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EuPTCVHe0872-07542014000700004

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variedadeEu
ano2014
fonteScielo

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Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção: casuística de um Centro Secundário

INTRODUÇÃO A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é o distúrbio neuro comportamental mais frequente em crianças em idade escolar e caracteriza-se por dificuldade em controlar a atividade motora, a impulsividade e a atenção, com repercussões negativas na vida da criança(¹,²). A sua etiologia exata é desconhecida, complexa e multifatorial(³). Alguns estudos reconhecem a associação com a disfunção de algumas zonas cerebrais que controlam a atenção e regulam a inibição de impulsos neuronais. Múltiplos genes contribuem para as manifestações de PHDA e relacionam-se com as vias noradrenérgicas e dopaminérgicas, existindo evidência que estas vias modulam a atenção e a regulação do comportamento no córtex frontal(4,5). Estudos de neuroimagem mostraram diferenças estruturais e funcionais em áreas cerebrais ricas em vias noradrenérgicas e dopaminérgicas associadas às funções executivas como o córtex pré-frontal, corpo estriado e cerebelo(2,6,7). Estudos genéticos sugerem uma componente hereditária de cerca de 60-75%(8), sendo o risco em irmãos de crianças com PHDA três a cinco vezes superior ao da população em geral e nos progenitores, probabilidade de duas a oito vezes, de preencherem os critérios de diagnóstico. Estas conclusões são reforçadas pela elevada concordância de PHDA entre gémeos idênticos(9).

A interação gene-ambiente é provável e fatores não genéticos são determinantes para o fenótipo. Alguns fatores biológicos e ambientais aumentam o risco de PHDA. Estudos sugerem associação com exposição a níveis tóxicos de chumbo, exposição pré-natal a álcool e fumo de tabaco, baixo peso ao nascimento, prematuridade, restrição de crescimento intrauterino, lesão cerebral (lobo frontal), institucionalização e privação afetiva precoce e grave(2,9,10).

Estudos epidemiológicos indicam uma prevalência variável entre 2 a 18%, dependendo da população estudada e dos critérios de diagnósticos utilizados. Na idade escolar a prevalência varia entre 8 a 10 % (3,11).É mais frequentemente diagnosticada no sexo masculino (cerca de 2,5 vezes). No sexo feminino o diagnóstico geralmente é mais tardio, com maior probabilidade de estarem presentes critérios de PHDA subtipo inatento, e os sintomas de hiperatividade e impulsividade são geralmente de menor intensidade(12-14). Cerca de 60-80% dos indivíduos com o diagnóstico de PHDA na infância mantêm a sintomatologia na adolescência e vida adulta(2).

Desde Maio de 2013 o diagnóstico baseia-se em critérios clínicos de Défice de Atenção e Hiperatividade reconhecidos na edição do Manual Diagnóstico e Estatístico das Perturbações Mentais da Academia Americana de Psiquiatria (DSM- 5), que diferencia três formas clínicas de acordo com os sintomas predominantes. Esta edição veio substituir a anterior (DSM-IV TR) que foi a utilizada neste trabalho (Quadro_1)(15).No subtipo predominantemente desatento tem de apresentar seis dos nove sintomas de AI, no subtipo hiperativo/ impulsivo, seis dos nove sintomas de AII, e no subtipo misto seis dos nove sintomas de ambas as categorias. Para o diagnóstico deverá também cumprir os restantes critérios adicionais (B,C,D,E).

A PHDA é uma doença comportamental, cujo diagnóstico requer uma avaliação clínica cuidadosa multidisciplinar, identificando crianças que apresentam sintomas de inatenção, hiperatividade ou impulsividade e cujo comportamento origina alteração significativa do desempenho funcional da criança. A criança com suspeita de PHDA pode apresentar vários motivos de consulta como comportamento hiperativo, desatenção, dificuldades de aprendizagem ou problemas de relacionamento interpessoal.

A avaliação requer uma história clínica, exame objetivo completo com exame neurológico e avaliação comportamental (Quadro_2).

Para o diagnóstico não está indicado nenhum exame complementar de diagnóstico laboratorial ou imagiológico por rotina, podendo-se considerar uma avaliação cognitiva e académica, na suspeita de défice cognitivo ou dificuldades específicas da aprendizagem(16). A avaliação de uma criança com suspeita de PHDA inclui a pesquisa de outras explicações possíveis para os sintomas assim como a presença de condições coexistentes ou associadas que se podem apresentar como PHDA (situações familiares conflituosas, privação do sono, inadaptação ao ambiente escolar, epilepsia, autismo, ansiedade, alterações humor, alterações especificas da aprendizagem, atraso mental) (2). Estudos mostram que em cerca de 67% das crianças com PHDA pode coexistir uma patologia psiquiátrica ou alterações da aprendizagem. As co morbilidades mais frequentemente encontradas são os distúrbios de oposição/desafio (35%), alterações do comportamento (30%), depressão (30%), ansiedade (20-30%) ou alterações da aprendizagem (20-60%) que devem beneficiar de uma intervenção específica(2,3).

Os distúrbios de oposição/desafio são caracterizadas por um padrão habitual de comportamento negativista, desobediente e desafiante em relação às figuras de autoridade, e as alterações do comportamento caracterizam-se pela presença de padrões recorrentes e persistentes de dificuldade na aceitação de regras, atos agressivos e comportamentos anti-sociais. O diagnóstico diferencial de PHDA inclui patologias médicas, genéticas, neurológicas e psiquiátricas que podem contribuir para os sintomas de inatenção, hiperatividade ou impulsividade.

Apesar dos critérios de diagnóstico do DSM-IV excluírem especificamente as crianças com atraso do desenvolvimento (como o atraso mental ou o autismo), estes podem apresentar sintomas consistentes com PHDA e serem tratados de acordo com o tratamento da PHDA(2).

O tratamento deve ser multidisciplinar e inclui na maioria dos casos o tratamento farmacológico associado ou não a terapia comportamental. Deverá ter em conta a necessidade de reconhecer a PHDA como uma patologia crónica que poderá persistir na vida adulta. O tratamento farmacológico com metilfenidato demonstrou elevada eficácia no controle dos sintomas de PHDA, sendo considerado o fármaco de eleição(17). Mais de 80% das crianças responde favoravelmente ao tratamento com metilfenidato, que deverá ser individualizado, titulando a dose mínima eficaz e bem tolerada(2). Estão disponíveis diferentes formulações de acordo com o tempo de ação: imediata, intermédia e prolongada. Vários estudos demonstraram que o tratamento com metilfenidato não origina dependência, não existindo consequências quando o tratamento é suspenso. Deverá ser realizada uma avaliação cardiovascular cuidadosa se houver antecedentes pessoais ou familiares de doença cardíaca ou alterações ao exame cardiovascular. A realização por rotina de eletrocardiograma não é necessária se não existir suspeita de doença cardíaca pessoal ou familiar(18). Este fármaco geralmente é bem tolerado, no entanto podem surgir alguns efeitos adversos como diminuição do apetite, dor abdominal, cefaleias, irritabilidade ou insónia(2). O objetivo do tratamento é o controlo dos sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade, melhorando o desempenho académico e as competências sociais.

Devem sempre ser consideradas estratégias terapêuticas comportamentais que englobem modificações em casa, na escola e nos locais onde a criança fique durante o dia, estratégias educacionais como apoio educativo individualizado ou, eventualmente, apoio de ensino especial, atividades extra curriculares ou terapia familiar. O tratamento precoce ajuda a controlar os sintomas facilitando a aprendizagem e comportamento, melhora a interação social e diminui o risco de outras perturbações associadas.

MATERIAL E MÉTODOS Estudo retrospetivo de crianças com o diagnóstico de PHDA, seguidas na consulta de Pediatria ' Desenvolvimento num Centro Hospitalar de segunda linha, no período de Janeiro de 2009 a Dezembro de 2010. Através dos processos clínicos foram analisadas as seguintes variáveis independentes: idade na altura do diagnóstico; sexo; antecedentes pessoais: prematuridade, restrição crescimento intrauterino, epilepsia; antecedentes familiares: PHDA, epilepsia, patologia psiquiátrica; sintomatologia; proveniência e motivo da consulta; co morbilidades e distúrbios associados, exames auxiliares de diagnóstico, tratamento e resposta à terapêutica.

A avaliação da resposta ao tratamento foi efetuada por perguntas diretas aos pais, informações de professores, resultados académicos e em alguns casos, por novo preenchimento do questionário de Conners.

Os dados foram processados estatisticamente no programa Microsoft Excel 2007.

RESULTADOS Foram analisados 45 processos clínicos. A distribuição por sexos mostrou que 75,5 % das crianças eram do sexo masculino. No momento do diagnóstico 62,2 % das crianças apresentavam idades compreendidas entre os cinco e oito anos (Figura_1).

A referenciação à consulta de Pediatria de Desenvolvimento, em 44,5% das crianças foi realizada através da consulta de Pediatria Geral, em 24,4% pela consulta de Medicina Geral e Familiar, em 20 % dos doentes a via de referenciação foi variada, desde o serviço de urgência a outras consultas de especialidade, em 8,9% através de suspeita diagnóstica por psicólogos e em 2,2% através de educadores de infância. O motivo da consulta em 37,8% dos casos foi por dificuldades de aprendizagem, 35,5% por alterações do comportamento, 17,8% por défice de atenção, e em 8,9% das crianças pela associação de alterações do comportamento a dificuldades de aprendizagem. As Tabelas 1 e 2 revelam os antecedentes pessoais e familiares de interesse, relacionados com PHDA. Os sintomas predominantes referidos pelos pais/educadores e posteriormente avaliados através do preenchimento do questionário de Conners para pais e professores, permitiram diferenciar os subtipos clínicos (Figura_2). As co morbilidades identificadas estão apresentadas na Tabela_3.

A avaliação cognitiva foi realizada em 90% dos casos e a escala usada foi a Escala de Inteligência de Wechsler para Crianças edição (WISC/III). O cociente intelectual foi inferior a 90 (valores inferiores à média) em 39% (15). Outros diagnósticos encontrados foram a enurese em dez crianças (22,2%), epilepsia em duas crianças (4,4%), uma criança com DAMP (Deficits in attention, motor control and perception), uma criança na qual foi identificado défice auditivo ligeiro, uma com Síndrome de Asperger, e uma adolescente com a Doença de Charcot Mary Tooth. Foram solicitados exames complementares de diagnóstico dos quais se destacam: cariótipo em 31% (14), ressonância magnética cerebral em 17,8% (8), eletroencefalograma em 15,5% (7) e estudo metabólico em 11% (5) das crianças.

A terapêutica farmacológica foi iniciada em 95% dos casos, tendo sido o metilfenidato o fármaco de eleição. Em três crianças (7%) houve a necessidade de associar a risperidona ao tratamento com metilfenidato. Todas as crianças frequentaram a consulta de psicologia não para avaliação cognitiva mas em alguns casos também para intervenção comportamental e pedagógica, 20% eram seguidas em consulta de pedopsiquiatria (metade mantinham seguimento e metade foram referenciados para esta especialidade), 16% na terapia da fala, 13% na fisioterapia, e 7% na terapia ocupacional. Cerca de 42% dos doentes eram seguidos noutras consultas hospitalares, desde pediatria geral, otorrinolaringologia e oftalmologia, por outros diagnósticos não relacionados com PHDA.

Das crianças que receberam o tratamento com metilfenidato, 16,3% apresentaram efeitos laterais, destacando-se: anorexia (4), alterações do sono (4) e cefaleias (1).

Em 80% das crianças a resposta ao tratamento foi favorável, havendo melhoria do comportamento e rendimento escolar, em 11% não houve resposta terapêutica e em 9% das crianças a resposta foi desconhecida.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES A PHDA afeta crianças e adolescentes, interferindo com o seu desenvolvimento social, familiar e escolar.

O número de crianças com este diagnóstico tem aumentado nos últimos anos. Nas idades mais jovens a incidência é maior no sexo masculino, sobretudo nas formas clinicas com predomínio de hiperatividade. A PHDA é mais frequentemente diagnosticada em idade escolar, em função das maiores exigências sociais e académicas, podendo no entanto manifestar-se na idade pré-escolar(2). A falta de atenção e incapacidade para controlar a atividade motora, provocam uma diminuição no rendimento escolar que na maioria dos casos conduz a um mau aproveitamento.

Neste estudo verificou-se um predomínio do sexo masculino, cerca de três vezes superior ao sexo feminino, e na maioria das crianças o diagnóstico foi efetuado em idades compreendidas entre os cinco e os oito anos, o que também se verifica noutros estudos realizados(2,3).

A maioria das crianças deste estudo foi referenciada através da consulta de pediatria geral do mesmo hospital onde eram seguidas por outros motivos. Os principais motivos de consulta foram as dificuldades de aprendizagem e as alterações do comportamento. Dos antecedentes patológicos destacaram-se a prematuridade (6) e a epilepsia (3). A patologia psiquiátrica nos pais de crianças com PHDA também se mostrou relevante em quase metade da amostra, sendo a PHDA e a depressão as condições que se salientaram.

O diagnóstico é clínico, não existindo nenhum exame diagnóstico laboratorial ou de imagem que o confirme. A história clinica, o exame físico geral e neurológico, assim como as observações dos pais e dos professores são a base do diagnóstico. Perante uma suspeita clínica de PHDA pode considerar-se a solicitação de uma avaliação psicológica com determinação do nível intelectual.

Neste estudo 39% das crianças apresentaram um QI inferior a 90, o que poderá nalguns casos ser influenciado pelo défice de atenção ainda não controlado pelo tratamento farmacológico, podendo não representar o verdadeiro nível intelectual da criança. Realça-se a importância na análise cuidada dos resultados do QI nesta população.

Mais de metade das crianças com PHDA apresenta uma ou mais co morbilidades associadas(19,20). As co morbilidades mais frequentemente encontradas neste estudo foram as dificuldades de aprendizagem, as alterações do comportamento, distúrbios de oposição/desafio e ansiedade, o que também se verificou noutros estudos realizados(21-23). Neste estudo foi identificada uma criança com DAMP que se associa frequentemente com PHDA, e uma criança com défice auditivo ligeiro. Os exames auxiliares de diagnóstico de neuroimagem, EEG, estudo metabólico e cariótipo foram realizados naquelas crianças em que a história clínica ou o exame objetivo sugeriam outra patologia associada.

O plano terapêutico da PHDA inclui intervenções psicológicas e farmacológicas com o objetivo de controlar os sintomas. O estudo MTA realizado pelo National Institute of Mental Healthmostrou que o tratamento farmacológico na PHDA é mais eficaz do que medidas comportamentais isoladas. O tratamento combinado não se revelou mais eficaz do que o tratamento farmacológico isolado, exceto em crianças que também apresentam outras co morbilidades como comportamentos de oposição ou ansiedade(2,24).

No nosso estudo verificou-se uma elevada percentagem de melhoria clínica com o tratamento farmacológico. Os médicos e os profissionais de saúde que mais estreitamente seguem crianças deverão fazer uma avaliação psicossocial integrada e ter presente esta entidade porque um diagnóstico e tratamento precoces ajudam a controlar os sintomas, favorecendo o percurso académico e psicossocial destas crianças.


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