Produção animal e ambiente: O significado das despesas de manutenção dos
animais
Introdução
Como alguém escreveu, dar título a um artigo científico é uma tarefa que só
devemos cumprir depois de termos acabado de escrever o trabalho e depois de o
termos lido uma e outra vez. Evidentemente que quando começámos a abordar
determinado assunto, devemos ter uma ideia prévia e clara das matérias que
queremos abordar; mas, encontrar em poucas palavras, ' como entendo que deve
ser ' os termos capazes, certeiros, de sintetizar o assunto ou parte dele que
resolvemos tratar, isto é, o TITULO, não é tarefa fácil, reconheçamos. Em
síntese, pensamos que além de ser conciso, o título deve ser curto ou
relativamente curto, informativo e, melhor ainda, apelativo sem cairmos em
sensacionalismos fáceis.
Falar na produção animal e do seu impacto no ambiente é hoje muito comum nas
conversas entre pessoas, no debate político e na imprensa, escrita e falada.
Podemos mesmo dizer que este assunto está na moda. De facto, há uma razão séria
a que não podemos nem devemos fugir: a conservação imperiosa do ambiente!
Porque, como se dizia há muito pouco tempo numa bem gizada campanha sobre
preservação do ambiente, Terra há só uma...
Em todos os tempos, os sistemas de produção de alimentos pelo homem ' sejam
alimentos de origem vegetal sejam alimentos de origem animal ' produziram
impacto ambiental. Esta atividade é, portanto, pelo menos, potencialmente
poluente. Nem será preciso explicar porquê.
A inevitabilidade destas exigências ambientais serem postas, em geral, de modo
dramático, tornou a defesa do ambiente um assunto relevante com a
intensificação da produção agrícola. A defesa tem sido por vezes acalorada e
emotiva. A população mundial tem tido crescimento contínuo. A FAO (2007) estima
que em 2050 sejamos 9,5 biliões. Partimos do princípio, evidentemente, que
todos os seres humanos devem ser adequadamente alimentados e, se for essa a sua
vontade, devem poder incluir nos seus regimes alimentares produtos de origem
animal. Claro que para sermos exatos, teremos que acrescentar que não basta a
sua vontade; é preciso, evidentemente, que tenham poder de compra para tal.
Nem por ser uma evidência me escuso lembrar que a produção e venda de alimentos
de natureza animal ou vegetal é também um negócio. Na procura ' ou, por vezes,
na ânsia do lucro fácil? - de satisfazer as necessidades alimentares da
população (ou de vender os seus produtos) a uma população cada vez em maior
número, tem de reconhecer-se, sem esforço, que foram cometidos erros, alguns
lamentáveis. A sua importância foi muitas vezes amplificada pelos meios de
comunicação social. Arriscámos a dizer que na maior parte das vezes houve
ignorância nos caminhos a seguir pela produção animal. A ânsia que desse uma
boa primeira página com forte impacto nas pessoas e que, com isso, se pudessem
vender mais jornais e revistas ou atrair mais espectadores para este ou aquele
canal de televisão, prevaleceu.
Como consequência de tudo isto, a imagem da agricultura e da pecuária degradou-
se acentuadamente sobretudo nos países desenvolvidos e, pensamos que continua
em baixa.
Entretanto, o discurso na imprensa quando falava da produção de alimentos e,
designadamente, daprodução de alimentos de origem animal, foi mudando para
fórmulas relativamente novas e mais consensuais. Passaram a usar-se
frequentemente palavras até aqui pouco usadas como ecologia; passou a falar-se,
por exemplo, de sustentável e de sustentabilidade da pecuáriae..., de tudo um
pouco! Pondo de lado alguns exageros de palavras (ou mesmo disparates
linguísticos) julgo que, de forma geral, o nosso léxico se enriqueceu. Alguns
destes termos têm tido aplicação certeira.
Intitular-se um trabalho de produção animal e ambiente está na moda embora nos
pareça que a expressão, só por si, diz pouca coisa. Vamos centrar a nossa
análise nas causas da má imagem que passaram a ter os alimentos de origem
animal tomando a produção de leite como exemplo.
A questão da eficiência da utilização dos recursos alimentares
Quando se fala em eficiência da produção animal, é preciso, antes de mais, que
se saiba com clareza o se quer dizer. Aqui falaremos apenas de eficiência
alimentar. Devemos falar de eficiência alimentarcomo sendo os recursos
necessários para produzir maisalimentos de origem animal (leite, ovos ou carne)
com a mesmaquantidade de recursos alimentares ou a mesma quantidade de produtos
animais com menos recursos alimentares. Ou, como também está na moda dizer-se e
é sinónimo,a mesma quantidade de produtos animais com menos inputs.
No anuário agrícola dos EUA de 1927 aparece um vaca Ayirshire pastando
pachorrentamente à beira de um rio, uma imagem verdadeiramente idílica! J. C.
McDowell com base neste anuário escrevia ' cito Capper et al. (2008),
traduzindo. Quando a população deste país aumentar para 200 000 000 será
facilmente possível oferecer-lhe a quantidade adicional de produtos lácteos não
aumentando o número de vacas, mas tendo melhores vacas... A produção média de
leite por vaca nos EUA é cerca de 4 500 libras por ano. Se houver um aumento de
150 libras por ano, em 45 anos duplicaremos a produção por vaca. O mesmo número
de vacas leiteiras que temos hoje dará, à mesma taxa de consumo de produtos
lácteos, para um número consideravelmente maior que os 200 000 000 pessoas.
Em 1944 as vacas leiteiras nos EUA produziam em média cerca de 3 100 kg de
leite/ano. Em 2007, a produção média por vaca/ano foi muito próxima de 9 100
kg, ou seja, em 63 anos a produção média de leite nos EUA de acordo com dados
oficiais aumentou quase 3 vezes!
Se considerarmos a produção média das vacas referidas por McDowell em 1927 e as
produções de leite observadas em 2007 nos EUA, concluímos que este autor errou
pouco mas por defeito!... A ter-se verificado um crescimento 150 libras por ano
teríamos uma produção média por vaca de 16 500 libras e não aproximadamente 20
044 libras, média registada 80 anos depois (Capper et al., 2008)!
Como foi possível tão grande avanço? Numa resposta que, por ser simples, alguns
podem pensar que é, no mínimo, simplista,direi apenas e por agora, que este
avanço foi conseguido aplicando saber e, claro, muito trabalho. Vamos tentar
explicar como é que isto se passou na vaca leiteira e qual foi, com toda a
certeza, a principal razão.
Produzir mais leite com a mesma quantidade de recursos alimentares ou,
alternativamente, produzir a mesma quantidade de leite com menos recursos,
reduz a procura de fontes não-renováveis ou renováveis para a produção de leite
e, portanto, os elevados inputs que a prática da pecuária intensiva requer bem
como terra de boa qualidade, água, combustíveis fósseis, fertilizantes e
energia eléctrica, por exemplo. Todos estes inputs são necessários para
produzir alimentos para animais. Resumindo e estando mais em sintonia com o
título: nos EUA, no seu todo, produziu-se mais leite de vaca com menos
recursos, ou seja, puderam reduzir-se os impactos ambientais desta produção
animal.
O mesmo se passou na chamada produção intensiva por todo o lado: produção de
ovos ou crescimento das estirpes modernas de frangos para carne ou ainda na
produção de carne de porco: a produção intensiva é um sistema maiseficiente na
utilização dos recursos e menos poluente por unidade de produto obtido. Para
ilustrar o que afirmamos, veja-se, por exemplo, Dias-da-Silva (2008).
Pensamos que este critério ' eficiência ' deve presidir a toda a produção de
alimentos para os humanos como se passa noutros domínios não alimentares!
Dissociar a produção animal desta verdade, é o que tem sido feito na opinião
pública, em geral. O facto de se terem cometido erros a lidar corretamente com
os efluentes pecuários de todas as espécies animais e em todos os países, é
verdadeiro e, sempre, condenável; mas não pode invalidar o que fica dito (é
muito demagógico fazê-lo!) a respeito da eficiência da produção animal.
Estes erros foram reconhecidos pelas autoridades dos EUA e de muitos outros
países que aplicam hoje medidas duras para acabar com estes excessos ou mesmo
estes crimes. Na Europa e noutros sítios passaram-se factos bem conhecidos.
Porém, deve reconhecer-se a dureza da legislação atual na Europa Comunitária
para combater os desmandos.
A eficiência biológica da produção animal depende da importância relativa das
despesas de conservação do animal
Aqui pensamos, convictamente, que reside a essência do problema que temos vindo
a tratar: a chamada pecuária intensiva é mais poluente que a pecuária dos bons
velhos tempos? Correndo o risco de repetir o óbvio, queremos dizer que na
pecuária intensiva incluímos a moderna produção de leite. Os processos
biológicos subjacentes à melhoria da eficiência da produção de leite foram
elegantemente sumariados por Bauman et al. (1985) e designados como o efeito da
diluição das necessidades de conservação à medida que as produções sobem.
Tomemos como exemplo determinado efetivo de vacas leiteiras, procurando
demonstrar este verdadeiro Ovo de Colombo.
Perceber-se-á que este exemplo é válido para a maior capacidade de postura das
estirpes de galinhas atuais ou dos estirpes modernas de porcos e frangos que
exibem grande capacidade de crescimento muscular: para igual peso vivo as
necessidades de manutenção são constantes. Se a produção aumentar, aquelas
diluem-se nas necessidades totais, necessariamente. A Figura_1 ilustra o que
acabamos de dizer. Tomando como exemplo a vaca leiteira, parte-se do princípio
- geralmente aceite - que as necessidades energéticas de manutenção não variam
com o nível de produção da vaca. As necessidades energéticas (Mcal de energia
net) de manutenção de uma vaca com 650 kg de peso vivo são independentes do seu
nível produtivo, mantendo-se essencialmente constantes durante a produção de
leite. Neste caso iguais a 10,3 Mcal/dia.
Utilizando os valores da Figura_1, podemos calcular que para produzirmos 29 kg
de leite por dia precisaríamos de 4,14 vacas (29/7) se tivéssemos as vacas e
adoptássemos ou tivéssemos que adoptar as mesmas condições de produção do
passado, enquanto com as vacas e as condições de produção do presente
conseguimos os mesmos 29 kg de leite com apenasuma vaca!
Naturalmente parte-se do princípio ' também generalizadamente aceite - que
igual incremento na produção de leite exige as mesmas necessidades em energia
qualquer que seja o nível de produção. Se tomarmos em linha de conta, como
devemos, todos os alimentos que as vacas atuais consomem concluímos facilmente
que, para produzir a mesma quantidade de leite, hoje, com uma estratégia assim,
gastamos menos superfície terra arável devotada à produção de alimentos para
vacas leiteiras.
Isto mesmo que a produção unitária das culturas agrícolas que alimentam esses
animais fosse a mesma o que está longe de acontecer ' felizmente que, graças às
tecnologias disponíveis, hoje é muito maior! Portanto, menos superfície será
necessária para a produção da mesma quantidade de leite. Numa só palavra:
economizamos! Certamente isto constitui surpresa para alguns avessos a novas
tecnologias, mas é a verdade cristalina!
Sendo menor a área de produção de alimentos dedicados a alimentar o efectivo
leiteiro, maior será a área disponível para a produção de outros alimentos para
o homem, para a floresta, para construções ou para recreio.
E um aspeto importante: a sequestração de carbono pela massa vegetal vai
aumentar porque passa a haver mais massa vegetal no planeta Terra.
O óbvio mas que é muitas vezes esquecido
Sendo bastante elevada a capacidade de produzir leite das vacas atuais '
designadamente as da raça Holstein-Frísia ' maior será a quantidade de
alimentos que terão de ingerir e maior terão de ser as excreções por vaca
(Figura_2). Tem, de dizer-se, no entanto, que a concentração das dietas em
nutrientes ' designadamente nutrientes energéticos ' tem de ser mais hoje
elevada.
A excreção fecal será sempre o maior problema, mas, naturalmente, a excreção
urinária também aumenta. Fezes, urina e CO2 resultante do metabolismo mais
elevado destas vacas, têm de ser excretados para o meio ambiente. Todos eles
levantam dificuldades ambientais. Obviamente todos podem ser poluentes.
Na Figura_2 está expressa a pegada de carbono em 1944 e em 2007 por vaca e por
kg de leite. Expressando a pegada de carbono por vaca, verificamos que a pegada
era maior em 2007 que em 1994. Nem podia ser de outra maneira: as vacas de 2007
ingerem mais alimentos embora as dietas sejam mais concentradas; portanto,
tinham que excretar mais.
Expressando ' como deve sempre ser feito para uma análise científica do
problema dos alimentos de origem animal e os impactos ambientais que a sua
produção provoca ' a pegada de carbono por litro de leite produzido, temos uma
situação completamente distinta: em 63 anos (1944 a 2007), o caminho seguido
pelos americanos resultou numa redução do impacto ambiental da produção
industrial de leite de 63%!
A primeira mensagem ' do aumento das excreções por animal - dita nesta
singeleza por muitos talvez a maioria ignorantes sem culpa e alguns ignorantes
mais ou menos encartados e, portanto, com alguma culpa -, tem intoxicado a
opinião pública. De facto a mensagem a passar tem de ser outra e bem diferente
que traduza a verdade científica. Trata-se em poucas palavras responder à
seguinte questão básica e prioritária: como alimentar a população da Terra se a
produtividade das vacas (e da pecuária em geral), se a eficiência da produção
animal não aumentar?
O Quadro_1 obtido a partir de Dias-da-Silva (2008) serve para ilustrar uma
questão apaixonante para muitos mas que julgo importante para todos ' devemos
ter vacas de alta ou de baixa produção?
Antes de dar uma resposta, queremos dizer que semelhantes relações da excreção
do azoto ou do fósforo se observam em função do nível de produção para a vaca
leiteira ou para qualquer outro animal sujeito a modo de produção não
convencional ou, por outras palavras, dito intensivo.
Os cálculos são claros: vacas com produções mais elevadas são mais amigas do
ambiente! Tanto quanto sei, julgo não ser esta a opinião corrente... Conclusão
a partir da relação (C) sobre (A) que para algumas almas pode parecer algo
estranha: as supervacassão amigas do ambiente!
Partimos de um princípio que tem de ficar bem claro: este aumento de
produtividade tem de garantir segurança dos produtos animais ' e,
simultaneamente, o bem-estar dos animais produtores - sem que para a sua
obtenção o ambiente seja degradado. É em torno destas duas questões ' ambiente
e segurança alimentar - que tem de centrar-se a discussão e o estudo das
necessidades em produtos animais de uma população que não para de crescer.
As explorações leiteiras têm no leite a fonte de receita, a sua principal
atividade económica. Os produtores não fixam diretamente o preço a que vendem o
leite. Quase todas trabalham para o grande mercado em grupo (cooperativas, mais
frequentemente). Alguns, poucos grandes produtores, têm contratos individuais
com a indústria.
A distribuição faz-se hoje sobretudo nas grandes superfícies comerciais. Aí
ocorre a grande massa de consumidores. A informação sóbria e correta dos
consumidores tem que ser uma realidade.
Uma pequena referência à agricultura dita orgânica ou biológica
Os argumentos contra a pecuária chamada simplesmente intensiva - e, muitas
vezes, depreciativamente intensiva- deve levar-nos a ver o que se passa com os
modos ditos orgânicos ou biológicos de proceder para produzir alimentos para o
homem em moldes muito semelhantes à da produção nos bons velhos tempos. Para
esclarecimento dos termos usados quando se fala na agricultura dita
sustentável, aconselho a leitura da aturada revisão de Gold (2007).
Os modernos sistemas orgânicos ou biológicos de produção animal, têm algumas
características comuns às dos bons velhos tempos: baixa produtividade dos
animais, ausência de pesticidas, sistemas baseados no pastoreio, ausência de
antibióticos, ausência de fertilizantes inorgânicos e mais algumas restrições '
bastantes.
Todavia De Boer (2003) e Williams et al. (2006), entre outros, mediram maior
quantidade utilizada de recursos e maior impacto ambiental nos sistemas de
produção que obedecem às regras dos sistemas orgânicos, do que naqueles que
seguiram sistemas convencionais de produção. Muitos outros trabalhos
científicos credíveis, amplamente comprovam os resultados destes autores. No
entanto o discurso contra e pecuária industrial - pecuária eficiente - tem
continuado.
A integridade da ambiente é compatível com a utilização eficiente de todos os
recursos na produção pecuária?
Quando vemos uma discussão nesta matéria acesa, por vezes até com demasiado
calor ' o que se compreende - parece-nos fazer sentido a pergunta atrás
formulada. Nós desde já respondemos que sim com os conhecimentos científicos
existentes hoje. De facto parece bem que se pode!
Spiertz (2010) num excelente artigo recentemente publicado na revistaCurrent
Opinion in Environmental sustainability,em apoio desta tese, documentava os
grandes avanços conseguidos pela genética nos últimos anos. Também ele pensa
ser desejável e necessário que os conhecimentos básicos da genética animal,
continuem a ser objeto de investigação e, portanto, de investimento. Acrescenta
Spiertz (2010):precisamos restaurar a confiança na ciência e na tecnologia.
Hume et al. (2011), por sua vez afirmaram: A transgénese e/ou a mutagénese
será empregue para introduzir nova variação genética ou os fenótipos desejados.
Os sistemas de produção animal tradicionais vão continuar a evoluir para
sistemas intensivos integrados que controlem inputs e outputs para minimizar os
impactos e melhorar a eficiência... Estes autores concluem: Aos desafios dos
próximos 50 anos poderemos certamente responder com êxito, mas tais objectivos
só poderão ser atingidos se os governos (da Europa) deixarem de desinvestir na
investigação agrária como fizeram desde há muito.