Lesões por Acidentes de Trânsito e uso de medidas de segurança por imigrantes
latino-americanos residentes em Sevilha
Introdução
As LAT causam 800.000 mortes por ano na Europa (Sethi, Racioppi, Baumgarten,
& Bertollini, 2006) e muitos problemas de saúde, sobretudo físicos. Mais
especificamente, nos países da região mediterrânica, a taxa de mortes devido a
LAT é 28,5 por 100.000 habitantes, estando acima da média mundial que é de 10,3
por 100.000 habitantes (World Health Organization, 2009). Nos jovens este
problema é particularmente importante uma vez que as LAT são a principal causa
da sua morte (World Health Organization, 2009).
Para fazer face à elevada taxa de mortes e problemas de saúde é indispensável
implementar medidas de prevenção por forma a reduzir o número de LAT. O estudo
deste fenómeno é ainda mais relevante na população imigrante por estes viverem
em condições sociodemográficas desfavoráveis nos países que os acolhem
(Chakravarthy, Anderson, Ludlow, Lotfipour, & Vaca, 2010). Uma das
consequências diretas identificadas deste facto é que normalmente os imigrantes
compram veículos usados (Koziol-McLain, Brand, Morgan, Leff, & Lowenstein,
2000), o que pode aumentar significativamente o número de acidentes.
A população imigrante em Espanha tem aumentado significativamente desde 2000,
registando um crescimento de 520% (de 923.879 para 5.730.667). Atualmente, este
grupo representa 12,2% da população a nível nacional e 4,2% em Sevilha (Spanish
Statistical Office, 2012), sendo que a maioria da população imigrante é da
América Latina.
Para se ter uma visão realista da imigração em Espanha, é necessário analisar a
taxa de acidentes e o uso de medidas de segurança, uma vez que a evidência
empírica é muito escassa. Assim, o objetivo deste estudo é estimar a
prevalência mensal de autorrelatos de LAT e o uso de medidas de segurança por
imigrantes latino-americanos, com idades compreendidas entre os 25 e os 44 anos
que residiam em Sevilha (Espanha) no ano de 2011.
Enquadramento
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) (WHO, 2009), as LAT podem
ser entendidas como lesões, fatais ou não, que resultam de uma colisão na
estrada em que esteve envolvido, pelo menos, um veículo em movimento. Para além
do número de mortes, os problemas físicos resultantes destas colisões também se
consideram relevantes pelo impacto significativo que podem ter na saúde das
pessoas.
Em Espanha registaram-se 83.027 acidentes de trânsito em 2011, dos quais
resultaram 2.060 mortes; 89% das vítimas sofreram ferimentos leves. Em
Andaluzia, as LAT são a principal causa de morte nos jovens (Escuela Andaluza
de Salud Pública ' EASP, 2012), sendo que Sevilha foi uma das cidades com maior
taxa de acidentes e número de vítimas.
Apesar de alguns dos seus efeitos não serem completamente claros, a literatura
identificou como fatores fundamentais para a LAT a idade (Chandran, Sousa, Guo,
Bishai, & Pechansky, 2012); o género (Centro para el estudio y la
prevención de la violencia - CEPV, 2011; EASP, 2012; National Center for
Statistics and Analysis - NHTSA, 2009); o nível de escolaridade (CEPV, 2011;
Seath, Holakouie, Asadi-Lari, Abbas, & Malek-Afzali, 2012); e o estado
civil (Whitlock, Norton, Clark, Jackson, & MacMahon, 2004).
No que diz respeito às medidas implementadas para evitar os acidentes, a OMS
(WHO, 2012) refere que o uso do cinto de segurança e do capacete reduz o risco
de morte em 40% e o risco de trauma grave em 70%.
Por outro lado, o European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction
(EMCDDA, 2008) estimou que 1,3% da população que conduz um automóvel fá- -lo
sob a influência de uma combinação de álcool e drogas, sendo que esta é a causa
de muitos acidentes (Drummer et al., 2004).
Questões de investigação
Dada a importância do acima exposto e considerando a necessidade de informação
sobre LAT relativa a imigrantes em Sevilha, com idades compreendidas entre os
25 e os 44 anos, a nossa questão de investigação prende-se com o estudo da
prevalência de LAT na população adulta de imigrantes latino-americanos a viver
em Sevilha e a sua relação com o uso de medidas de proteção.
Metodologia
Estudo descritivo-transversal, realizado entre 2010 e 2011, com recurso a
partes do instrumento Behavioral Risk Factor Surveillance System Survey do
Centers for Disease Control and Prevention nos Estados Unidos da América
(versão espanhola também disponível eletronicamente).
Para este estudo consideraram-se os imigrantes como sendo quaisquer pessoas
que, sendo de um país de origem que não da Espanha, tenham estabelecido a sua
residência habitual no território nacional no período da investigação, o que
corresponde ao conceito utilizado pelo Instituto Nacional de Estatística no seu
levantamento nacional de imigrantes em 2007.
A recolha dos dados foi aleatória e realizada por um entrevistador em todos os
distritos da cidade de Sevilha, de acordo com os seguintes critérios: (1)
residentes do sexo masculino ou feminino, em qualquer um dos bairros oficiais
ou distritos censitários dos 11 distritos administrativos de Sevilha; (2) idade
compreendida entre os 25 e os 44 anos; (3) ter nascido num dos países
considerados pelas Nações Unidas no seu ranking de nações, territórios e
regiões como fazendo parte da América Latina ou África do Sul (Argentina,
Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, Paraguai, Perú, Uruguai e
Venezuela) e que tenham emigrado para Espanha; e (4) ter a capacidade de
comunicar e entender os objetivos do estudo assim como de assinar o termo de
consentimento informado. Para o recrutamento dos participantes foram
contactadas várias associações e grupos de imigrantes latino-americanos
existentes no distrito de Sevilha com o intuito de facilitar a recolha de
dados.
Os procedimentos utilizados para a realização deste estudo seguiram os
princípios éticos da Declaração de Helsínquia da Associação Médica Mundial
(atualizada em 2008), obtiveram a aprovação do Comité de Ética e Experimentação
da Universidade de Sevilha e foram ajustados às normas para o estudo com seres
humanos vigentes em Espanha e na União Europeia. Foi obtido o termo de
consentimento informado por escrito e em relação aos dados sociodemográficos, a
fim de proteger a sua honra, anonimato e privacidade, de acordo com a Lei
Orgânica 15/1999 de Proteção de Dados Pessoais, os questionários foram
numerados.
Após a recolha, os dados foram colocados numa base de dados de um computador
protegido e foi verificada aleatoriamente a validade interna de cada uma das
respostas. Para assegurar a validade e confiabilidade do estudo (alfa de
Cronbach=0,71), foi feita uma análise piloto prévia (González-López et al.,
2010). A amostra final é composta por 190 imigrantes latino-americanos que
vivem em Sevilha (Espanha), com idades compreendidas entre os 25 e os 44 anos.
Os dados foram analisados com o SPSS versão 21.0 para o Windows. Foram
realizadas análises descritivas, recorrendo a medidas de tendência central e de
dispersão para as variáveis quantitativas e a proporções para as variáveis
categóricas. As relações entre as variáveis de interesse foram exploradas
através do teste qui-quadrado de Pearson (?2). Se as frequências esperadas nas
colunas da tabela de contingência forem = 5, utiliza-se o teste de Fisher.
Resultados
Os resultados são apresentados a partir de: a) dados sociodemográficos dos
participantes (idade, sexo, escolaridade, país de origem, estado civil '
casados ou em união de facto, solteiros, separados ou viúvos, tempo de
permanência em Espanha e ocupação atual; b) lesões resultantes de acidentes de
trânsito (como condutor, passageiro ou peão); e c) comportamentos de segurança
rodoviários ao volante (uso do capacete nas bicicletas e motociclos e uso do
cinto de segurança nos automóveis), todos durante os últimos 12 meses.
Características demográficas
A amostra é constituída por 190 imigrantes residentes em Sevilha e apresenta o
seguinte perfil: a média de idade é de 33,8 ± 6,3 anos; 60% são mulheres; 45,3%
são casados, 36,8% são solteiros e 8,9% vivem com o companheiro/a sem estarem
casados; 3,7% não têm estudos, 15,3% possuem ensino primário, 40% o ensino
secundário, 16,8% educação superior e os restantes 24,2% possuem diploma
universitário. Relativamente ao país de origem verificou-se: Bolívia (32,6%);
Perú (18,9%); Colômbia (16,8%); Equador (11,1%); Paraguai (5,2%); Chile (4,2%);
Brasil (1,6%); Nicarágua (1,1%); e Argentina e Cuba (0,5% cada). Relativamente
ao tempo de residência em Espanha, a amostra apresentou uma média de 5,4 ± 3,6
anos, ligeiramente mais elevada do que o tempo médio de residência na cidade de
Sevilha (4,6 ± 3,2 anos). Em relação à ocupação atual, a maior percentagem são
trabalhadores por conta de outrem (59,3%), seguido dos trabalhadores por conta
própria (18,4%), dos desempregados (10,5%), dos estudantes (6,8%) e das
domésticas (4,7%).
Análise multivariada
No que diz respeito a LAT, 3,7% (n=7) disse ter sofrido uma lesão deste tipo no
último mês, envolvendo carros. Em relação aos cuidados prestados às sete
pessoas lesionadas, duas foram atendidas nas urgências, duas passaram a noite
no hospital e duas não necessitaram de cuidados. Uma pessoa não respondeu ao
pretendido.
A Tabela_1 mostra que, apesar de não haver diferenças significativas na
prevalência de acordo com as variáveis sociodemográficas estudadas, o risco de
LAT foi maior em homens, com menos de 35 anos, com ensino secundário ou
superior, em pessoas que vivem juntas, desempregadas ou estudantes, e
surpreendentemente houve uma tendência de maior risco naquelas pessoas em que o
tempo de residência em Espanha era maior.
Ao analisar os dados da Tabela, também podemos verificar que 3,5% dos
entrevistados, no último mês, andaram de bicicleta ou conduziram um motociclo
ou carro depois de terem consumido álcool ou outras drogas. Isto condiz com o
que foi descrito para caracterizar as LAT, com exceção de que a diferença ao
nível do género nesta prevalência foi estatisticamente significativa (Teste de
Fisher p=0,034).
No último mês, 57,8% (110 pessoas) viajaram de carro na cidade, como condutor
ou passageiro, em estrada ou auto-estrada, 9,5% (18 pessoas) em motociclos e
28,4% (54 pessoas) de bicicleta. A Tabela_2 mostra que 91,8% dos que viajaram
de carro usaram sempre medidas de segurança, assim como 77,8% dos que
conduziram um motociclo, enquanto que apenas um em 10 participantes (11,1%)
usou sempre capacete ao andar de bicicleta.
Discussão
O nosso estudo revela que 3,7% da população imigrante latino-americana que vive
em Sevilha sofreu de LAT no último mês. Numa previsão anual, isso representaria
a percentagem significativa de 44,4%, o que corresponde a um resultado muito
acima da taxa anual auto-relatada de pessoas com LAT que precisaram de cuidados
de saúde em Espanha ' 2% (SSO, 2002). Esta elevada prevalência anual expectável
de LAT pode ser explicada pela necessidade dos imigrantes terem que fazer
muitos quilómetros para chegarem ao local de trabalho e pela aquisição de
veículos usados (Koziol-McLain et al., 2000).
É importante salientar que 71% dos participantes do estudo que relataram ter
sofrido uma LAT precisaram da assistência de um profissional de saúde (no
hospital ou centro de saúde). Esta percentagem é superior aos 23% encontrados
em pessoas estrangeiras que vivem em Espanha (Peiró-Pérez et al., 2006). No
entanto, neste estudo, as vítimas de LAT não ficaram gravemente feridas,
verificando-se uma consistência com os dados oficiais espanhóis de 2010.
Em relação às variáveis sociodemográficas, constatamos que as pessoas com menos
de 35 anos são mais propensas a sofrer LAT do que as de 35 anos ou mais. Esta
evidência é consistente com os resultados de Chandran et al. (2012) e NHTSA
(2009), e foi explicada pela sua associação com a experiência na condução. Os
nossos resultados também revelam que o risco de LAT é maior nos homens (NHTSA,
2009; CEPV, 2011; EASP, 2012). Isto advém do facto das mulheres apresentarem
melhores comportamentos de segurança rodoviária comparativamente aos homens
(Aravena, Aróstica, & Aguirre, 2012). Além disso, os homens, especialmente
os jovens, estão associados a comportamentos imprudentes na estrada, colocando
em perigo as suas vidas bem como as de terceiros (CEPV, 2011). Inversamente, o
grau de escolaridade tem sido associado à probabilidade de ocorrência deste
tipo de lesão (Seath et al., 2012) e à gravidade do acidente (CEPV, 2011).
Quando analisada a sua ocupação ' a variável com maior associação ' o nosso
estudo indica que a prevalência de autorrelatos de LAT foi maior em
desempregados e estudantes (Sehat et al., 2012). Isto pode-se dever ao facto de
haver maior necessidade de viajar para procurar um emprego. Relativamente ao
estado civil, verificou-se que as pessoas casadas ou a viverem em união de
facto tinham maior probabilidade de ter LAT do que os outros grupos, o que não
está de acordo com os resultados obtidos no estudo de Whitlock et al. (2004).
Continuando com a análise da segurança rodoviária, 92% dos que viajaram de
carro usaram sempre cinto de segurança no último mês. Ressalta-se que 1% desta
amostra nunca usou cinto de segurança, o que se assemelha aos resultados da
Pesquisa Nacional de Saúde do Ministério da Saúde e Consumo realizada em 2006.
Em colisões com carros, sabe-se que os ciclistas sofrem lesões menos graves do
que os peões, possivelmente por usarem capacete (Peng, Chen, Yang, Otte, &
Willinger, 2012). No entanto, os nossos resultados revelam que apenas 11% dos
ciclistas usaram sempre capacete.
Analisando outros aspetos que devem ser revistos a partir da informação obtida
neste estudo sobre segurança rodoviária, cerca de 4% dos entrevistados
conduziram sob a influência de álcool ou outras drogas. Isto afeta a capacidade
de condução e, consequentemente, aumenta a probabilidade de ocorrerem acidentes
(Wong, Gutiérrez, & Romaní, 2010). A NHTSA (2009) refere que o risco de
conduzir depois de beber é maior em homens do que em mulheres e nos mais
jovens, o que é consistente com a nossa pesquisa no grupo de imigrantes.
Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser tidas em conta. As
respostas dos participantes foram auto-relatadas, o que significa que qualquer
uma poderia ser subjetiva e influenciada por fatores que não estavam sob o
controlo dos investigadores. No entanto, o anonimato dos questionários
favoreceu uma maior honestidade nas respostas. Outra limitação é que a natureza
transversal do estudo não nos permite estabelecer uma relação causal entre o
risco de LAT e as variáveis independentes analisadas. Contudo, foi possível
explorar algumas associações que nos permitem planear outros estudos analíticos
que reflitam o sentido das relações entre essas variáveis de forma mais
precisa.
Conclusão
A partir deste estudo podemos afirmar que os imigrantes latino-americanos da
cidade de Sevilha têm um risco considerável de sofrer LAT (3,7% no último mês),
o que o torna um problema grave de saúde pública. O risco é maior em homens com
idade inferior a 35 anos, com o ensino secundário ou superior e em pessoas que
não vivem sozinhas. Os resultados também revelam que a maioria usa medidas de
segurança quando conduzem motociclos ou automóveis (91,8% e 77,8%,
respetivamente), embora isso não seja tão usual quando andam de bicicleta
(11,1%). No que diz respeito à condução sob o efeito de álcool ou outras
drogas, 3,5% da nossa amostra reconhece que o fez.
A fim de melhorar os comportamentos de segurança rodoviária destes imigrantes,
recomendam-se intervenções educativas de Enfermagem que promovam a
consciencialização sobre estes comportamentos de risco. Estas devem focar-se na
importância do uso de cinto de segurança, capacete e na não condução após o
consumo de álcool ou outras drogas. Deve-se dar especial ênfase ao uso de
medidas de segurança ao andar de bicicleta, uma vez que os resultados revelam
que geralmente não o fazem.
Este estudo também pode ajudar na orientação das intervenções de Enfermagem ao
nível da prevenção com a identificação do perfil dos imigrantes latino-
americanos com maior risco de LAT.
São também necessários mais estudos sobre o comportamento da população latino-
americana no que diz respeito à segurança rodoviária e sobre outros aspetos que
podem influenciar o risco de LAT.