Avaliação cardíaca para desporto
EDITORIAL
Avaliação cardíaca para desporto
Sílvia ÁlvaresI
IServiço de Cardiologia Pediátrica, CHPorto. E-mail: silvia.c.alvares@gmail.com
Os benefícios da actividade física no estado de saúde e na qualidade de vida
das populações são amplamente reconhecidos. Também é consensual que a prática
de exercício físico na vida adulta é condicionada por hábitos adquiridos
durante a infância, o que tem conduzido ao desenvolvimento de programas de
promoção de atividade física de lazer e de competição em idade pediátrica.
Contudo e apesar de rara, a maior incidência de morte súbita (MS) no atleta
levanta questões relativas ao tipo de rastreio cardiovascular pré competição e
à segurança do exercício físico. A avaliação cardíaca tem como objetivos
identificar a população em risco de morte súbita (figura_1), e estabelecer
estratégias de prevenção nomeadamente através da proibição temporária ou defi
de competição ou do tratamento de condições que possam ser potencialmente
fatais, de que é exemplo a colocação de cardiodesfibrilhadores em determinadas
patologias genéticas. A controvérsia surge relativamente ao melhor método de
rastreio que possa individualizar os indivíduos com doença. Indiscutivelmente,
a história clínica e exame físico completos e pormenorizados são importantes na
deteção de doença cardíaca, mas há situações clínicas como o Sindrome de Wolf
Parkinson White ou as canalopatias, em que se revela fundamental para o
diagnóstico a realização do electrocardiograma de 12 derivações (ECG), já que
nestes casos a história clínica e exame físico podem ser normais. Por outro
lado a presença de sopro cardíaco na criança sem outros sintomas corresponde
frequentemente a sopro inocente e queixas como palpitações e dor precordial são
frequentes entre os adolescentes, o que dificulta a valorização destes achados
clínicos.
Com o objetivo de melhorar a qualidade da história clinica e do exame físico, e
aumentar a capacidade de deteção de doença cardiovascular, a American Heart
Association (AHA) a utilização de um protocolo de avaliação pré-competição que
inclui 12 itens (quadro_I), sendo que a positividade de qualquer um dos
parâmetros implica uma investigação adequada. A presença de sintomas com o
esforço, uma história familiar de doença cardíaca severa ou de morte precoce é
relevante. Uma das dificuldades na criança é a distinção entre um sopro
cardíaco inocente ou funcional do sopro patológico. Os sopros inocentes
caracterizam-se por serem mais facilmente audíveis nos estados circulatórios
hipercinéticos, serem vibratórios, de curta duração (protomesossistólicos) e de
baixa intensidade (<3/6), e de intensidade variável com a mudança de posição da
criança, nunca ocorrerem isoladamente na diástole (são sistólicos ou contínuos,
no caso do zumbido venoso). Não se associam a frémito ou a ruídos acessórios
(estalidos, cliques) e localizam-se numa área pequena e bem definida.
A Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), para além da anamnese cuidadosa
preconiza também a realização do ECG. Esta abordagem baseia-se nos resultados
obtidos por Corrado na região de Veneto, na avaliação pré-participação
desportiva, o que se traduziu na redução significativa de mortalidade (cerca de
90%) nos atletas jovens. A AHA, embora reconheça o interesse do ECG em
determinadas situações, entende que como método de rastreio tem pouca
sensibilidade e especificidade (cerca de 80% dos atletas apresentam alterações
no ECG relacionadas com adaptações cardíacas induzidas pelo exercício) e
elevado custo, para além de considerar raras as patologias de risco e a morte
súbita.
A ESC defende que a realização de ECG pode identificar patologias como a
cardiomiopatia hipertrófica e dilatada, o síndrome de WPW, o síndrome de QT
longo, o síndrome de Brugada, doenças que representam cerca de 2/3 das causas
de morte subita no jovem atleta. A adopção de critérios rigorosos e
estandartizados na avaliação do ECG, adaptados a esta população é fundamental
para melhorar a acuidade deste exame. Os critérios de Seatle recentemente
propostos pretendem uniformizar a interpretação do ECG no atleta, distinguindo
as alterações funcionais das alterações patológicas.
Em Portugal o rastreio pré-competição inclui a história clínica e exame físico
e a realização de ECG. A avaliação cardíaca é repetida anualmente.
Esta abordagem está de acordo com as recomendações europeias que se fundamentam
no seguinte:
1. O risco de MS no desporto é um problema de saúde importante
2. O rastreio com ECG permite identificar atletas não sintomáticos e com
doença cardiovascular com risco de MS
3. Existem estratégias de abordagem que podem incluir tratamento ou restrição
de competição
4. A deteção precoce e a orientação destes atletas permite a redução de MS.