Escândalos, tsunamis e marolas: apontamentos e desapontamentos sobre um traço
recorrente da atualidade
Introdução temática
Segundo a Wikipédia, o Brasil passou por 97 escândalos políticos e financeiros
na década de 1990. Na primeira década do novo século, foram registrados 125
eventos "dessa natureza".1 Essa catalogação parece comprovar a crença popular
de que "o Brasil não tem jeito". Um exercício sociológico talvez ajude a
discutir essa crença arraigada, qualificá-la numa perspectiva analítica e,
oxalá, também ajudar a sociedade a controlar seus efeitos nefastos que se
propagam em diversas esferas da sociabilidade.
Num primeiro momento, poderíamos coonestar o dito popular, segundo o qual "o
Brasil é um escândalo". Numa segunda reflexão, menos conjuntural e sanguínea,
talvez seja interessante invocar a sociologia para complicar um pouco o senso
comum. Nesse sentido, a tarefa é mostrar que os escândalos podem ser alguma
coisa maior e mais complexa do que a simples manifestação de descalabros
(Thompson, 2000; Chaia e Teixeira, 2001; De Blic, 2003; Neckel, 2005; Adut,
2008). Nessa linha, sugiro que os escândalos podem ser utilmente tratados como
uma forma de ação, de controle e também, por vezes, como um mecanismo de
mudança social. Através dos escândalos, a sociedade abandona, reitera, altera
ou cria normas de convívio e de legitimação.
Os escândalos fazem transparecer mudanças sociais mais ou menos profundas, que
foram gestadas na longue durée, sem que a percepção social as tivesse
acompanhado e, quando eles explodem, nos damos conta súbita e dramaticamente
das transformações em questão. O corolário dessa hipótese é que os nossos
escândalos, pelo menos analiticamente, deveriam ser vistos não como uma
manifestação da danação eterna do Brasil e dos brasileiros, mas antes uma
evidência do vigor com que a sociedade discute, preserva ou altera as normas
que ela reputa corretas ou erradas. Nesse caso, estaríamos diante de uma
variação, ou generalização, daquela afirmação mil vezes repetida por todo o
Ocidente, sobre a "fragilidade da democracia". Ainda que os percalços aconteçam
aqui e ali, e que sejam dolorosos, na maior parte das vezes o brado sobre a
democracia como "plantinha frágil" mostra que ela se preserva, apesar de sua
fragilidade.2 Mas então, o que quer dizer esse bordão tantas vezes evocado e
cuja "não facticidade" não impede o seu uso continuado? Com Douglas (1986)
lembramos que o uso continuado de bordões é uma técnica social conhecida de
reiteração de convenções cognitivas. Alhures, a autora nos permite sugerir mais
diretamente que essa é a forma específica como a democracia se enraíza cada vez
mais e se torna incontornável como norma de convívio das sociedades
contemporâneas (Idem, p. 17). Respirando a mesma inspiração na análise que
agora apresento, trata-se de explorar uma abordagem durkheimiana sobre as
formas dos ciclos de ação/imposição/reiteração/transformação da consciência
coletiva das sociedades, de maneira análoga àquela que diversos autores
empregaram para dar conta de fenômenos aparentemente tão díspares como
escândalos em sociedades pré-modernas e em comunidades científicas (Gluckman,
1963; Fleck, [1935] 1979).
Caminhos empíricos e analíticos
Chego à temática dos escândalos através da sociologia econômica. Os escândalos
são um traço recorrente dos espaços empíricos estudados por essa especialidade,
sobretudo do sub-ramo das finanças. Nesse espaço analítico são constantemente
lembrados os papéis das crises e dos escândalos no progresso da regulamentação
das atividades profissionais, as quais, por sua vez, geram aumento, aceleração
e diversificação dos ciclos de produtos a partir dos novos balizamentos
institucionais que surgem da reação das sociedades ao clamor suscitado. Em
suma, na perspectiva da sociologia econômica, os escândalos são eventos
sistêmicos e previsíveis, que são parte intrínseca da regulação social da vida
econômica (Cowing, 1965; MacKenzie, 2006; Reinhart e Rogoff, 2009). Assim, o
problema que pretendo trabalhar no presente texto é o de estender essa
interpretação dos escândalos para a vida social na sua generalidade.
Como exemplo, podemos invocar um caso ainda fresco na memória: os problemas
levantados pela derrocada da Enron e outras grandes empresas norte-americanas e
europeias no início da década de 2000 que suscitaram uma intensa rodada de
regulamentação da legislação corporativa, em especial a lei Sarbanes-Oxley.
Suas consequências espraiaram-se rapidamente por todos os países com mercados
financeiros relevantes, a ponto de suscitar grandes transformações nas relações
entre esses mercados e o restante das respectivas sociedades (Grün, 2003). E a
reação dos financistas ao que foi considerado excesso de regulamentação gerou
uma explosão nos fundos de private equities, que também se difundiram
internacionalmente como formas de investimento menos controláveis pelos
aplicadores, mas mais rentáveis e flexíveis (Grün, 2009). Nesse quadro, ficam
bem estabelecidos o papel e a forma como as sociedades penetram e influenciam
suas esferas financeiras, rompendo com o business as usual que normalmente
confere autonomia a esses espaços. Crises e escândalos geram clamores que, ao
mesmo tempo, pressionam e habilitam os agentes governamentais,3 e mesmo os
próprios financistas, a alterarem as regras do jogo e, por vezes, a controlarem
as tendências mais anti-sociais engendradas na esfera financeira (Jankowski,
2002).
Os clamores suscitados são artefatos sociais que podem ser recuperados para a
análise sociológica a partir da sua dimensão cultural. Com base neles, podemos
primeiramente analisar a cultura econômica e sua dinâmica, mas também pensar
nesse estudo mais geral, no qual os escândalos e as reações a eles se tornam
bons pontos de entrada para a interpretação da dinâmica social em sua
generalidade, conferindo à análise uma abrangência bem maior do que a
apreciação da atividade econômica e financeira. Em termos teóricos, procuro,
mediante a análise dos escândalos, mostrar a pertinência de um materialismo
cultural na discussão das sociedades contemporâneas, partindo justamente do seu
cerne econômico - o campo financeiro. A dinâmica cultural da sociedade subsume
sua vida econômica, e a exploração da face financeira dos escândalos permite-
nos firmar essa hipótese (Grün, 2008a e b).
Tipos de escândalos
Quanto aos tipos de impacto que os escândalos provocam, podemos pensar naqueles
que conseguem inscrever novas normas sociais e naqueles cujos deflagradores
pretendem reiterar formas vigentes em alguns segmentos, mas que não estão sendo
mais respeitadas pela generalidade do corpo social. O primeiro tipo diz
respeito a inovações importantes, como a extensão de direitos políticos e
sociais, em especial a alteração do estatuto menos favorecido das mulheres ou
dos negros, além da inscrição de novas temáticas e sensibilidades, como a da
agenda ambiental. Nesse primeiro grande grupo, observamos um uso intensivo de
capitais simbólicos e culturais produzindo eventos com forte conteúdo
midiático, que chamam a atenção da sociedade para as performances e
praticamente a obrigam a discutir os temas dos "escandalizadores"(Champagne,
1984). Aqui, falamos em "revoluções simbólicas" que alteram drasticamente a
sensibilidade da sociedade para questões como as acima citadas. Exemplos da
história cultural como o da Viena fin-de-siècle, em especial as estratégias
escandalizadoras de Karl Kraus, e das artes, como a revolução pictórica
inaugurada por Manet, são constantemente invocados como os case studies mais
elucidativos dos eventos bem-sucedidos, ao passo que o fracasso da tentativa de
banir o consumo do álcool como uma revolução mal-sucedida (Schorske, 1981;
Gusfield, 1986; Bourdieu, 1992b; Bouveresse, 2001). O outro grande grupo de
eventos, os "reiteradores" são os mais tipicamente catalogados como
"escândalos", sobre os quais me detenho neste momento (Bouveresse, 2001). Ainda
que os do primeiro tipo ocorram no nosso cotidiano, os do segundo gênero
produzem e ocupam mais constantemente as agendas contemporâneas. Eles podem ser
vistos como instrumentos de conservação da ordem social, que tendem a congelar
ou transformar apenas marginalmente a distribuição de capitais na sociedade.
Procurarei utilizar a incidência desse grupo no Brasil recente para conduzir a
análise adiante.
"Escândalo-bras": uma primeira rodada
A experiência brasileira recente sugere que os fenômenos que nos acostumamos a
chamar de "escândalos" provocam primeiro uma forte onda de indignação na
"opinião pública" que se sente ultrajada pelos acontecimentos e personalidades
revelados e, por vezes, há um segundo momento, no qual os grupos identificados
com as práticas que foram objeto do escândalo reagem, propondo explicações
conspiratórias para o evento (Grün, 2008a). Podemos atribuir a eclosão dos
escândalos a acontecimentos aparentemente fortuitos, como o assassinato da
criança Isabella Nardoni em São Paulo.4 Ou, no caso do "mensalão", à forma de
funcionamento do sistema político, que exigiria reparos. Os padrões, os temores
e os clamores moralizantes unem os dois casos recentes. Mas é só isso? Há algo
que distingue os dois episódios?
Sigamos a evolução dos escândalos e atentemos para as diferenças que levam
alguns a transmutar suas estruturas. Em certos casos, eles começam com uma
crítica geral a um comportamento ou episódio, totalmente compartilhada pela
sociedade, mas depois se transformam em disputas entre dois padrões de
moralidade ou de conduta. O exemplo histórico fundador é o do "caso Dreyfus" na
França da passagem do século XIX para o XX. Além de sua importância intrínseca
para a história daquele país, o episódio serve mais genericamente para marcar
uma inflexão importante na conformação dos campos do poder das sociedades
modernas, nos quais os poderes estritamente culturais se fortalecem pelo
aparecimento das figuras contemporâneas do "intelectual" -e do "jornalista"
(Charle, 2004). Como quer o autor, os dois grupos apresentam papéis e formas de
ação diferentes e mesmo opostas, mas ambas expressam a importância que o eixo
do capital cultural adquiriu e da necessidade de levá-lo em conta nas análises
da sociologia política do mundo contemporâneo (Idem, pp. 202ss). Dessa maneira,
é possível também dizer que os escândalos podem servir de reveladores sociais
para a existência e a importância de novos grupos sociais, antes ignorados ou
negligenciados quanto à sua importância e especificidade.
No início daquele episódio que marcou profundamente a sociedade francesa e
repercutiu de maneira intensa em diversas partes do mundo, tratava-se de um
escândalo na acepção mais comum do termo, no qual a "opinião" francesa
manifestava seu incômodo pela presença de um judeu no corpo de oficiais do
exército, e ainda mais, com acesso a documentos importantes para a defesa do
país.5 O resultado dessa malfadada novidade teria sido a venda desses segredos
à Alemanha, então a maior inimiga da França. Logo, a correção desse deslize
passaria pela reiteração do papel nefasto dos judeus no corpo social. A
Revolução Francesa, ao proclamar e por em marcha a igualdade entre os homens,
teria ultrapassado os limites do bom senso ao admitir judeus como cidadãos de
pleno direito no corpo político da nação. O patriotismo dos judeus era matéria
duvidosa, ainda mais quando se tratava daqueles de origem alsaciana como
Dreyfus, considerados de cultura e lealdades mais próximas do universo
germânico. Logo, incorporá-los integralmente ao Estado francês era um atentado
ao senso comum conservador. E a primeira fase do "escândalo" Dreyfus mostrava
para o mundo essa ultrapassagem perigosa.
Há que se ter em conta que no contexto europeu do período a retórica do
antissemitismo estava se tornando a forma canônica de reiterar o pensamento
político e social tradicionalista, que era contrário à expansão do sufrágio e
dos direitos cívicos e sociais em geral. Não é por acaso que o episódio tenha
despertado tantas paixões, tornando-se, pois, um momento privilegiado para
reiterar a desconfiança contra todos os novos habitantes, recentemente
investidos da capacidade formal de influir nos destinos dos povos (Marrus,
Vidal-Naquet et al., 1972; Blum, 1993; Noiriel, 2009).
Nesse sentido, tudo indicava que a condenação e o degredo do capitão teriam
"acordado" a nação francesa sobre o perigo agora conjurado, e em seguida os
ânimos pareciam ter se acalmado. Mas houve a famosa reação deflagrada pelo
artigo intitulado "J'accuse", de Zola e o escândalo - a reprovação geral mudou
para o "caso", daí a expressão l'affaire (De Blic e Lemieux, 2005). Dreyfus
encontrou defensores, que avocaram a sua defesa como uma defesa geral dos novos
princípios republicanos e leigos. E a França acabou se dividindo em dois
segmentos antagônicos, cuja polaridade foi determinante na cena política e
cultural daquele país até o final da Segunda Guerra Mundial (Laborie, 1990;
Blum, 1993; Sapiro, 2004; Sternhell, 2006). Em casos como esse, a divisão tende
a se exacerbar e podemos mesmo falar numa guerra cultural que separa os dois
pontos de vista e seus partidários. Nesse contexto analítico, muitos escândalos
são manifestações agudas das guerras culturais que transcorrem quando as
sociedades ampliam a democratização cultural, política e social. Podemos então
(provisoriamente) falar em ao menos dois tipos de escândalos: aqueles em que há
disputa social pela caracterização dos fatos e dos personagens e aqueles nos
quais tal contencioso não aparece. Uma primeira tentação seria catalogar no
primeiro grupo os escândalos "políticos" (já que a arena política, por
definição, é um lócus de disputa) e no segundo grupo aqueles considerados
"morais", ou "de costumes" (nos quais a sociedade simplesmente "se defenderia"
de alguma transgressão). Mas, mais uma vez a experiência mostra que devemos ter
cautela nessa tentativa de pensar homologamente: o escândalo dos "anões do
orçamento" não virou caso, enquanto o escândalo da "Escola Base" acabou virando
um caso, na acepção que estamos dando aqui para o termo.
Guerras culturais e escândalos
Nas guerras culturais são confrontados princípios distintos de estruturação de
alguma realidade social. Por exemplo: homens e mulheres são inapelavelmente
diferentes, porque nasceram cada qual com uma função específica na concepção de
novos humanos, contra a concepção que enxerga homens e mulheres como iguais
porque pertencem à mesma espécie humana e, portanto, ambos merecem as mesmas
chances de se realizarem nas diversas esferas da vida. Nenhum dos princípios
está "errado", mas eles são excludentes. Se começamos uma sequên-cia de
raciocínio a partir de um deles, não podemos incorporar o outro. As questões de
gênero oferecem diversos outros exemplos: ou a mulher tem o direito de dispor
do próprio corpo e, portanto, o aborto é um direito da mulher, ou o feto é uma
vida humana indefesa que precisa ser defendida, e nesse caso o aborto deve ser
proibido e severamente punido (Lakoff, 1996; Sobel, 2001). Seguindo para outra
esfera, ou o governo é o pai dos pobres e deve ajudá-los sempre ou, ao
contrário, todos devem aprender a ganhar a vida a partir de suas
possibilidades. Neste caso, que está no centro das famosas guerras culturais
norte-americanas da contemporaneidade, a posição conservadora diz que o excesso
de interferência governamental na vida das populações assistidas é um erro e um
contrassenso, à medida que diminui o empenho dos pobres em encontrar dentro
deles mesmos as forças para superar as adversidades. Ele transforma indivíduos
que deveriam ser cidadãos de pleno direito em dependentes e alimenta uma
burocracia de assistentes sociais que se viabiliza profissionalmente fomentando
a dependência dos pobres em relação ao Estado (Handler e Hasenfeld, 1991;
Hunter, 1991).
Uma distinção interessante na temática sociológica dos escândalos é aquela
proposta pela chamada "sociologia pragmática"(De Blic e Lemieux, 2005;
Boltanski, 2007). Para ela, os "verdadeiros" escândalos são aqueles que
conseguem inscrever duravelmente uma nova norma social, aqueles que chamei no
início do texto de "transformadores". O corolário é que os eventos que
aparentam ser escândalos, mas não atingem tal marca, os que chamei de
"reiteradores", não passariam de tentativas fracassadas de escandalização.
Configurações que não apresentam nem deflagram guerras culturais não seriam
escândalos. Engendrada justamente para dar conta de eventos marcantes da
sociabilidade política dos países centrais contemporâneos, essa tendência
procura dar conta dos "tsunamis que terminam em marolas", como os ataques
sistemáticos sofridos por Mitterrand na França e Clinton nos Estados Unidos
durante seus respectivos períodos presidenciais (Garrigou, 1992 e 1993; De Blic
e Lemieux, 2005). Poderíamos também enquadrar nessa rubrica os (não) escândalos
que sacudiram o governo Lula (Grün, 2008 a e b).
Numa outra esfera, o fenômeno pode ser decomposto em duas dimensões. De um lado
as temáticas que são postas em evidência. De outro, os atores que se mobilizam
para chamar a atenção sobre elas e aqueles que são prejudicados pela súbita
publicidade. Se abrirmos a porta da interpretação dos escândalos como
estratégia de publicidade ou política em particular, podemos rapidamente
perceber que os escandalizadores não agem isoladamente nos espaços sociais que
frequentam e intervêm. Pelo contrário, como mostra Dobry (1986) a propósito das
crises políticas, para que surja um escândalo é necessária a colaboração direta
e indireta de indivíduos e grupos situados em diversos subespaços do que
Bourdieu (1989) chamou de campo do poder.
"Escândalo-bras II": o campo do escândalo
Mas o que querem dizer exatamente os termos "colaboração" e "campo"? O conceito
de campo tenta justamente dar conta de um tipo de colaboração, ou de
convergência, pouco transparente. São situações nas quais os indivíduos e os
grupos estão explicitamente apartados. Nas suas subjetividades e na observação
cotidiana são localizados como em concorrência. Mas quando observamos as
configurações de maneira sistemática, tentando evitar as armadilhas do senso
comum, encontramos quadros de colaboração objetiva entre eles. Nos espaços
intelectuais como aquele que engendra os escândalos, o resultado principal
dessa convergência contra-intuitiva é a conformação de uma problemática social,
a percepção da sua premência a a produção de uma agenda e/ou maneira pela qual
ela deve ser tratada. O boxe profissional é uma boa analogia nesse sentido: os
lutadores podem se socar até a morte, mas mantêm a cumplicidade básica de
fomentar o interesse público sobre o esporte e, em especial, sobre a luta que
estão travando.
Essa cooperação com aparência de competição é uma das maiores armadilhas na
busca de um sentido para fenômenos como os escândalos que tentamos dar conta.
Especialmente quando tratamos de eventos contemporâneos, nos quais quase
necessariamente os próprios pesquisadores realizam investimentos emocionais e
políticos intensos no sentido de se posicionar num dos lados da contenda. Os
escândalos produzem contextos nos quais o essencial da história parece ser a
substância temática do ultraje, e acusados, acusadores e contendores que
disputam a "relatoria" do problema parecem separados por visões de mundo
inconciliáveis e inapelavelmente hostis. E, sobretudo, o futuro da sociedade
parece depender dos resultados do escândalo em tela. Se o lado em que nos
posicionamos não preponderar, a sociedade mergulhará num abismo.
A presença simultânea de cooperação e competição entre os diversos agentes e
agências que contribuem para a deflagração e a difusão dos escândalos sugere a
utilidade de tratar esse fenômeno como um campo no sentido específico que a
sociologia de Bourdieu confere ao termo (Bourdieu, 1979; Pinto, 2002; Champagne
e Christin, 2004). Uma primeira leitura poderia refutar o uso do conceito, já
que as análises que o utilizam focalizam situações com horizontes temporais bem
mais longos do que os escândalos. Fala-se no "campo da arte brasileira no
século XX", no "campo econômico", no "campo político". Mas aqui, armados das
evidências empíricas históricas e principalmente daquelas colhidas dos
escândalos brasileiros recentes, propomos usar uma variante da mesma heurística
para dar conta desse fenômeno que, no entendimento cotidiano, tem tudo para ser
considerado passageiro e mesmo efêmero. Afirmamos então que existe um "campo do
escândalo" que não produz somente um escândalo, mas que é uma verdadeira
fábrica de escândalos, que engendra permanentemente a forma escândalo como
criador de agendas, meio de expressão e ação social e também como artefato de
alavancagem de trajetórias de indivíduos e grupos em diversos espaços sociais.
Essa postulação menos intuitiva pode ser depreendida, entre outros, do exemplo
citado sobre a análise da formação do espaço público e da função dos
intelectuais e jornalistas naquela França do final de XIX dividida pelo
affaire. A partir da criação do artefato social e retórico chamado
"antissemitismo", proposto por Edouard Drumont em "La France Juive", que
repercute em todo o espaço social, cultural e político, alavancando a carreira
de seu criador e gerando reações obrigatórias, o "problema judeu" torna-se um
tópico de discussão obrigatório, ainda que seja para negar sua relevância. A
partir daí, a forma escândalo difunde-se e quem quiser chamar a atenção para
fenômenos sociais deve obrigatoriamente descrevê-los num envelope retórico que
sugere a escandalização (Charle, 2004; Noiriel, 2009).
Em termos mais gerais, uma leitura via economia das práticas sociais afirma que
a apresentação dos fatos como escândalos produz um bem coletivo, que é um
trunfo social a ser compartilhado pelos diversos produtores dessa construção: o
fenômeno ultrajante ganha proeminência na pauta das discussões sociais e, junto
com ela, os especialistas no tema ganham evidência e encomendas tanto
simbólicas como materiais. O campo engendra a percepção da urgência absoluta em
tratar e resolver o motivo da indignação, sugerindo que "não podemos mais viver
dessa maneira; não é mais possível tolerar ou acobertar a situação que se
apresenta e nada mais pode ser resolvido enquanto esse problema (o motivo do
escândalo) não for solucionado".
Idealmente, a implicação de diversos grupos de agentes nos escândalos, que se
traduz na aplicação das suas legitimidades e dos seus capitais culturais na
criação e na reiteração da pauta do escândalo, acaba produzindo um "regime de
verdade", enviesando a percepção social no sentido de selecionar fatos e
versões que reiteram os motivos que produziram o escândalo e descartando
quaisquer possíveis evidências que diminuam ou nuancem essa certeza ou a força
da indignação (Foucault, Defert et al., 2001, p. 158). Uma vez instalado o novo
"regime de verdade", aqueles que contribuíram para esse resultado serão
beneficiados imediatamente pela acumulação de capital simbólico proporcionada
aos porta-vozes dos reclamos da sociedade. Posteriormente, essa forma de
capital poderá ser transmutada nas modalidades mais próprias de cada espaço em
que os agentes e os grupos trafegam.6
Podemos então, com alguma cautela, aproximar os "regimes de verdade" produzidos
no campo do escândalo aos famosos paradigmas científicos da filosofia da
ciência de Thomas Kuhn, o que nos ajuda a entender a dureza da agenda produzida
e, portanto, a dificuldade de mudá-la ou de, no debate público, demonstrar a
irrelevância das tentativas voluntaristas de mudar as pautas sociais (Kuhn,
1962; Fleck, [1935] 1979; Douglas, 1986). Mas a analogia encontra seu limite no
fato de que, em vez de estarmos tratando de uma comunidade de cientistas que se
reproduz em relativa autarquia, agora estamos diante de um espaço
multidimensional, no qual agentes oriundos de diversos subespaços sociais
convergem para a produção e a manutenção do "paradigma". E essa diferença é
importante porque coloca sistematicamente os agentes diante de faux amis que,
quando analisamos o espaço da retórica, parecem estar integralmente alinhados
na "cruzada", mas conforme os acontecimentos evoluem, percebemos que raramente
acontece essa convergência mais ampla (Bourdieu, 1984). Assim, se a dureza da
agenda aproxima o regime de verdade dos escândalos da ideia de paradigma, a
composição do círculo dos escandalizadores tem uma morfologia multidimensional
que torna esse agrupamento muito diferente das comunidades intelectuais.7
Nesse sentido, é fácil notar quer os membros do ministério público competem com
jornalistas e políticos na paternidade e no "protagonismo" associado aos
eventos. É um pouco menos evidente que uns se alimentam dos resultados dos
outros. É fácil ver que em cada um desses espaços, os produtores de escândalos
estão disputando posições com outros grupos de agentes. É menos evidente que há
uma homologia de posições, mostrando que cada um desses grupos de
escandalizadores está posicionado em seu respectivo espaço na condição de
"jovem desafiador".
A multidimensionalidade pode ser inferida porque os escândalos mobilizam grupos
de atores em diversas esferas da sociedade. Ao que pode se depreender, os
diversos grupos têm em comum a característica de serem sociologicamente jovens.
Frequentemente, são também herdeiros presuntivos de capitais simbólicos
familiares ou corporativos os quais, no curso do escândalo, acabam se
transmitindo mais rapidamente do que aconteceria sem esse fator interveniente.
Essa característica comum produz uma homologia de situação capaz de gerar
simpatias e colaboração, mas também enormes mal-entendidos.8 Jovens
desafiadores têm em comum a necessidade de mudar parcialmente os parâmetros de
excelência dos seus respectivos campos para apressarem suas carreiras, mas a
história inscrita em cada um desses espaços produz habitus diferentes e
engendra sensibilidades, possibilidades de expressão e de atuação muito
diversas. A irreverência dos jornalistas é impossível entre os juristas, mesmo
os mais jovens. E ocorre exatamente o contrário com o formalismo dos juristas
no espaço dos jornalistas. Os acordos são absolutamente necessários para a
eficácia de qualquer ação política, mas são abominados pelo espaço
jornalístico. A menção explícita ou mesmo implícita às preferências ideológicas
é praticamente obrigatória na esfera política e inconcebível na esfera
jurídica. Há assim aspectos que separam drasticamente cada um dos campos, e
quando, durante os contenciosos, eles entram em contato mais estreito, essas
diferenças podem gerar desentendimentos muito intensos. Esses desentendimentos
que, como vimos, têm características estruturais acabam se tornando uma espécie
de freio impedindo que a maioria dos escândalos se transforme em "verdadeiras"
crises institucionais. Diminuem ou alternam o ímpeto das crises, tornando menos
previsíveis seus desfechos e fomentando a ideia de que tudo acaba virando
"pizza".
O campo do poder e o poder (heurístico) dos escândalos
Evidentemente, cada escândalo é "único" em suas características temáticas e
estruturais, mas podemos adiantar que o estudo genérico da mecânica do fenômeno
geral permite uma boa entrada para a análise do chamado "campo do poder"
(Bourdieu, 1989). Esse espaço central das sociedades contemporâneas é o local
onde as elites dos diversos campos sociais se encontram, competindo pela
proeminência de seus capitais específicos, mas cooperando na operação básica de
produzir e aceitar regras gerais de convívio e, ainda que parcialmente, a
legitimidade dos capitais alternativos, criando assim o espaço de convivência,
cujos resultados mais imediatos são o alargamento e a "complexificação" das
agendas aceitas pelas sociedades (Bourdieu, 1981; Bohn, 2006). E, mais do que
uma entrada genérica para o fenômeno, que nos fornece principalmente uma
radiografia mais ou menos estática do espaço social, os "casos" resultantes da
transmutação dos escândalos abrem a janela para a análise da dinâmica social do
espaço das elites, pois neles se evidencia as tendências à valorização ou à
desvalorização dos capitais de cada grupo.
Nos escândalos, reputações antes "ilibadas" ou "geniais" são manchadas para
sempre e novos "paladinos da justiça" ou "pensadores paradigmáticos" aparecem,
desbancam seus antecessores e iniciam carreiras nos diversos subespaços do
campo do poder. A concepção estrategista e as mitologias contemporâneas sobre
os processos políticos a que assistimos costumam acentuar o caráter ativo,
racional e calculado dos scandal-makers na constituição do fenômeno (Garrigou,
1993). É possível que essa vertente, a partir de um uso irrefletido da nossa
predisposição a acreditar em conspirações, explique convincentemente a
deflagração dos escândalos. Mas, e os desfechos?
Ao olharmos o espaço empírico dos escândalos retrospectivamente, o encanto da
explicação estrategista se desfaz. Os indivíduos e os grupos competentes (no
duplo sentido de competirem e de disporem das competências para criar
escândalos) conseguem iniciar escândalos e se projetar no seu decorrer, mas uma
vez entrados no tabuleiro político, esses fenômenos ganham características
multidimensionais cujo controle é praticamente impossível. Haja vista, mais uma
vez, a experiência brasileira recente. O processo, do qual se esperava o
esvaziamento do capital político de Lula e de seus seguidores, acabou gerando
uma mobilização, primeiro política e depois eleitoral, que lhes foi favorável,
na medida em que contribuiu para a mudança da agenda econômica da sociedade no
sentido de torná-la mais próxima da sensibilidade dos apoiadores de Lula, que
então se desdobraram na tarefa de alcançar a reeleição de seu líder (Grün,
2008). Três anos depois, Lula havia alcançado a reeleição e ostentava os
melhores índices de popularidade já alcançados por um presidente da república
(Canzian, 2008).
Um dado irrecorrível das sociedades contemporâneas é a constituição de um vasto
círculo de experts, agentes atuando nos meios de comunicação e no público
alargado, no seio do qual se engendra a crença de que os escândalos são
atividades produzidas e controladas pelos indivíduos que detêm essa competência
específica. A crença alimenta-se e funciona em várias esferas. De um lado, as
teorias conspiratórias que vicejam na sociedade, apontando, desnudando e
produzindo protagonistas e interesses velados que estariam por trás de
quaisquer acontecimentos, ou "não acontecimentos", que promovem ou prejudicam
os "poderosos". Diversas variantes dessas mitologias políticas e sociais
circulam permanentemente com maior ou menor ênfase circunstancial (Birnbaum,
1979; Girardet, 1986; Medina, 1992; Weber, 1999; Taguieff, 2005). Forças
ocultas estariam por trás da Revolução Francesa (a mãe de todas as
conspirações), das guerras, das crises econômicas e mesmo de desgraças
naturais, como variantes recentes de um enredo que começou a se formar em torno
dos supostos complôs de judeus que estariam envenenando os poços da Provença
medieval para eliminar os seus vizinhos cristãos (Ginzburg, 1992; Taguieff,
2005). Por serem realidades ficcionais onipresentes, essas formas culturais
estão fadadas a ganhar alguma verossimilhança sempre que são invocadas. E
estando disponíveis nessas arenas competitivas que são os mercados editoriais,
eleitorais ou esotéricos, elas têm grande probabilidade de reaparecerem com
alguma constância. No mundo contemporâneo, há uma linhagem que na sua variante
brasileira se inicia com o Despertar dos mágicos (Pauwels, 1975) e,
provisoriamente (já que o aparecimento de um novo best-seller conspiratório é
extremamente provável), teve seu último grande representante no Código Da Vinci
(Brown, 2004). Essa sequência de edições obteve enorme sucesso internacional e
também no Brasil. Por mais que concedamos que essas leituras possam ser
reconhecidas como ficcionais pelos seus receptores, é difícil de imaginar que
essas narrativas também não construam um cânone interpretativo que será
acionado em situações "da vida real", estruturando e dando conta das percepções
dos acontecimentos "concretos" (Ginzburg, 1983 e 1992; Taguieff, 2005).
Paralelamente, aparecem as ideologias e as teodiceias profissionais dos
diversos ofícios modernos ligados ao convencimento político, de consumo,
financeiro etc. Os "marqueteiros", especialistas em táticas eleitorais,
publicitários, conselheiros financeiros e especialistas em autoajuda são
estruturalmente compelidos a acreditar e a fomentar a crença na eficácia de
suas atuações e instrumentos. Como afirmou Schudson (1984) seminalmente a
propósito da propaganda comercial, eles podem, ou não, ser capazes de
influenciar suas audiências nas formas e proporções que anunciam, mas,
primeiramente, devem fazer seus financiadores e clientes acreditarem nisso. É
claro que os profissionais em questão se supõem racionais e equilibrados, não
reconhecendo nenhum parentesco com os adeptos das teorias conspiratórias,
considerados esotéricos, descompromissados e alienados. Mas é difícil imaginar
que as tentativas de dar verossimilhança às suas ferramentas de análise e
intervenção, que insistem no primado da ação política voluntarista (ainda que
"cientificamente" informada) sobre a estrutura social nos comportamentos
individuais e na sociedade, não se alimentem das crenças anteriores nas
galáxias conspiratórias. Nesse sentido, um ponto interessante da cena
brasileira contemporânea é a centralidade do personagem "Daniel Dantas" em
diversos contenciosos políticos, econômicos e mesmo policiais.9
A (perversa) pedagogia dos escândalos
A experiência brasileira recente também pode servir para mostrar que, para a
concretização de um escândalo, é necessário um processo talvez ainda pouco
explicitado de agenda setting. A discussão e a correção dos fatos ou situações
ou condutas considerados reprováveis devem ganhar prioridade sobre quaisquer
outros problemas ou realizações do momento, aproximando a análise dos
escândalos à das crises políticas, conforme o trabalho esclarecedor de Dobry
(1986). Nessa construção, os escandalizadores provenientes das diversas esferas
tornam-se colaboradores interessados na alçada do assunto em "problema premente
e inadiável" (em detrimentos de outras questões, as quais, por sua vez, perdem
prioridade). Certamente eles se nutrem da reiteração da escandalização: como na
III República francesa do affaire, a repetição de escândalos das mais diversas
origens nos acostuma com essa forma de apresentar problemas, situações e
operadores da construção dos fatos.
A imprensa que, afinal, acaba dando vida aos escândalos, conferindo-lhes
destaque, já tem neles fontes quase certas de interesse pelos seus produtos.
Desde muito tempo e em diversas latitudes, seus agentes estão treinados a,
antes de tudo, evitar uma "barriga" - deixar de pautar e desenvolver
reportagens específicas sobre um evento escandaloso que os demais órgãos e
mídias estão evidenciando; e neste caso importa menos sua verossimilhança do
que perder espaço na dureza da concorrência (Bueno, 2007; Tuchman, 1978; Neveu,
2001; Charle, 2004; Gans, 2004; Molica, 2005). Ademais, do ponto de vista desse
constrangimento organizacional e profissional, o escândalo acaba se tornando um
estilo canônico de se apresentar os fantasmas e dilemas da sociedade
brasileira. Esse efeito de campo é muito interessante e talvez ajude a
demonstrar uma evidência contra-intuitiva: a partir de meados de 2008, quando a
imprensa internacional passa a pautar o Brasil muito favoravelmente, como o
gigante que está acordando tanto na esfera econômica como na social, vemos que
a imprensa brasileira participa ativamente do campo do escândalo, mantendo a
agenda da formação de escândalos sucessivos, que reiteram o famoso "complexo de
cachorro vira-latas", em detrimento da apreciação internacional positiva sobre
o país (The Economist, 2009).
Olhando mais uma vez nosso tema por uma lente de economia das práticas, vemos
que no seio do espaço construído como o campo do escândalo a ação conjuntamente
complexa dos diversos grupos de atores acaba gerando o próprio escândalo como
um bem coletivo a ser explorado por todos que contribuem para a sua gênese e
desenvolvimento. Mas talvez essa linguagem "economicista" contribua para
formatar uma visão demasiadamente instrumental e, paradoxalmente, ela acaba nos
induzindo a uma sociologia ingênua desse fenômeno, que é inexplicável sem
recurso à sua dimensão cultural e identitária. Exploremos o que pode significar
a caracterização do nosso "bem coletivo" como um artefato cujas características
o aproximam do que chamou de um "regime de verdade" (Foucault, Defert et al.,
2001, p. 158). Como podemos depreender da lição seminal de Fleck, acreditar no
escândalo e ajudar a inflá-lo é também, inextricavelmente, uma maneira de
afirmar o pertencimento a uma comunidade ou grupo, em especial, no nosso caso,
do espaço das profissões ligadas à mídia (Fleck, [1935] 1979). E o corolário é
também digno de nota: "desconfiar" do escândalo produz uma forma de
estranhamento que pode significar a expulsão do incréu do espaço profissional e
do convívio social no qual ele está ou quer ser inscrito. Sobretudo no momento
atual, em que a profissão de jornalista passa por mutações aceleradas
suscitadas pelas novas mídias e suportes ligados à internet, que permitem o
questionamento da especificidade profissional dos jornalistas, a crença e a
produção da pauta dos escândalos acabam se revestindo de um forte caráter
identitário, remetendo o fiel à adesão aos cânones tradicionais do ofício. Mais
diretamente, arrisco-me a estender o ponto básico da sociologia da religião de
Durkheim e afirmar que aqui, como em qualquer outra sociedade, a crença é antes
de tudo um fenômeno coletivo e ligado à afirmação de uma determinada ordem
social e do vínculo do "crédulo" a ela.
Escândalos na reprodução social das elites e no desafio a elas
A temática dos escândalos revela outra característica pouco evidente:
normalmente (e quase obrigatoriamente), ela consiste na reiteração, mais ou
menos inventiva, de uma norma social compartilhada, pelo menos nas esferas de
sociabilidade das elites. No seminal caso Dreyfus, lembremos ao mesmo tempo o
caráter "jovem e desafiador" dos antissemitas franceses do final do século XIX,
principais agentes da propaganda antidreyfusarde, bem como a ligação nem sempre
muito bem esclarecida entre o antissemitismo moderno e o antijudaísmo
tradicional (Gilman e Katz, 1991).10 Como registram Sternhell (1984) e Noiriel
(2009), foram os constrangimentos do jogo político e cultural que levaram
aqueles jovens a produzir e usar a carta antissemita para afirmar suas
carreiras profissionais, renome intelectual e, finalmente, conduzir sua
inserção na esfera das elites. Teriam até mesmo produzido o fenômeno do
antissemitismo moderno e sua inscrição na agenda política e cultural francesa
da época (Noiriel, 2009). Não é por acaso que os indivíduos que poderíamos
classificar sociologicamente como jovens membros das elites costumam ser os
principais operadores dos escândalos. No jogo interno dos campos que compõem o
"campo dos campos" do poder, eles estão atuando no papel de recém-chegados,
ávidos para conseguir uma aceleração nas suas carreiras, constituindo-se então
em desafiantes do campo, cuja principal arma retórica no intuito de apressar
sua passagem para as posições dominantes em seus espaços respectivos consiste
em lembrar ou reiterar os princípios morais tradicionais que regem o convívio
interno e que estariam sendo esquecidos ou conspurcados pelos membros dos polos
dominantes das elites. Nesse sentido, os "jovens" arvoram-se o cetro de
"verdadeiros" paladinos das normas tradicionais do espaço e, assim, podem
afirmar que fazem jus à passagem para o polo dominante, por causa da
incapacidade dos mais velhos em manter os valores compartilhados.
Na busca de analogias, poderíamos apresentar, como faz Bourdieu (1992a), esse
tipo de comportamento como uma variante do comportamento dos juveniles na
França medieval: eles eram os rebentos das famílias nobres que ainda não tinham
conseguido encontrar ou estabelecer um feudo a partir do qual pudessem
constituir uma família nobre legítima. Por isso, viviam um cotidiano de
errância, procurando situações nas quais sua bravura e espírito cavalheiresco
fossem postos a prova e valorizados. Em geral, essa postura "sincera e
generosa" contrastava com o espírito acomodado dos senhores feudais já
estabelecidos e, dessa maneira, os últimos perderiam a legitimidade e deveriam
entregar seus postos aos jovens mais comprometidos com os valores da época. A
reiteração desse tipo de comportamento funcionava ao mesmo tempo como um
difusor e retro-alimentador constante dos valores legítimos do feudalismo, além
de ser um mecanismo de reprodução social da ocupação das posições disponíveis
(Duby, 1997).
No caso brasileiro recente, quando os conspurcadores são oriundos de espaços
dominados do mundo social, como no caso do grupo de Lula no Brasil do início do
século XXI, esse jogo se faz ainda desimpedido, pois a "velha geração", taxada
de "complacente", sequer protesta contra a ação dos mais jovens, uma vez que
esta não se dirige ostensivamente contra ela. É no halo desses processos que se
apressa a passagem dos capitais políticos familiares. Em notável analogia,
assistimos então recentemente no Brasil à performance extremamente midiatizada
de diversos herdeiros de famílias políticas tradicionais. É explícita a
passagem do bastão partidário do PFL/DEM das mãos da velha geração para a mais
nova, num interessante processo em que a simples observação das idades
cronológicas dos personagens não indicaria tal ocorrência. É assim que Jorge
Bornhausen, aos 69 anos de idade, entregou o comando do partido a Rodrigo Maia,
filho do prefeito do Rio de Janeiro César Maia e também quadro político
importante da mesma agremiação. E no momento do episódio, a idade de Rodrigo
era de 36 anos, enquanto a média de idade dos deputados federais eleitos em
2006 era de 51 anos. Cumpre também ressaltar que entre os outros "denunciadores
implacáveis dos desmandos de Lula e de seu séquito de malfeitores" estavam, na
primeira fila, os também herdeiros Antonio Carlos Magalhães Neto, neto do
grande "cacique" político Antonio Carlos Magalhães e nascido em 1979, além de
Gustavo Fruet, nascido em 1963 e filho do ex-prefeito de Curitiba Maurício
Fruet (Matais, 2007; Nery, 2006; Guerreiro, 2007; Ulhôa, 2007).11
No espaço jurídico alterado pela Constituição de 1988, esse processo ocorre de
maneira ligeiramente diferente, ainda que também reflita uma dinâmica
geracional. De um lado, o aumento de visibilidade de alguns setores de origem
recente em detrimento de outros mais antigos, fazendo crescer a imagem dos
procuradores e dos delegados contra os juízes; de outro, mostrando o "empenho e
determinação" dos jovens recém-chegados, contra a "acomodação e complacência"
dos mais velhos. Mas mesmo no caso das diferenças entre as profissões, é
necessário ter em conta que principalmente as procuradorias são de
configurações recentes e formadas majoritariamente de indivíduos mais jovens,
tanto cronológica como sociologicamente, e nesse caso a disputa jurisdicional
também se trava entre as novas corporações e as antecedentes, que,
eventualmente, podem perder espaço e prerrogativas.
Dessa maneira, a análise dos escândalos também revela uma função alargada de
reprodução social das elites. De um lado, nas sucessões geracionais internas
aos setores estabelecidos; de outro, no combate entre setores estabelecidos e
os desafiantes. Uma vez que os escândalos se sucedem, as técnicas necessárias
para deflagrá-los acabam se tornando história incorporada do sistema político e
midiático. Dessa maneira, eles ficam registrados como ferramentas à disposição
de indivíduos e grupos socializados no campo do poder e, consequentemente, essa
memória também torna altamente provável a deflagração de novos escândalos
(Bourdieu, 1980).
Uma questão correlata é a substância específica a ser elevada à condição de
prioridade social pelos escândalos. Já que a forma mais comum de produção de
escândalo consiste em exigir o cumprimento de alguma norma consagrada, mas
enfraquecida, os escândalos castigam prioritariamente quaisquer experimentações
sociais que estejam sendo engendradas, pois elas são mais facilmente
enquadradas como abominações ou transgressões. Não necessariamente os
escândalos são episódios de conservadorismo social, mas no mais das vezes sim,
e, principalmente, a escandalização como forma de ação política facilita muito
o trabalho dos restauradores sociais, já que reitera a familiaridade com essa
forma de ação que é muito favorável ao conservadorismo e mesmo ao regressismo
(Muel-Dreyfus, 1996). No Brasil contemporâneo, essa tendência aparece nas
sugestões sobre o caráter nefasto de programas sociais como o Bolsa-família,
que estaria produzindo uma legião de indolentes, desinteressados em trabalhar,
uma vez que os governos lhes concedem "do quê viver" independentemente de
qualquer esforço pessoal para mudar a situação (Cabral, 2009). Seguem na mesma
direção as críticas a movimentos como o MST - Movimento dos Sem Terra, a
medidas para minorar a desigualdade de chances no sucesso escolar (sobretudo o
sistema de cotas de vagas reservadas a grupos considerados desprivilegiados),
ao reconhecimento social e oficial de relações afetivas homoeróticas e a
programas de contracepção (sobretudo quando se discute a interrupção de
gravidez).
A guerra cultural e a "opinião pública"
Escândalos "pautam" diversos aspectos da vida social, e fazer sondagens é
justamente a maneira consagrada de auscultar a "opinião pública". As flexões
sociais de sentido em torno do conceito de "opinião pública" são outro ponto
interessante que aparece na fenomenologia dos escândalos contemporâneos. A
análise de aspectos nem sempre bem explicitados das pesquisas de opinião e dos
seus usos sociais é reveladora de características importantes dos escândalos.
Numa epistemologia ingênua, assim como escândalos seriam simplesmente
manifestações de descalabros, as pesquisas seriam apenas "fotografias de cada
momento" e a sequência de sondagens sobre um determinado assunto seriam
"filmes" que representariam a evolução da sua apreciação pela sociedade. As
pesquisas seriam técnicas neutras que, em nenhum dos casos, interfeririam na
realidade auscultada. Elas apenas a "descobririam", sempre ajudando a sociedade
a se posicionar nos mais diversos temas que a afetam ou interessam. Mas essa
interpretação estática não revela o quanto uma pesquisa pode ajudar a
composição de agenda setting das sociedades (Champagne, 1990). Vistas dessa
maneira, como técnicas de produção de agenda, elas guardam parentesco com os
escândalos.
Evidentemente, há um contencioso social perene em torno da definição desse ente
social que se tornou parte "natural" da paisagem política e cultural dos
últimos cinquenta anos (Bourdieu, 1973). As aferições estatísticas são
realmente uma boa aproximação "do quê pensa o povo"? Elas teriam precedência
sobre outras formas de apresentar e representar a vontade popular, como o
mandato político e sindical ou as lideranças religiosas ou étnicas
(Rosanvallon, 2006)? De um lado, no debate sociológico, elas seriam
intrinsecamente imprecisas por causa do compartilhamento apenas parcial das
agendas de discussão na sociedade (Gaxie, 1978). De outro, nas suas "aplicações
práticas", elas tendem a ser hipostasiadas e reificadas pela publicação
contínua das pesquisas que nos acostumam a essa forma de apresentação da
realidade e por isso reiteram sua verossimilhança (Champagne, 1990; Herbst,
1993).
Nos escândalos, muitas vezes as pesquisas de opinião medem e apontam "como e
quanto a população está indignada", e o ente social ultrajado é invocado pelos
denunciadores como o santo dos santos que foi conspurcado, enquanto os atacados
tentam desfazer o constructo. Normalmente estes últimos falham, uma vez que,
reificada, a ideia moderna de "opinião pública" já está firmemente registrada
na cultura e na cena política. Além da possível, mas pouco provável,
transmutação do escândalo em "caso", às vezes o ente e seus cultuadores são
obrigados a se curvar diante do altar mais poderoso da religião democrática: as
eleições gerais (Rosanvallon, 2010).
Como mostram esses autores, apoiados pelos historiadores, o conceito de
"opinião pública" significava anteriormente apenas a opinião agregada das
elites e dos setores "esclarecidos" da população, conforme as escalas de
excelência vigentes nas sociedades - o que se chamava de l'opinion (Chartier,
2000). O advento do artefato contemporâneo que passamos a denominar "pesquisas
de opinião" parece mudar esse quadro. Os praticantes e usuários do "novo"
instrumento pretendem que ele seja capaz de medir as opiniões e as preferências
das populações pesquisadas como um todo, indo muito além da (elitista) simples
auscultação de suas elites. Nesse sentido, ele suplantaria o conceito anterior
no escopo e na legitimidade. Entretanto, a crítica sociológica procura mostrar
que estamos diante de uma recolocação mais criteriosa, um aggiornamento do
mesmo instrumento.
A última posição contraintuitiva sustenta-se quando os críticos lembram que a
possibilidade de os indivíduos "terem opinião" sobre os mais diversos assuntos
é diretamente proporcional à escala de prestígio ou distribuição de capital
cultural na sociedade (Bourdieu, 1973; Gaxie, 1978 e 1990). O argumento
contrário mais freqüentemente utilizado é a capacidade das pesquisas de opinião
de prever resultados eleitorais. Entretanto, segundo os críticos, as próprias
sondagens eleitorais só são acuradas por causa, justamente, do caráter
excepcional da propaganda eleitoral, que suscita a atenção da população para
tomar partido numa eleição. E a maior prova nesse sentido é que a acurácia das
pesquisas eleitorais cresce exponencialmente conforme se aproxima o momento das
eleições, justamente quando os eleitores se tornam mais dispostos a pensar no
tema (Gaxie, 1990).
Invertendo essa explicação analógica, a análise dos escândalos revela como se
explicitam alguns corolários dos usos mais típicos do artefato social "pesquisa
de opinião". O primeiro ponto é a produção de agendas a partir de escândalos e
de pesquisas de opinião. As nuanças e as consequências da seleção arbitrária ou
interessada de algum tema ficam mais explícitas nas pesquisas de opinião. Quem
comanda uma pesquisa pode inquirir os participantes da esfera pública sobre o
"problema" que escolheu e assim lhe conferir "gravidade" em detrimento de
outros temas contemporâneos (Bourdieu, 1973; Champagne, 1990). Portanto, é
lícito afirmar que esse artefato social pode produzir consequências
equivalentes às dos escândalos. Mais evidentemente do que no caso dos
escândalos, o poder de comandar pesquisas de opinião não é uniformemente
distribuído na sociedade. Deve haver ao mesmo tempo capital econômico para
viabilizar os seus custos e capital simbólico para inquirir a população e
publicar seus resultados.
Outra questão relevante é a tendência de fazer coincidir a opinião das elites
com a "opinião pública". Dessa maneira, os adversários das possíveis inovações
não consensuais têm um aliado naqueles que tem a capacidade de encomendar as
pesquisas de opinião. E isso no duplo sentido de também não encomendar
pesquisas sobre pontos que são consensuais entre as elites e menos
compartilhadas entre outros segmentos da população. Além da experiência
internacional recente do agendamento de temas, como questões ligadas à
imigração e às relações étnicas em geral, refiro-me especialmente a temas "da
atualidade brasileira". Há consenso entre as esferas sociais mais cultas, de
que a proibição do porte de armas diminuiria a violência, ou, numa situação um
pouco mais nuançada, de que seria um erro a adoção da política de cotas para
estudantes de origem social ou racial desfavorecida. As poucas indicações
existentes mostram que o porte de armas e a ação afirmativa são possivelmente
mais bem aceitos por outros segmentos da população.12 Da mesma maneira ocorre
em relação a outros temas que também poderiam gerar plebiscitos, como no caso
da adoção da forma de governo parlamentarista, que apesar de gerar certo
consenso entre as elites, foi tema derrotado já em duas consultas eleitorais.13
Percebe-se assim, de maneira bem direta, como a distribuição de capitais na
sociedade contemporânea influi nas suas agendas e, consequentemente, nos seus
destinos. As elites apresentam, ou não apresentam, problemas que a incomodam.
Quando sim, selecionam o enquadramento em que a questão será debatida.
Alternativamente, são evitadas pesquisas nas quais o possível agregado
estatístico das opiniões majoritárias possa diferir do consenso entre as
elites. E assim como os escândalos, as pesquisas tornam-se instrumentos menos
enviesados de conhecimento da realidade social quando não há consenso sobre o
tema pesquisado entre segmentos de elite suficientemente poderosos para
produzir escândalos ou comandar e divulgar pesquisas. Quando o assunto ou a
forma de tratá-lo é controverso, os efeitos das pesquisas podem ser análogos ao
do escândalo transmutado em caso.
Sociologia pragmática e pragmática sociológica
A lógica da escandalização e suas consequências pode ser realçada a partir da
análise cruzada de dois episódios que, acreditamos, marcam o começo e
(possivelmente) o final de uma era social e econômica na sociedade brasileira.
Em primeiro lugar, o "escândalo das mordomias". Iniciado em 1976, ele inscreveu
na sociedade brasileira a ideia de que a solução para os problemas nacionais
passaria fundamentalmente pela adoção de soluções que preconizassem "mais
organização espontânea da sociedade e menos Estado". O segundo episódio,
transcorrido trinta anos depois, que identifico inicialmente com o debate em
torno das eleições presidenciais de 2006, mas que se prolonga até a crise
financeira de 2008, diz respeito à possível superação daquela heurística social
por outra que apresenta o Estado na posição de "solução" para os problemas
nacionais. Em ambos os casos, criou-se uma outra sensibilidade em relação ao
período antecedente, alterando o senso comum econômico e político do país e
criando enquadramentos para o exame social e científico de qualquer gênero de
iniciativa ou de política.
A respeito do episódio das mordomias há uma série de reportagens (Kotcho, 1/8/
1976) e, em seguida, a própria inscrição de uma nova acepção do termo no
vernáculo brasileiro,14 que significou também um verdadeiro programa de
regeneração social, econômica e organizacional. Antes tínhamos a simples
organização espontânea da sociedade civil que não deveria ser obstada. Mas
muito rapidamente essa fórmula imprecisa perdeu para uma proposta mais clara
que promove a equivalência entre organização espontânea e mercado e evoluímos
para um pano de fundo baseado num rigor semelhante ao que está implícito na
teoria econômica ortodoxa. Nesse evento, vimos a soldagem de uma nova convenção
cognitiva, quando setores diversos e díspares se identificaram com a crítica
que questionava o "Leviatã estatal" que, para a chamada esquerda "basista",
impedia a organização da sociedade civil e, para o empresariado organizado nas
federações, impedia o livre funcionamento dos mercados. Nesse cenário, as
"mordomias" passam a simbolizar a aversão da sociedade brasileira ao
necessariamente ambíguo "estado de coisas" representado pela relação entre
Estado e população que vigorava no ocaso da ditadura militar. A sociedade
"inteira"" - expressão marota que, como vimos, recobre primeiro os setores
dotados de opinião e depois tenta levar no seu vácuo o restante da população -
se insurge contra o Estado usurpador e se escandaliza, reforçando a abertura
democrática. Num primeiro momento, todos contra o Estado, num segundo, o
"mercado" ganhou mais espaço do que a "sociedade civil". Mas o crescente
desenvolvimento das ONGs no mesmo período também deixa claro que a coalizão
cultural de fundo permaneceu no essencial, ainda que com maiores ganhos para o
vetor "mercado" (Grün, 1999 e 2005). Desenhou-se assim um escândalo bem
tipificado, no sentido da sociologia pragmática, que alterou os automatismos
sociais e cognitivos, e possibilitou transformações importantes na gestão das
mais diversas organizações empresariais e de outras naturezas, incluindo as
estatais mediante processos de "enxugamento" dos quais a "reengenharia" foi o
mais conhecido. Além disso, propiciou a entrada em cena de um novo perfil de
agente político identificado com a causa da contenção dos abusos, do qual a
imagem do candidato a presidência Fernando Collor de Mello, o "caçador de
marajás", foi o exemplo mais acabado. Um dos seus produtos de maior impacto na
sociedade como um todo foi a criação do substrato cultural para a ideia de
"Estado mínimo", que vicejou sem oposição até recentemente.
É evidente que o escândalo não apareceu do nada. Antes, ele apenas galvanizou
tendências que já estavam em gestação e mesmo em efervescência naquele momento.
Transformações na morfologia social e no ambiente cultural nacional e
internacional tornavam nosso Leviatã intragável. A enorme expansão do ensino
superior via reforma universitária promovida pelo regime militar afetou o
tamanho e a composição das coortes de diplomados que reivindicavam postos de
comando na economia e na sociedade (Bacha e Klein, 1986). Para se alocar na
estrutura social, esse contingente muito mais amplo do que a coorte precedente
teria de alterar as formas de ingresso e de legitimação das posições. O
contingente alargado não cabia no mundo das agências estatais, e isso num
sentido duplo. No início, em termos estritamente numéricos a expansão dos
diplomados foi maior do que a capacidade do Estado de disponibilizar novas
posições. Além disso, a inclusão das famílias não previamente ligadas ao Estado
no imperativo da necessidade do título universitário deu legitimidade
intelectual às formas de inserção que não só não passavam diretamente pelo
Estado, mas que também lhe eram antagônicas (Grün, 1995). A alteração da
convenção cognitiva forneceu o enquadramento mais geral dessa sucessão
geracional. Na sua generalidade, as "mordomias" tornaram-se um inimigo comum,
necessariamente ambíguo, mas ponto de convergência específico que possibilitou
a coalizão de diversos grupos da nova geração e o necessário empuxo para romper
o business as usual que prevalecia até então.
O outro episódio, menos caracterizado (ainda) por um registro específico
marcante, do que pela sequência de acusações iniciada pela denúncia do deputado
Roberto Jefferson sobre o "mensalão",15 foi considerado pelos partidários de
Lula como a "desconstrução" do então presidente da República e por seus
adversários como o desmascaramento do caráter desonesto e dissimulado de Lula e
dos dirigentes do Partido dos Trabalhadores (Costa, 2005; Camarotti e De la
Penã, 2005). Observamos a partir daí uma sequência de enfrentamentos sobre as
formas pelas quais a atividade econômica deveria se relacionar com o Estado.
Isso produziu uma alteração significativa do ambiente econômico, deixando para
trás diversos pré-julgados do período anterior.
Adiante, no Apêndice, listamos um conjunto de notícias que indica a
reconfiguração da cultura econômica. A sequência mostra um crescendo da
plausibilidade de soluções estatais para os problemas econômicos do país e
também, correlativamente, a atribuição de "falta de Estado" (ou de
planejamento/coordenação sistemática) para os problemas econômicos
diagnosticados a partir do "apagão", como ficou conhecida a crise de
fornecimento e distribuição de energia elétrica" (Grün, 2005) ocorrida nos
últimos dois anos do governo Fernando Henrique Cardoso.
Podemos assim, num espaço de trinta anos, ver um mundo se fazer (no sentido de
Goodman, 1978) e, em seguida, dar indícios consistentes de que está por se
desfazer. O escândalo das "mordomias" atingiu-nos de maneira certeira e
durável, alterando drasticamente a face da sociedade. Na chave que aqui
desenvolvo, sua principal característica é a convergência cognitiva e, em menor
grau, programática por ele desencadeada. De súbito, passamos a privilegiar a
ação em detrimento da estrutura; a chamar de burocracia o que antes se estimada
como previsibilidade; a chamar de flexibilidade o que antes denominávamos
aventura (Grün, 1999).
A maior proximidade temporal com a segunda mudança e a amplitude de meios de
pesquisa que a internet propiciou permite-nos examinar mais detalhadamente sua
micropolítica, que proclama a volta do Estado para estruturar a economia (Grün,
2008a e b). A contestação da ordem e do bom senso econômicos que prevaleceu nos
últimos trinta anos começa de maneira claramente ilegítima. É durante a
campanha eleitoral para a presidência da República em 2006 que podemos perceber
seus primeiros lances públicos. Num crescendo que começou com os escândalos de
2004-2005, o governo Lula afirmava cada vez mais a necessidade de reaparelhar o
Estado e de restabelecer a proeminência do planejamento estatal na atividade
econômica. No âmbito das elites essas pretensões pareciam comprovar mais uma
vez o tirocínio escasso de Lula e seus auxiliares. Entretanto a repercussão
inesperada de um ponto do primeiro debate entre os candidatos Lula e Alckmin
mostrou que as percepções das elites sobre "privatização" e "tamanho do Estado"
estavam distantes daquelas compartilhadas pela sociedade brasileira na sua
generalidade. Alckmin fez uma crítica à compra de um avião de grande porte para
a presidência (o Aerolula) e a apreciação imediata dos comentaristas era de que
ele tinha desferido um golpe praticamente decisivo na campanha de Lula, então
arrefecida (O Globo Online, 2006a e b). Mas as pesquisas qualitativas a esse
respeito indicaram o contrário. O "Aerolula" foi encarado como um símbolo da
importância do país, e as críticas contra o "passadismo estatizante" de Lula se
voltaram contra seus adversários (Folha de S. Paulo, 2006).
Os principais jornais do país e a campanha do candidato Alckmin, diante da
evidência da preferência popular pelas prioridades do presidente postulante à
reeleição, passaram a dizer que estavam sendo atacados de maneira insidiosa
pelos partidários de Lula, a partir do que chamaram de "central de boatos
petista", que espalharia mentiras sobre as intenções do possível futuro governo
peessedebista (O Globo, 2006; Folha Online, 2006; Veja, 2006; Epaminondas Neto,
2006). Já segundo os responsáveis pela campanha de Lula à reeleição, as
mensagens que circulavam sobre as intenções privatizantes e contrárias à
política social de Lula eram o resultado das novas possibilidades de expressão
propiciadas pela blogosfera e que eram espontâneas, o que significava ao mesmo
tempo que não estavam se comprometendo com seu conteúdo e que eram consideradas
a "voz do povo" (Grün, 2008b).
A expressão "central de boatos" indicava a tentativa de estabelecer uma
continuidade entre o comportamento de Lula e seus apoiadores no "mensalão" e as
formas de atuação e propagação das ideias de Lula e de impugnação do seu
adversário. Certa ou errada a caracterização pretendida pelos apoiadores de
Alckmin no sentido de "aderir aos fatos", importa-nos mais a pragmática que se
seguiu. Lula alarga seu campo eleitoral e sai consagrado das urnas com 60,83%,
enquanto Alckmin amarga uma votação em segundo turno (39,17%) menor do que no
primeiro (41,64%). Em suma, há razões para concluirmos que é possível deflagrar
escândalos, mas impossível controlar seus efeitos.
Como vimos, a "funcionalidade manifesta" dos escândalos não explica
integralmente sua deflagração e muito menos seus destinos. No evento em tela,
ainda que a família política que fomentou e deflagrou o "mensalão" e seus
corolários tenha sido derrotada nas eleições gerais, isso não significou que,
individualmente, seus membros não tenham alterado suas posições nas diversas
hierarquias e espaços pelos quais trafegam, ou mesmo que o esforço
escandalizador não tenha diminuído a extensão de sua derrocada.
É claro que o espaço especificamente político da família que deflagrou o
"mensalão" não se manteve, como vimos a partir da sucessão geracional do PFL/
DEM. E suas posições na imprensa mainstream em relação às mídias alternativas?
Não temos material para analisar essa questão em profundidade, mas as
derivações teóricas indicam a necessidade de investigar esse ponto. A
polarização ideológica e o debate intenso que se travou no início da década de
2010 a propósito da liberdade de imprensa, seu significado e seu estatuto
jurídico e profissional, bem como seu lugar na hierarquia dos direitos e
deveres, denotam a profundidade dos problemas identitários que entrevimos a
partir dos usos e da adesão aos escândalos.16
No espaço jurídico o mundo permaneceu o mesmo? Assistimos diversas rusgas - a
maior dela envolvendo diretamente o Ministro e então Presidente do Supremo
Tribunal Federal Gilmar Mendes e o Juiz Fausto De Sanctis e tendo o
"famigerado" Daniel Dantas como epicentro - mas, como no caso do espaço
jornalístico, também não podemos avançar muito na análise específica.17 De
qualquer forma, encontramos diversos movimentos coletivos, tanto internos ao
espaço como exteriores a ele, no sentido de apoiar cada uma das partes em
conflito, o que também denota a extensão e profundidade dos contenciosos
suscitados ou revelados pelos escândalos.18
Conclusão
Indicamos diversos mecanismos sociológicos que concorrem para a eclosão e o
desenvolvimento dos escândalos, bem como o parentesco dessa forma de expressão
social com outras menos diretamente marcadas por polêmicas, como as pesquisas
de opinião. Também chamamos a atenção para os mecanismos internos de vários
setores da sociedade atual que os impelem a deflagrar ou apoiar a
escandalização, como as sucessões geracionais e as necessidades identitárias.
Políticos, jornalistas e juristas são protagonistas de primeira linha da nossa
trama. A primeira tentação é de, uma vez "desnudados" os mecanismos que
deflagram os escândalos, culpar os segmentos dos três espaços que os utilizam
pela mesquinharia de tentar galgar degraus em suas carreiras usando esse
instrumento que, ao alterar prioridades pactuadas pelos mecanismos
deliberativos reconhecidos ou introduzir questões espúrias, tanto incomodam e
atrapalham a reflexividade social.
Outra tentação é a de se colocar como juiz das disputas, atribuindo maior ou
menor razão às partes em conflito. Vivendo os sociólogos no mesmo mundo em que
se trava o escândalo e pensando nas características intelectuais mais típicas
que fazem alguém escolher a sociologia como especialização, esse pecado é
particularmente tentador. Mas aonde chegaríamos se nos deixássemos cair em
tentação? Alteraríamos as condutas dos atores ou o desfecho dos escândalos para
uma situação mais próxima de nossas convicções? Aumentaríamos ou diminuiríamos
o conceito da sociologia na sociedade e no seio das ciências?
O uso estendido do conceito de campo que propusemos, além de suas virtualidades
analíticas intrínsecas, produz um efeito de suspensão fenomenológica que
pretende conferir objetividade ao estudo que se quer científico dos escândalos.
Curiosamente, nesta versão, propomos usar a sugestão fenomenológica para
estudar o escândalo como "coisa em si", anulando o efeito das paixões, das
atrações e das repulsas. Se não atingimos plenamente o propósito, traçamos ao
menos um caminho. O campo não é só um sistema de forças objetivo que obriga os
agentes a se comportarem de uma forma determinada. Ele age principalmente antes
da ação "consciente", conformando percepções e vontades dos que se dizem atores
e de outros que se conferem apenas o estatuto de agentes.
Por outro lado, a sociologia pragmática recente, da qual muito recebemos para a
análise dos escândalos, interdita o uso do conceito de dominação por
menosprezar a capacidade dos indivíduos - aqui resolutamente atores e não
agentes - de terem clara consciência das situações em que estão envolvidos
(Boltanski, 2009). Assim, nessa vertente os indivíduos "sabem o que fazem"
quando deflagram ou combatem os efeitos dos escândalos. Aqui, se há dominação
ou violência, elas são estritamente físicas, constrangendo diretamente os
indivíduos. Mas como tratar os contenciosos que abordamos? Nosso tema são os
conflitos sociais que engendram os escândalos. As configurações nas quais esses
fenômenos se inserem são quase axiomaticamente dotadas de características
multidimensionais. Nesse espaço, esperar reflexividade eficiente, no sentido de
antecipar e controlar os efeitos da ação social a respeito delas, é imaginar
cérebros capazes de processar infinitamente para dar conta das múltiplas
possibilidades e probabilidades que se abrem a partir de cada par de ação e
reação correspondente. É também imaginar consciências livres de
constrangimentos identitários que vimos surgir nos escândalos de todos os lados
e em todas dimensões. Podemos prever a recorrência do fenômeno escândalo, mas
mesmo assim acompanhamos recentemente, por exemplo, a inversão total de
expectativas quando da reeleição de Lula e a pauta econômica por ela
engendrada. Se feitiço houve, virou contra os feiticeiros.
Mas, se não existe essa reflexividade totalizante, há certamente algum sens du
jeu, ou "racionalidade limitada", que informa e explica a ação dos
protagonistas. Afinal, parafraseando Aristóteles, aparecer é existir. Na
configuração atual do campo do poder, a existência social de indivíduos e
grupos passa pela produção de escândalos nos quais eles "se destacam" - passam
a existir socialmente e/ou mudam suas posições nas hierarquias sociais. Seria
então razoável imaginar e/ou pôr em prática uma engenharia social capaz de
impedir a eclosão dos escândalos? Diante de uma questão tão direta, a resposta
só pode ser negativa. Nesse contexto, seria razoável imaginar a renúncia ao uso
dos escândalos como arma política mais ou menos situada, nos moldes em que se
quer internacionalmente impedir, por exemplo, o uso de armas atômicas? Afinal,
assim como os artefatos nucleares, sabemos que é fácil deflagrar seu uso, mas
suas consequências sistêmicas podem ser devastadoras. Poderíamos pensar num
acordo tácito, equivalente ao das potências nucleares? Claro que não, já que
estamos abordando um jogo estruturalmente diferente, do qual participam uma
quantidade indefinida, e grande, de agentes, todos candidatos a serem
protagonistas. A essa altura, parece que estamos condenados a ver a repetição
contínua dos escândalos e seus efeitos normalmente obliteradores nas mais
diversas agendas da sociedade.
Mas talvez caiba aqui uma salvaguarda: sabemos que é praticamente impossível
impedir a deflagração dos eventos. Já na sequência dos seus efeitos, uma boa
vigilância social pode diminuir seus impactos. A disseminação do conhecimento
sobre os constrangimentos que regem a eclosão e o desenvolvimento dos
escândalos provavelmente diminuiria seu ímpeto e, num prazo mais longo, poderia
enfraquecer essa forma de ação social e política que surge com a modernidade,
mas não revela a sua melhor faceta.
Notas
1 Para a lista, normalmente atualizada e dando acesso às referências originais,
ver <http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_esc%C3%A2ndalos_de_corrup%C3%A7%C3%A
3o_no_Brasil>, consultado em 25/9/2009).
2 E por falar em plantinha, não é demais lembrar que o uso reiterado do bordão
"ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil" contribuiu para
a sociedade brasileira desenvolver um bem renomado serviço público de pesquisas
agronômicas e de extensão agrícola.
3 Na expressão que ficou famosa de Rahm Emanuel, chefe do staff de Barack
Obama, as crises são oportunidades de mudança muito preciosas para serem
desperdiçadas (Zeleny, 2008).
4 Ou talvez fosse mais correto vincular a sensibilidade social revelada no
"caso Nardoni" a questionamentos sobre a estruturação atual das famílias,
sobretudo a questão do divórcio e do consequente estatuto dos novos cônjuges
dos progenitores em relação aos filhos do primeiro casamento. Talvez por isso,
tenhamos observado a insistência no uso do termo "madrasta" que, como quer
Houaiss, é eivado de conteúdos negativos, para se referir a Ana Jatobá.
5 Tal episódio foi relatado "em primeira mão" ao público brasileiro por Ruy
Barbosa na sua primeira Carta da Inglaterra, em janeiro de 1895 (Barbosa,
1994).
6 Podemos utilizar o "escândalo do mensalão" como um bom exemplo de regime de
verdade: o campo estabeleceu a veracidade do caráter vicioso de Lula e seus
colaboradores e, trama montada, seus participantes saíram freneticamente atrás
da prova definitiva da sua culpa, que no linguajar daquele momento passou a ser
chamado de "o batom na cueca" (Grün, 2008a).
7 Há, é claro, os escândalos internos aos mundos científico e intelectual. Mas
eles têm dinâmicas e morfologias diferentes daquelas que estamos tratando no
momento.
8 Bourdieu (1984) utiliza a ideia de "homologia de posição" para analisar as
convergências e divergências entre o "proletariado do ensino superior" e o
proletariado propriamente dito durante a crise de 1968 na França. O primeiro
grupo, composto por aspirantes a professores, políticos e intelectuais que
(ainda) não encontraram seu lugar estável na sociedade se enxerga como
"proletário", mas tendo como referência imediata os setores bem estabelecidos
de suas profissões e especialidades. Os "proletários da intelectualidade"
identificam-se com os proletários no sentido estrito, mas só até certo ponto,
que, quando ultrapassado, provoca justamente a cólera mútua. Naquele momento de
confrontação social e cultural aguda, os primeiros consideravam os últimos
incapazes de cumprir o "destino histórico de heróis portadores do futuro
radioso da humanidade" e os segundos (ao menos seus representantes sindicais
estabelecidos) recusavam o papel de "bucha de canhão" que, segundo os
operários, os intelectuais lhes atribuíam.
9 Procuro demonstrar essa aproximação entre as teorias conspiratórias e a
atuação política racional contemporânea a partir da análise do papel atribuído
a Daniel Dantas nos escândalos políticos brasileiros de 2005 (Grün, 2007 e
2008a).
10 O antijudaísmo tradicional é religioso, e o estigmatizado perde a condição
infamante quando se converte ao cristianismo. Já o antissemitismo moderno é
essencialista e bebe das teorias biológicas raciais do século XIX. Nesse
quadro, o judeu é sempre pernicioso por causa da sua biologia peculiar
imutável. Exemplificando: no contexto do antissemitismo nazista moderno, o
próprio Torquemada, o famoso Inquisidor geral de Espanha e exemplo maior do
perseguidor tradicional de judeus, que era de origem israelita, seria
enquadrado na sua categoria original, inapelavelmente excluído da vida civil e
provavelmente enviado aos campos de concentração. Ver aspectos dessa
diferenciação em Gilman e Katz (1991).
11 O quadro de constrangimentos geracionais completa-se quando observamos que
naquele episódio a "linha de frente" dos contestadores dos escândalos era
formada em grande parte por antigos jornalistas de renome, como Luís Nassif,
Luís Carlos Azenha, Raimundo Pereira, Paulo Henrique Amorim e outros, expulsos
das redações mainstream também por fenômenos de sucessão geracional.
12 A sensibilidade popular ao primeiro tema é inferida diretamente do resultado
do último plebiscito. Já na questão das cotas utilizamos, ironicamente, os
resultados de pesquisa do Instituto Datafolha (Collucci, 26/7/2006). Agradeço
Antonio Sérgio Guimarães por lembrar a existência da sondagem.
13 O primeiro plebiscito ocorreu em 6/1/1963. Ver <http://www.cpdoc.fgv.br/
nav_jgoulart/htm/6Na_presidencia_republica/Parlamentarismo__sim_ou_nao.asp>,
consultado em 25/10/2009. O segundo, em 21/4/1993. Ver <http://wapedia.mobi/pt/
Plebiscito_sobre_a_forma_e_o_sistema_de_governo_do_Brasil__%281993%29> ,
consultado em 21/4/2009.
14 Nesse sentido, podemos comparar as acepções para o termo nas duas edições
sucessivas do dicionário Aurélio, a primeira delas antes do escândalo e a
segunda depois da sua eclosão (Ferreira, 1975; Ferreira e Anjos, 1986).
15 O episódio foi deflagrado a partir da divulgação na televisão, em 14/5/2005,
de uma gravação em vídeo na qual Maurício Marinho, então diretor dos Correios,
recebia propina de um advogado, que se fazia passar por empresário.
Posteriormente, em 6/6/2005, o deputado Roberto Jefferson, em entrevista à
Folha de S. Paulo, empregou pela primeira vez a expressão "Mensalão",
neologismo que se tornou consagrado. Ver <http://pt.wikipedia.org/wiki/
Esc%C3%A2ndalo_do_mensal%C3%A3o>.
16 O desenrolar da disputa causou o agrupamento de dois polos. O primeiro
situa-se na interface entre o governo federal e grupos que contestam a
predominância da mídia privada tradicional. O segundo consiste na mídia
mainstream e seus apoiadores. Talvez seja útil, numa primeira aproximação,
condensar o estado do contencioso no final de 2009, ainda que com o risco de
deixar escapar certas nuanças, a partir da contraposição entre a I Conferência
Nacional de Comunicação (<http://www.confecom.gov.br/>), convocada por setores
do governo e apoiada por setores que criticam a mídia tradicional, e o I Fórum
Democracia & Liberdade de Expressão, organizado pelo Instituto Millenium,
fortemente apoiado pela associação dos proprietários de jornais. Ver <http://
portalimprensa.uol.com.br/portal/agenda/2010/02/18/imprensa33824.shtml>.
17 A construção de um verdadeiro "totem" moderno a partir da imagem pública do
banqueiro Daniel Dantas, que foi sendo paulatinamente construída no decorrer
dos diversos escândalos recentes é uma das facetas sociologicamente mais
interessantes dessa trama (Grün, 2008a).
18 Um bom resumo - em geral atualizado - do contencioso pode ser encontrado na
consulta às rubricas "Fausto de Sanctis" (ver <http://pt.wikipedia.org/wiki/
Fausto_De_Sanctis>) e "Gilmar Mendes" (ver <http://pt.wikipedia.org/wiki/
Gilmar_Mendes>) na Wikipédia brasileira.