Criança em ambiente doméstico/ familiar: consenso quanto aos fatores de risco
de lesão não intencional
Introdução
No mundo, apesar de todo o avanço das sociedades, as lesões não intencionais
surgem nas principais causas de morte, constituindo uma realidade com efeitos
preocupantes a diferentes níveis, quer estatisticamente, como também a nível da
pessoa afetada, família e comunidade.
As crianças, pela curiosidade e interesse pelo ambiente que as rodeia,
características importantes para a aquisição e desenvolvimento de competências
promotoras de um crescimento saudável, tornam-se particularmente vulneráveis à
ocorrência de lesões (Silva & Santos, 2011).
O termo lesão não intencional, ao contrário do que ocorre com o termo acidente,
subentende a valorização das características previsíveis e capazes de serem
prevenidas e não acidentais das lesões. Como lesão não intencional entende-se
um incidente imprevisto no qual não houve intenção por uma pessoa de causar
lesão, lesão ou morte, mas que resultou em lesão (CICEL, 2004, p. 249).
Integram-se nos mecanismos de lesão não intencional as quedas, os afogamentos,
as intoxicações, as queimaduras, a asfixia, os cortes e a eletrocussão.
Habitualmente encontra-se na literatura a designação de acidentes domésticos
relativos às lesões que ocorrem em ambiente ou espaço doméstico. Todavia, a
prevenção das lesões em ambiente doméstico ultrapassa a aplicação de
determinadas intervenções, centra-se na gestão e promoção da segurança, que
inclui conhecer e trabalhar com conflitos, comportamentos e crenças, inerentes
às interações entre as pessoas num ambiente dinâmico, como a casa (Simpson,
McGee, & Fougere, 2010).
A segurança constitui um recurso essencial ao desenvolvimento da pessoa, pois
consiste num estado em que os riscos e as condições potenciadores de risco são
controlados, tendo como objetivo preservar a saúde e aumentar o bem-estar dos
indivíduos e das comunidades (Mohan & Tiwari, 2000).
As lesões não intencionais constituem um fenómeno complexo, multicausal, no
qual interage uma multiplicidade de fatores, provenientes de diferentes
dimensões, de acordo com o paradigma socio ecológico.
Atendendo ao fenómeno das lesões como multifatorial, exigindo a interligação
entre diferentes disciplinas e a combinação de esforços, considerou-se
facilitador a organização dos diferentes fatores em quatro dimensões: criança,
cuidador principal/ família, comportamentos de risco e ambiente, como mostra a
Figura_1.
Os fatores presentes na Figura_1 têm sido, de facto, utilizados na literatura
como importantes para a melhor compreensão da problemática das lesões. Ainda
assim, fazendo uma pesquisa nas bases de dados integradas na b-on®, EBSCOhost®
e PubMed®, bem como nos motores de busca Google® e Google Scholar®, verificou-
se que, embora existam estudos que refiram os fatores de risco de lesão não
intencional em crianças e refiram exemplos de boas práticas, não foi encontrado
nenhum instrumento de medição de risco de lesão não intencional em ambiente
doméstico/familiar nas crianças até aos quatro anos.
Parece, deste modo, existir uma lacuna nesta área, originando uma oportunidade
de desenvolvimento, capaz de objetivar os fatores de risco a que as crianças
estão expostas, que sirva de base ao planeamento de cuidados à criança e
família, assim como à criação de outras medidas promotoras da segurança da
população.
De facto, conhecer os fatores de risco e analisar a sua influência no contexto
das lesões não intencionais parece ser o caminho necessário a percorrer para
uma maior limitação do problema e para a criação de estratégias eficazes
promotoras da segurança das crianças e suas famílias. Este estudo de
investigação tem como finalidade identificar os fatores de risco de lesão não
intencional em ambiente doméstico/familiar nas crianças até aos quatro anos,
para construir um instrumento que possa medir esse risco.
Metodologia
Nas lesões não intencionais, interagem múltiplos fatores, pelo que a sua
abordagem deve contemplar esta característica, facto já sobejamente referido.
Visando a construção de um instrumento de medição de risco de lesão não
intencional em ambiente doméstico/ familiar em crianças até aos quatro anos e a
validação de conteúdo do mesmo, optou-se por recorrer ao painel de Delphi, cujo
objetivo é chegar a consenso, através de um processo grupal e interativo,
acerca de um assunto complexo (Sousa, Frade, & Mendonça, 2005).
O desenho da metodologia do painel Delphi encontra-se representado na Figura_2.
O painel de Delphi consiste numa técnica qualitativa de investigação com
premissas a cumprir ao longo do processo: o anonimato dos respondentes, o
feedback, pois os resultados de cada ronda do painel são devolvidos ao grupo,
como resposta coletiva, de modo a validarem as respostas e prepararem-se para a
ronda seguinte; a representação estatística da distribuição dos resultados
dados pelo grupo, uma vez que as respostas são estatisticamente sumarizadas e
devolvidas a ele; a interação, já que esta técnica envolve a comunicação entre
investigador e grupo de peritos, realizada através das respostas aos
questionários enviados; e a especialidade de cada um dos peritos, constituindo
a sua seleção um aspeto fundamental para o sucesso desta técnica.
No estudo, incluiu-se no painel de peritos pessoas cujo saber e educação num
dado campo é reconhecida, tanto na perspetiva científica, no sentido mais lato
do termo, e convencionalmente adquirida no ensino superior; como na prática,
acumulada ao longo da sua experiência profissional (Nunes, 2010, p. 3).
Definiram-se, deste modo, os seguintes critérios de inclusão no grupo de
peritos: Profissionais de saúde, nomeadamente enfermeiros e médicos, que
desempenham funções no departamento de pediatria dos hospitais ou no contexto
dos cuidados de saúde primários, no âmbito do programa da criança e jovem,
reconhecidos como especialistas na área pelos pares; Investigadores com
trabalhos realizados na área; Profissionais e representantes de organizações
que tenham realizado trabalhos relevantes acerca da temática das lesões nas
crianças; Pais de crianças até aos 4 anos.
O facto de os peritos serem oriundos de diferentes áreas geográficas do país,
conduziu ao desenvolvimento desta técnica recorrendo aos questionários enviados
por correio eletrónico que não exigem limitações geo-gráficas para a
seleção dos peritos, permitindo a participação de grupos maiores de pessoas que
os grupos focais (Silva, Rodrigues, Silva & Witt, 2009, p. 349).
Em relação aos peritos a integrar o painel, de acordo com a pesquisa efetuada,
constatou-se que não havia uniformidade em relação ao número de peritos.
Constituiu-se, assim, uma amostra não probabilística intencional, visando que o
grupo ficasse representado pelo pensamento mais recente na área (Streiner
& Norman, 2008, p. 23). No total, foram enviados convites de colaboração a
34 pessoas, entre profissionais de saúde, professores do ensino superior,
investigadores, representantes de organizações de referência no domínio das
lesões e pais de crianças até aos 4 anos, tendo sido aceites 24 participações.
Foram cumpridos os requisitos éticos relativos ao correto desenvolvimento do
método.
Resultados
A primeira ronda do painel Delphi inicia-se, habitualmente, por um conjunto de
questões de resposta aberta. Contudo, optou-se por apresentar aos peritos os
resultados da revisão de literatura previamente realizada, dando sempre
oportunidade, obviamente, para serem integrados novos fatores de risco
previamente não contemplados. Esta opção encontra-se relacionada com o facto de
existirem diversos estudos e documentos publicados acerca da problemática em
estudo. Assim, a primeira ronda procurou conhecer o nível de concordância que
os peritos atribuíam, relativamente aos diversos fatores de risco de lesão não
intencional em ambiente doméstico/ familiar em crianças até aos 4 anos, assim
como averiguar a necessidade de ser acrescentado algum outro fator de risco. Na
primeira ronda do painel de peritos solicitou-se ao grupo que avaliasse a
concordância dos diferentes itens incluídos no questionário, numa escala de
Likert de quatro pontos que variava entre o muito em desacordo e o muito em
acordo. Os dados resultantes da aplicação da escala foram trabalhados tendo em
conta os critérios de concordância previamente definidos (Tabela_1).
Foram, então, aplicados os critérios anteriormente referidos a cada um dos 75
itens que integravam o primeiro questionário do painel Delphi e analisados os
resultados de modo a ser possível sintetiza-los, devolvê-los aos peritos e
manter a continuidade do processo através de rondas consecutivas até obter-se a
concordância relativa a todos os itens.
A primeira ronda do painel de peritos decorreu no mês de junho de 2011 e contou
com a participação de 15 peritos, o que corresponde a uma taxa de resposta de
62,5%, relativamente ao total de peritos que aceitaram previamente integrar o
grupo de especialistas. Dos 15 peritos respondentes ao primeiro questionário,
treze eram profissionais na área de estudo e dois eram cuidadores de crianças
até aos quatro anos. Em relação aos 13 peritos da área que participaram na
primeira ronda, 12 eram do género feminino (92%). A média das idades foi de 43
anos (mínimo de 27 anos e máximo de 58 anos) e a experiência profissional média
foi de 22 anos, dos quais, em média, 14 anos são na área da saúde infantil e
pediátrica. Quanto à categoria profissional, um perito era professor
catedrático, cinco eram docentes de enfermagem, outros cinco eram enfermeiros e
dois eram médicos. Tendo em conta as habilitações académicas e profissionais, o
grupo era bastante qualificado, com mais de 92% dos profissionais com
habilitações de nível superior ou igual aos estudos pós-graduados, 15% dos
quais doutorados. Cerca de 62% dos peritos na área de estudo afirmaram ter
trabalhos realizados na área em que se insere o nosso estudo. No que respeita
aos cuidadores de crianças, um era do género feminino e o outro de género
masculino; ambos eram licenciados e tinham filhos com idades até aos quatro
anos de idade.
De acordo com os resultados obtidos, cerca de 65% dos itens obtiveram
concordância logo na primeira ronda, a maioria dos quais obteve concordância
elevada, ficando 35% dos itens por atingir concordância nas fases subsequentes.
Todos os itens que envolveram a relação entre a idade da criança e o risco de
lesão não intencional, assim como o tipo de supervisão, a importância da
relação entre a criança e o cuidador e grande parte dos comportamentos de
risco, obtiveram percentagens de concordância que lhes permitiram a inclusão
direta no instrumento de medição de risco. Os itens que não obtiveram
concordância na primeira ronda são os descritos na Tabela_2.
A segunda ronda do painel de peritos visou encontrar a concordância dos itens
que não o obtiveram na primeira ronda e, simultaneamente, iniciar a organização
dos itens consensualizados na ronda anterior. Assim, foram utilizados os
critérios de consenso referidos na Tabela_2 e analisados os dados
separadamente, distinguindo os itens cuja concordância ainda não tinha sido
alcançado e, numa outra parte, os itens que tinham recebido o concordância dos
peritos. Para este último grupo, codificou-se a pontuação atribuída pelos
peritos e as respostas foram priorizadas, para que a atribuição numérica
refletisse a contribuição relativa a cada alternativa de resposta e item para o
risco de lesão não intencional em ambiente doméstico/ familiar, em crianças até
aos 4 anos.
Nesta ronda, que decorreu na segunda quinzena do mês de julho de 2011,
participaram 23 peritos (cerca de 96% de adesão), dos quais 17 eram
profissionais peritos na área problemática e os restantes 6 cuidadores de
crianças até aos quatro anos.
Em continuidade com o anteriormente referido, optou-se por apresentar os
resultados por dimensão, uma vez que mais de 90% dos peritos concordaram com
esta forma de organização dos itens. A Tabela_3 integra os itens que obtiveram
concordância por parte dos especialistas.
Como já referido, numa fase seguinte foi solicitado aos peritos que
posicionassem cada uma das dimensões, relativamente ao nível de prioridade. De
acordo com os peritos, a dimensão com menor relevância foi a relativa ao
ambiente e a dos comportamentos de risco foi a que obteve maior atenção por
parte dos especialistas. As dimensões referentes à criança e aos cuidadores
principais/ família obtiveram resultados similares, e discretamente abaixo, em
termos de prioridade, à dimensão dos comportamentos de risco.
A terceira ronda do painel Delphi decorreu na segunda quinzena do mês de
setembro de 2011 e objetivou a avaliação do nível de concordância dos peritos
em relação à compreensão e clareza das questões, bem como ao critério e cotação
atribuída a cada um dos itens, tendo em conta as respostas dos peritos nas duas
rondas. Nesta ronda a adesão foi de cerca de 80% dos participantes, tendo
respondido ao questionário 19 peritos, entre cuidadores de crianças até aos
quatro anos e profissionais peritos na área problemática.
No que respeita à dimensão criança, todos os itens obtiveram entre 89 a 100% de
concordância relativamente à clareza e compreensão. De facto, a grande maioria
dos itens obteve níveis de concordância iguais ou superiores a 95%, indicativos
de que cada item estava escrito corretamente, não sendo gerador de dificuldades
de compreensão. Relativamente aos critérios e cotações integradas em cada item,
os valores de concordância em pleno (score 1 = adequado) variaram entre os 79 e
os 100%. O item que obteve o valor mais baixo de concordância (79%) estava
relacionado com o risco de lesão não intencional em função da idade da criança,
tendo em conta os intervalos etários escolhidos.
Relativamente à dimensão cuidador principal/ família, no que respeita à clareza
e compreensão das questões, as respostas variaram entre os 74% e os 100%
realçando a clareza dos itens, sendo que o item com cerca de 74% foi o que
avaliava o contexto socioeconómico e cultural.
Relativamente à dimensão comportamentos de risco, todos os itens receberam
classificações superiores a 95% na cotação, o que descreve os itens como claros
e compreensíveis. A exceção a esta classificação foi o item relativo à queda.
De acordo com os comentários dos peritos, a dificuldade sentida foi relativa à
compreensão da designação sistemas de retenção, o que foi posteriormente tido
em consideração.
Por fim, na dimensão ambiente, a clareza e compreensão dos itens foi
inequívoca, sempre com classificações superiores a 89%, no score 1, tendo sido
apenas sugerido clarificar a designação sistemas de proteção, por ser um
conceito muito abrangente.
Discussão
A opinião dos especialistas conduziu à consolidação e desenvolvimento da
representação inicial do conceito de lesões não intencionais na infância
(Figura_1), da multiplicidade de fatores envolvidos e das diferentes dimensões
que encontram-se interligadas, como mostra a Figura_3.
Realizando uma análise comparativa entre as figuras que retratam os fatores que
influenciam o risco de lesão não intencional na criança encontrados na revisão
de literatura (Figura_1) e os fatores resultantes do Painel Delphi (Figura_3),
releva-se que mantiveram-se as quatro dimensões seguintes: criança, cuidador
principal/ família, comportamentos de risco e ambiente. Desta forma, o Painel
Delphi contribuiu para especificar melhor cada um dos itens que integram cada
dimensão, bem como para clarificar conceitos complexos.
Ainda que a problemática das lesões deva ser vista, analisada e compreendida
como um fenómeno multidimensional, optou-se por analisar e discutir os dados
resultantes do painel de peritos por dimensão, de modo a facilitar a
compreensão dos mesmos.
Assim, no que diz respeito à dimensão criança, ficou clara a opinião dos
especialistas relativamente à influência da idade e desenvolvimento da criança
e a ocorrência de lesão. Estas duas variáveis, idade e desenvolvimento,
caminham juntas na procura pela explicação da sua influência nas lesões não
intencionais. Releve-se que até aos quatro anos são muitas as alterações na
criança, a múltiplos níveis, o que as coloca, por vezes, em situação de risco,
pois as crianças primariamente aprendem a manusear os objetos ou interagem com
o ambiente tendo em conta as respostas que os mesmos lhes vão oferecendo, pelo
que se constitui como importante o acompanhamento e supervisão dos cuidadores
(Cordovil, 2010; Morrongiello, Schmidt, & Schell, 2010).
Ficou também evidente a importância que os peritos atribuem a condições
relativas à própria criança. De acordo com eles, crianças com algum tipo de
incapacidade, epilepsia ou transtorno de défice de atenção/ hiperatividade, são
mais propensas a lesões comparativamente a crianças que não apresentam estas
condições. No que diz respeito à presença de epilepsia na criança, a literatura
refere que de facto esta condição aumenta a probabilidade de lesões não
intencionais, nomeadamente através do mecanismo de lesão afogamento (Brenner,
Saluja, & Smith, 2003).
A relação entre a presença de transtorno de défice de atenção/ hiperatividade e
a ocorrência de lesões, ainda que pouco estudada na literatura, tem vindo a
demonstrar que crianças com este tipo de transtorno têm mais comportamentos de
risco relativamente às restantes crianças (Garzon, Huang, & Todd, 2008).
Em relação à dimensão cuidador principal/ família, a análise das respostas
verificou a presença de consenso perfeito relativamente ao tipo de supervisão.
De facto, tratando-se de crianças com idades até aos quatro anos, com elevado
grau de dependência dos seus cuidadores, a responsabilidade atribuída aos
cuidadores é grande. Deste modo, quando os cuidadores não supervisionam ou
fazem-no de uma forma inadequada, o risco de ocorrência de lesão não
intencional aumenta, o que de resto é bastante evidenciado pela literatura
contemporânea já referida anteriormente. Os cuidadores deverão, igualmente,
atuar em sintonia com o comportamento da criança, o que o permitirá modelar e
adequar, em parte, o tipo de supervisão necessário e ajustado à criança de quem
cuidam (Morrongiello, Klemencic, & Corbett, 2008).
A idade materna aquando o nascimento da criança constituiu outro fator
relevante; segundo os especialistas, há concordância em que as crianças filhas
de mães adolescentes terem maior risco de lesão não intencional. O consumo
frequente de álcool e outras substâncias pelo cuidador foram igualmente
associados a um maior risco de lesão na infância.
Da análise resultou a clarificação da influência de algumas características
socioeconómicas na problemática das lesões como referimos anteriormente no
enquadramento teórico (Chaudhari, Srivastava, Moitra, & Desai, 2009;
Mirkazemi & Kar, 2009; Atak, Karaoglu, Korkmaz, & Usubütün, 2010). As
habilitações literárias dos cuidadores, o nível socioeconómico e a residência
numa área desfavorável, tendo em conta a opinião dos peritos, afetam o risco de
lesão não intencional, colocando em maior risco as crianças que provém de
famílias com menores habilitações literárias, de níveis socioeconómicos mais
baixos e que residem em áreas mais desfavoráveis.
No que respeita à dimensão comportamentos de risco, constatou-se que os
comportamentos de risco não levantaram grandes questões aos peritos,
provavelmente por serem mais conhecidos e fazerem parte de algumas ações e
campanhas mediáticas relativas à temática da prevenção de lesões. A relação
entre a incapacidade de perceção e identificação de riscos presentes no
ambiente, por parte dos cuidadores, e a maior propensão ao risco de lesão não
intencional nas crianças até aos quatro anos, foi clara de acordo com os
especialistas. Esta análise vai ao encontro de outros autores que referem que
durante o processo de descobrir o mundo, a criança envolve-se, por vezes, em
situações de risco (Cordovil, 2010, p. 20). Porém, nomeadamente nas idades em
que a maioria dos ambientes são selecionados e geridos pelos adultos, é
fundamental conhecer a perceção de risco que os cuidadores têm relativamente a
determinado ambiente, o que nos transporta, posteriormente, para a necessidade
dos profissionais de saúde trabalharem com os pais em que medida poderão
acautelar o ambiente, otimizando a sua segurança, mas não lhe retirando os
estímulos, nem inibindo a curiosidade e atividade, características importantes
da criança.
Por fim, no que respeita à dimensão ambiente, o espaço casa e a forma como o
mesmo se encontra organizado, assim como a adequação dos sistemas de proteção
em relação aos riscos presentes no mesmo, constituíram as principais causas de
ocorrência de lesões não intencionais na opinião dos especialistas.
Ainda que, habitualmente, se considere a casa como um local seguro (Sikron,
Giveon, Aharonson-Daniel, & Peleq, 2004), a mesma constitui o cenário mais
frequente de lesões não intencionais nas crianças até aos quatro anos de idade.
De facto, em todas as habitações existem riscos para as crianças, já que
diversos fatores do ambiente físico, assim como variados equipamentos presentes
no mesmo, têm sido relacionados com as lesões na infância (Munro, Van Niekerk,
& Seedat, 2006). Outra característica relativa à ocorrência de lesões na
infância deve-se ao facto de que para além do ambiente, também neste caso a
criança está em constante mudança, tendo por base o seu desenvolvimento.
Compete também para a problemática em estudo, o facto de existirem situações
decorrentes da lesão que são, de alguma forma, facilitadas pelas
características comuns às crianças, de acordo com a sua etapa de
desenvolvimento, para além dos comportamentos, por vezes inadequados, que se
observam nos seus cuidadores (Souza, Rodrigues, & Barroso, 2000).
Conclusão
O painel Delphi teve como objetivo reunir o consenso de peritos acerca dos
fatores que de acordo com a opinião e conhecimento dos especialistas
influenciam o risco de lesão não intencional em ambiente doméstico/ familiar em
crianças até aos quatro anos. A escolha inicial dos fatores foi elaborada a
partir dos resultados da literatura acerca da problemática e, a partir daí
procedeu-se à organização dos fatores de risco em quatro dimensões: criança,
cuidador principal/ família, comportamentos de risco e ambiente, organização
que contou com a concordância dos peritos. A partir desses fatores de risco
iniciais e de outros acrescentados pelos peritos, foram sendo analisadas as
percentagens de concordância de inclusão ou exclusão de cada um dos fatores de
risco até se obter consenso, o que foi conseguido ao fim de três rondas.
Pese embora o contributo do estudo descrito, existem algumas limitações
inerentes à metodologia utilizada, para as quais procuraram-se estratégias para
minimizar os seus efeitos. Uma das limitações refere-se à composição dos
elementos que constituíram o painel de especialistas, a qual pode não ser
representativa, dado que os resultados refletem a sua opinião. Para além desta
limitação, considera-se que a metodologia adotada, tendo como objetivo alcançar
o consenso, pode conduzir à eliminação de posições extremas, mediante os
critérios de consenso previamente estabelecidos.
Porém, o rigor na escolha dos elementos que compuseram o painel de peritos e a
confrontação dos resultados que iam sendo gerados com os resultados da revisão
de literatura previamente realizada, foram garantindo a correta prossecução do
painel Delphi.
Com este estudo surgem, assim, potenciais campos de investigação, na medida em
que os fatores resultantes do painel poderão ser contemplados na construção de
um instrumento de medição de risco de lesão não intencional em ambiente
doméstico/ familiar em crianças até aos quatro anos e contribuir para a melhor
compreensão desta problemática, no sentido de serem implementadas estratégias
eficazes na redução do impacto e incidência das lesões não intencionais durante
a infância.