sim
uma disputa de "território", como assinalado na segregação espacial, mas de
territórios que as estratégias familiares de uns e outros recortam de modo
diverso. As modalidades de presença são distintas. Os sulistas, nos dois casos,
querem estabelecer-se, e o estão fazendo, como em seu mundo. Sintomaticamente,
em Mato Grosso eles se definem como os "do lugar", os "da terra", e, no
Triângulo do café, se essa identificação continua sendo própria aos mineiros,
há exemplos de disputa dessa condição por paranaenses (Souza Jr., 2009). Mas o
mundo e o lugar dos nordestinos é outro ' é onde estão suas famílias. As
fazendas de soja e de café são territórios de passagem, mesmo quando essa
passagem se prolonga. São dois grupos em permanente movimento que, por assim
dizer, esbarram, obrigando-se a buscar regras de convivência de difícil
equacionamento.
Considerações finais
Do exposto no presente trabalho, que avança considerações preliminares do
estudo, algumas observações podem ser adiantadas. Primeiramente é importante
ressaltar o "caráter", a intensidade e a velocidade com que tais transformações
passaram a ser operadas nas regiões examinadas. No entanto é preciso chamar a
atenção para o risco de uma análise "chapada" desse processo, que, à despeito
de enunciar o caráter desigual dessas mudanças (além dos seus chamados "efeitos
perversos"), desconsidera a complexidade dessas transformações e os diferentes
feixes que estas mobilizam.
Um dos elementos para o qual se buscou atentar no presente texto refere-se ao
ainda importante "papel do Estado", que, embora minimizado pelos "intérpretes"
da dinâmica do agronegócio, permanece atuante, seja por meio de políticas
setoriais relativas ao meio rural/agroindustrial, seja por intermédio de
políticas mais globais (como aquela de infraestrutura) ou ainda na tentativa de
estabelecer um marco regulatório no campo das relações de trabalho e do meio
ambiente.
Na mesma direção é importante mencionar as distintas configurações sociais que
marcam o estabelecimento da chamada "sociedade do agronegócio" e a diversidade
de projetos estratégicos que as mesmas comportam. O estudo permitiu vislumbrar,
entre outros aspectos, a presença hegemônica dos "de fora", com diferenças
marcantes entre os casos observados no Mato Grosso e aqueles analisados em
Minas Gerais, ainda que alguns casos, como no Mato Grosso, os "de fora" passam
a se apresentar como os "do lugar". Da mesma forma, pareceu-nos que uma série
de conflitos marcou decisivamente os rumos observados nesse processo de
transformações sociais nas últimas décadas. Conflitos esses que se
estabeleceram não apenas numa chave mais convencional ' trabalhadores de um
lado e médios e grandes produtores rurais de outro ' mas também entre os
próprios trabalhadores envolvidos nas atividades rurais (maranhenses versus
mineiros) ou ainda nas lógicas distintas que informam o processo de expansão
das agroindústrias nessas regiões, contrapondo os interesses do setor de
esmagamento de grãos (e, em decorrência, do setor produtor de carnes brancas)
aos interesses dos próprios produtores rurais de médio ou grande porte, ou,
ainda, àqueles do setor sucroalcooleiro, que tem avançado sobre os
"territórios" da soja.
Notas
1 Não deixa de ser interessante observar uma certa "disputa" entre as
diferentes metodologias empregadas para medir o "tamanho" do
agronegócio no Brasil ou mesmo entre as diferentes unidades da
federação. Particularmente relevante é o estudo encomendado pela
própria Abag, à cargo de Nunes e Contini (2001), que minimiza
substancialmente a participação do agronegócio no PIB nacional,
situando-o em pouco mais de 20%, e não no intervalo de 30% a 40%,
como afirmavam os trabalhos mais exaltados do início dos anos de
1990. Ver a respeito, entre outros, Araújo et al. (1990), Silva et
al. (2006).
2 É interessante observar a adoção, entre especialistas e técnicos de
governo, da dicotomia "agronegócio patronal" versus "agronegócio
familiar" (ou, sua variante, "agronegocinho") para expressar a
compreensão da agricultura familiar como um subconjunto do
agronegócio e, dessa forma, validar sua presença no campo das
políticas públicas (Sauer, 2008; Wilkinson, 2007).
3 Existe uma extensa literatura sobre o assunto, impossível de ser
resgatada aqui. À título de ilustração poderiam ser mencionados no
caso nordestino os trabalhos de Celso Furtado, Manoel Correia de
Andrade e posteriormente aqueles desenvolvidos por pesquisadores do
PPGAS/Museu Nacional (Palmeira et al., 1977; Heredia, 1989; entre
outros); no caso das regiões Centro Sul e Sul podem ser lembrados a
título de exemplo os trabalhos sobre assalariados da cana de açúcar
de autores como Maria da Conceição d'Incao e, recentemente, os de
Maria Aparecida Moraes; José Vicente Tavares sobre os colonos do
vinho e Maria Inês Paulillo sobre a integração no complexo
agroindustrial fumageiro.
4 Esta afirmação demandaria uma exposição mais detalhada, que foge ao
escopo do presente texto, sobre as diferentes possibilidades de
tratamento teórico-metodológico desses termos que, longe de se
constituir num problema semântico, tornou-se um ponto importante na
problematização mais geral do objeto de estudo. Apesar de surgir, na
obra de Davis e Goldberg (1957), com o objetivo de exemplificar as
relações intersetoriais entre o setor rural e aqueles no seu entorno,
o termo agribusiness, e depois sua tradução doméstica (agronegócio),
ganhou dimensões e significados que extrapolaram sua pretensão
original. Isso é válido tanto para o debate acadêmico, seja aquele
interno aos economistas, seja aquele presente nas demais áreas de
ciências sociais, como também para o "campo político" propriamente
dito.
5 Assim, após um levantamento inicial de dados secundários e da
análise da bibliografia existente, além dos resultados dos surveys
exploratórios realizados, decidimos centrar a pesquisa de campo em
duas das áreas consensualmente tidas pela literatura como
pertencentes ao agronegócio (norte de Mato Grosso, Triângulo Mineiro
e Alto Paranaíba), cujas características comuns, mas sobretudo cujas
diferenças, nos parecem ideais para uma análise comparativa. Às
mesmas agregou-se, ainda, o oeste baiano para o exame de algumas
questões do trabalho, como a relação desse processo com as políticas
públicas. Essas áreas estão assinaladas por um quadrado preto. Foram
aí visitados quinze municípios para levantamento de dados e
informações, realização de entrevistas com os mais variados atores
(produtores rurais, representantes do setor público, do setor
bancário, das organizações não governamentais e movimentos sociais,
do movimento sindical ' de trabalhadores e patronal ', dos meios de
comunicação, da Igreja, do comércio, etc.), observações de campo e
trabalho etnográfico. Foram ainda objeto de survey duas outras áreas
que, dados os limites de tempo e de recursos da pesquisa, não puderam
ser incorporadas na fase seguinte do trabalho de campo. Trata-se das
regiões de Santarém, no Pará, e do sudoeste goiano, no entorno do
município de Rio Verde. Essas duas últimas áreas estão assinaladas
como um círculo preto na Figura_2.
6 Como informa a entrevista concedida por Roberto Rodrigues à revista
Agroanalysis, logo após sua posse como ministro do MAPA no primeiro
governo de Luis Inácio Lula da Silva: "quero trabalhar no Ministério
da Agricultura para estabelecer o conceito de agronegócio, de cadeia
produtiva. Ao menos para que o PCCA ' Partido do Campo do
Cooperativismo e do Agronegócio ' possa me defender como ministro"
(Agroanalysis, fev. 2003, p. 7).
7 Há uns poucos estudos de sociólogos e antropólogos, com raras
exceções, como é o caso de Barrozo (2008), Fernandes (2007) e Andrade
(2008). No caso dos geógrafos, lembramos dos estudos de Cleps Jr.
(1998), direcionados ao Triângulo Mineiro, e de Bernardes e Freire
(2005), sobre o Mato Grosso; ou ainda os de Haesbaert (1997) sobre a
Bahia e Elias (2006) para o Nordeste. A produção acadêmica dos
economistas é bem mais numerosa.
8 Essa classificação social das pessoas de acordo com o seu local de
nascimento ou origem já havia sido assinalada por Pierre Monbeig nas
áreas de expansão do café no estado de São Paulo no final dos anos de
1930 (Monbeig, 1984).
9 A categoria "gaúcho" já foi objeto de atenção de alguns
pesquisadores. Maristela Andrade para Maranhão; Rogério Haesbaert
para Bahia, Christine Chaves para Minas Gerais e, antes, José Vicente
Tavares dos Santos e Luis Roberto Cardoso de Oliveira para Mato
Grosso.
10 Parece importante no entendimento desse ponto considerar que esses
migrantes vêm das chamadas "áreas coloniais" do Rio Grande do Sul.
Via de regra, são descendentes dos imigrantes italianos e alemães
que, a partir de meados do século XIX, se instalaram naquele estado,
como também em outros da região Sul. São famílias que, antes da soja
e dos cerrados, já se espalhavam pelos estados vizinhos (Santa
Catarina e Paraná) sempre como colonos enfrentando a fragmentação de
suas propriedades, operando já desde então, sobre um território que
não respeitava a divisa entre estados da Federação.