Violência nas relações de intimidade: crenças e atitudes de estudantes do
ensino secundário
Introdução
A violência é um fenómeno de grande abrangência e complexidade em que o
conceito de condutas aceitáveis e não aceitáveis é influenciado pela cultura e
sujeito a uma constante transformação, podendo manifestar-se de forma subtil
como a violência emocional ou o insulto verbal, ou com forte evidência, como na
agressão física. De acordo com a OMS (2002), a violência pode ser definida como
uma ameaça ou uso intencional de força física ou poder e que implica risco de
lesão, morte ou dano psicológico. A violência doméstica é considerada uma grave
violação dos direitos humanos, sendo a violência contra as mulheres um
impedimento à concretização da igualdade e do desenvolvimento, constituindo-se
como um obstáculo aos direitos e liberdades fundamentais (Resolução do Conselho
de Ministros, nº100, 2010).
Os termos violência doméstica, violência conjugal e violência nas relações de
intimidade são comummente utilizados com significados próximos, ou seja,
referem-se à violência nas relações interpessoais íntimas. Englobam todos os
atos de violência física, psicológica e sexual cometidos contra pessoas,
conceito que foi alargado a ex-cônjuges e a pessoas do outro ou do mesmo sexo
com quem a vítima mantenha ou tenha mantido uma relação, com ou sem coabitação.
O fenómeno assenta, muitas vezes, em conceções estereotipadas, de âmbito social
e cultural (Resolução do Conselho de Ministros nº 100, 2010). Em 2003, a OMS
considerou a violência doméstica como um grave problema de saúde pública tendo
em conta que as consequências que lhe estão associadas são prejudiciais para a
saúde e para o bem-estar de quem a sofre, da família e de toda a comunidade
(ibidem). A violência doméstica tem vindo a ganhar visibilidade na última
década sendo que a sua conceção tem sofrido alterações desde a noção de que
este é um problema da responsabilidade exclusiva dos indivíduos e das famílias,
para uma conceptualização, hoje, como crime público. Em média,1 em cada 3
mulheres é vítima de violência e, por ano, 52% das mulheres são vítimas de
alguma forma de violência, constituindo, assim, um dos problemas mais
importantes entre os que afetam a qualidade de vida (Portugal. Ministério da
Saúde, 2004).
Os conceitos de parentesco, de deveres entre cônjuges, entre pais e filhos,
fazem parte da conceção acerca do que devemos ser e fazer dentro da família. Ao
identificarmo-nos como membros, situamo-nos num espaço socialmente construído e
esperado de relações e papéis sociais, na família e na comunidade. Esta
construção social pode ser o suporte de sustentação e legitimação das
desigualdades de género, e de certas omissões relativamente à violência
doméstica (Dias, 2010).
A violência nas relações de intimidade tem sido referida como largamente
cometida por homens contra as mulheres, mas essa violência ocorre também em
casais do mesmo sexo e por mulheres contra homens. Alguns estudos,
particularmente em amostras de estudantes e casais em relações de namoro, têm
revelado que uma proporção significativa de homens experienciou situações de
violência pelos seus parceiros íntimos. No entanto, a esmagadora maioria das
vítimas continua a ser feminina, sendo que a evidência empírica também mostra
que os homens vítimas são-no sobretudo por parte de outros homens e no espaço
público (Lisboa, 2008). Assim, apesar da situação das vítimas masculinas ser
uma preocupação, continua a ser adequado manter políticas e programas sobre
violência nas relações de intimidade contra as mulheres, principalmente nos
países com menores níveis de igualdade de gênero (Archer 2002 apud WHO, 2007).
De acordo com Caridade e Machado (2006), a violências nas relações de
intimidade só se tornou um problema social específico em meados do séc. XX,
nomeadamente a partir da década de 60 e, em Portugal, a maior atenção sobre
este fenómeno surge a partir do início da década de 1990. Fazendo uma análise
retrospetiva, verificamos que a investigação sobre esta temática foi
desenvolvida no âmbito da violência marital e só mais recentemente se dedicou
ao estudo da violência nas relações juvenis, referenciada internacionalmente
como dating violence. Este interesse científico acerca da violência no contexto
de namoro teve origem nos resultados de estudos sobre esta temática, que
revelaram a existência de níveis elevados de violência nas relações de
intimidade juvenil, demonstrando que este tipo de violência não se reduz às
relações conjugais (Caridade, 2011). De acordo com González-Ortega, Echeburúa e
Corral (2008), o prognóstico para casais de namorados que vivem uma relação
violenta não é favorável porque a violência, após o casamento, tende a
continuar e até agravar-se.
O desenvolvimento de pesquisas para conhecer os fenómenos e os programas de
intervenção nas escolas, pelos enfermeiros, dão suporte ao desenvolvimento de
políticas promotoras de saúde (Mendes, 2010). Assim, consideramos importante
não só o conhecimento acerca do fenómeno mas também a intervenção junto de
jovens para a prevenção da violência e a promoção de relações saudáveis.
Com este estudo, pretendemos identificar crenças e atitudes socioculturais
legitimadoras da violência nas relações de intimidade e verificar as diferenças
nas crenças e atitudes socioculturais legitimadoras da violência de acordo com
o sexo, em estudantes do Ensino Secundário.
Enquadramento/Fundamentação Teórica
Crenças e atitudes envolvidas na violência
Quando falamos da violência nas relações de intimidade é importante compreender
o contexto, os mitos e as crenças envolvidos e o significado que a violência
tem para cada um/a. Para procurar explicar a origem da violência conjugal,
temos que deixar a visão simples de vítima e agressor, e dirigir a atenção ao
reconhecimento de mitos e crenças sobre a violência (Aldrighi, 2004).
Na opinião de Machado (2010), o aumento da complexidade das relações humanas
contribui bastante para as constantes transformações das conceções de
violência, dificultando a sua definição e a concordância acerca de determinadas
manifestações como sendo ou não violentas. Ao refletir sobre a origem das
crenças no comportamento humano, percebemos que o nosso desenvolvimento é
construído com base nas interações com os outros, havendo uma forte influência
de tudo o que nos rodeia e as crenças surgem como consequência das perceções
que vamos construindo. Assim, o fenómeno da violência encontra-se ligado às
representações sociais, o que se considera ou não violento tem origem no quadro
de referência de cada pessoa. Para a mesma autora, as crenças sociais assumem
maior relevância no período da adolescência, pois os rapazes e as raparigas
nesta fase experimentam e intensificam as expectativas de género, sendo
importante analisar as atitudes e crenças que legitimam a violência nas
relações de intimidade e as perceções dos/as jovens acerca da representação
desse tipo de violência. Assistimos a uma predisposição cultural para a
aceitação da violência, como sendo esta natural e comum, e esta conceção
fomenta o exercício da mesma, transformando os atos agressivos numa vivência
normal do quotidiano (idem).
A legitimação da violência é, muitas vezes, uma consequência de crenças erradas
que desculpam as condutas abusivas, sendo que estas constituem o resultado da
socialização e são interiorizadas desde cedo influenciando os nossos
comportamentos (Mendes e Cláudio, 2010). Muitas destas crenças ligam-se à
desigualdade entre homens e mulheres; os homens, com mais poder, têm o direito
de controlar os outros membros da família, com a aprovação das mulheres, das
crianças e da sociedade, sendo com frequência estas ideias transmitidas por
adultos de ambos os sexos quando educam as crianças (Afonso, 2010).
Para González-Ortega, Echeburúa e Corral (2008), as crenças e atitudes mais
tolerantes da violência contra as mulheres constituem um fator de risco para a
ocorrência de abuso. As crenças mais conservadoras sobre os papéis de homem e
de mulher estão relacionadas com a tendência dos homens a usar a violência e
culpar as mulheres pela violência sofrida e das mulheres para justificar, ou
pelo menos desculpar os comportamentos dos agressores. Consideram ainda que,
entre os jovens, há uma crença, principalmente entre os rapazes, de que o uso
de violência (ameaças, empurrões, humilhação, ) é aceitável para a resolução
de conflitos interpessoais. Esta crença é parte integrante da socialização dos
jovens rapazes para a masculinidade hegemónica (Hatty 2000; Connell, 2005), em
que a violência (em geral, no desporto, nas interações entre rapazes, nas
relações sociais) constitui uma dimensão crucial na construção social do que é
ser homem.
No estudo de Machado, Matos e Moreira (2003), os rapazes subscrevem mais a
crença de que a violência poderá ser justificável em função dos comportamentos
das mulheres, consideram importante preservar a privacidade familiar e
acreditam que a violência poderá ser atribuída a causas externas e fora do
controlo do agressor (e.g., o álcool ou a pobreza), desvalorizando a pequena
violência no contexto das relações íntimas. Considerando a violência de alguma
forma normal no curso das relações, as raparigas adolescentes parecem continuar
a confundir ciúme com amor. Por seu turno, para os rapazes, o ciúme desempenha
um papel importante nas autoatribuições para a violência. González-Ortega,
Echeburúa e Corral (2008) consideram que, depois de acontecer as primeiras
agressões, as vítimas querem justificar porque não terminam com a relação. A
crença de que o amor pode ultrapassar tudo e que, com o tempo, tudo vai
melhorar, supera o conhecimento da realidade e leva algumas jovens a considerar
que os seus esforços conseguirão resolver os problemas. Segundo Mendes e
Cláudio (2010), ao longo do tempo, em que têm sido realizados estudos neste
campo, temos observado uma atitude de banalização da violência por parte dos
mais jovens, que caraterizam estes comportamentos agressivos como simples atos
de ciúme e amor. A maior aceitação da violência pelo critério de normalidade,
frequentemente associada a atos de ciúme, dificulta a tomada de consciência
dos/as mais jovens para a gravidade deste tipo de conduta.
Caridade (2011) e Mendes e Cláudio (2010) desenvolveram estudos em que
aplicaram a Escala de Crenças sobre a Violência Conjugal (ECVC) com amostras de
jovens de ambos os sexos dos ensinos universitário, secundário e profissional.
Os resultados revelaram níveis baixos de legitimação dos comportamentos
violentos e diferenças significativas nos dois sexos, sendo que o masculino
mostrou uma maior aceitação da violência. Os/as estudantes mais novos/as
revelaram valores significativamente mais elevados de tolerância a este tipo de
violência. Também no estudo de Afonso (2010), em que os participantes são
casais (casamento, união de facto, namoro ou outra) e em que foi utilizada a
mesma escala, os resultados foram similares. Num estudo de Ribeiro e Sani
(2008), em que foi utilizada a Escala de Crenças da Criança sobre a Violência
(ECCV) e em que os participantes eram estudantes de ambos os sexos, com idades
entre os 11 e os 18 anos, verificou-se que as causas de ordem individual são
para os/as adolescentes as que mais legitimam o uso da violência, nomeadamente
as características da vítima (e.g. a vitima provocar ou confiar no agressor) e
externas ao agressor (e.g. o abuso de álcool ou perturbações mentais).
Relativamente à existência de diferenças na forma como jovens do sexo masculino
e do sexo feminino se colocam quanto às crenças, os resultados mostram
equivalência no geral, mas com diferenças significativas quanto aos fatores
socioculturais, com os rapazes a aceitar mais este tipo de argumentos na
justificação da violência.
Neste enquadramento, este estudo foca a legitimação da violência apoiada nas
crenças e atitudes socioculturais, sendo a legitimação percebida como uma
tolerância e/ou justificação das condutas violentas, com base em estereótipos
culturais e normas sociais que tendem a desvalorizar e desculpabilizar práticas
violentas nas relações de intimidade.
Metodologia
A identificação das crenças dos/as estudantes integra-se numa das primeiras
etapas de uma de investigação, prévia à aplicação de um programa de formação.
Trata-se de um estudo de investigação quantitativa de características
descritivas-correlacionais. Os dados obtidos foram tratados no programa SPSS
18.0 para Windows.
Como variável principal temos a "crenças legitimadoras de violência nas
relações de intimidade" e como variável secundária "o sexo"
dos/as inquiridos/as.
Como questões de investigação foram identificadas as seguintes:
Q1 - Quais as crenças e atitudes socioculturais legitimadoras da violência nas
relações de intimidade em estudantes do Ensino secundário?
Q 2 - Existem diferenças significativas nas crenças e atitudes acerca da
violência nas relações de intimidade de acordo com o sexo?
População/amostra
A população é constituída por estudantes do ensino secundário. Após contacto
pessoal, com várias instituições de ensino secundário, obtivemos confirmação de
duas escolas que por motivos de necessidade de intervenção neste âmbito e
disponibilidade de horário escolar para a implementação do programa de
formação, foram recetivas para o desenvolvimento do trabalho empírico.
A amostra de conveniência é constituída por 682 estudantes do 11º (51,8%) e do
12º ano (48,2%), de duas escolas secundárias da região de Coimbra, dos Cursos
Profissionais e Cientifico-Humanísticos. 61,30% (418) do sexo masculino e
38,70% (264) do sexo feminino, com média de idades de 17,44 de anos, ±1,16.
Constituíram critérios de Inclusão/Exclusão: ser aluno do 11º e 12º ano e
querer participar.
Instrumento de recolha de dados
Foi utilizada a Escala de Crenças sobre Violência Conjugal (ECVC). Esta escala
foi desenvolvida e validada para a população portuguesa por investigadores/as
da Universidade do Minho (Machado, Matos e Gonçalves, 2006) e mede o grau de
tolerância e/ou aceitação do sujeito quanto à violência conjugal (física ou
psicológica). Sendo uma escala de atitudes, permite-nos conhecer as
representações do sujeito sobre o fenómeno. Valores mais elevados representam
uma maior legitimação das crenças e atitudes sobre violência conjugal; a soma
de cada fator permite perceber o tipo de crenças e atitudes específicas deste
tipo de violência. É composta por 25 itens apresentados com uma escala de
resposta de 5 pontos (desde 1 = discordo totalmente, até 5 = concordo).
A escala original apresenta 4 fatores: i) o fator legitimação e banalização da
pequena violência onde estão incluídos os itens relacionados com as crenças
que normalizam a pequena violência (insultos, bofetadas ); ii) o fator
legitimação da violência pela conduta da mulher (má esposa; infiel...)
refere-se à justificação da violência conjugal pelo comportamento da mulher;
iii) o fator Legitimação da violência motivada por causas externas justifica
a violência através de fatores externos (álcool; desemprego); iv) por
último, o fator legitimação da violência pela preservação da privacidade
familiar desculpabiliza a violência pela proteção da intimidade familiar (A
violência conjugal é um assunto privado ) (Machado, Matos e Gonçalves, 2006).
Nesta amostra, após a análise fatorial, foram encontrados 3 fatores, não se
verificando a eliminação de nenhum item da escala mas apenas o rearranjo dos
fatores. O fator 1 é composto por 11 itens e refere-se à Legitimação e
banalização da pequena violência. O fator 2 é composto por 5 itens e refere-se
à Legitimação da violência pela conduta da mulher. O fator 3, composto por 9
itens, refere-se à Legitimação da violência motivada por causas externas e
preservação da privacidade familiar. Não há itens que apresentem carga
fatorial inferior a 0,30, pelo que a solução fatorial encontrada afigura-se
satisfatória, quer do ponto de vista estatístico, quer do ponto de vista do
significado. É esta escala que utilizamos no presente estudo.
Procedimentos
Este projeto de investigação foi submetido à apreciação da Comissão de Ética da
Unidade de Investigação em Ciências da Saúde - Enfermagem (UICISA-E) da Escola
Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC), obtendo parecer favorável.
Foi solicitada autorização a duas escolas Secundárias de Coimbra e, após obtida
autorização das respetivas Instituições e dos sujeitos que participaram no
estudo, foram aplicados os questionários de janeiro a abril de 2011. Foi
solicitada autorização (consentimento informado) aos pais e/ou estudantes
(quando maiores de 18 anos) para a participação e foi fornecida informação
prévia aos pais e aos estudantes sobre os objetivos desta recolha de opinião. A
participação foi voluntária e foram garantidos o anonimato e a
confidencialidade dos dados. A aplicação foi efetuada pela investigadora e
alguns professores que se disponibilizaram para colaborar.
Resultados
Para a confiabilidade da escala, procedeu-se à análise da consistência interna
através do cálculo do coeficiente alfa de Cronbach por ser considerada uma das
medidas mais usadas para verificação da consistência interna em escalas de tipo
Likert (Pestana e Gageiro, 2000). Os valores do coeficiente de alfa de Cronbach
são de 0,907 para o fator Legitimação e banalização da pequena violência, de
0,813 para o fator Legitimação da violência pela conduta da mulher e de 0,758
para o fator Legitimação da violência motivada por causas externas e
preservação da privacidade familiar. O alfa da escala no global (25 itens) é
de 0,922, (Quadro_1). Em todos os fatores, o valor de alfa não melhorava com a
extração de qualquer um dos itens.
Analisando os resultados relativamente à avaliação das crenças (Gráfico_1), e
procedendo à percentagem do somatório dos itens, verificamos que no geral os
estudantes inquiridos são discordantes com as crenças legitimadoras da
violência (68, 9%), com percentagem maior de respostas no Discordo totalmente
(40,40%). Contudo, encontrámos 19,30% das respostas no não concordo nem
discordo e 11,8% situadas no concordo e concordo totalmente.
A média score da ECVC é de 51,19, com um desvio padrão de 15,06 e valor mínimo
de 25 e máximo de 106. Relativamente às crenças e atitudes socioculturais
legitimadoras da violência nas relações de intimidade (Questão 1), os valores
mais elevados das respostas situaram-se no fator legitimação da violência
motivada por causas externas e preservação da privacidade familiar (21,02),
seguindo-se a Legitimação e banalização da pequena violência (20,88).
Quadro_2
No que se refere à Questão 2, se existem diferenças significativas nas crenças
acerca da violência nas relações de intimidade de acordo com o sexo dos
inquiridos, pela aplicação do teste T de diferença de médias para amostras
independentes, foram encontradas diferenças significativas entre os sexos,
tanto no ECVC global como em cada um dos três fatores, com valores superiores
de legitimação de violência nos inquiridos do sexo masculino.
Quadro_3
Discussão
A realização deste estudo apresenta algumas limitações, nomeadamente a amostra
utilizada ter sido por conveniência, abranger apenas uma determinada região do
país e tratar-se de um grupo específico de jovens dentro do sistema de ensino e
etapa de formação académica. Estas situações impossibilitam retirar
generalizações para a população juvenil portuguesa. Para além disso, tratando-
se de um estudo quantitativo, em que foram utilizados questionários, não foi
possível perceber e esclarecer questões relacionadas com o significado
atribuído às crenças e atitudes acerca da violência nas relações de intimidade.
Uma vez que o presente estudo se inscreve num projeto mais alargado, algumas
destas questões serão clarificadas noutra etapa da nossa investigação. No
entanto, apresenta algumas potencialidades no que diz respeito ao conhecimento
sobre as representações da juventude para equacionar a intervenção e a
prevenção no campo da saúde, mais concretamente, em enfermagem.
Pelos resultados, verificamos que os/as estudantes inquiridos/as são
discordantes com as crenças legitimadoras da violência, com percentagem maior
de respostas no item Discordo totalmente (40,40%). Contudo, encontramos ainda
11,8% das respostas situadas no concordo e concordo totalmente, o que parece
indicar que nesta amostra existe ainda uma percentagem considerável de jovens
que aprovam atitudes violentas nas relações de intimidade. No estudo de Mendes
e Cláudio (2010), os/as estudantes também demonstraram, no geral, discordância
relativamente à legitimação da violência conjugal, com 54% das respostas
situadas no Discordo totalmente e 30% no Discordo, e uma baixa frequência
de respostas como o Concordo (5%) e o Concordo totalmente (1%), que são
inferiores às verificadas neste estudo. De acordo com (Afonso, 2010), muitas
destas crenças que legitimam a violência ligam-se à desigualdade entre homens e
mulheres; os homens experimentam o direito ao controle dos membros da família,
com consentimento e aprovação de todos, mulheres, crianças e sociedade, sendo
estas ideias perpetuadas e transferidas com frequência pelos adultos de ambos
os sexos para as crianças quando as educam. Foram registadas 19,30% de
respostas no item não concordo nem discordo o que poderá revelar alguma
indiferença relativamente a este fenómeno, prevalecendo as representações
sociais que interpretam alguns comportamentos violentos como condutas habituais
numa relação. Estes resultados são superiores aos verificados no estudo de
Mendes e Cláudio (2010), referindo estes autores que estas respostas poderão
indicar algum desinteresse dos sujeitos face à violência, corroborando de
alguma forma a opinião de Machado (2010), quando refere que existe uma
tendência cultural para aceitar a violência como natural e comum, vivenciando
os atos agressivos como normais no quotidiano.
A média dos scores da ECVC foi de 51,19, apresentando valores próximos dos
encontrados no estudo de Caridade (2011), e revelando uma baixa tolerância aos
comportamentos violentos. Relativamente às crenças e atitudes socioculturais
legitimadoras da violência nas relações de intimidade, questão 1, os fatores de
legitimação com valores mais elevados de respostas situaram-se no fator
Legitimação da violência motivada por causas externas e preservação da
privacidade familiar, seguindo-se a Legitimação e banalização da pequena
violência. A desculpabilização da violência ligada a estes fatores pode
apontar para uma perceção deste tipo de comportamento que vai sendo construída
com base em determinados valores, onde a violência pode ser legitimada perante
algumas condutas da mulher; a privacidade no contexto das relações íntimas é um
fator que continua fortemente marcado; e para muitos jovens algumas atitudes
violentas são interpretadas como atos de amor. Estes resultados corroboram os
encontrados no estudo de Mendes e Cláudio (2010), que consideram a perceção das
atitudes violentas como sendo um comportamento aceitável, principalmente quando
são associadas a situações de ciúme. Esta perceção dificulta a conscientização
dos/as mais jovens para a gravidade deste tipo de condutas. Na investigação de
Caridade (2011), o fator com valores mais elevados foi Legitimação e
banalização da pequena violência, mas tendo em conta que nesta investigação o
fator Legitimação da violência motivada por causas externas e preservação da
privacidade familiar poderá corresponder na investigação desta autora aos
fatores Legitimação da violência pela sua atribuição a causas externas e
Legitimação da violência pela preservação da privacidade familiar, verificamos
que, nessa amostra, os valores relativos a estas condutas, quando analisados
conjuntamente, são também elevados. Estes dados vão de encontro à opinião de
Afonso (2010) quando refere que o conceito do lar surge como lugar
privilegiado de bem-estar e segurança da mulher representando um local privado,
onde a entrada de pessoas estranhas à família não deve ser permitida e em que
todos os problemas devem ser resolvidos pelos seus membros.
Relativamente aos resultados da questão 2 verificámos que existem diferenças
estatisticamente significativas entre os dois sexos, tanto no ECVC global como
em cada um dos três fatores, com valores superiores de legitimação de violência
nos inquiridos do sexo masculino. Os rapazes apresentam-se neste estudo como
mais permissivos relativamente aos comportamentos violentos, podendo indicar
uma interpretação de violência ligada a estereótipos de género, onde este tipo
de atitudes confere poder e domínio e representa o que é ser masculino. Também
nos estudos de Mendes e Cláudio (2010), de Caridade (2011) e de Afonso (2010),
foram encontrados resultados similares, sendo os sujeitos do sexo masculino os
que apresentaram atitudes mais tolerantes com as condutas violentas, tanto no
global como no que se refere a cada um dos fatores. No estudo de Ribeiro e Sani
(2008), os resultados mostraram equivalência no geral, na opinião acerca das
crenças em relação à violência, entre inquiridos/as de ambos os sexos, mas com
diferenças significativas nos fatores socioculturais, onde os rapazes aceitavam
mais este tipo de argumentos na justificação da violência.
Conclusão
Apesar das limitações referidas, os resultados encontrados permitiram
corroborar os resultados de outros estudos desenvolvidos acerca desta temática.
Verificamos que, na sua maioria (68,9%), os/as jovens inquiridos/as discordam
das crenças legitimadoras da violência, contudo, foram encontradas ainda
respostas de concordância (11,8%) relativas a este tipo de atitudes que
justificam as condutas violentas. Os valores mais elevados relacionados com a
justificação da violência pelas causas externas, como o álcool ou o desemprego,
e a preservação da privacidade familiar, continuam a indicar que, na perspetiva
dos/as inquiridos/as, se justifica a utilização dos comportamentos violentos
nas relações de intimidade, o que pode levar a uma desculpabilização do
agressor. Os resultados mostraram uma concordância maior dos indivíduos do sexo
masculino com as condutas violentas. Isto pode estar relacionado com os fatores
socioculturais, nomeadamente com as conceções mais tradicionais de socialização
do sexo masculino com resistência a comportamentos mais afetivos e emocionais e
com integração de papéis relacionados com força física e conflitos verbais para
mostrar que é forte, legitimando, assim, condutas de controlo e agressões na
intimidade.
Assim, consideramos importante o desenvolvimento de estudos acerca da violência
nas relações de intimidade, com diferentes metodologias que permitam não só
conhecer as crenças e atitudes dos jovens relativamente a este fenómeno, mas
implementar programas que promovam a aquisição de conhecimentos, identificar e
produzir mudanças nas crenças socioculturais relacionadas com a violência nas
relações de intimidade e promover o desenvolvimento de competências para gerir
situações de violência e relações saudáveis.
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O presente estudo está integrado no estudo de investigação para doutoramento em
Ciências de Enfermagem, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar
(ICBAS) e cujo projeto de investigação foi financiado pela Fundação para a
Ciência e Técnologia (FCT) através do Programa à formação avançada de docentes
do Ensino Superior Politécnico (PROTEC) com a referência PEst-OE/SAU/UI0742/
2011.
Recebido para publicação em: 10.09.12
Aceite para publicação em: 26.07.13