Poderá o desempenho de Chelonus Elaeaphilus beneficiar do acesso a fontes de
açúcar?
INTRODUÇÃO
No rico complexo de inimigos naturais da traça-da-oliveira, Prays oleae
(Bernard), identificado em olivais do Norte interior de Portugal, destaca-se o
parasitóide Chelonus elaeaphilus Silvestri (Hymenoptera: Braconidae), quer pela
frequência da sua ocorrência, quer pelas taxas de parasitismo ocasionadas
(Torres, 2006).
Muitas espécies de parasitóides dependem, no estado adulto, total ou
maioritariamente de hidratos de carbono como fonte de energia (Jervis et al.,
1993). Os hidratos de carbono são essenciais ao bom desempenho destes
organismos, enquanto agentes de limitação natural das populações das pragas,
pela importância que assumem em aspectos críticos da sua biologia e
comportamento, como a longevidade, a fecundidade (e.g. Olson e Andow 1998;
Wäckers 2001) e a capacidade de procura dos hospedeiros (Krivan e Sirot 1997;
Wäckers 2003). Em condições de campo, os parasitóides obtêm hidratos de
carbono, principalmente de néctar floral ou extrafloral e de meladas excretadas
por homópteros (e.g. Idris e Grafius, 1995; Wäckers et al., 1996; Bugg et al.,
1989). Para beneficiarem do néctar têm de lhe poder aceder e a composição do
néctar em hidratos de carbono tem de ser a adequada ao metabolismo do insecto.
Este trabalho tem por objectivo: avaliar as possibilidades oferecidas por
diferentes espécies de plantas da flora espontânea do olival no incremento da
protecção biológica de conservação exercida por C. elaeaphilus sobre a traça-
da-oliveira. Pretendeu-se: a) avaliar a importância de diferentes açúcares
simples, frequentemente presentes no néctar, no incremento da longevidade de
machos e fêmeas de C. elaeaphilus;b) avaliar a possibilidade teórica de acesso
do parasitóide ao néctar das plantas em análise; c) e analisar a composição do
néctar destas plantas em açúcares.
MATERIAL E MÉTODOS
Obtenção dos parasitóides
Os exemplares de C. elaeaphilus foram obtidos a partir de lagartas e pupas
parasitadas de traça-da-oliveira, colhidas em olivais de Trás-os-Montes e Beira
Interior.
Efeito de diferentes açúcares no incremento da longevidade de C. elaeaphilus
Foram ensaiados 4 açúcares simples (frutose, glucose, maltose e sacarose), em
indivíduos recém-emergidos (< 24 h) de ambos os sexos; os insectos foram
colocados, individualmente, em caixas de plástico (16 x 16 x 12 cm) e foi-lhes
fornecida água e uma dieta de açúcar. O número de repetições por modalidade foi
de 7 a 10 para os machos e 8 a 13 para as fêmeas. Os açúcares com pureza > 99%
(Sigma-Aldrich) foram preparados, em concentrações de 1M com água destilada. As
dietas foram facultadas ad libitum e substituídas cada 3 dias. O trabalho
decorreu em condições controladas: 25 ± 2ºC, 60 ± 20% HR e 16:8 (D:N) de
fotoperíodo.
Possibilidade teórica de acesso de C. elaeaphilus ao néctar de diferentes
espécies de plantas da flora espontânea do olival
O estudo abrangeu 18 espécies de plantas anteriormente identificadas em olivais
da Beira Interior (Nave et al., 2009), seleccionadas com base em informação
disponível na bibliografia sobre características como: a atractividade exercida
sobre a fauna auxiliar, o êxito obtido no incremento da sua actuação, o período
de floração e a multifuncionalidade.
Para avaliar a possibilidade teórica de acesso do insecto ao néctar das
plantas, a abertura e a profundidade das corolas das flores e a largura da
cabeça do parasitóide foram determinadas à lupa binocular, com recurso ao
software Digital Imaging Solutions. O número de repetições foi 6 a 23 para as
plantas e 60 para o parasitóide.
Caracterização dos açúcares de diferentes espécies de plantas da flora
espontânea do olival
Foram obtidas 5 amostras de néctar por espécie. A quantidade de açúcares foi
determinada por cromatografia iónica (HPAEC, ICS-3000, Dionex), com um detector
electroquímico (ED50, Dionex) que funciona em modo amperométrico por pulsos
(PAD). A coluna CarboPac PA20 (Dionex) foi usada com um eluente de solução de
NaOH a 10 mM e os açúcares foram identificados por unidades de fluxo eléctrico
medidas em nanocoulomb (nC). As amostras (4 a 8 mg néctar) foram dissolvidas em
3 mL de uma solução etanol a 50%, adicionando-se 100 µL de uma solução de 2-
desoxiglucose (padrão interno a 0,5 mg/mL), tendo sido a quantificação
realizada pelo método do padrão interno (P.I.).
Análise dos dados
Os resultados são apresentados em média ± erro padrão.
RESULTADOS
Efeito de diferentes açúcares no incremento da longevidade de C. elaeaphilus
A longevidade dos insectos mostrou resposta diferenciada entre fêmeas e machos.
As fêmeas viveram 6 a 14 dias (9,29±1,06) em maltose, 5 a 25 dias (14,25±2,60)
em frutose, 5 a 41dias (18,86±5,80) em glucose e 10 a 43 dias (19,23±2,44) em
sacarose. Os machos viveram 4 a 30 dias (14,00±3,19) em maltose, 5 a 24 dias
(15,83±2,82) em glucose, 4 a 32 dias (16,57±3,19) em frutose, e 7 a 26 dias
(18,29±3,73) em sacarose (Figura_1).
Possibilidade teórica de acesso de C. elaeaphilus ao néctar de diferentes
espécies de plantas da flora espontânea do olival
A largura média da cabeça de C. elaeaphilus foi de 0,89±0,01 mm nos machos e de
0,97±0,01 mm nas fêmeas (Figura_2). A comparação destes valores com os das
dimensões da corola das flores (Quadro_1) evidencia que o insecto pode
facilmente aceder ao néctar das espécies de plantas, com excepção das 4
Asteraceae, cuja abertura de corola é demasiado reduzida (0,38±0,02 a 0,68±0,03
mm) para permitir ao insecto introduzir a cabeça.
Caracterização dos açúcares de diferentes espécies de plantas da flora
espontânea do olival
A análise do néctar das plantas evidenciou que continham, predominantemente,
glucose, frutose e sacarose, embora em concentrações diferentes, sendo: glucose
superior em A, C e D; frutose superior à sacarose em A, C e D; e sacarose
superior à glucose e frutose em B (Figura_3), evidenciando uma diversidade em
termos de quantidade total de açúcares bem como da composição dos néctares
disponíveis para os insectos.
CONCLUSÕES
A longevidade de C. elaeaphilusbeneficiou de ter acesso a açúcares, em
particular a sacarose. Como estes açúcares ocorrem naturalmente no néctar, a
disponibilidade de plantas produtoras de flor no olival ou na sua vizinhança
poderá contribuir para incrementar o papel deste insecto na protecção biológica
de conservação contra a traça-da-oliveira.
Das 18 espécies de plantas da flora espontânea do olival, foram identificadas
14 pertencentes a 9 famílias (Apiaceae, Boraginaceae, Brassicaceae,
Caryophilaceae, Fabaceae, Hypericacea, Lamiaceae, Malvaceae e
Scrophulariaceae), a cujo néctar o insecto pode teoricamente aceder. Embora o
néctar destas espécies contenha maioritariamente glucose, sacarose e frutose, a
sua importância relativa difere entre espécies.
O aprofundamento destes estudos, através designadamente da identificação das
plantas em cujo néctar C. elaeaphiluspode na prática alimentar-se, a par da
análise mais completa do seu néctar, pode melhorar a avaliação das
possibilidades oferecidas pelas mesmas no fomento das populações do
parasitóide.