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EuPTCVAg0871-018X2014000200003

EuPTCVAg0871-018X2014000200003

variedadeEu
ano2014
fonteScielo

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Pastagens permanentes em zonas de montanha: caracterização, gestão e conservação

Introdução As pastagens mediterrânicas naturais e seminaturais constituem um recurso muito importante nos sistemas tradicionais de uso do solo integrando o conjunto de ecossistemas mais protegidos na Europa (EC, 2007). São reconhecidas como habitats chave para manter a biodiversidade nas paisagens agrícolas (Pykälä, 2000) e como sendo dependentes dos sistemas tradicionais de uso do solo (Gustavsson et al., 2007) bem como a sua multifuncionalidade ecológica e socioeconómica (Zimkova et al., 2007).

Na Beira Alta, de relevo acidentado e com importantes zonas montanhosas, como a serra da Estrela, estas pastagens são de enorme valor ambiental, ecológico e paisagístico. Nestas zonas montanhosas, desenvolvem-se muitas formações herbáceas, associadas ou submetidas em maior ou menor grau ao pastoreio. Estas constituem muitas vezes lameiros de regadio, lameiros de secadal, cervunais, arrelvados vivazes e prados-juncais (neste caso, em zonas de vale ou de menor altitude). No caso dos lameiros é notável a sua função reguladora no ciclo da água e de nutrientes, na formação e retenção do solo, entre outras funções no ecossistema, sendo-lhes reconhecido o seu interesse ecológico e conservacionista.

Os lameiros, os cervunais, bem como outras formações herbáceas, no contexto europeu, têm enquadramento em habitats da Diretiva 92/43/CEE (Diretiva Habitats conforme Council Directive 92/43/EEC, EC 2007) transposta para a legislação interna pelo Decreto-Lei n.º 49/2005, tendo em consideração a interpretação proposta pela Comissão Europeia, EC (2007).

Assim, os lameiros estão contemplados no habitat 6510, designado Prados de feno de baixa altitude (Alopecurus pratensis L., Sanguisorba officinalisL.) e no habitat prioritário 6220 Subestepes anuais de Thero-Brachypodietea,subtipo 4 (arrelvados vivazes silicícolas de gramíneas altas), incluindo-se aqui os lameiros de secadal. Neste subtipo, para além dos lameiros de secadal, estão também incluídos arrelvados dominados por Arrhenatherum elatius(L.) P. Beauv.

ex J. et K. Presl subsp. baeticumRomero Zarco e/ou Celtica gigantea(Link) F. M.

Vázquez & Barkworth (=Stipa gigantea Link) sendo estes últimos também uma fonte importante de alimento dos efetivos pecuários nas zonas montanhosas da Beira Alta.

Por sua vez, os cervunais têm também enquadramento na referida Diretiva, estando contemplados no habitat prioritário 6230, designado por Formações herbáceas de Nardus, ricas em espécies, em substratos siliciosos das zonas montanas (e das zonas submontanas da Europa continental) .

Os prados de montanha, conjuntamente com matos (giestais, codeçais, etc.) e baldios, são um importante recurso forrageiro na actividade pecuária, ao mesmo tempo que desempenham funções específicas no ecossistema, desde a manutenção da biodiversidade, valor paisagístico, proteção do solo e dos recursos hídricos e minimização do risco de incêndios.

No caso concreto dos lameiros está-lhes associado um sistema de rega centenário que permite a escorrência de um fino lençol de água que estará na origem da designação prados de lima, largamente utilizada. Este sistema de rega minimiza o risco de geada no inverno, através da regulação térmica que proporciona, permitindo o desenvolvimento da vegetação numa altura em que este estaria muito limitado pela temperatura. Este facto é referido por diversos autores (Gonçalves, 1985; Pôças et al., 2007).

Os lameiros constituem prados seminaturais permanentes, centenários, muito característicos dos agro-sistemas da paisagem da Beira Alta, geralmente sobre solos profundos, férteis e bem drenados. Contudo têm vindo a estar sujeitos gradualmente ao abandono por parte das populações rurais das regiões montanhosas, devido ao êxodo rural e ao envelhecimento populacional.

A Alta Idade Média é conhecida como o período em que os lameiros terão surgido nas zonas montanhosas (Moreira et al., 2001) os quais constituíam pastagens comunitárias em conformidade com a organização comunitária da época. Apesar da sua origem centenária, em Portugal, o seu melhoramento através de sementeiras terá sido desenvolvido consistentemente apenas a partir de 1965 (Salgueiro, 2008).

Dado o interesse económico, ecológico e conservacionista das formações herbáceas e pastagens permanentes, foi efetuada uma revisão bibliográfica em resposta aos seguintes objetivos: 1) identificação dos vários tipos de formações herbáceas que se desenvolvem em pastagens permanentes de montanha e que ocorrem na Beira Alta, concretamente, no distrito da Guarda;2) caracterização das principais associações vegetais e habitats da Diretiva Habitats que lhes estão associadas; 3) identificação dos diferentes tipos de gestão a que estão sujeitas e 4) avaliação da sua importância na conservação da biodiversidade.

Área de estudo A área de estudo (Figura_1) abrange todo o Distrito da Guarda (concelhos de Aguiar da Beira, Almeida, Celorico da Beira, Figueira de Castelo Rodrigo, Fornos de Algodres, Gouveia, Guarda, Manteigas, Meda; Pinhel, Sabugal, Seia e Vila Nova de Foz Côa). Faz fronteira com Espanha na parte este do seu limite.

Os concelhos abrangidos estão incluídos na zona Centro-Ibérica, predominando os substratos de granito e os metassedimentos do complexo Xisto-Grauváquico do Paleozóico (Ribeiro et al., 1979). É de referir que o Maciço Ibérico ou Hespérico foi pela primeira vez caracterizado por Lotze (1945), com posteriores acréscimos de Julivert et al. (1972) e Ribeiro et al. (1979).

A base cartográfica disponível em Corine Land Cover(2006) (Caetano et al., 2009) foi adaptada de forma a obter uma caracterização dos principais usos do solo na área de estudo, sintetizada na Figura_2. Constatamos, assim, que predominam as designadas áreas de sequeiro com vegetação herbácea em mosaico com os sistemas agro-florestais, matos ou vegetação esclerófila, florestas de resinosas (nomeadamente de pinheiro-bravo, Pinus pinasterAiton) e, pontualmente, com florestas de folhosas (geralmente de Quercus roburL. ou Quercus pyrenaicaWilld.). Destacam-se também as áreas de pomares, vinhas ou outras culturas agrícolas que predominam principalmente nos concelhos do norte do distrito da Guarda.

Grande parte de Portugal faz parte da Região Mediterrânica, de clima mediterrânico, em que as precipitações estão concentradas no inverno e são insuficientes para compensar a evapotranspiração que ocorre no verão, levando ao esgotamento das reservas hídricas do solo (González e Prieto, 1994). Em resposta a estas condições climáticas, desenvolve-se vegetação predominantemente perenifólia e esclerófila, muito característica da Região Mediterrânica.

Segundo a única cartografia biogeográfica de Portugal continental existente, de Costa et al. (1998) e à mais recente atualização à escala Ibérica efetuada por Rivas-Martínez (2007) e Rivas-Martínez et al. (2011), definiu-se o enquadramento biogeográfico da área de estudo, estando esta incluída na Região Mediterrânica, sub-região Mediterrânica Ocidental, província Mediterrânica Ibérica Ocidental e subprovíncias Carpetano-Leonesa e Luso-Estremadurense. Na primeira subprovíncia, a área de estudo é abrangida pelo sector Lusitano Duriense (Lusitano-Duriense) e subsector Ribaduriense (Ribaduriense), no qual se inclui o distrito Terraquentino (da Terra Quente) e o distrito Baixoduriense (Baixo Douro). É abrangida ainda pelo sector Salmantino e pelo sector Estrelense. No primeiro inclui-se o subsector Sursalmantino onde se insere o distrito Batueco-Malcatenho. No segundo inclui-se o distrito Guardense (Guarda) e o distrito Altoestrellense. Na subprovíncia Luso-Estremadurense, a área de estudo abrange parcialmente o sector Beirense, o subsector Norbeirense e, dentro destes, abrange os distritos Altibeirense e Beirense Litoral.

A área de estudo encontra-se num bioclima mediterrânico pluviestacional- oceânico com um período de seca bem marcado. A subprovíncia Carpetano-Leonesa abrange maioritariamente território mesomediterrânico superior (o somatório da temperatura das máximas do mês mais frio e das mínimas do mês mais frio e a média das temperaturas médias mensais varia entre 22ºC e 28,5ºC) até orotemperado superior com ombrotipos sub-húmido superior ao ultra-hiperhúmido superior, segundo os mapas bioclimáticos de Monteiro-Henriques (2010; 2012).

Estas áreas caracterizam-se por um relevo muito acidentado em que, além do complexo xisto-grauváquico, predominam substratos siliciosos derivados de granitos, por vezes em extensas áreas de afloramentos rochosos.

Por sua vez, os termotipos e ombrotipos da parte incluída na subprovíncia Luso- Estremadurense definem-se como mesomediterrânico inferior e sub-húmido inferior, respetivamente, segundo os mapas acima referidos. A subprovíncia Luso-Estremadurense é uma das mais extensas da Península Ibérica ocupando grande parte do centro e sul de Portugal continental, no entanto a área de estudo apenas abrange o distrito Altibeirense, o qual constitui um dos limites norte desta subprovíncia.

A subprovíncia Carpetano-Leonesa abrange a maior parte do distrito da Guarda, distinguindo-se ainda os distritos Terraquentino (apenas residualmente) e Baixoduriense do sector Ribaduriense, o distrito Batueco-Malcatenho do subsector Sursalmantino e ainda os distritos Guardense e Altoestrelense do sector Estrelense. Da subprovíncia Luso-Estremadurense correspondência territorial com os distritos Altibeirensee Beirense Litoral.

Destas unidades biogeográficas, as que incluem maior extensão da área de estudo são o distrito Baixoduriense, que inclui grande parte da bacia do rio Douro, o distrito Guardense e o distrito Altibeirense. Contudo, pequenas áreas do território estão ainda incluídas no distrito Batueco-Malcatenho (neste caso, o concelho do Sabugal), no distrito Altoestrelense (concelhos de Seia e Manteigas) e residualmente no distrito Terraquentino.

A pesquisa bibliográfica sobre as pastagens permanentes de altitude que ocorrem na área de estudo foi efetuada principalmente com base nas publicações de Costa et al. (1998; 2012), Meireles (2010), Pereira e Sousa (2005), Pôças et al.

(2006), Ribeiro (2013) e Teles (1970). Foi adoptada a nomenclatura sintaxonómica de Costa et al. (2012).

Tipos de pastagens permanentes de zonas montanhosas Os principais tipos de formações herbáceas que ocorrem em zonas de pastagens permanentes de zonas montanhosas incluem os lameiros, os cervunais, prados- juncais e arrelvados vivazes constituindo um importante recurso nos sistemas tradicionais de uso do solo, nomeadamente no pastoreio. Os lameiros, também designados de prados de lima são pastagens permanentes semi-naturais comuns nas regiões montanhosas do norte e centro do país. Os cervunais, por sua vez, ocorrem em zonas de maior altitude e de grande oligotrofia e são geralmente pastoreados mas não submetidos a corte.

No que diz respeito aos lameiros, Pôças et al. (2006) caracterizam vários tipos, por um lado, em função das disponibilidades hídricas, por outro lado, em função do regime de aproveitamento. Assim, de acordo com o primeiro critério, distingue os lameiros de regadio(ao longo de cursos de água permanentes), os lameiros de regadio imperfeito (junto de cursos de água não permanentes ou de reduzido caudal) e os lameiros de sequeiro ou secadal (adjacentes a cursos de água temporários). Estes últimos nunca dispõem de água de rega e localizam-se em geral nas zonas aplanadas com maior altitude.

Considerando o segundo critério, aqueles autores referem: os lameiros de pasto (destinados a pastoreio do gado); os lameiros de erva (lameiros de regadio) e os lameiros de feno (submetidos a corte e pastoreio). Quanto à forma como é utilizada a forragem (Pires et al., 1994; Moreira et al., 2001), os lameiros são designados lameiros de pasto, quando a sua produção é utilizada exclusivamente por pastoreio, lameiros de erva, se são aproveitados exclusivamente por corte sendo a erva consumida de imediato pelos animais e lameiros de feno se são utilizados por pastoreio até determinada data e depois reservados para que a erva cresça e possa ser cortada para feno no início do verão, feno que será reservado para consumo durante o inverno seguinte.

Pereira e Sousa (2005) referem que os lameiros de pasto ocupam zonas planálticas, que não são regados, são menos produtivos mas sustentam o efetivo pecuário durante a primavera e o início do verão enquanto os lameiros de feno estão protegidos para a produção de feno. Refere ainda que os lameiros de feno, geralmente são regados pelo menos durante alguma parte do ano, são mais produtivos, constituídos por espécies mais nutritivas, e aproveitados num regime misto, em que são pastados, com exclusão de pastoreio na primavera para produção de feno e respetivo corte no início do verão. Por sua vez, distingue ainda os lameiros de corte, como sendo os mais produtivos, regados durante todo o ano, mais fertilizados e submetidos apenas a corte, durante o verão.

Caracterização fitossociológica e habitats de pastagens permanentes de altitude Considerando as unidades biogeográficas anteriormente referidas e a informação constante em Costa et al. (1998; 2012), Meireles (2010), Ribeiro (2013), as zonas de pastagens permanentes de altitude da área de estudo desenvolvem-se nos territórios climatófilos dos carvalhais-negrais de Holco mollis-Quercetum pyrenaicae, de Genisto falcatae-Quercetum pyrenaicae, de Querco pyrenaicae- Fraxinetum angustifoliae,dos sobreirais de Sanguisorbo hybridae-Quercetum suberis (no Distrito Altibeirense) e de Physospermo cornubiensis-Quercetum suberis (no Distrito Baixoduriense), e ainda de azinhais de Genisto hystricis- Quercetum rotundifoliae quercetosum rotundifoliae.No estrato serial arbustivo médio-baixo abundam principalmente os giestais de Lavandulo sampaioanae- Cytisetum multiflorae (subserial dos carvalhais-negrais e sobreirais) e Cytiso multiflori-Retametum sphaerocarpae (subserial do azinhal).

Nas clareiras destes mosaicos de bosques, giestais e outros matos do estrato médio-baixo ocorrem as clareiras herbáceas que são aproveitadas como zonas de pastagens naturais ou semi-naturais permanentes. Apresenta-se uma síntese do enquadramento fitossociológico dos prados, juncais e arrelvados dominantes na área de estudo, e respetiva integração em habitats da Diretiva 92/43/CE no Quadro_1.

Foi estabelecida a correspondência das formações herbáceas da área de estudo com quatro habitats da Diretiva 92/43/CEE: 6510 - Prados de feno de baixa altitude (Alopecurus pratensis, Sanguisorba officinalis); 6410 - Pradarias com Molinia em solos calcários, turfosos e argilo-limosos (Molinion caeruleae), subtipo 2 - Juncais de Juncus acutiflorus Ehrh. Ex Hoffm, Juncus conglomeratusL. e/ou Juncus effususL.; 6220 (prioritário) - Subestepes de gramíneas e anuais da Thero-Brachypodietea, subtipo 4 (arrelvados vivazes silicícolas de gramíneas altas); 6230* Formações herbáceas de Nardus, ricas em espécies, em substratos siliciosos das zonas montanas (e das zonas submontanas da Europa continental). Indicam-se ainda os táxones bioindicadores de cada habitat, segundo ICNF (2006a, b, c, d, e), bem como a sua designação, no Quadro 2. De seguida apresenta-se uma síntese das características de cada habitat considerado.

Habitat 6510 - Prados de feno de baixa altitude (Alopecurus pratensis, Sanguisorba officinalis) Estes prados de feno, constituídos por ervas altas, estão associados a solos profundos e bem drenados. A sua manutenção promove a infiltração de água no solo, a regulação dos níveis de nutrientes, a descontinuidade do mosaico florestal e, consequentemente, a prevenção de fogos florestais, entre outros.

Incluem-se neste habitat, os prados da aliança Arrhenatherion, geralmente dominados por Arrhenatherum elatiussubsp. bulbosum, Agrostis castellanaBoiss.

& Reuter ou Festuca rothmaleri(Ltard.) Markgr.-Dannenb. (ICNF, 2006a).

Ocorrem no domínio climácico de carvalhais e sobreirais (neste caso com com compensação edáfica). Contactam com outros prados da aliança Cynosurion ou juncais da Juncion acutiflori e em situações mais xéricas com arrelvados da aliança Agrostion castellanae. Em situações de maior altitude contactam com os cervunais de Nardus strictaL. (habitat 6230).

Habitat 6410 - Pradarias com Molinia em solos calcários, turfosos e argilo- limosos (Molinion caeruleae), subtipo 2 - Juncais de Juncus acutiflorus, Juncus conglomeratus e/ou Juncus effusus Este habitat inclui os prados-juncais e juncais, geralmente cespitosos, dominados por Juncus effusus e/ou Juncus acutiflorus que se desenvolvem em solos profundos e ácidos que conservam a humidade durante todo o ano ou quase.

Encontram-se geralmente adjacentes a linhas de água, ocupando o território de bosques ripícolas, como amiais e salgueirais e ainda de bosques edáfo- higrófilos como os freixiais.

Estes prados-juncais e juncais desenvolvem-se amplamente nos andares mesotemperado, supratemperado e supramediterrânico, tornando-se mais escassos no andar mesomediterrânico, geralmente não são fertilizados e têm reduzido valor alimentar para o gado (ICNF, 2006b).

Habitat 6220 (prioritário) - Subestepes de gramíneas e anuais da Thero- Brachypodietea, subtipo 4 (arrelvados vivazes silicícolas de gramíneas altas) Este habitat ocupa solos profundos, oligotróficos, geralmente bem drenados e inclui comunidades dominadas por Agrostis castellana frequentes nos designados lameiros de secadal (ICNB, 2006). Neste habitat incluem-se os arrelvados vivazes, geralmente dominados por gramíneas heliófilas (ICNF, 2006c) como os táxones Arrhenatherum elatiussubsp. baeticum, Agrostis castellanae Celtica gigantea. Inclui, ainda, arrelvados dominados por Festuca elegansBoiss..

Este habitat ocupa solos profundos, oligotróficos, frequentemente bem drenados.

A amplitude bioclimática em que ocorrem é grande: desde o termo- ao supramediterrânico, com ombroclima seco a hiper-húmido. Constituem um refúgio de biodiversidade, incluindo na sua composição florística algumas espécies de elevado interesse conservacionista, como Armeria pinifolia(Brot.) Hoffmans.

& Link e Phalacrocarpon oppositifolium(Brot.) Willk.

6230* Formações herbáceas de Nardus, ricas em espécies, em substratos siliciosos das zonas montanas (e das zonas submontanas da Europa continental) Este habitat é constituído por comunidades herbáceas perenes muito densas e cespitosas onde existe uma clara dominância do cervum (Nardus stricta), acompanhado de espécies, com as mesmas características, associadas à classe Nardetea.

Os cervunais são muito importantes para a conservação dos valores florísticos e faunísticos de uma área, servindo de refúgio para inúmeras espécies. Intervêm de forma determinante na regulação do ciclo da água, promovendo os processos de infiltração de água no solo e seu fornecimento. São uma inestimável fonte alimentar para o gado quer bovino, quer ovino e a sua manutenção está claramente dependente da manutenção da pastorícia.

Em solos permanentemente inundados, encharcados ou muito húmidos durante todo o ano desenvolvem-se os prados-juncais de Hypericum undulati-Juncetum acutiflori ou de Peucedano-Juncetum acutiflori. Em solos encharcados mas que secam no verão, estes prados-juncais dão lugar a outros da associação Descampsio hispanicae-Juncetum effusi. Em solos siliciosos secos mas com alguma compensação edáfica na primavera, desenvolvem-se os arrelvados de Gaudinio fragilis-Agrostietum castellanae. Em situação de maior secura e com afloramentos rochosos, desenvolvem-se os arrelvados de Arrhenatherum baetici- Stipetum giganteae, geralmente dominados pela Celtica gigantea e com grande valor alimentar para o gado, na Beira Alta, em solos menos férteis.

Gestão das zonas pastagens de montanha e conservação da diversidade florística O tipo de gestão a que as formações herbáceas de zonas de montanha estão sujeitas (Quadro_3) geralmente corte e/ou pastoreio, influencia a sua composição e diversidade florística. Os impactos positivos do pastoreio na diversidade florística são reconhecidos por diversos autores (Kumm, 2003; Pikälä, 2000; White et al., 2000). Alguns autores estabelecem mesmo uma ligação específica entre o pastoreio e as percentagens de gramíneas e leguminosas, por exemplo, Pires et al.(1990) relacionam a diminuição de leguminosas face às gramíneas em função da diminuição da intensidade do pastoreio. Ribeiro (2013), num estudo desenvolvido no interior do país, identifica uma redução significativa de leguminosas em parcelas abandonadas. Por sua vez, a data do corte influencia a qualidade nutricional do feno que é maior quando o corte é efetuado na fase do espigamento das gramíneas (Moreira et al.,2001). Conclusões semelhantes tinham sido efetuadas por Klapp (1971) quando constatou que o pastoreio por ovinos até Março leva a um atraso de uma semana no corte do prado, levando também posteriormente a um enriquecimento em proteínas.

Moreira et al.(2001) observaram uma diminuição da fertilidade do solo com o aumento da altitude, explicada pela menor mineralização da matéria orgânica, facto este que parece interferir com a redução de espécies leguminosas, uma vez que, estas necessitam de solos férteis e temperaturas mais elevadas do que as gramíneas.

Porque continuam atuais, transcrevemos seguidamente as palavras de Espírito Santo D. e Aguiar C. (2008) proferidas na XXIX Reunião de Primavera da S.P.P.F O abandono agrícola e pastoril é, no presente, a maior ameaça à conservação da flora pratense endémica ou finícola porque estas plantas são facilmente excluídas pelos arbustos e árvores das etapas sucessionais estruturalmente mais complexas.

Conclusões A biodiversidade das zonas de pastagens permanentes de altitude constitui um recurso muito importante nos sistemas tradicionais de uso do solo revelando-se como um dos ecossistemas mais protegidos na Europa. Muitos destes ecossistemas estão dependentes de sistemas agrícolas tradicionais de uso do solo. A composição, a funcionalidade e os serviços prestados pelas pastagens podem ser fortemente afetados quando estas estão sujeitas a elevadas pressões antrópicas e também quando são abandonadas.

Dado o seu valor ecológico e económico é importante garantir a gestão, manutenção e melhoramento destes ecossistemas de forma a promover o incremento da sua biodiversidade. A cooperação interdisciplinar torna-se um processo chave na preservação sustentada dos recursos atualmente disponíveis.

As pastagens de montanha têm, na Beira Alta, uma vasta tradição de uso, constituindo um dos recursos mais importantes na região. Reconheceram-se quatro habitats associados aos ecossistemas de pastagens permanentes de montanha, dois dos quais têm interesse prioritário para conservação no contexto Europeu.


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