O impacto da hepatite C em Portugal
Introdução
A infeção pelo vírus da hepatite C (VHC) constitui um grave problema de saúde
pública a nível mundial devido à elevada taxa de progressão para a cronicidade
e potencial evolutivo para cirrose e carcinoma hepatocelular (CHC), as
principais causas de morte por VHC1.
O objetivo da terapêutica antivírica é a cura da infeção, através da eliminação
sustentada do vírus, prevenindo assim o desenvolvimento destas complicações.
Dada a evolução lenta da hepatite C, estima-se que, na ausência de tratamento,
as complicações decorrentes do VHC venham a aumentar nos próximos anos, já que
a maior ocorrência de novas infeções deverá ter acontecido em meados da década
de 802.
Nos estádios mais avançados de progressão da doença, a hepatite C representa
custos muito elevados devido ao consumo de recursos em saúde, nomeadamente
hospitalizações, consultas médicas, medicamentos, análises e exames, e nalguns
casos, necessidade de transplante hepático. O reconhecimento e caracterização
do impacto da doença em Portugal torna-se assim essencial na sustentação das
tomadas de decisão relacionadas com a prevenção e tratamento da doença.
O presente estudo teve como objetivo caracterizar o impacto da infeção pelo VHC
em Portugal, através da recolha de dados epidemiológicos e história natural da
doença, da caracterização da prática clínica atual, do cálculo de custos
associados aos diferentes estádios de progressão da doença e da avaliação do
impacto do VHC na qualidade de vida dos doentes.
Material e métodos
Revisão da literatura
Com o objetivo de recolher e analisar a informação científica disponível sobre
a infeção pelo VHC em Portugal, efetuou-se uma revisão da literatura médica
publicada. Foram considerados estudos publicados entre 1989-2013, nas bases de
dados MEDLINE e Cochrane Library, através de uma pesquisa do tipo Free-Text
Search, utilizando os seguintes termos: («HCV» ou «Hepatitis C») e
«Epidemiology» e («Europe» ou «Portugal»); («HCV» ou «Hepatitis C») e «Global
Burden of disease»; («HCV» ou «Hepatitis C») e «Natural history»; («HCV» ou
«Hepatitis C») e («Therapy» ou «Triple Therapy»).
A estratégia de pesquisa incluiu também recolha de informação em websitesde
organizações nacionais e internacionais (por exemplo, normas orientadoras da
prática clínica)3>,4.
Painel de peritos
Após revisão da literatura, foi conduzido, em janeiro de 2013, um painel de
peritos para recolha de estimativas e validação de dados extraídos da
literatura sobre a infeção por VHC em Portugal. Seis peritos com experiência na
área do VHC, provenientes de diferentes zonas geográficas do país (Norte,
Centro e Sul) estiveram reunidos, tendo o painel decorrido segundo o método de
Delbecq na presença de um moderador5,6.
Cálculo dos custos associados à infeção por vírus da hepatite C
Para analisar as implicações económicas da infeção por VHC em Portugal,
recorremos à estimativa dos custos diretos e indiretos decorrentes desta
doença. Os custos foram estimados em euros, segundo a perspetiva da sociedade e
calculados para o ano de 2013.
Após a identificação e quantificação dos recursos pelo painel de peritos,
procedeu-se à alocação dos respetivos custos unitários, com base em preços/
tarifas obtidos a partir de fontes oficiais e literatura, nomeadamente:
Catálogo da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS)7 para custos da
medicação reservada a utilização em meio hospitalar; base de dados INFOMED8
para custos da medicação dispensada em ambulatório; Relatório de Contabilidade
Analítica dos Hospitais9 para custos das consultas de especialidade; tabelas de
GDH10,11para custos de hospitalizações e exames complementares de diagnóstico e
terapêutica; estudo de Elbasha et al. para custos da medicação nos doentes
transplantados12.
Os custos indiretos mensurados foram os associados à perda de produtividade de
trabalhadores vivos (absentismo)13.
Resultados
Perfil epidemiológico
Incidência
Os dados existentes sobre a incidência de hepatite C em Portugal são escassos e
resultam do número de notificações efetuadas, estando por isso associados a um
baixo nível de evidência científica. Dado o perfil assintomático da infeção
aguda, é reconhecido que nem todos os novos casos são notificados e que muitos
dos notificados correspondem a novos diagnósticos de infeção crónica.
A partir de uma revisão sistemática da literatura, Muhlberger et al. estimaram
para a região europeia da Organização Mundial de Saúde (OMS), uma taxa média
anual de incidência de hepatite C de 6,19 casos por 100.000 habitantes
(intervalo de confiança (IC) a 95%: 4,90-7,48), no período de 1997-200414.
Neste período, os dados publicados relativos à incidência da hepatite C em
Portugal indicam um valor máximo de 6,9 novos casos/100.000 habitantes em
199815,16.
Os dados bibliográficos disponíveis para Portugal refletem ainda uma tendência
decrescente na taxa de incidência entre 1998 (6,9 casos/100.000 habitantes) e
2010 (0,37 casos/100.000 habitantes)15-17. No entanto, a validade desta análise
é limitada pelos motivos supramencionados.
O painel de peritos estimou que a taxa anual de incidência da hepatite C em
Portugal seja de pelo menos um novo caso por 100.000 habitantes, o que
corresponderá a um número mínimo de 100 novos casos por ano.
Prevalência
A verdadeira prevalência da hepatite C não é conhecida devido à inexistência de
estudos epidemiológicos que envolvam amostras representativas da população.
Atualmente estima-se que 2-3% da população mundial (130-170 milhões de pessoas)
esteja infetada pelo VHC18. Considerando apenas a União Europeia, a prevalência
estimada decresce para aproximadamente metade (1,1-1,3%), correspondendo a 7,3-
8,8 milhões de infetados18.
Na população portuguesa, Marinho et al. estimaram uma prevalência de
aproximadamente 1,5% com base nos dados de seroprevalência em dadores de sangue
e utilizadores de drogas por via endovenosa19. De acordo com o painel de
peritos, estima-se que a prevalência atual da doença permaneça entre 1-1,5%, ou
seja, existirão atualmente em Portugal cerca de 100.000 a 150.000 doentes
infetados pelo VHC. Destes, assume-se que apenas 30% se encontrem
diagnosticados, correspondendo a aproximadamente 37.500 doentes.
A distribuição dos doentes diagnosticados pelos diferentes estádios de
desenvolvimento da doença foi também caracterizada pelo painel de peritos, que
estimou que a grande maioria destes doentes se encontrem atualmente com
hepatite C crónica (60%), estando os restantes distribuídos pelos estádios de
cirrose hepática compensada (30%), descompensada (6%) e CHC (4%).
O painel de peritos caracterizou ainda a prevalência da infeção pelo VHC em
subpopulações de risco através da prática clínica e da validação de dados
bibliográficos20. Estimaram-se percentagens muito elevadas de VHC nos
utilizadores de drogas por via endovenosa (50%), em particular nos utilizadores
de longa duração (80%) e nos doentes coinfetados pelo VIH (30%). Outros grupos
de risco identificados, ainda que com menor prevalência, foram os doentes em
hemodiálise (5%), recetores de transfusões sanguíneas antes de 1992 (2%) e
bebés de mulheres infetadas pelo VHC (transmissão vertical: 1,5%).
Genótipo
O VHC é um vírus de RNA de cadeia simples que apresenta grande variabilidade
genética. Atualmente existem 6 genótipos identificados21.
A determinação do genótipo (G) do VHC é de importância clínica fulcral, pois
determina a probabilidade de resposta, o tipo de tratamento e sua duração, bem
como a dose de ribavirina (RBV) a utilizar22.
À semelhança do que acontece a nível mundial, o G1 foi o genótipo mais
prevalente em 2 estudos epidemiológicos realizados em Portugal (2001 e 2009),
estando presente em 50-60% dos doentes20. De acordo com o painel de peritos, a
distribuição obtida em 2009 corresponde à atual distribuição dos genótipos em
Portugal, sendo o mais frequente o G1 (60%), seguido do G3 (25%), G4 (7%) e G2
(2%)20,23.
Mortalidade
Muhlberger et al. estimaram um número de 1.117 mortes/ ano (11,12 mortes/
100.000 habitantes) devidas ao VHC em Portugal com base nos dados de
mortalidade da OMS de 200214. Uma vez que os dados de mortalidade da OMS
relativos à hepatite C crónica excluem as mortes por cirrose hepática e CHC24,
as principais causas de morte associadas ao VHC, os autores utilizaram as
frações de cirrose hepática e CHC atribuíveis ao VHC na Europa (38 e 44%,
respetivamente), publicadas por Perz et al.14,25, para calcular o número total
de mortes associadas ao VHC.
De acordo com o painel de peritos, atualmente serão atribuíveis ao VHC 20% do
número total de mortes devidas a cirrose hepática e 50% do número total de
mortes devidas ao CHC em Portugal.
Recorrendo ao método de cálculo de Muhlberger et al. e utilizando os dados de
mortalidade da OMS de 2008 e as frações atribuíveis para Portugal
supramencionadas, a estimativa para Portugal é de 984 mortes/ano devidas ao
VHC, correspondente a uma taxa de mortalidade de 9,21 mortes/100.000 habitantes
(tabela_1). Por outro lado, se o cálculo relativo à mortalidade for efetuado
com base numa taxa de mortalidade de 4% em doentes cirróticos devido ao VHC e
na distribuição atual dos doentes pelos diferentes estádios de progressão da
doença em Portugal, ambas obtidas através do painel de peritos, estima-se que
ocorram 600 mortes/ano em doentes com cirrose hepática (incluindo
descompensação hepática e CHC). O número estimado de mortes devidas ao VHC em
Portugal poderá assim oscilar entre as 600-984 mortes/ano.
História natural da infeção pelo vírus da hepatite C
Durante a fase aguda da infeção, a maioria dos doentes mantém-se assintomática,
pelo que é frequente a ausência de diagnóstico26,27. Em alguns doentes a
infeção é autolimitada, com erradicação espontânea do vírus. No entanto, em 54-
86% dos doentes adultos há evolução para cronicidade26 (fig._1).
Uma vez estabelecida a hepatite C crónica, a erradicação espontânea do VHC
raramente ocorre e a doença poderá progredir, causando lesão celular do fígado
e cirrose hepática. Estima-se que 15-51% dos doentes com hepatite C crónica
desenvolvam cirrose hepática num determinado momento da sua vida (fig._1). A
progressão para este estádio decorre durante várias décadas, sendo influenciada
por diversos cofatores, como consumo de álcool, diabetes, idade avançada,
coinfeção pelo VIH ou outros vírus hepatotrópicos26.
Numa meta-análise de 111 estudos realizados em doentes com hepatite C crónica,
Thein et al. estimaram que a probabilidade cumulativa da progressão para
cirrose 20 e 30 anos após a infeção é de 16% (IC 95%: 14-19%) e 41% (IC 95%:
36-45%), respetivamente28.
A cirrose hepática tem uma fase de doença compensada e outra, mais tardia, de
descompensação, quando surgem complicações da doença associadas à hipertensão
portal e/ou insuficiência hepática (por exemplo, ascite, icterícia,
encefalopatia hepática, rotura de varizes esofágicas, peritonite bacteriana
espontânea, sépsis)2,26,27. Estima-se que anualmente 3-6% dos doentes com
cirrose hepática compensada sofram uma descompensação clínica grave26 (fig._1).
Após a primeira descompensação, a mortalidade aumenta para 18% no ano
seguinte26. A taxa de sobrevivência a 5 anos é de 50%2.
O VHC é também um vírus com potencial oncogénico, encontrando-se associado a
25-30% dos casos de CHC em todo o mundo29. Na Europa, esta percentagem varia
entre 40-70%25,29. Estes dados são concordantes com os obtidos no painel de
peritos, cujas estimativas apontam para que 50% dos casos de morte por CHC em
Portugal sejam devidos ao VHC.
A grande maioria dos casos de CHC (80%) ocorre em doentes cirróticos,
principalmente naqueles com fibrose avançada30. O risco de desenvolvimento de
CHC nestes doentes é de 1-5%/ano e as estimativas do risco global de CHC a 5
anos situam-se entre 7-30%26,31,32. O risco de mortalidade no primeiro ano após
o diagnóstico de CHC é de 33%27. As terapêuticas atualmente disponíveis parecem
ter impacto modesto na taxa de mortalidade do CHC32, pelo que se torna crucial
evitar o desenvolvimento desta complicação.
Prática clínica atual
O principal objetivo da terapêutica do VHC é a cura ou erradicação da infeção
após cessação do tratamento, avaliada na prática clínica através da resposta
virológica mantida (RVM) ao tratamento, isto é, nível indetetável de RNA-VHC (<
50 UI/ml) no sangue 24 semanas após o final do tratamento27. A RVM encontra-se
normalmente associada à resolução da doença hepática em doentes sem cirrose27 e
a uma diminuição muito significativa do risco de descompensação hepática, CHC e
morte por doença hepática em doentes cirróticos, existindo mesmo em alguns
casos reversão da cirrose33-37.
A terapêutica dupla com interferão-alfa peguilado (Peg-IFN) e RBV é a
terapêutica atualmente aprovada em Portugal para a infeção crónica pelo
VHC22,27. Presentemente encontram-se disponíveis no mercado 2 formulações de
Peg-IFN (2a e 2b).
A taxa global de RVM nos doentes monoinfetados tratados com terapêutica dupla é
de 50-60%, sendo superior nos doentes portadores de G3/G4 (65-82%) e inferior
nos doentes portadores de G1 (40-54%). Nos doentes coinfetados (VIH/VHC) estas
taxas são inferiores: 50% nos doentes portadores de G3/G4 e 20% nos de
G127,30,35.
O facto de 46-60% dos doentes portadores de G1 não atingirem a RVM revela a
existência de uma importante lacuna terapêutica, recentemente colmatada pelos
inibidores da protease do VHC, boceprevir e telaprevir, especificamente
desenvolvidos para o tratamento de doentes com hepatite C crónica portadores de
G1, em combinação com o Peg-IFN e RBV22.
Nos doentes portadores de G1 sem tratamento prévio, o ganho de eficácia com a
terapêutica tripla com boceprevir ou telaprevir oscilará entre os 20-30%,
comparativamente à utilização da terapêutica dupla, verificando-se assim um
aumento da taxa de RVM para cerca de 60-70%38,39.
À data de elaboração deste estudo, o boceprevir e o telaprevir não são de livre
aquisição pelo Sistema Nacional de Saúde (SNS) e a sua cedência nos hospitais
públicos é apenas possível mediante a concessão de uma autorização de
utilização especial pelo INFARMED.
De acordo com o painel de peritos, se a terapêutica tripla fosse de livre
aquisição no SNS, atualmente 80% dos doentes portadores de G1 seriam tratados
com a mesma. As estimativas do painel indicam ainda que, dos doentes portadores
de G1, serão candidatos a terapêutica tripla 70% dos doentes sem tratamento
prévio e 95% dos não respondedores à terapêutica dupla.
Prática clínica em Portugal
De acordo com o painel de peritos, atualmente estima-se que 35% dos doentes
diagnosticados com infeção pelo VHC já tenham efetuado tratamento e que 55%
destes casos estejam curados da infeção (RVM). Dos doentes tratados e curados,
79,5% já não se encontram em seguimento clínico, mas 20% dos doentes permanecem
em seguimento. Estes doentes têm cirrose hepática compensada pelo que, apesar
de atingida a RVM, têm um prognóstico pós-tratamento diferente, sendo
necessário efetuar o rastreio de possíveis complicações hepáticas, como CHC e
varizes esofágicas27; 0,5% dos doentes progride para CHC (tabela_2).
A estimativa atual do número de doentes elegíveis para terapêutica antivírica,
obtida a partir do painel de peritos, é apresentada na figura_2. O número
estimado de doentes sem tratamento prévio elegíveis para tratamento ascende a
aproximadamente 11.000. Destes, espera-se que 20% sejam tratados anualmente
(cerca de 2.150 doentes/ano).
Transplante hepático
O VHC constitui a principal indicação para transplantação hepática associada a
infeções víricas30.
Em Portugal, o painel de peritos estimou que 20% dos transplantes hepáticos
realizados sejam devidos ao VHC. Considerando uma média de 250 transplantes
hepáticos realizados anualmente em Portugal, cerca de 50 destes transplantes
serão devidos ao VHC40.
Dado o curso lento da hepatite C crónica, é expectável que a necessidade de
transplante hepático aumente nos próximos anos devido ao incremento do número
de casos de descompensação hepática e CHC41,42.
Custos da doença em Portugal
Custo anual dos novos tratamentos com terapêutica dupla
O esquema posológico da terapêutica dupla difere entre portadores de G1/4 e G2/
3, relativamente à dose de RBV e à duração média do tratamento. Assim, o
cálculo do custo anual da terapêutica dupla baseou-se primeiramente na
distribuição do número de doentes a tratar/ano por genótipo, utilizando as
estimativas do painel de peritos mencionadas anteriormente (G5/6 não incluídos
na estimativa, dada a prevalência residual em Portugal).
Para efeitos de cálculo assumiu-se ainda, com base no painel de peritos, que
70% dos doentes serão tratados com Peg-IFN 2a e 30% com Peg-IFN 2b.
Globalmente, estima-se que o custo anual da medicação antivírica (PegIFN + RBV)
utilizada no tratamento de novos casos seja de 12,7 milhões de euros (tabela
3). Estima-se ainda que os custos anuais da monitorização destes doentes
(consultas e exames complementares de diagnóstico) correspondam a
aproximadamente 5 milhões de euros, perfazendo um custo total de 17,7 milhões
de euros.
Custo anual dos novos tratamentos considerando a terapêutica tripla
Os custos unitários dos novos tratamentos com terapêutica tripla foram
calculados com base na duração estimada do tratamento, definida pelo estádio do
doente (com ou sem cirrose) e pela obtenção da resposta virológica extensiva,
oscilando entre 24.000-45.000 D /doente (tabela_4).
O custo médio da terapêutica tripla/doente foi estimado em 33.838 D . Este
cálculo teve em consideração 4 variáveis: os custos unitários supramencionados,
a distribuição atual dos doentes elegíveis para tratamento em cirróticos (20%)
e não cirróticos (80%), a taxa esperada de resposta virológica extensiva para
cada um dos tratamentos disponíveis38,39 e as estimativas de utilização de
boceprevir (40%) ou telaprevir (60%), obtidas a partir do painel de peritos.
Globalmente, se a terapêutica tripla fosse de livre aquisição no SNS, estima-se
que o custo anual total dos novos tratamentos em doentes sem tratamento prévio
(n = 2.155) seria de cerca de 48 milhões de euros (tabela_5).
A análise deste valor deverá ser sempre contextualizada considerando a
existência de um incremento de eficácia de 30%, associado à utilização da
terapêutica tripla nos doentes sem tratamento prévio portadores de G1 e ao
facto desta terapêutica ser realizada uma única vez por doente.
Custo anual por doente por estádio
O custo anual médio, por doente e por estádio, foi estimado em 432 D na
hepatite C crónica, 522 D na cirrose hepática compensada, 11.103 D na cirrose
hepática descompensada e 17.128 D no CHC. Estes valores foram calculados
considerando apenas o seguimento clínico do doente (excluindo os custos
associados ao diagnóstico da doença e custos de um eventual tratamento
antivírico).
Custo anual de doentes transplantados hepáticos devido ao vírus da hepatite C
O custo anual médio por doente transplantado foi estimado em 116.154 D no
primeiro ano (incluindo transplante) e 6.886 D nos seguintes. O número de
doentes em seguimento foi calculado utilizando a estimativa do número de
transplantes hepáticos efetuados nos últimos 10 anos devido à hepatite C e as
taxas de sobrevivência a 10 anos do European Liver Transplant Registryem
doentes transplantados devido a cirrose hepática4.
Deste modo, o custo total anual de novos transplantes hepáticos devidos ao VHC
(n = 50) foi estimado em 5,85 milhões de euros e o custo total de seguimento
dos doentes transplantados em anos posteriores (n = 320) em 2,2 milhões de
euros.
Globalmente, o custo anual de doentes transplantados devido ao VHC totaliza
cerca de 8,1 milhões de euros, dos quais 72,8% se devem a novos transplantes.
Custo anual do acompanhamento de doentes infetados pelo vírus da hepatite C
Este custo foi estimado em 70,9 milhões de euros/ano (fig._3) e calculado com
base na estimativa do número de doentes em cada estádio de progressão da doença
e no custo anual médio/doente/estádio. Os custos mais elevados estão
inequivocamente associados aos estádios mais avançados da doença hepática:
cirrose hepática descompensada (25 milhões de euros) e CHC (26,7 milhões de
euros).
Custo anual do acompanhamento de doentes tratados e não tratados
Este custo foi obtido considerando o custo anual médio/doente/estádio e o
número de doentes tratados e não tratados em cada estádio (tabela_2). Em todos
os subgrupos, pode observar-se que a maior proporção dos custos está associada
aos estádios mais avançados da doença: cirrose hepática descompensada e CHC
(fig._4). Os custos associados aos doentes curados são muito reduzidos (1,4
milhões de euros), já que em cerca de 80% dos doentes se observou resolução da
doença.
Custos indiretos
Com base no consenso obtido em painel de peritos, enumeram-se as seguintes
conclusões: (a) não existe absentismo resultante da doença nos doentes com
hepatite C e cirrose hepática compensada; (b) menos de 20% dos doentes com
cirrose hepática descompensada e CHC encontra-se em situação profissional ativa
(e apenas 10% dos doentes se encontra nestes estádios); (c) a idade média nos
estádios mais avançados é de 58 e 69 anos, respetivamente. Decorrente destas 3
considerações, considera-se assim que o custo indireto anual associado à perda
de produtividade dos doentes com VHC é totalmente desprezável mediante os
custos diretos estimados anteriormente.
Qualidade de vida
Nos estudos de Global Burden of Disease(2002 e 2004)24 a OMS apresenta
estimativas dos anos de vida ajustados por incapacidade (Disability-Adjusted
Life Years, DALY) para a hepatite C na região europeia e em Portugal, sem
contabilizar, no entanto, os DALY associados à cirrose e ao CHC devidos a VHC,
que constituem as principais causas de morte e de perda de qualidade de vida.
No estudo de Mulhberger et al. são apresentadas estimativas de DALY associados
à hepatite C em diferentes países europeus, incluindo Portugal, sendo
contabilizados nessas estimativas os DALY devidos aos casos de cirrose hepática
e CHC resultantes da infeção pelo VHC14. À semelhança do método utilizado para
o cálculo da mortalidade, o cálculo dos DALY baseou-se nos dados da OMS de 2002
e nas frações de cirrose hepática e CHC atribuíveis à infeção por VHC,
reportadas por Perz et al.14,25. Neste estudo, Portugal figura entre os países
europeus com maiores taxas de DALY associados ao VHC (152,2 DALY/100.000
habitantes)14.
O cálculo apresentado na tabela_6 segue o método de Mulhberger et al., mas
utiliza os dados da OMS de 2004 e as frações dos casos de cirrose hepática e
CHC atribuíveis ao VHC em Portugal (20 e 50%), estimadas a partir dos dados de
mortalidade recolhidos no painel de peritos.
Com base neste cálculo, o VHC encontra-se associado a uma taxa de 87 DALY/
100.000 habitantes, estando 85% destes DALY associados aos estádios mais
avançados da doença (tabela_6). Esta estimativa é inferior à de Mulhberger et
al. (2009) para Portugal, o que se justifica pelas diferenças na base de dados
utilizada e frações de cirrose hepática e CHC atribuíveis ao VHC.
Ainda assim, a taxa de DALY associada ao VHC em Portugal é semelhante à
estimada para o cancro da próstata (95) e leucemia (85) e superior à do cancro
do pâncreas (74), esófago (54) e colo do útero (42)24.
Limitações do estudo
Devido à escassez de estudos e literatura publicada relativamente à
epidemiologia e aos custos associados à infeção pelo VHC em Portugal, a maioria
dos cálculos efetuados foram baseados em estimativas, obtidas a partir de um
painel de peritos realizado segundo o método de Delbecq. De modo a maximizar a
validade externa das estimativas obtidas a partir deste método e capturar a
população portuguesa de doentes que se encontra em tratamento/acompanhamento em
meio hospitalar, foram selecionados peritos de diferentes áreas geográficas e
das diferentes especialidades que acompanham estes doentes. De salientar ainda
que, no decorrer da reunião, o consenso foi atingido em todas as questões
efetuadas, após discussão entre os vários intervenientes, o que constitui um
indicador de validade interna das estimativas obtidas.
Os cálculos dos custos da medicação utilizada em meio hospitalar basearam-se
nos preços publicados no catálogo da ACSS e correspondem aos preços máximos
praticados. Os preços efetivamente praticados entre os detentores dos
medicamentos e os hospitais não são do domínio público, pelo que os custos
apresentados poderão estar inflacionados relativamente aos custos reais.
Discussão
Em Portugal, os gastos anuais relacionados com a hepatite C ascendem a cerca de
71 milhões de euros, sendo aproximadamente 83% deste valor (60 milhões de
euros) devido às complicações da doença, nomeadamente cirrose hepática
descompensada e CHC, e ao transplante hepático, muitas vezes necessário no
tratamento destas complicações.
Atendendo a que a resolução da infeção por VHC obtida após tratamento
antivírico está associada a uma diminuição muito significativa do risco de
complicações hepáticas, CHC e morte por doença hepática, mesmo nos doentes com
cirrose hepática compensada, o tratamento precoce irá reduzir a incidência
destas complicações e consequentemente diminuir os custos associados.
Os resultados deste estudo confirmam a infeção por VHC como sendo uma doença
com um elevado impacto na perspetiva da sociedade e do doente, assinalando a
importância do diagnóstico e tratamento antivírico atempado nos doentes
passíveis de beneficiar do mesmo.
Existe expressa necessidade de alocação eficiente de recursos (económicos e
humanos) no sentido de melhorar a taxa de diagnóstico e tratar precocemente a
doença, evitando desta forma a sua evolução para estádios mais avançados e, tal
como demonstrado, mais onerosos. Para tal, poderá justificar-se uma política de
rastreio mais agressiva, a ser implementada a nível nacional, que permita a
identificação dos 70% de portadores do vírus atualmente não diagnosticados.
Um programa nacional de prevenção e diagnóstico na área da hepatite C é assim
premente, entendendo-se que este problema deverá ser reconhecido nas várias
vertentes da sociedade portuguesa: população geral, profissionais de saúde e
decisores políticos.