Sépsis e disfunção múltipla de órgãos na cirrose hepática
Introdução
As infeções são complicações frequentes no doente cirrótico devido à resposta
deficitária do seu sistema imunitário e ao aumento quer do crescimento
bacteriano intraintestinal quer da translocação bacteriana1.
Uma vez estabelecida, a infeção agrava o prognóstico do doente cirrótico,
podendo desencadear um quadro de sépsis, falência múltipla de órgãos e morte.
Os doentes cirróticos têm um maior risco relativo de morte por sépsis do que os
doentes não cirróticos, sendo por isso importante o rápido reconhecimento e
tratamento da infeção2,3.
Existem poucos dados publicados relativos à abordagem do doente cirrótico com
sépsis, à exceção daqueles relacionados com peritonite bacteriana espontânea,
para a qual estão definidas linhas orientadoras de diagnóstico, tratamento e
profilaxia.
Definições
A sépsis, que consiste na resposta do hospedeiro à infeção, é um estado
fisiopatológico complexo caracterizado pela libertação de múltiplas substâncias
pró e anti-inflamatórias e pró e anticoagulantes em resposta aos
microrganismos4.
Uma resposta clínica similar pode ocorrer na ausência de infeção e esta é
designada por síndrome da resposta inflamatória sistémica (SIRS, na sigla em
inglês), independentemente da causa. A SIRS é definida por 2 ou mais dos
seguintes critérios: (1) temperatura corporal superior a 38 ◦C ou inferior a 36
◦C; (2) frequência cardíaca superior a 90 batimentos/min; (3) frequência
respiratória superior a 20 ciclos/min ou PaCO2 inferior a 32 mmHg; (4) contagem
de leucócitos superior a 12 x 109/L ou inferior a 4 x 109/L ou presença de mais
de 10% de neutrófilos imaturos. A sépsis corresponde à SIRS em resposta a uma
infeção. A sépsis grave define-se por sépsis com evidência de disfunção
orgânica ou hipoperfusão tecidual. Por último, o choque sético é a sépsis com
hipotensão refratária à administração de fluidos intravasculares, com
necessidade de utilização de fármacos vasopressores5,6.
O diagnóstico de SIRS, sépsis e sépsis grave está dificultado num doente com
cirrose avançada devido ao facto de estes doentes apresentarem de base
hipotensão e frequência cardíaca aumentada secundárias ao estado de circulação
hiperdinâmica, redução da contagem de neutrófilos secundária ao
hiperesplenismo, frequência respiratória elevada devida à encefalopatia
hepática e menor capacidade de elevação da temperatura corporal7. Tais factos
podem levar a uma sobrestimativa de SIRS/sépsis nesta população de indivíduos,
diminuindo o seu valor no diagnóstico destas entidades.
Epidemiologia
Os doentes com cirrose têm maior suscetibilidade às infeções bacterianas e ao
desenvolvimento de sépsis, falência múltipla de órgãos e morte associadas à
infeção do que a população geral e essa suscetibilidade aumenta com a gravidade
da doença hepática subjacente2,8,9.
Estima-se que a incidência de infeções bacterianas no doente cirrótico se situe
entre os 30-50% dos doentes internados por descompensação aguda10. Verifica-se
uma maior incidência de infeções nos cirróticos com hemorragia
gastrointestinal9.
A mortalidade intra-hospitalar de doentes cirróticos com sépsis é muito elevada
e naqueles com choque sético excede os 70%11.
Patogénese
A infeção ativa vários mecanismos que causam lesão tecidual e falência de
órgãos, incluindo a produção de citocinas inflamatórias como o fator de necrose
tecidual alfa (TNF-_), interleucina-1 e interleucina-6 (IL-6)7.
Certas características do doente com cirrose exacerbam a gravidade da SIRS e,
consequentemente, o seu prognóstico.
Os doentes com cirrose têm níveis de endotoxinas mais elevados do que a
população em geral, os quais se correlacionam diretamente com o grau de
deterioração da função hepática12.
Na cirrose, a resposta pró-inflamatória na infeção é anormalmente intensa,
verificando-se uma produção desregulada de citocinas inflamatórias (tempestade
de citocinas) que transforma respostas habitualmente benéficas para combater as
infeções em respostas inflamatórias excessivas, prejudiciais13,14. Nesse
contexto, verifica-se que os indivíduos cirróticos apresentam níveis mais
elevados de TNF-_ e IL-6 nas fases mais precoces de infeção do que os
indivíduos não cirróticos13. A produção monocitária de TNF-_ induzido pelo
lipopolissacarídeo (LPS) bacteriano é maior nos doentes com cirrose do que nos
indivíduos sem cirrose15, sendo esta mais acentuada naqueles com cirrose
hepática estádio C da classificação de Child-Turcotte- Pugh (CTP) do que nos
doentes estádio B, sugerindo uma influência da gravidade da doença hepática na
resposta imune inata excessiva16. O óxido nítrico (NO) também se apresenta
aumentado na cirrose, sendo os valores mais elevados encontrados nos doentes
com função hepática mais deteriorada7. A síntese de NO é induzida na sépsis e
este contribui para a formação de espécies reativas de oxigénio, interferência
com a agregação plaquetária e acentuação da vasodilatação17,18. A produção da
interleucina-10 antiinflamatória induzida pelo LPS encontra-se diminuída nos
indivíduos com cirrose19. Os fatores anti-inflamatórios proteína C ativada e
lipoproteína de alta densidade (HDL, na sigla em inglês) parecem estar
diminuídas na cirrose, contribuindo assim para a resposta inflamatória
exagerada nestes doentes11.
A hipocolesterolémia é um fenómeno bem reconhecido nos doentes cirróticos20.
Entre as alterações metabólicas induzidas pela sépsis, encontra-se a diminuição
da síntese do colesterol total e lipoproteínas, principalmente de HDL e do seu
componente apolipoproteína A121. Estas proteínas assumem um papel importante na
regulação da inflamação induzida pelo LPS. Desta forma, o estado hipolipidémico
dos doentes com cirrose predispõe estes doentes aos efeitos das endotoxinas,
com maior síntese de citocinas inflamatórias e pior prognóstico22.
As alterações hemodinâmicas habituais destes doentes, exacerbadas pelos efeitos
da inflamação excessiva em contexto sético conduzem os doentes cirróticos numa
escalada de morte celular que culmina em falência orgânica múltipla.
Disfunção multiorgânica
A disfunção múltipla de órgãos é comum no indivíduo cirrótico com infeção.
De todos os fatores precipitantes de falência múltipla de órgãos no doente
cirrótico, a infeção parece ser aquela que acarreta pior prognóstico23.
Disfunção hepática
Na sépsis, verifica-se um agravamento da função hepática dos doentes
cirróticos. A deterioração aguda da função hepática num doente cirrótico
previamente compensado é designada de acute-on-chronic liver failure, entidade
recentemente definida24-26e que, uma vez estabelecida, apresenta uma importante
taxa de mortalidade. Esta deterioração ocorre num período de semanas após um
evento precipitante, como uma infeção/sépsis ou um fármaco hepatotóxico25. A
falência hepática manifesta-se pela diminuição da sua função de síntese, com
consequente hipoalbuminémia e alterações da coagulação, pela diminuição da sua
função de desintoxicação, manifestada por hiperbilirrubinémia e por
encefalopatia, e pela interferência na regulação hemodinâmica do organismo25.
Na cirrose, além da clássica teoria da alteração da reserva hepática, existem
outras alterações que justificam a disfunção hepática em contexto de sépsis,
nomeadamente o aumento da produção de TNF-_, que codifica um sinal
próapoptótico para a célula hepática não antagonizado pelas vias
antiapoptóticas habituais nas células do fígado não cirrótico27, necrose
hepatocitária induzida pela endotelina- 128 e diminuição da síntese proteica
hepática29. A disfunção microcirculatória que se estabelece resulta num aumento
da pressão portal e diminuição do fluxo sanguíneo hepático que aumenta ainda
mais a disfunção dos hepatócitos23. Os achados de Cazzanigae da sua equipa
também associam a SIRS ao desenvolvimento de complicações relacionadas com a
hipertensão portal30.
Alterações circulatórias
Mesmo na ausência de infeção, os doentes cirróticos apresentam uma circulação
hiperdinâmica, caracterizada por um elevado débito cardíaco, pressão arterial
relativamente baixa e resistência vascular sistémica reduzida31.
Quando se desenvolve sépsis nestes doentes, o sistema circulatório torna-se
ainda mais hiperdinâmico e hiporreativo às doses farmacológicas dos agonistas
dos recetores _---adrenérgicos32. A incapacidade de obter pressões de perfusão
adequadas resulta em acidose láctica e contribui para a falência multiorgânica.
A disfunção cardíaca e a insuficiência da suprarrenal associadas à própria
sépsis também estão relacionadas com a instabilidade hemodinâmica nestes
doentes25.
Disfunção renal
A insuficiência renal é das disfunções de órgão mais comuns no doente
cirrótico. A infeção parece ser o fator mais comum de desenvolvimento de
insuficiência renal nestes doentes, não necessariamente relacionado com a
presença de choque sético33-37.
As alterações na microcirculação presentes na SIRS/sépsis parecem ser as
responsáveis pelo desenvolvimento de síndrome hepatorrenal (SHR) neste
contexto. A vasodilatação esplâncnica e sistémica que se verifica conduz a uma
redução do volume de sangue arterial efetivo, com a consequente ativação do
sistema neuro-humoral (sistema renina-angiotensina-aldosterona e sistema
simpático) que desencadeia vasoconstrição das artérias renais, o que precipita
disfunção renal1,37,38.
Os doentes com peritonite bacteriana espontânea (PBE) que desenvolvem disfunção
renal associada a uma ativação importante do sistema renina-angiotensina
apresentam níveis mais elevados de TNF-_, IL-6 e NO, sugerindo um papel ativo
da inflamação no desencadeamento da disfunção renal10,39. Também as infeções
não-PBE se associam a compromisso do volume sanguíneo circulante efetivo e
disfunção renal em cerca de um terço dos casos36.
Disfunção pulmonar
As complicações pulmonares são frequentes nos doentes com cirrose
descompensada. A presença de uma resposta inflamatória exagerada associada a um
estado de compromisso imune relativo predispõe ao desenvolvimento de lesão
pulmonar aguda23.
A diminuição da complacência torácica resultante da presença de ascite, edema
da parede torácica e derrame pleural, comuns entre os indivíduos com cirrose
descompensada, contribui para a alteração da dinâmica ventilatória. O risco de
pneumonite de aspiração está aumentado devido à encefalopatia e ao aumento da
pressão intra-abdominal4,23. A incidência da síndrome de dificuldade
respiratória do adulto (ARDS, na sigla em inglês) é também elevada neste grupo
de doentes, para a qual parecem contribuir a elevada quantidade de citocinas
pró-inflamatórias e NO, bem como o edema pulmonar induzido pelo LPS
bacteriano40.
Encefalopatia hepática
A infeção é um precipitante bem reconhecido de encefalopatia hepática. A
presença de sintomas neurológicos ocorre em 21-33% dos cirróticos com sépsis e
em 60-68% daqueles com choque séptico35.
Os mediadores da SIRS, como o NO e as citocinas pró-inflamatórias, são
importantes moduladores do efeito cerebral da amónia nos doentes com cirrose,
promovendo um efeito sinérgico entre a inflamação sistémica e os mecanismos que
induzem encefalopatia hepática41.
Vários estudos relacionam a encefalopatia associada a infeção nos doentes
cirróticos com a produção de espécies reativas de oxigénio, aumento da
inflamação a nível cerebral e diminuição da perfusão cerebral41-45.
Alteração da coagulação
As anomalias da coagulação na cirrose são devidas à redução da síntese hepática
dos fatores pró-coagulantes (v, vii, x e protrombina) e anticoagulantes
(proteína C, proteína S e antitrombina), deficiência de vitamina K e defeitos
qualitativos e quantitativos das plaquetas1,4.
Nos doentes cirróticos com sépsis, a disfunção hepática é mais acentuada e, por
isso, as alterações da coagulação são maiores. As citocinas inflamatórias
libertadas em contexto infeccioso alteram a função plaquetária, aumentam a
fibrinólise, aumentam o consumo de fatores de coagulação e levam à produção de
substâncias endógenas heparinoides11. O aumento da pressão portal verificado
durante a infeção também contribui para o risco de hemorragia por varizes
esofágicas nestes doentes, o que realça a influência do tratamento antibiótico
na prevenção de hemorragia digestiva nestes doentes46. Um estudo verificou uma
maior incidência de hemorragia relacionada com a hipertensão portal nos doentes
cirróticos com SIRS do que nos cirróticos sem SIRS30.
Insuficiência da suprarrenal
Mais de 50% dos indivíduos com cirrose hepática desenvolvem insuficiência da
suprarrenal em contexto de sépsis, principalmente aqueles com doença hepática
mais avançada. A insuficiência da suprarrenal tem elevada importância neste
contexto, uma vez que contribui para a instabilidade hemodinâmica do doente,
para a disfunção múltipla de órgãos e para o aumento da mortalidade47-49. Este
fenómeno tem elevada relevância clínica, uma vez que, sendo prontamente
identificado e corrigido, pode melhorar o prognóstico do doente. Num estudo com
doentes cirróticos com sépsis, a pressão arterial média, a bilirrubina sérica,
a dependência de vasopressores e a bacteriémia foram fatores independentes
preditores de insuficiência da suprarrenal nestes doentes48.
Vários mecanismos são apontados como responsáveis pela insuficiência da
suprarrenal: o nível elevado de citocinas inflamatórias parece influenciar a
produção de cortisol em resposta à corticotropina e a própria produção desta
última, a coagulopatia destes doentes pode levar a hemorragia das glândulas
suprarrenais, com consequente insuficiência das mesmas, e a deficiente síntese
de colesterol no fígado cirrótico diminui a produção de cortisol, na medida em
que este é um precursor das hormonas esteroides48,50.
Tratamento
Os doentes com sépsis grave e choque sético necessitam de cuidados emergentes
durante o estádio precoce da sépsis (primeiras 6 h), seguidos de cuidados
intensivos nos estádios seguintes. Estes doentes beneficiam de uma abordagem
conjunta de médicos hepatologistas e intensivistas. Os objetivos do tratamento
são a prevenção da deterioração da função hepática, o suporte dos órgãos em
falência e a resolução da infeção23. Na figura_1 apresenta-se um algoritmo de
abordagem do doente cirrótico com sépsis.
Antibióticos
Os antibióticos são o tratamento basilar da sépsis. A terapêutica deve ser
orientada para o local presumível da infeção e deve ser instituída por via
endovenosa o mais precocemente possível (idealmente, na primeira hora) de modo
a melhorar a sobrevivência, tal como acontece na população geral.
O diagnóstico precoce do local de infeção é crítico e deve ser realizado em
simultâneo com o processo de ressuscitação4 (fig._1). A terapêutica antibiótica
deve ser instituída de acordo com o local suspeito de infeção e com os
microrganismos mais frequentemente envolvidos. Assim que houver identificação
do agente responsável pela infeção, o espectro antibiótico deve ser diminuído
(descalação antibiótica) de forma a evitar o desenvolvimento de estirpes
resistentes.
Fluidoterapia, albumina e função renal
Devido às especificidades hemodinâmicas dos indivíduos com cirrose, os
objetivos específicos para a terapêutica hemodinâmica precoce nos casos de
sépsis grave e choque sético ainda não estão estabelecidos.
A ressuscitação inicial da população geral com sépsis deve ser feita com
cristaloides ou coloides6. Também nos doentes cirróticos a utilização de
fluidos neste contexto é de extrema importância. A reposição da volémia nestes
doentes deve ser balanceada de forma a evitar um aumento exagerado da pressão
portal e as complicações que daí advêm51. Um estudo mostrou que uma solução de
albumina humana a 20% melhora de forma mais significativa os parâmetros
hemodinâmicos nos doentes cirróticos com PBE do que um expansor de volume
derivado do amido52. A evidência existente recomenda a utilização da albumina
humana endovenosa nos doentes cirróticos com SIRS/sépsis, particularmente
naqueles com disfunção renal e icterícia, ou seja, naqueles com acute-on-
chronic liver failure1. No entanto, ainda não existem dados da utilização de
albumina humana em doente com cirrose e sépsis com ponto de partida diferente
da PBE, sendo por isso necessários mais estudos1,36.
Devem ser evitadas a utilização de fármacos nefrotóxicos, a depleção do volume
intravascular e a realização de paracenteses de grande volume sem reposição de
albumina, as quais podem agravar a função renal destes doentes. Estes doentes
devem ser monitorizados de forma intensiva.
A recomendação atual para o tratamento do SHR consiste na expansão plasmática
com albumina na dose de 1 g/kg no primeiro dia até um máximo de 100 g/d,
seguida de 40 g/d, associada a terlipressina na dose de 1-2 mg a cada 4-6 h38.
Vasoconstritores alternativos incluem a noradrenalina em perfusão a 0,5-3 mg/
h ou midodrina na dose de 2,5-12,5 mg por via oral associada a octreótido 100-
200_g por via subcutânea, 3 vezes por dia38,53. A maioria dos estudos clínicos
acerca do uso da terlipressina exclui os doentes com sépsis, pelo que o efeito
deste fármaco no tratamento do SHR destes doentes é desconhecido38.
Apesar da instituição destas medidas terapêuticas, a função renal piora em
cerca de metade dos doentes. Terapêuticas de substituição renal estão indicadas
para tratamento de alterações hidroeletrolíticas e do equilíbrio ácido base
refratárias, não estando associadas a melhoria do prognóstico no SHR23.
Vasopressores
Os doentes cirróticos têm uma resposta diminuída aos fármacos
vasopressores32,54.
Existem poucos dados relativos à utilização de fármacos vasopressores nesta
população de doentes.
A noradrenalina e a dopamina são fármacos de primeira linha para o tratamento
do choque sético na população geral6. Para o tratamento do choque nos doentes
cirróticos, a noradrenalina é titulada para pressões arteriais médias de 65-70
mmHg. A vasopressina ou a terlipressina são fármacos de segunda linha em
contexto de sépsis e no doente cirrótico são utilizados com os mesmos
objetivos23.
Corticosteroides
O uso de corticosteroides no choque sético é uma matéria sensível na medida em
que a recomendação do seu uso não é consensual.
Num pequeno estudo49, a administração de hidrocortisona por via endovenosa (50
mg a cada 6 h) a doentes com insuficiência relativa da suprarrenal resultou em
melhoria hemodinâmica (96 versus 58%, p = 0,001) e em melhoria da sobrevivência
em Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) (68 versus 38%, p = 0,03) e intra-
hospitalar (64 versus 32%, p = 0,003).
Um estudo recente55 verificou uma melhoria hemodinâmica (RR 1,5, p = 0,05) com
a instituição de corticoides; no entanto, não houve diminuição da taxa de
mortalidade aos 28 d. No mesmo estudo, verificou-se um aumento da recidiva do
choque após desmame da corticoterapia (RR 2,58, p = 0,03). Este facto levanta a
questão de a insuficiência da suprarrenal ser um fenómeno associado à própria
cirrose e não apenas ao quadro sético, o que justificaria um aumento do tempo
de tratamento com corticoides. Alternativamente, a administração de corticoides
pode suprimir o eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal e o desmame da
corticoterapia precipitar assim choque adrenérgico. O mesmo grupo de estudo
verificou um aumento na ocorrência de hemorragia gastrointestinal nestes
doentes (RR 3, p = 0,02), com mortalidade associada muito elevada. O uso de
corticosteroides levanta também questões como o desenvolvimento de infeções
secundárias, pelo seu papel imunomodulador.
Neste sentido, são necessários mais estudos que permitam concluir se a
terapêutica com corticoides (e em que dose e duração) deve ser recomendada.
Controlo da glicemia
A hiperglicemia e a resistência à insulina são comuns na sépsis. Foi
demonstrado que o controlo intensivo da glicemia está associado a um aumento da
mortalidade nos doentes críticos não cirróticos56. Olson JC e o seu grupo de
trabalho recomendam que os valores de glicemia dos doentes cirróticos críticos
se situem no intervalo de 140-180 mg/dL23.
Suporte ventilatório
A entubação endotraqueal (EET) é essencial para atingir a proteção da via aérea
nos doentes com pontuação baixa na Escala de Coma de Glasgow ou naqueles com
hemorragia digestiva alta. A utilização rotineira de sedativos para minimizar o
desconforto causado pela EET é raramente necessária nos doentes com
encefalopatia grave, podendo mesmo atrasar a extubação e prolongar a alteração
do estado de consciência23. O aumento da semivida dos fármacos nestes doentes e
a hipersensibilidade cerebral às benzodiazepinas contribuem para a
encefalopatia hepática e prolongam o tempo de ventilação mecânica57. Na maioria
destes doentes, é possível gerir a EET com recurso à administração intermitente
de narcóticos, procedendo-se à extubação assim que o doente for capaz de
proteger autonomamente a via aérea23.
Estratégias de proteção pulmonar como volumes correntes à volta dos 6 mL/kg de
peso, utilização de PEEP (sigla inglesa para positive end-expiratory pressure)
e pressão de planalto inferiores a 30 ccH2O, devem ser utilizadas58.
Sistemas de suporte hepático
A base racional para o desenvolvimento de técnicas extracorpóreas de suporte
hepático é a da remoção das substâncias vasoativas, neuro e hepatotóxicas que
se encontram acumuladas em circulação ao mesmo tempo que permite a recuperação
da função hepática ou a ponte para a transplantação hepática23,25. Os sistemas
atualmente em uso humano são o Molecular Adsorbents Recirculating System
(MARS®) e o Prometheus®, estando outros sistemas em investigação.
O MARS® consiste num sistema de diálise associada a uma membrana impregnada por
albumina, que permite a filtração de substâncias ligadas à albumina. O MARS®
mostrou uma melhoria significativa da sobrevivência dos doentes com cirrose
hepática descompensada com SHR, relativamente à hemofiltração convencional59.
O Prometheus® combina a separação e absorção do plasma com hemodiálise, para a
remoção de toxinas ligadas à albumina e toxinas hidrossolúveis25.
Os dados da utilização de ambos os sistemas sugerem melhoria bioquímica e
neurológica, com um efeito hemodinâmico benéfico no caso do MARS®. O benefício
na sobrevida é, no entanto, menos óbvio25,60-63.
Os sistemas de suporte hepático no âmbito dos doentes cirróticos com sépsis
necessitam de uma melhor avaliação, já que os dados existentes são limitados1.
Prognóstico
Dos eventos precipitantes de falência multiorgânica do doente com cirrose, a
infeção é aquele com pior prognóstico23. Um estudo de doentes cirróticos64
revelou que o desenvolvimento de infeção agrava consideravelmente o prognóstico
destes doentes, mesmo quando a infeção é resolvida. Este estudo verificou que a
mortalidade dos doentes cirróticos com infeção não se modificou muito nas
últimas décadas, particularmente, a mortalidade um ano após a infeção,
situando-se nos 63%. Arvaniti verificou que a sépsis é responsável por 33,4%
dos óbitos nos doentes cirróticos, sendo a segunda causa mais frequente, a
seguir à insuficiência hepática64.
Uma avaliação precisa do prognóstico é essencial para determinar os
outcomesindividuais, para tomar decisões terapêuticas e, no caso de doentes
críticos, para determinar quando o suporte de cuidados intensivos é fútil.
Vários sistemas de prognóstico têm sido propostos, mas poucos foram validados
em doentes cirróticos com sépsis1.
Um estudo recente65 avaliou o valor prognóstico dos sistemas gerais [Sequential
Organ Failure Assessment(SOFA), Acute Physiology And Chronic Health Evaluation
(APACHE), Simplified Acute Physiology Score(SAPS)] e dos scoresespecíficos de
cirrose hepática [CTP e Model for End Stage Liver Disease(MELD)] em doentes
cirróticos admitidos em UCI. Ambos os grupos de sistemas têm valor prognóstico
na avaliação do risco destes doentes, sendo que os sistemas gerais,
particularmente o SOFA, revelaram ter maior valor preditivo de mortalidade65-
68. A evidência sugere que, assim que se desenvolve falência orgânica extra-
hepática, a mortalidade é determinada pela disfunção multiorgânica e não pela
gravidade da doença hepática subjacente25. Num estudo de Levesque68, os doentes
cirróticos admitidos em UCI com falência de mais de 3 órgãos ou necessitando de
suporte de mais de 2 funções vitais apresentavam uma taxa de mortalidade
próxima de 90%. Neste estudo, a necessidade de suporte de funções vitais e a
presença de infeção eram preditores independentes de mortalidade nesta
população.
Na análise multivariada, a ventilação mecânica, terapêutica vasopressora,
níveis de bilirrubina à admissão e presença de infeção estavam relacionados de
forma independente com a mortalidade. No mesmo sentido, outro estudo30
demonstrou uma correlação entre a SIRS e a mortalidade intra-hospitalar dos
doentes cirróticos, a qual se mostrou independente da gravidade da doença
hepática subjacente, estimada pelo MELD, ou da idade do doente, o que sugere um
papel ativo da SIRS na mortalidade do doente cirrótico. Também Vincent Das69
concluiu que a gravidade da doença hepática não tem influência no prognóstico
dos doentes cirróticos críticos admitidos na UCI, sendo a falência de órgãos
não hematológicos o principal fator de risco para mortalidade. Os doentes com 3
órgãos não hematológicos em falência no terceiro dia na UCI apresentam, neste
estudo, uma mortalidade de 89%. Num estudo retrospetivo70 de doentes cirróticos
críticos, o SOFA e o MELD foram os melhores preditores de mortalidade aos 30 d.
Neste contexto, a função hepática não parece ser o principal fator determinante
do prognóstico dos cirróticos com disfunção múltipla de órgãos e, como tal, as
escalas de prognóstico gerais parecem ser mais úteis do que o CTP ou o
MELD30,66,68-71.
No estudo de Juneja70; a taxa de mortalidade nas primeiras 48 h de ventilação
mecânica foi de cerca de 80%, refletindo o mau prognóstico destes doentes.
Um estudo com doentes cirróticos com sépsis72 concluiu que a mortalidade destes
doentes era mais elevada nos casos de pneumonia do que na sépsis com outros
pontos de partida. Também os doentes com mais do que um local de infeção, com
CTP estádio C ou MELD elevado apresentaram maior taxa de mortalidade.
O impacto negativo que a falência renal tem no prognóstico destes doentes foi
já demonstrado em diversos estudos33,36,73,74. A importância deste fator está
refletida na sua inclusão em alguns sistemas de prognóstico, tais como o MELD e
o Royal Free Hospital Score67. Um estudo prospetivo mostrou que a causa da
insuficiência renal na cirrose tem valor prognóstico, sendo que a insuficiência
renal de causa hemodinâmica, como a que se verifica na SIRS/sépsis, tem maior
risco de mortalidade do que a de causa renal intrínseca33.
Conclusão
A sépsis e a disfunção múltipla de órgãos nos doentes cirróticos são entidades
que agravam o prognóstico destes doentes, apresentando taxas de mortalidade
elevadas.
Apesar da especificidade dos doentes com cirrose, existem poucos estudos
publicados relativos à abordagem diagnóstica e terapêutica da sépsis nestes
doentes, sendo recomendadas na maioria dos casos as mesmas medidas que para a
população em geral, passando por ressuscitação com fluidos, antibioterapia e
controlo do foco infeccioso e suporte dos órgãos em falência.
Em termos de monitorização e abordagem em cuidados intensivos, as recomendações
não são uniformes, uma vez que a maioria dos estudos exclui os doentes com
disfunções mais severas, não sendo possível avaliar por isso o real prognóstico
e impacto destas medidas.