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EuPTCVHe0872-81782012000400004

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variedadeEu
ano2012
fonteScielo

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Ensaio clínico randomizado para avaliar o impacto do ensino personalizado na preparação intestinal para colonoscopia: resultados preliminares

Introdução A colonoscopia é um exame fundamental no estudo do cólon sendo, na maioria dos casos, segura e bem tolerada. A sua eficácia depende de uma visualização adequada e cuidadosade toda a mucosa.

A preparação intestinal é um indicador de qualidade da colonoscopia, interferindo com a capacidade de realização de exame completo, com a duração do procedimento e com os intervalos de vigilância1. A qualidade da preparação continua a ser um problema na prática clínica, estimando-se que ocorra em 10 a 25% dos exames1-4. Uma preparação inadequada prolonga o tempo de intubação e de retirada e aumenta o desconforto do doente devido à necessidade de maior insuflação de ar. Verifica-se ainda um aumento do risco do procedimento, uma diminuição da deteção de lesões, uma necessidade de realização de controlos mais frequentes e consequentemente um aumento dos custos em cuidados de saúde1,3-6.

O método ideal de preparação deveria teoricamente eliminar todo o conteúdo fecal do cólon, permitindo uma ótima visualização da mucosa sem causar riscos nem desconforto para o doente.

A escolha do produto de limpeza depende da eficácia, da facilidade de administração, dos efeitos adversos, da tolerância e do preço2,7,8. As soluções mais frequentemente utilizadas são o polietilenoglicol (solução isosmótica) e os compostos de fosfato de sódio, picossulfato de sódio ou citrato de magnésio (soluções hiperosmóticas)2. As soluções isosmóticas exigem a ingestão de maiores quantidades de fluidos sendo, na maioria dos casos, pior toleradas. No entanto, apresentam uma taxa mais baixa de complicações, tornando-se mais seguras em doentes de risco como os idosos ou insuficientes renais2,7.

Para além da solução de preparação intestinal, a maioria das sociedades nacionais e internacionais recomenda uma dieta pobre em resíduos nos dias que precedem o exame e uma dieta líquida no dia anterior7,9.

A intervenção do profissional de saúde consiste na escolha da solução de limpeza mais adequada ao doente e na transmissão de informação suficiente e clara que permita aumentar a colaboração e motivação do mesmo neste processo.

O melhor método de fornecimento de informação para a realização de colonoscopia não é claro. Tradicionalmente, esta é dada através de folhetos explicativos. No entanto, muitos doentes não leem os folhetos e grande parte dos que o fazem não entendem corretamente os dados neles contidos.

Admitimos que é possível a otimização da limpeza intestinal através de um ensino personalizado ao doente, melhorando a qualidade da informação fornecida e a sua colaboração no cumprimento das medidas propostas.

Material e métodos Desenho do estudo Estudo randomizado, prospetivo, cego para os investigadores mas não para os doentes, com recurso a tabela de randomização gerada por computador. Foram criados 2 grupos de doentes: os doentes do grupo «controlo» recebiam do gastrenterologista assistente um folheto informativo acerca do procedimento e a explicação verbal acerca da solução de limpeza intestinal; os doentes do grupo «intervenção» recebiam adicionalmente informação verbal e escrita pelas enfermeiras do serviço sobre o exame, a preparação e a dieta a efetuar, adaptada aos seus hábitos intestinais, antecedentes de cirurgia abdominal e preferências alimentares.

A alocação aos grupos do estudo foi efetuada pelo secretariado do serviço de gastrenterologia, sendo os doentes do grupo «intervenção» orientados para o gabinete de enfermagem do serviço.

O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética da Instituição e todos os doentes assinaram o Consentimento Informado.

Participantes e métodos De março de 2008 a março de 2010, foram selecionados 153 doentes. Os critérios de inclusão eram doentes referenciados para efetuar colonoscopia total provenientes da consulta de 2 médicos gastrenterologistas. Os critérios de exclusão foram: história prévia de cirurgia intestinal, diagnóstico confirmado de neoplasia colorretal, doentes internados e exames efetuados sob sedação anestésica.

Todos os exames foram realizados no período da manhã utilizando como preparação intestinal uma solução de 4 litros de polietilenoglicol administrada na véspera à tarde.

A todos os doentes foi fornecido um folheto sobre o procedimento e indicado pelos médicos assistentes que fizessem uma dieta sem fibras ou sementes, 3 dias antes, e uma dieta líquida clara na véspera, a partir do final da preparação.

O grupo «intervenção», para além da informação descrita anteriormente, foi submetido a ensino personalizado. Neste grupo, um membro da equipa de enfermagem explicou detalhadamente o procedimento, a solução de preparação intestinal e a importância da colaboração do doente para aumentar a eficácia e segurança da colonoscopia. A dieta foi adaptada aos antecedentes pessoais de obstipação e de cirurgia abdominal em relação ao número de dias, sendo mais prolongada nestas situações. Foi fornecido um folheto sobre os alimentos que deviam ou não ingerir, de modo a cumprir uma dieta pobre em fibras e, de acordo com as preferências pessoais de cada doente, foi adaptada em relação ao tipo de alimentos. Nos doentes diabéticos foram dadas indicações sobre a toma de insulina ou antidiabéticos orais. Colocou-se à disposição um contacto telefónico para esclarecimentos adicionais. A entrevista durou cerca de 20 minutos.

Os médicos desconheciam a alocação efetuada pelo secretariado e as entrevistas com a equipa de enfermagem eram realizadas em gabinete não acessível aos mesmos. Os doentes eram instruídos para não darem ao médico durante a realização da colonoscopia qualquer indicação quanto ao seu grupo de estudo.

No final do exame era aplicado um questionário para obtenção dos seguintes dados: idade, sexo, habilitações literárias, tipo de residência, realização de colonoscopia prévia e antecedentes pessoais de obstipação crónica, cirurgia abdominal ou diabetes mellitus.Era ainda inquirida a tolerância ao produto de limpeza, qualidade da informação fornecida e opinião acerca da repetição da colonoscopia.

A qualidade da preparação intestinal foi classificada pelos 2 gastrenterologistas usando a Escala de Preparação Intestinal de Aronchick10,11 (tabela_1). Utilizámos esta escala de preparação intestinal relativamente a outra também validada, a Escala de Ottawa, por ser de mais simples e rápida utilização, para além do facto de as suas categorias poderem ser facilmente convertidas na necessidade de repetir o exame efetuado (em caso de preparações classificadas como razoável, inadequada ou ).

Determinação do tamanho da amostra e análise estatística Baseado na literatura existente, foi assumido que cerca de 20% das colonoscopias ambulatórias efetuadas em ambiente hospitalar apresentam uma preparação intestinal ou inadequada. Admitindo que o ensino personalizado poderia melhorar este valor em 50% dos casos, diminuindo as preparações inadequadas para apenas 10%, seria necessário incluir 199 doentes em cada grupo de estudo para um poder de 80% e uma significância de 0,05.

A análise estatística foi efetuada com o programa SPSS versão 16.0 utilizando para comparação entre os grupos o teste t de Studentpara variáveis quantitativas e o teste do Qui-quadradopara variáveis qualitativas, após verificação da normalidade das distribuições.

Os resultados são apresentados numa perspetiva de intenção de tratar, tendo em consideração os casos excluídos após a randomização (intention-to-treat analysis).

Para este estudo, a variável da qualidade da preparação intestinal foi dicotomizada em excelente ou boa vs. razoável, ou inadequada, dado que as 2 primeiras categorias serão aquelas em que todas as lesões devem ser visíveis e em que os prazos para realizar os controlos não terão de ser antecipados pela deficiente preparação intestinal. A concordância entre os observadores foi avaliada pelo teste Kappa de Cohen.

Resultados Dos 153 doentes iniciais foram excluídos 28 pelas seguintes razões: 15 pretendiam efetuar outras soluções de preparação intestinal, 7 tinham antecedentes de cirurgia ntestinal, 3 efetuaram exames sob anestesia e 3 tinham diagnóstico conhecido de cancro colorretal.

Os 125 doentes restantes foram randomizados para um de 2 grupos, 67 (53,6%) para o grupo «controlo» e 58 (46,4%) para o grupo «intervenção».

Após a randomização foram excluídos 4 doentes do grupo «controlo» (3 por colonoscopia incompleta e um por neoplasia) e 2 doentes no grupo «intervenção» (um por colonoscopia incompleta e um por neoplasia). Assim, para o cálculo final, 63 doentes constituíram o grupo «controlo» e 56 doentes o grupo «intervenção».

As características dos doentes são apresentadas na tabela_2. Os grupos eram homogéneos no que diz respeito à idade, sexo, habilitações literárias, tipo de residência e antecedentes pessoais de diabetes mellituse obstipação crónica.

Verificaram-se diferenças ligeiras entre os grupos nos antecedentes de colonoscopia prévia e de cirurgia abdominal.

No final do exame todos os doentes de ambos os grupos consideraram que a informação que lhes foi transmitida para a preparação intestinal foi suficiente e todos os doentes do grupo «intervenção» classificaram o ensino como uma ajuda importante na preparação.

A tolerância ao produto de limpeza foi boa, numa grande percentagem dos casos (58,2% no grupo «controlo» e 56,9% no grupo «intervenção», p = 0,94). A maioria considerou que a dificuldade do exame foi inferior ao que esperava (82,1% no grupo «controlo» e 77,6% no grupo «intervenção», p = 0,53) e admitiu que repetia a colonoscopia em condições semelhantes (92,5% no grupo «controlo» e 96,6% no grupo «intervenção», p = 0,33).

Previamente ao início da inclusão de doentes, os 2 gastrenterologistas efetuaram uma avaliação da correlação interobservadores em 16 exames, tendo obtido um coeficiente Kappa de Cohen de 1.0.

Foi conseguida uma limpeza intestinal excelente ou boa em 26 exames (38,8%) do grupo «controlo» e em 34 exames (58,6%) do grupo «intervenção», sendo esta diferença estatisticamente significativa (p = 0,03) (tabela_3.1). Não se verificou nenhum caso de preparação intestinal inadequada, e esta foi em 11 (16,4%) casos do grupo «controlo» e em apenas um (1,7%) caso do grupo «intervenção» (p = 0,005) (tabela_3.2).

Em análise de subgrupos constatou-se que os doentes com uma escolaridade superior ao ensino básico beneficiaram mais da intervenção (preparação intestinal excelente ou boa: 69,2% no grupo «intervenção» vs. 37,5% no grupo «controlo», p = 0,02), em relação àqueles com escolaridade inferior (tabela_4).

Concluímos ainda haver vantagem no ensino de doentes sem antecedentes de cirurgia abdominal (preparação intestinal excelente ou boa: 62,5% no grupo «intervenção» vs. 30,0% no grupo «controlo», p = 0,01), ao contrário daqueles com antecedentes de cirurgia abdominal, nos quais não se verificou diferença na qualidade da preparação (excelente ou boa: 58,8% no grupo «intervenção» vs.

59,3% no grupo «controlo», p = 0,97) (tabela_5).

Nos doentes com obstipação crónica, a estratégia intervenção foi benéfica com diferença estatisticamente significativa entre os grupos relativa à preparação (excelente ou boa: 57,1% vs. 21,4%, p = 0,04) (tabela_6).

Quanto aos antecedentes pessoais de diabetes mellitus, os resultados globais, em termos de qualidade de preparação intestinal, são piores do que nos doentes não diabéticos e, apesar de haver uma melhoria no grupo «intervenção», esta diferença não foi significativa (qualidade de limpeza intestinal boa ou excelente: 25% vs. 16,7%, p = 0,71).

As variáveis idade, sexo, tipo de residência ou realização de colonoscopia prévia não se mostraram como fatores com influência na qualidade da preparação intestinal.

Discussão Existem poucos estudos acerca do impacto que um ensino personalizado ao doente poderá ter na melhoria da preparação para colonoscopia. Um estudo americano de 20095 concluiu que a estratégia interventiva educacional ao doente não provocou melhoria global na qualidade da preparação intestinal, mas o tipo de alimentação ingerida nas 24 horas prévias ao exame (sólido vs.líquido) e o tempo desde a última refeição sólida (> 24 horas vs.< 24 horas) tiveram impacto positivo (p = 0,04 e p = 0,03, respetivamente).

No nosso estudo verificámos uma melhoria global da qualidade da preparação nos doentes submetidos a ensino (limpeza intestinal boa ou excelente: 58,6% vs.

38,8%, p = 0,03), e uma menor percentagem de qualidade ou inadequada (16,4% no grupo «controlo» e 1,7% no grupo «intervenção», p = 0,005). A percentagem global de preparação foi de 9,6%, valor inferior ao que geralmente é descrito na literatura2-4, mas os critérios para definir a qualidade da preparação não são iguais entre os estudos.

A melhoria na qualidade da limpeza intestinal verificada com o ensino é obtida através de uma intervenção direta no doente aumentando a sua colaboração, adaptada às suas capacidades intelectuais e antecedentes pessoais, e que atua sobre as várias vertentes do exame: o procedimento, a preparação e a dieta.

Está definido que deve ser efetuada uma dieta pobre em fibras nos dias que precedem a colonoscopia e uma dieta líquida na véspera7,9,12,13, sendo um conteúdo alto de resíduos na dieta um fator preditivo independente de preparação intestinal8. No entanto, não normas definidas quanto à duração e ao tipo de alimentos, e a adesão do doente a este tipo de dieta pode ser baixa9.

No nosso estudo, os doentes efetuaram uma dieta pobre em resíduos previamente à colonoscopia, com duração variável consoante os antecedentes de cirurgia abdominal e obstipação, e personalizada ao gosto do doente com seleção do tipo de alimentos. Podemos admitir que não o baixo conteúdo em fibras como também a duração e o tipo de alimentos contribuíram para a melhoria da qualidade da preparação intestinal, que estas medidas constituem as principais diferenças na intervenção entre os 2 grupos.

alguns subgrupos de doentes que poderão beneficiar mais com esta estratégia.

A obstipação crónica é um fator preditivo de preparação intestinal inadequada14,15, e uma intervenção personalizada, ao nível da duração da dieta antes da colonoscopia, parece levar a uma melhoria da qualidade da preparação (p = 0,04).

Nos doentes com antecedentes pessoais de cirurgia abdominal não se verificou uma melhoria estatisticamente significativa na qualidade da limpeza intestinal.

No entanto, os grupos não eram homogéneos para esta variável o que pode ser um viésde interpretação destes resultados. Admitimos portanto que o ensino personalizado poderá melhorar a preparação intestinal também nestas situações.

Nos doentes diabéticos também não se verificaram diferenças significativas entre os grupos em relação à qualidade da preparação intestinal. Aqui, a intervenção personalizada ocorreu no tipo de alimentos adaptados ao gosto do doente, mas não num aumento da duração da dieta. Poderá ser tentada uma estratégia deste tipo, uma vez que muitas vezes esta patologia cursa com aumento do tempo de trânsito intestinal e obstipação.

Alcançou-se melhoria dos resultados nos doentes com escolaridade superior ao Ensino básico. Este facto poderá estar relacionado com uma maior capacidade intelectual do doente, permitindo uma melhor compreensão e adesão às medidas propostas sendo, no entanto, discutível esta interpretação, dado que doentes com escolaridade inferior podem ter compreensão e adesão igualmente semelhantes ou o apoio de outros familiares no cumprimento das orientações dadas.

O nosso estudo apresenta limitações que devem ser referidas. Uma é o tamanho da amostra, dado termos concluído serem necessários pelo menos 199 doentes em cada grupo de estudo para a intervenção ter o efeito pretendido e estarem incluídos apenas 67 doentes no grupo «controlo» e 58 no grupo «intervenção». De facto, estes resultados são ainda preliminares e o ensaio prossegue no nosso Serviço, tendo-se decidido fazer uma avaliação a esta altura por se ter incluído cerca de um terço dos doentes.

Por outro lado, seria importante valorizar o impacto que a melhoria da qualidade da preparação intestinal tem na eficácia da colonoscopia, em função do tempo de cada exame, da percentagem de deteção de lesões e do custo, e essa análise não foi efetuada.

De facto, apesar de o ensino personalizado poder melhorar a qualidade da preparação intestinal, esta estratégia obriga a encargos acrescidos, uma vez que exige a intervenção de um profissional de saúde por um tempo prolongado, e esse preço real não foi determinado. Para se tirarem conclusões fidedignas teria de ser confrontado com a eventual diminuição de custos, originada pela melhoria da preparação, ao aumentar a deteção de lesões permitindo um aumento dos intervalos de vigilância, uma diminuição do número de exames de controlo e um alívio na sobrecarga das listas de espera dos serviços.

Em conclusão, estes resultados sugerem que o ensino personalizado poderá ter importância na melhoria da qualidade da preparação intestinal na colonoscopia.

Por ser um resultado preliminar, a generalização dos resultados ainda é incerta, pelo que, de momento, não podemos recomendar esta estratégia em todos os doentes. No entanto, em grupos selecionados, esta medida poderá ter um impacto positivo, justificando-se assim a sua utilização na prática clínica.


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