Necessidades do cuidador familiar no cuidado à pessoa dependente: uma revisão
integrativa da literatura
Introdução
O envelhecimento populacional é uma evidência atual, com sérias consequências
para a sociedade. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (2012), no
recenseamento de 2011, denota-se um agravamento deste envelhecimento que se
fica a dever à melhoria dos cuidados de saúde, refletido no aumento da
esperança média de vida das pessoas, mas também devido ao aumento da incidência
das doenças crónicas e/ou incapacitantes. Isto evidencia o aumento do topo da
pirâmide etária e, associado a este, uma diminuição da base da mesma, resultado
da diminuição da taxa da natalidade (Carrilho & Patrício, 2008). A
diminuição das capacidades, natural com o avançar do ciclo vital e o aumento
das doenças crónicas conduzem a uma perda de autonomia e aumento da dependência
de terceiros para a satisfação das mais elementares necessidades diárias e
manutenção da qualidade de vida (Sequeira, 2010).
A prestação destes cuidados pode ser extremamente desgastante e, normalmente,
acarreta um aumento do stress e da sobrecarga por parte de quem os exerce. Por
outro lado, os cuidadores enfrentam um conjunto de desafios constantes, pelo
que necessitam de se organizar e preparar adequadamente, para assim a
vivenciarem de forma saudável a transição para este novo papel. Neste sentido,
torna-se importante a coordenação com os profissionais de saúde, designadamente
os enfermeiros, para satisfazerem as suas necessidades, manterem o adequado
nível de saúde e bem-estar e, de igual modo, garantirem a continuidade nos
cuidados prestados à pessoa dependente.
Agente facilitador desta continuidade é a rede de cuidados continuados, que
pode ser um importante apoio para estes cuidadores, quando se articula
devidamente com os diferentes serviços de saúde. No nosso país, os cuidados
continuados são constituídos por uma rede de apoio formal e uma de apoio
informal (Martins, 2008). O papel de membro da família prestador de cuidados ou
cuidador familiar é fundamental e de extrema importância na rede de apoio
informal, pois tem como objetivo assegurar a continuidade dos cuidados ao seu
familiar dependente. Neste âmbito, considera-se o cuidado informal todo aquele
que não é remunerado, prestado de modo parcial ou integral, à pessoa com
dependência, por pessoas pertencentes, em geral, à rede familiar (Sarmento,
Pinto, & Monteiro, 2010). O cuidado informal pode ser assumido por amigos,
vizinhos ou outros mas, normalmente, é a família que assume a responsabilidade
da organização ou assistência e prestação de cuidados.
A família desempenha, desde os tempos mais remotos, um importante papel para a
pessoa, pelo que é considerada um sistema social primário, dentro do qual o
indivíduo é cuidado e se desenvolve a nível físico, pessoal e emocional
(Sarmento et al., 2010). Neste contexto, desempenha, desde há muito, uma função
essencial no acompanhamento e apoio aos membros incapacitados e dependentes de
terceiros, por doença ou velhice, constituindo-se como o grupo primário de
apoio e tendo um papel primordial no cuidado a longo prazo (Sequeira, 2010).
Quando a família é confrontada com a necessidade de cuidar de um dos seus
elementos que manifeste dependência nas suas atividades diárias, o que acontece
frequentemente, as tarefas que advêm da atividade de cuidar não são
distribuídas equitativamente por todos os seus elementos. A prestação de
cuidados é um processo árduo, complexo e dinâmico, caracterizado por constantes
variações ao longo do tempo, tanto nas necessidades como nos sentimentos de
quem presta os cuidados e os recebe (Sarmento et al., 2010). Cuidar de uma
pessoa dependente pode traduzir-se num trabalho desgastante e exigente, tanto
do ponto de vista físico como afetivo, pelo que requer uma grande
disponibilidade de tempo e energia. O papel de cuidador informal é,
maioritariamente assumido por familiares, pelo que é compreensível designá-lo
por cuidador familiar ou membro da família prestador de cuidados, responsável
pela prevenção ou tratamento da doença ou incapacidade e organização de
prestação de cuidados (International Council of Nursing, 2011). Os cuidadores
familiares são, geralmente, mulheres, solteiras, domésticas ou desempregadas e
que coabitam com a pessoa dependente.
Ao iniciar o desempenho destas novas funções, ocorre uma transição para o novo
papel de cuidador familiar que, para além de ser um processo complexo, envolve
inúmeras variáveis com influência mútua entre si e, consequentemente, com
valores preditivos diferentes, em função de todas as que estão envolvidas,
designadamente do cuidador, da pessoa dependente, do contexto e do ambiente em
que se desenvolve a prestação de cuidados (Sequeira, 2010). Tratando-se de uma
transição entendemos que, para o melhor entendimento deste processo e do modo
como afeta os cuidadores familiares, é uma mais-valia o recurso a uma teoria de
médio alcance, mais especificamente, a Teoria das Transições de Meleis.
Segundo esta teoria, a transição é caraterizada por diferentes etapas
dinâmicas, marcos e pontos de viragem e pode ser definida através dos
indicadores de processo e dos resultados finais (Meleis, 2010), sendo entendida
como a passagem entre duas fases da vida, ou de um estado para outro, pelo que
se espera alcançar a adequada adaptação ao novo papel e/ou situação. É,
portanto, um conceito múltiplo que contém os elementos do processo, intervalo
de tempo e perceção (Chick & Meleis, 2010). Neste pressuposto existem
fatores que podem funcionar como facilitadores ou inibidores de uma transição
eficaz, tais como os conhecimentos e capacidades, o significado pessoal, as
crenças e atitudes, a condição socioeconómica e os recursos comunitários e
sociais disponíveis. Assim, as respostas dos cuidadores a todo este processo, o
seu envolvimento, a confiança evidenciada e as estratégias de coping a que
estes recorrem são indicadores de processo, que se esperam adequados, para que
os indicadores de resultado (mestria e integração do novo papel) sejam os mais
eficientes e saudáveis possíveis. Segundo a Teoria das Transições, os
cuidadores familiares experienciam uma transição do tipo situacional
(Schumacher & Meleis, 2010). Este tipo de transição inclui situações
inesperadas que ocorrem na vida da pessoa e requerem uma redefinição dos seus
papéis e/ou integração de novos.
A transição está presente em diferentes domínios, entre os quais os cuidados de
saúde. Neste âmbito, os enfermeiros são profissionais de saúde que, devido à
sua atividade e à proximidade com as pessoas, lidam frequentemente com diversos
processos de transição em contextos distintos e são, em inúmeras ocasiões, os
principais cuidadores das pessoas em transição. Deste modo, assistem às
mudanças e exigências que advêm das necessidades dos familiares na atividade de
prestar cuidados e na assunção do papel de cuidador sendo, neste domínio, os
profissionais de saúde que os prepararam para esta nova etapa, promovendo e
incentivando a aquisição de novos conhecimentos e aprendizagem de habilidades e
capacidades relacionadas com a situação vivenciada, para facilitarem todo o
processo e facultarem uma melhor adaptação (Meleis, 2010).
Durante esta transição e considerando um conjunto de variáveis inerentes à
prestação de cuidados, designadamente os seus recursos pessoais e sociais,
capacidades, conhecimentos e a sua disponibilidade, os cuidadores familiares
evidenciam um conjunto de necessidades, as quais devem ser focos privilegiados
da atenção e ação interventiva dos enfermeiros. Estes profissionais devem então
orientar as suas intervenções no sentido de satisfazer devidamente estas mesmas
necessidades e, desta forma, obterem os ganhos para a saúde desejados e o bem-
estar dos cuidadores.
Em suma, não só é importante o estabelecimento de parcerias entre cuidadores
formais e informais, como também o planeamento de intervenções contextualizadas
que visem facilitar e melhorar a qualidade dos cuidados prestados.
A prestação de cuidados e as consequências que advêm desta atividade tem sido
alvo de estudo por parte de vários investigadores, pelas repercussões
individuais, familiares e sociais que resultam deste. Assim, num estudo
realizado por Sequeira (2010), este realça que os cuidadores se deparam com
dificuldades a nível dos problemas relacionais, das restrições sociais, das
reações ao cuidar e do apoio familiar. Cruz, Loureiro, Silva, e Fernandes
(2010), numa revisão sobre as vivências do cuidador informal do idoso
dependente, realça as dificuldades manifestadas por estes, designadamente:
exigência do cuidado, insuficiência das respostas formais e informais,
problemas financeiros e restrições sociais. Estas dificuldades, quando não são
satisfeitas, podem traduzir-se em consequências nefastas para os cuidadores,
designadamente, ansiedade, stress e/ou sobrecarga, com consequências para os
próprios, família e sociedade.
Com esta revisão da literatura pretendemos identificar e categorizar as
necessidades mais evidenciadas pelos cuidadores familiares, emergentes do
conhecimento científico produzido.
Com o objetivo de sintetizar o conhecimento atual sobre a temática, elaborou-se
a seguinte questão de investigação: Quais as principais necessidades do
cuidador familiar na transição para a prestação de cuidados à pessoa com
dependência, evidenciadas pela literatura?
Procedimentos Metodológicos de Revisão Integrativa
Tendo por base a questão de investigação supra mencionada e, tendo em
consideração os conhecimentos que se pretendia sintetizar, realizou-se uma
revisão da literatura, segundo os descritores: Caregiver, Family Caregivers,
Needs, Dependent. Utilizaram-se os carateres boleanos and e or para conjugar os
diferentes descritores.
Os trabalhos encontrados foram classificados mediante o nível de evidência
demonstrada, tendo sido classificados segundo a classificação proposta por
Lewin, Singleton, e Jacobs (2008).
A pesquisa bibliográfica foi realizada entre abril e junho de 2011. Foram
selecionados trabalhos publicados entre janeiro 2000 e junho de 2011,
utilizando o inglês como idioma de eleição. Para o efeito, recorreu-se à
pesquisa em bases de dados eletrónicas, nacionais e internacionais, com o
recurso a motores de busca específicos, nas bases de dados disponíveis na área
da saúde, designadamente a EBSCO [Cinahl, Medline, Mediclatina, ERIC,
Psychology and Behavioral Sciences Collection, Cochrane Central Register of
Controlled Trials, Database of Abstracts of Reviews of Effects, Cochrane
Database of Systematic Reviews, Health Tecnology Assessments e Cochorane
Methodology Register] e B-on [Annual Reviews, Current Contents (ISI), Elsevier
' Science Direct (Freedom Collection), Nature, PubMed, RCAAP, SpringerLink
(Springer/Kluwer), Taylor & Francis, Web of Science (ISI) e Wiley Online
Library (Wiley)], sendo que a base de dados Academic Search Complete foi
pesquisada por duas ocasiões, através de ambos os motores de busca.
Foram incluídos trabalhos científicos que abordavam cuidadores familiares com
idade superior a 18 anos, que cuidavam de pessoas com dependência no
autocuidado no domicílio, com alusão às suas necessidades, no âmbito dos
cuidados continuados. Utilizamos como critério de exclusão todos os trabalhos
cuja temática fosse centrada nos cuidadores formais, nos cuidadores familiares
com menos de 18 anos e cuidados prestados a nível institucional e/ou outras
temáticas.
Inicialmente foi realizado o levantamento das necessidades mais evidenciadas na
literatura científica através de, primeiramente, da leitura do título, seguido
da leitura do resumo e, finalmente, numa fase mais adiantada da seleção dos
trabalhos, da leitura integral do artigo selecionados. As necessidades
realçadas pelos diversos autores foram agrupadas em categorias, elaboradas
segundo a Teoria das Transições.
Resultados e Interpretação
Das quinhentas e dezasseis produções científicas obtidas inicialmente e
considerando os critérios de inclusão e exclusão previamente definidos,
obtivemos um conjunto de vinte e um artigos que se apresentam na Tabela_1 e que
foram analisados criteriosamente, de modo a percecionar as principais
necessidades demonstradas pelo cuidador.
Esta revisão é composta por 10 estudos quantitativos, 5 qualitativos, 4
revisões sistemáticas da literatura, 1 revisão da literatura e 1 estudo misto.
Tendo em consideração o nível de evidência, podemos salientar que 5 dos artigos
se enquadram no nível V, 9 no nível IV, 3 no nível III e IV são do nível de
evidência mais elevado, nível I.
Tendo em consideração a transição inerente à integração do papel de cuidador
familiar, a identificação das necessidades mais evidenciadas por estes, no
desempenho desta atividade e o seu correto diagnóstico pode ser, de certo modo,
um ponto de viragem em todo o processo de transição. Desta forma, as
necessidades podem ser consideradas como fatores inibidores e/ ou
facilitadores, em parte devido ao modo como são vivenciadas/experienciadas,
diagnosticadas e satisfeitas/suprimidas. Com um conjunto de intervenções de
enfermagem devidamente planeadas, concertadas e eficazes, pretende-se que estas
necessidades sejam satisfeitas de modo a que, no final, se obtenha um conjunto
de indicadores de resultados positivos, designadamente a mestria e a integração
fluida do novo papel. Se a necessidade for um fator inibidor ao qual o
enfermeiro esteja atento e intervenha, este pode deixar de existir com as
corretas intervenções e o cuidador continua na sua transição situacional
saudável com a aquisição das competências necessárias.
Este trabalho permite evidenciar as necessidades manifestadas com maior
frequência na literatura científica, no sentido de facultar uma orientação
possível para a prática de enfermagem com maior qualidade e eficiência, com
planos de cuidados individualizados, contextualizados e direcionados para os
cuidadores e, neste sentido, promover o seu bem estar e melhorar os cuidados
que prestam à pessoa dependente. Os cuidadores familiares são parceiros
extremamente importantes para garantir a continuidade de cuidados
imprescindíveis para a pessoa dependente, pelo que os enfermeiros devem ter uma
especial atenção para garantir a manutenção eficaz desta parceria.
Tal como é realçado na análise desta revisão da literatura, as necessidades dos
cuidadores familiares demonstradas mais frequentemente são diversificadas.
Assim, e tendo em consideração o assumir de um novo papel e as mudanças que são
operadas, consideramos pertinente agrupar as mesmas à luz da Teoria das
Transições, como fatores facilitadores ou dificultadores da transição (recursos
comunitários e sociais, conhecimentos e aprendizagem de habilidades,
significado pessoal, crenças e atitudes e, por último, condição socieconómica)
do novo papel de prestação de cuidados e a sua continuidade, os quais
abordaremos de seguida.
Recursos Comunitários e Sociais
A necessidade de apoio familiar e social é uma das mais salientadas pelos
diferentes autores, pelo que o apoio para colmatar esta necessidade pode ser
considerado uma condição facilitadora em todo o processo.
A família é determinante em toda a transição para o papel de cuidador familiar,
pois desempenha uma importante função em todo o processo. Um bom relacionamento
familiar, tanto entre familiares, como entre cuidador e pessoa dependente, é um
dos aspetos mais evidentes nos trabalhos incluídos nesta revisão, pois promove
o estabelecimento de uma rede de apoio adequado e necessário no seio familiar
(Francis, Bowman, Kypriotakis, & Rose, 2011; Mavundla, Toth, &
Mphelane, 2009; Molassiotis, Wilson, Blair, Howe, & Cavet, 2009; Stenberg,
Ruland, & Miaskowski, 2010; Blake, 2008; Jorgensen, Arksey, Parsons, &
Jacobs, 2009).
Tal como refere Francis et al. (2011), é essencial intervir e disponibilizar
estratégias eficazes que permitam o desenvolvimento, a manutenção e o
fortalecimento destas relações, pela sua importância em todo o processo.
Stenberg, Ruland, e Miaskowski (2010), numa revisão sistemática sobre os
efeitos da prestação de cuidados a pessoas com cancro, referem que um dos
aspetos positivos do cuidar é o tempo que as famílias passam juntas e a
qualidade desses momentos.
O apoio social é também referido por inúmeras ocasiões, no sentido de evitar o
isolamento social (Robison, Fortinsky, Kleppinger, Shugrue, & Porter, 2009;
Mavundla et al., 2009; Molassiotis et al., 2009; Chan, Mok, Wong, Pang, &
Chiu, 2010; Cruz, Loureiro, Silva, & Fernandes, 2010; Blake, 2008;
Jorgensen et al., 2009), facilitando o acesso aos recursos disponíveis na
comunidade e sociedade e o auxílio inerente aos grupos de apoio.
A ausência de tempo que o cuidador dispõe para si próprio é tido como um fator
inibidor, devido aos recursos insuficientes que permitam pausas na prestação de
cuidados, para assim dispor de tempo para as suas necessidades individuais,
tanto de lazer como de socialização. Diversos autores destacam a relevância dos
grupos de apoio (Sinclair, Armes, Randhawa, & Bayer, 2010; Ganea et al.,
2010; Mavundla et al., 2009; Chan et al., 2010; Jorgensen et al., 2009), ou a
necessidade de intervenções e/ou serviços que permitem a pausa e o descanso na
atividade de cuidar (Casado, 2008; Carretero, Garcés, & Ródenas, 2006;
Salin, Kaunone, & Astedt-Kurki, 2009; Woolfe, McMillan, & Conway, 2007;
Cruz et al., 2010), sendo todos estes considerados como fatores facilitadores e
fundamentais para a manutenção de um bom nível de saúde do cuidador.
As necessidades evidenciadas a nível dos recursos da comunidade e sociedade,
quando devidamente satisfeitas, permitem reforçar o relacionamento
interpessoal, tanto no seio familiar como comunitário, promovendo ainda o
desenvolvimento de estratégias individuais facilitadoras do aumento da auto
estima, fortalecimento da identidade pessoal, permitindo assim integrar melhor
o papel de cuidador.
Conhecimentos e aprendizagem e preparação
Dotar os cuidadores da pessoa dependente dos conhecimentos e capacidades que
precisam é importante, não só para cuidarem melhor dos seus familiares, como de
si mesmos, sendo um fator facilitador para um desempenho das funções de um modo
mais saudável.
O apoio dos enfermeiros, enquanto profissionais de saúde habilitados para
transmitir a informação necessária ao desempenho do novo papel, assim como a
aprendizagem e aquisição de competências, são realçadas por diferentes
investigadores (Salin et al., 2009; Sinclair et al., 2010; Davey, Wiles,
Asburn, & Murphy, 2004; Molassiotis et al., 2009; Chan et al., 2010;
Jorgensen et al., 2009).
Além deste aspeto, também é destacado o acesso aos serviços de saúde (Chan et
al., 2010; Innes, Morgan, & Kostineuk, 2011) que, devido a todo um conjunto
de dificuldades e adversidades (aspetos burocráticos, barreiras arquitetónicas,
recursos humanos reduzidos, inexistência de protocolos e articulação entre
serviços, entre outros), podem tornar-se elementos inibidores do processo de
assunção do papel de cuidadores, caso não sejam devidamente superadas.
Relativamente aos conhecimentos a adquirir pelo cuidador, estes devem ser
específicos e permitir a aquisição de determinadas competências instrumentais
úteis na prestação dos cuidados. Podem também ser transmitidos com o intuito de
melhorar competências já adquiridas, através da aprendizagem de alguns
procedimentos e técnicas elementares mas importantes para alguns cuidados
específicos a serem prestados á pessoa dependente (Ryn et al., 2011; Ganea et
al., 2010; Davey et al., 2004; Cruz et al., 2010).
Alguns autores destacam a importância destas competências instrumentais na
prestação de cuidados, designadamente Ryn et al. (2011), que salientam a
importância do treino para cuidar, do mesmo modo Ganea et al. (2010) e Cruz et
al. (2010), que realçam um conjunto de habilidades que os cuidadores precisam
adquirir no domínio dos autocuidados para satisfazerem todas atividades de vida
diária.
O domínio dos conhecimentos é para os cuidadores familiares uma das
necessidades mais importantes, pois a satisfação desta permite-lhes a melhor
perceção de toda a situação vivenciada e, consequentemente, do seu novo papel e
da sua relevância. Neste contexto, é importante que os enfermeiros compreendam
a complexidade da transmissão de informação ao cuidador e da consequente
integração como conhecimento, para assim permitir a sua perceção eficaz e,
deste modo, evitar que seja considerado um fator inibidor (Nichols, Martindale-
Adamsb, Greeneb, & Burnsc, 2009; Ganea et al., 2010; Jullamate, Azeredo,
Paúl, & Subgranon, 2006; Molassiotis et al., 2009; Chan et al., 2010).
Assim, o enfermeiro deverá conhecer devidamente os recursos do cuidador, tanto
pessoais como sociais, para poder ajustar as suas intervenções e otimizá-las. A
informação deve ser transmitida de forma clara, em ambiente calmo, sobretudo
quando a mesma incide sobre a doença que afeta o seu familiar, a sua evolução,
o seu prognóstico e os recursos disponíveis, tal como é destacado por Chan et
al. (2010) e Ganea et al. (2010).
Stenberg et al. (2010) demonstram que a necessidade de informação difere
mediante o estádio da doença, mas salientam a sua a importância, não só pelos
dados disponibilizados sobre a mesma, mas também sobre o prognóstico/evolução,
pelas opções de tratamento, o que confere uma certa sensação de controlo e
segurança ao cuidador familiar. Washington, Meadows, e Elliot (2011) elaboraram
uma revisão sistemática no domínio específico da informação, realçando a
necessidade de informação geral, sobre etiologia, diagnóstico e prognóstico da
doença, assim como dos apoios e ajudas que dispõe, mas também específica
nomeadamente educação e informação percetível e individualizada, e
separadamente da pessoa doente. Nichols et al. (2009), num trabalho sobre as
preocupações mais evidenciadas pelos cuidadores da pessoa com demência, realçam
que as necessidades de informação dos cuidadores varia mediante a presença de
depressão e também da gravidade da demência apresentada pela pessoa de quem
cuidam.
Significado Pessoal, Crenças e Atitudes
O papel de cuidador familiar é extremamente desgastante, provocando um aumento
de sobrecarga emocional. Nesta perspetiva, torna-se evidente a relevância do
apoio emocional e o papel que este ocupa em todo o processo de transição e na
integração saudável deste papel (Robinson et al., 2009; Woolfe et al., 2007;
Ganea et al., 2010; Molassiotis et al., 2009; Cruz et al., 2010; Stenberg et
al., 2010). No mesmo sentido, diversos autores destacam a importância da
aquisição de estratégias de coping eficazes (Ryn et al., 2011; Molassiotis et
al., 2009; Chan et al., 2010; Blake, 2008; Jorgensen et al., 2009), podendo ser
uma importante condição facilitadora na prestação de cuidados e no transpor das
dificuldades que daí advêm, quando a esta necessidade equivale intervenções
eficazes.
Segundo Molassiotis et al. (2009), a família é um importante recurso para o
cuidador, não só pelas relações interpessoais, mas também pelo apoio
psicoemocional que disponibiliza. Este aspeto é também realçado por Chan et al.
(2010), que demonstra que a falta de apoio emocional e assistência por parte
dos familiares, assim como o não reconhecimento do seu papel enquanto cuidador,
pode dificultar todo o processo de transição.
Vários autores, tais como Cruz et al. (2010), Stenberg et al. (2010) e Blake
(2008) destacam também a necessidade de apoio emocional, importante para gerir
melhor os diferentes tipos de reações emocionais, tais como ansiedade, medo e
incerteza. Este aspeto deve-se ao fato de que as estratégias de coping a que os
cuidadores mais recorrem serem usualmente centradas nas emoções, realçando,
contudo, a importância de estratégias que permitam a resolução de problemas,
tais como a aprendizagem de formas de lidar com o stress, sentimentos, medos,
solidão, de modo a diminuir o stress do cuidador (Salin et al., 2009; Woolfe et
al., 2007; Blake, 2008). Outros autores, nomeadamente Ryn et al. (2011)
Jorgensen et al. (2009), Molassiotis et al. (2009) e Cruz et al. (2010)
destacam a importância da aquisição e promoção de estratégias de coping que
sejam eficazes para a resolução de problemas, centradas nos mesmos e não na
vertente emocional.
Woolfe et al. (2007) realça as necessidades psicológicas dos cuidadores
familiares, bem como do apoio emocional como agentes facilitadores,
evidenciando a aprendizagem de formas para lidar com o stress de forma eficaz e
saudável.
Ainda neste domínio é reconhecido o papel de cuidador familiar, dando-se
destaque às razões que levaram ao assumir deste papel, assim como à importância
para a pessoa dependente (Chan et al., 2010; Jorgensen et al., 2009).
Num estudo realizado no âmbito do cuidado informal a pessoas com doença mental
Mavundla et al. (2009) demonstrou que, para além da importância do envolvimento
familiar já salientado, também o apoio social o é, de forma a evitar o
isolamento a que são sujeitos os cuidadores familiares e as suas famílias em
inúmeras situações, maioritariamente pelo estigma social inerente a este tipo
de patologia, devido às crenças previamente definidas a nível social e pelo
défice de conhecimento neste domínio.
Condição Socioeconómica
Relativamente a esta condição diversos autores referem a sobrecarga financeira
e os custos do cuidado informal que emerge dos cuidados à pessoa dependente,
pelos elevados custos que lhe estão associados, sendo considerados fatores
dificultadores, destacando assim a necessidade de apoio económico que daí advêm
(Casado, 2008; Woolfe et al., 2007; Ryn et al., 2011; Sinclair et al., 2010;
Mavundla et al., 2009; Cruz et al., 2010; Stenberg et al., 2010; Jorgensen et
al., 2009).
Ainda neste âmbito, alguns autores mencionam a necessidade da flexibilidade em
termos de horário laboral, para assim conseguirem conciliar o cuidado prestado
à pessoa dependente com o emprego e a fonte de rendimento que precisam de
manter (Robinson et al., 2009; Ryn et al., 2011; Jorgensen et al., 2009).
Esta revisão da literatura apresenta algumas limitações. Assim, ao recorrer ao
termo de pesquisa cuidador familiar, alguns trabalhos poderão ter sido
excluídos, mesmo abordando esta temática ou quando o cuidado informal é
prestado por um elemento que não familiar, visto que o termo usualmente
utilizado na literatura é cuidador informal (informal caregiver).
Por outro lado, organizar as necessidades evidenciadas pelos cuidadores
familiares nos diferentes trabalhos científicos com o recurso à Teoria das
Transições pode dificultar a sua categorização, pelo que algumas podem ser
incluídas em diferentes categorias ou individualizadas em categorias
específicas.
Tendo em consideração as produções científicas produzidas e o interesse desta
temática no contexto português, torna-se interessante elaborar o mesmo tipo de
análise, partindo dos mesmos termos de pesquisa, mas na realidade portuguesa.
Conclusão
O reconhecimento das necessidades dos cuidadores familiares é de extrema
importância, tendo em consideração que é a primeira etapa para o diagnóstico
situacional e posterior planeamento das intervenções de enfermagem. Uma recolha
de dados eficaz permite um correto diagnóstico destas necessidades e, se for
associado a um plano de intervenções que se esperam úteis, poderá auxiliar todo
o processo de transição. A ausência de intervenção pode culminar numa transição
não saudável e, assim, resultar em prejuízos para a saúde, tanto do cuidador
familiar como, em consequência, do próprio familiar dependente. Na análise das
diversas produções científicas, identificaram-se diferentes tipos de
necessidades, em diversos contextos. Tendo em consideração estas necessidades
criaram-se as seguintes categorias: recursos comunitários e sociais,
conhecimentos e aprendizagem de habilidades, significado pessoal, crenças e
atitudes e, por último, condição socieconómica. Apesar dos estudos científicos
integrados nesta revisão da literatura terem sido levados a cabo em diferentes
domínios e tendo em consideração a singularidade dos mesmos, as necessidades
evidenciadas são, de certo modo, transversais a todos. Assim sendo, pode
referir-se que, sem minimizar a individualidade deste processo, a transição
inerente à integração do papel de cuidador familiar é, de um modo geral,
universal, pois dele resultam necessidades em tudo semelhantes a todas as
transições deste género.
Um dos aspetos mais destacados nesta revisão refere-se à importância da
família, assim como o apoio social, em todo este processo de transição para os
cuidadores familiares. Com um bom relacionamento no seio familiar, a rede de
apoio informal é realmente melhorada e fortalecida, o que permite satisfazer
uma das necessidades mais demonstradas. Uma outra bem evidente reporta-se ao
apoio psicoemocional, assim como a aquisição de estratégias de coping eficazes
que, sendo potenciadoras da resolução eficaz de problemas, permitem ao cuidador
familiar uma melhor integração do seu novo papel. Vários estudos salientam
igualmente o apoio de profissionais de saúde, designadamente de enfermeiros,
para a aprendizagem de competências instrumentais que facultem ao cuidador
familiar prestar melhores cuidados. Finalmente, a necessidade de informação por
parte dos cuidadores familiares é transversal a todos os estudos integrados
nesta revisão da literatura, em diferentes domínios, tanto ao nível da doença
como do cuidado a prestar.
Deixamos como recomendação que, tendo em consideração que parte significativa
dos estudos que integram esta revisão foram realizados em contextos
diversificados, deveria ser realizado trabalho semelhante no contexto
português, eventualmente em domínios específicos, como necessidades dos
cuidadores de pessoas vítimas de Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou com
limitações físicas, de pessoas com Alzheimer ou Parkinson, no sentido de uma
melhor perceção das necessidades singulares evidenciadas por estes cuidadores
familiares.