Modificação do tratamento com infliximab na doença de Crohn: experiência de um
centro
EDITORIAL
Modificação do tratamento com infliximab na doença de Crohn: experiência de um
centro
Modification of therapy with infliximab in Crohn's disease: Experience of a
center
Fernando Augusto Pereira
Serviço de Gastrenterologia Pediátrica, Departamento Materno Infantil, Centro
Hospitalar do Porto, Porto, Portugal
Correio eletrónico: facpereira@sapo.pt
A introdução dos fármacos biológicos no tratamento da doença inflamatória
intestinal (DII) constituiu um significativo avanço na terapêutica destes
doentes, sem, no entanto, passar a constituir o tratamento curativo há muito
ambicionado.
É hoje muito clara a noção de que os doentes com DII não são todos iguais, não
só na sua constituição genética, mas também na expressão fenotípica da doença.
Seguramente que múltiplos fatores serão responsáveis por esta variabilidade de
comportamento fenotípico, mas sobre estes aspetos a nossa ignorância é ainda
muito grande. É seguramente por estas diferenças que a resposta dos doentes aos
diversos fármacos usados no tratamento é tão variável. Todos os medicamentos
utilizados no tratamento da DII têm efeito anti-inflamatório mais ou menos
intenso e interferem de forma diferente na cascata inflamatória complexa que
está na génese da inflamação do tubo digestivo.
O trabalho agora publicado na revista e referente ao tratamento com infliximab
em idade pediátrica, apesar da sua reduzida dimensão, expressa a variabilidade
que acabamos de referir. Assim, de um total de 16 doentes com doença de Crohn,
verificamos que nem todos respondem ao tratamento; dos que respondem, cerca de
20% não entraram em remissão e no grupo dos respondedores, 50%, obrigaram a
modificações do protocolo terapêutico basal inicial para obter a remissão, quer
no sentido da maior dose terapêutica quer da maior frequência de
administrações, como bem se exprime na tabela I e no gráfico II esquema I. O
gráfico I é também elucidativo da perda de eficácia deste fármaco ao longo do
período de manutenção, estando apenas 2 doentes em remissão aos 24 meses. A
localização e extensão da doença não parecem ter condicionado a necessidade de
ajuste de dose.
A utilização dos fármacos biológicos cria condições favoráveis ao aparecimento
de complicações infeciosas, para além dos efeitos secundários inerentes ao
próprio fármaco, que obrigam a cuidadosa monitorização dos doentes. O trabalho
refere que esta monitorização foi feita, mas não indica qual o protocolo
utilizado, e isso seria útil conhecer porque os resultados referidos
genericamente parecem ser bons, menores, mas também não os conhecemos no
concreto.
A redução da utilização da terapêutica corticoide é apontada como um dos
efeitos benéficos do tratamento biológico, no entanto, no estudo agora
apresentado não conseguimos entender quantos e quais os doentes que conseguiram
efetivamente suspender de forma sustentada este tipo de fármacos.
É apontada na literatura a repercussão benéfica sobre o desenvolvimento
estaturo-ponderal dos doentes pediátricos tratados com fármacos biológicos e os
autores afirmam ter verificado esse facto nos adolescentes em estádio Tanner
mais avançado, no entanto, não apresentam qualquer dado objetivo que suporte
essa afirmação.
Em conclusão, parece-nos necessário aumentar a amostra a analisar para números
mais significativos, para ver se confirmam os resultados agora apresentados,
que no que se refere à resposta aos biológicos parece seguir o sentido de
outros estudos já publicados.
Av. António José de Almeida, nº 5 F-8º
1000-042, Lisboa - Portugal
gejornal@mail.telepac.pt