Conteúdo e violação do contrato psicológico em enfermeiros chefe
Introducao
Nos ultimos anos assistiu-se, nos cuidados de saude, a um conjunto de
transformacoes estruturais, processuais e politicas. Estas transformacoes
passaram pela adocao de novos modelos de gestao (nomeadamente a gestao
empresarial da saude), pela reforma dos cuidados de saude primarios e pela
reconfiguracao da rede de urgencias hospitalares.
A par destas alteracoes, tambem as carreiras dos profissionais sofreram
alteracoes consideraveis, visiveis atraves das reconfiguracoes das mesmas. A
classe profissional de Enfermagem foi uma classe que negociou uma nova
carreira, e esta negociacao foi um processo moroso e arduo, do qual emergiram
alteracoes que interferem na dinamica e estabilidade da profissao e,
consequentemente, dos seus profissionais.
O conceito de Contrato Psicologico (CP) pode ser utilizado como um modelo para
explicar a relacao entre empregado e empregador. O CP diz respeito a percecao,
por parte de um individuo, da existencia de uma relacao de troca reciproca
entre ele e a sua organizacao empregadora (Rousseau, 1989, 1995), relacao essa
que se encontra nos olhos de quem a ve. Neste contrato subjaz a ideia de que o
comportamento dos empregados face a sua organizacao empregadora depende da
crenca dos mesmos de que essa organizacao tem mantido (ou nao) as promessas
que, subjetivamente, foram percebidas como tendo sido feitas ao empregado
(Conway & Briner, 2005).
Pretendeu-se, assim, com esta investigacao perceber a relacao entre empregador
e empregado atraves do construto CP num grupo profissional de Enfermagem na
categoria de enfermeiro chefe, de uma organizacao do Servico Nacional de Saude
Portugues com gestao empresarial. Optou-se pelo estudo de enfermeiros chefe por
terem um conjunto de atribuicoes que sao determinantes nas organizacoes de
saude, nomeadamente ao nivel da gestao intermedia das equipas de Enfermagem.
Tomou-se, como ponto de partida para o estudo, a alteracao ocorrida na carreira
de Enfermagem e o facto da categoria de enfermeiro chefe ser considerada como
uma categoria subsistente na nova carreira de Enfermagem. Procurou-se, entao,
perceber quais as implicacoes desta alteracao ao nivel das relacoes de
trabalho, em especial ao nivel do seu CP. Para o efeito, elegeram-se os
seguintes objetivos: a) identificar quais os conteudos do CP que os enfermeiros
chefe estabeleceram com a identidade empregadora; b) identificar se os
enfermeiros chefe percecionaram violacao do CP; c) identificar que reacoes
advieram da percecao de violacao, caso tenha acontecido, e que implicacoes a
nivel individual e organizacional ela tera.
Enquadramento
Contrato psicologico
O conceito de CP e aceite como uma das formas de explicar a relacao entre o
empregado e o empregador, ajudando a analisar o relacionamento entre estes
membros organizacionais, e a sua importancia e evidente nas consequencias da
sua percecao de quebra, afetando aspetos da relacao. Este conceito centra-se
naquilo que um individuo percebe como devendo a organizacao e do que pode
esperar em troca. Este tipo de contrato e percetivo e idiossincratico
(Rousseau, 1995), formando-se no decorrer da vida profissional dos empregados
atraves das interacoes que vao tendo com os seus empregadores (Rousseau, 1989,
1995; Conway & Briner, 2005; Conway & Colye-Shapiro, 2006).
A perspetiva unilateral do CP postula que e o individuo (empregado) que forma
um contrato, sendo uma crenca individual sobre as expectativas e obrigacoes
mutuas num determinado contexto de relacionamento entre empregador e empregado.
A visao unilateral refere-se, principalmente, a perspetiva do empregado acerca
do trabalho e da organizacao, nomeadamente, ao nivel das expectativas e
obrigacoes, limitando o CP a uma percecao individual (Rousseau, 1989, 1995).
Para Rousseau (1995) a formacao deste tipo de contrato engloba dois fatores
essenciais: fatores individuais e fatores organizacionais, que interagem entre
si para a sua formacao. Os primeiros englobam os processos de codificacao e de
descodificacao das mensagens organizacionais, bem como as proprias
predisposicoes individuais. Os fatores organizacionais referem-se a pistas
sociais, isto e, a informacoes dadas pela organizacao e que podem ser
interpretadas como promessas, que descrevem as suas intencoes futuras.
Rousseau (1989, 1995) salienta que o CP e unico para cada individuo
(empregado); e um acordo nao escrito entre empregado e empregador, cujos termos
incluem obrigacoes mutuas percebidas e que interferem no modo como o empregado
se relaciona com a sua organizacao. Assim, o termo CP refere-se as crencas de
um individuo em relacao aos termos e condicoes de um acordo reciproco entre
essa pessoa e a outra parte (Rousseau, 1989, p.123) sendo uma crenca
individual, moldada pela organizacao, sobre os termos de um acordo de troca
entre o individuo e a sua propria organizacao (Rousseau, 1995, p. 9).
Incumprimento do contrato psicologico
Um elemento central do CP e a crenca do empregado de que a organizacao devera
estar a altura das promessas e compromissos tanto percebidos como efetuados.
Quando um colaborador toma consciencia que a organizacao nao cumpriu as suas
promessas ou obrigacoes, entao este pode experienciar uma quebra ou violacao do
CP por parte da sua organizacao empregadora (Rousseau, 1995).
Pode, portanto, afirmar-se que o conceito de incumprimento do CP passa por uma
experiencia subjetiva que se refere a percecao individual de que uma outra
parte falhou em cumprir adequadamente as obrigacoes prometidas (Robinson,
1996, p. 576).
Como tal, este incumprimento do CP cria, normalmente, a percecao de um
desequilibrio na relacao de troca social, pois a organizacao empregadora nao
parece ter respondido de modo ajustado aquilo com que o empregado considera ter
contribuido para a organizacao. Contudo, ha uma distincao que deve ser feita
nesta nocao de incumprimento do CP: quebra versus violacao. Segundo Morrison e
Robinson (1997), para haver violacao do contrato psicologico nao basta que o
individuo reconheca que a organizacao nao cumpriu com uma ou mais obrigacoes
inerentes ao CP. Esse reconhecimento e apenas a cognicao de que ha uma falha no
cumprimento das promessas percebidas como feitas, e essa cognicao e descrita
como sendo uma quebra do CP (Morrison & Robinson, 1997). A violacao implica
a existencia de reacoes afetivas e emocionais de desapontamento, frustracao,
ira e ressentimento, que ocorrem da interpretacao que o empregado fez da quebra
e das circunstancias que a acompanharam. Assim a violacao e um estado
emocional e afetivo que pode, sob certas circunstancias, decorrer da crenca que
a organizacao nao conseguiu manter adequadamente o contrato psicologico
(Morrison & Robinson 1997, p. 230). As autoras reforcam que a violacao e
uma experiencia emocional, mas surge a partir de um processo de interpretacoes
de natureza cognitiva.
Os estudos empiricos tem demonstrado que a quebra/violacao do CP se relaciona
com a diminuicao do bem-estar, com atitudes negativas face ao trabalho e a
organizacao, bem como com a intencao de abandonar a organizacao (Krivokapic-
Skoko, O/Neill, & Duwell, 2010; Chambel & Peiro, 2003). Da mesma forma,
a percecao do incumprimento do CP parece estar relacionado com um decrescimo
dos niveis de satisfacao no trabalho e um aumento dos sentimentos de injustica
(Krivokapic-Skoko et al., 2010), uma diminuicao do comportamento de cidadania
organizacional (Jafri, 2012; Cassar & Briner, 2011), bem como sentimentos
de raiva, aumento do turnover e reducao dos niveis de empenhamento (Zagenczyk,
Gibney, Few, & Scott, 2011; Cassar & Briner, 2011; Thomas, Feldman,
& Lam, 2010; Menegon & Casado, 2006). Os estudos tambem tem demonstrado
que a violacao do CP leva a falta de confianca na organizacao (Krivokapic-
Skoko, et al., 2010; Conway & Briner, 2005), esgotamento emocional (Gakovic
& Tetrick, 2003), sentimentos de vinganca e depressao (Menegon &
Casado, 2006).
Autores como Thomas, Feldman, e Lam (2010) alertam para a importancia de
investigar os fatores que levam a violacao do CP no sentido de os controlarem,
ou ate mesmo eliminar, pois tais podem produzir efeitos em cascata e as
consequencias podem ser devastadoras na performance do colaborador. E as
consequencias associadas a violacao tendem a agravar-se ao longo do tempo e nao
a melhorar, caso nao haja algum tipo de intervencao para minorar o problema.
Contrato psicologico em Enfermagem
Durante anos a carreira de Enfermagem esteve regulamentada pelo Decreto-Lei n?
437/91 a qual se estruturava segundo patamares sendo, respetivamente,
enfermeiro nivel 1, nivel 2; enfermeiro graduado; enfermeiro especialista;
enfermeiro chefe; enfermeiro supervisor.
Aos enfermeiros de categoria nivel 1, 2, graduado e especialista, cabe a
prestacao direta de cuidados a doentes/familia/comunidade. Aos enfermeiros com
categoria de chefe e supervisor cabe o desempenho de cargos de gestao de
equipas de Enfermagem sendo, portanto, estes profissionais afastados da
prestacao direta de cuidados de Enfermagem.
Com a negociacao da nova carreira de Enfermagem verificou-se uma reestruturacao
das categorias anteriormente existentes, nomeadamente a categoria de enfermeiro
chefe e o seu conteudo funcional, que a luz da nova carreira (Decreto-Lei
n?248/2009) e considerada como categoria subsistente, ou seja, logo que os
atuais enfermeiros chefe se aposentem, nenhum outro enfermeiro sera enfermeiro
chefe de carreira.
E conhecido na classe de Enfermagem que o enfermeiro chefe e um profissional
que desempenha um papel determinante na lideranca das equipas, e tem um papel
preponderante na forma como os cuidados de Enfermagem sao prestados a uma
determinada populacao. Desta forma, procurou--se conhecer o estado de alma
deste lider na organizacao, e as implicacoes para as organizacoes de saude da
eventual percecao da violacao do CP destes profissionais. Segundo Hesbeen
(2001), a principal missao do enfermeiro chefe e dar atencao aos elementos da
sua equipa, a fim de lhe oferecer as melhores condicoes para exercerem a sua
profissao. O que determina o papel do enfermeiro chefe e contribuir para uma
maior eficiencia dos servicos de saude. Portanto, estes desempenham um papel
importante a nivel do planeamento (estabelecer objetivos, planear recursos) e
do controlo de atividades e resultados em saude. Questiona-se, portanto, se
serao capazes, estes profissionais, de exercer tais funcoes, com o empenhamento
esperado, quer por parte da organizacao quer por parte dos profissionais que
lideram.
Questoes de Investigacao
Formularam-se as questoes de investigacao no sentido de entender qual o
conteudo do CP do enfermeiro chefe, de identificar se percecionam quebra e/ou
violacao do mesmo, e de conhecer quais as implicacoes da quebra e/ou violacao
caso tenha ocorrido, pois a ocorrencia de incumprimento do CP leva os
trabalhadores a perderem a confianca nas organizacoes, a manifestarem
insatisfacao com o trabalho e a um menor empenhamento na organizacao (Robinson,
1996; Morrison & Robinson, 1997; Jafri, 2012).
Tendo em conta os objetivos definidos, delinearam--se as seguintes questoes de
investigacao: Quais os conteudos do CP que o enfermeiro chefe estabelece com o
seu empregador?; Percecionam, estes profissionais, violacao do CP?; Quais as
implicacoes que advem da violacao do CP (quando percecionada)?
Metodologia
Trata-se de um estudo exploratorio descritivo, com abordagem qualitativa, cujo
locus de estudo foram os Centros de Saude da Unidade Local de Saude do Alto
Minho. Esta Unidade Local, EPE (ULSAM), constitui--se como uma entidade
empresarial que integra o centro hospitalar do Alto Minho (constituido por dois
hospitais) e treze centros de saude, que abrange toda a area geografica do
distrito de Viana do Castelo.
A populacao alvo foi constituida pelos enfermeiros chefe de todos os centros de
saude que integram a Unidade Local referida, sendo que para cada centro de
saude apenas existe um enfermeiro chefe. Este estudo contou com a participacao
de 10 enfermeiros chefe, isto porque a data da realizacao do estudo, em dois
centros de saude, os respetivos enfermeiros chefes nao estavam em funcoes (um
por reforma e um por comissao de servico, ou seja nao havia enfermeiro chefe de
carreira); num centro, o enfermeiro chefe encontrava-se de baixa prolongada
(tendo sido este o elemento privilegiado no pre-teste do guiao da entrevista).
Atendendo as caracteristicas do estudo que se pretendia concretizar optou-se
pela realizacao de entrevista semiestruturada como tecnica de colheita de
dados. Esta tecnica de recolha de dados pareceu ser a melhor solucao dada a
natureza sensivel das questoes. Pedia-se, afinal, aos participantes deste
estudo, para avaliar um conjunto de aspetos referentes ao que sentiam face a um
conjunto de dimensoes associadas ao contexto de emprego e a relacao com a
entidade empregadora. Para o efeito foi elaborado um guiao da entrevista e
efetuou-se um pre-teste do mesmo, junto de um elemento privilegiado (uma
enfermeira chefe dessa organizacao e a realizar o mesmo tipo de prestacao de
cuidados), para garantir a compreensao do tema por parte dos participantes e
das perguntas a serem efetuadas (Fortin, 1999). Assim, este procedimento foi no
sentido de clarificar o conteudo da entrevista, tornando-a ainda mais
compreensivel e clara para a populacao-alvo.
A recolha de dados decorreu de fevereiro a maio de 2011. Para que se procedesse
a recolha de dados foi preciso obter a respetiva autorizacao do Conselho de
Administracao da ULSAM, EPE.
As entrevistas foram realizadas no contexto de trabalho dos enfermeiros chefe,
tendo para isso sido contactados previamente via telefone. Durante a realizacao
do estudo foram tidas em conta todas as normas eticas da realizacao de
trabalhos de investigacao cientifica. Foi garantido a cada entrevistado o
anonimato de todos os dados obtidos e a nao utilizacao das informacoes por
outras pessoas ou para qualquer outro fim que nao fosse a investigacao. No
inicio de cada entrevista, explicou-se em pormenor em que consistia o estudo e
quais os principais objetivos do mesmo. Foi, tambem, pedido o consentimento
para a gravacao do conteudo da entrevista em audio.
Para a analise dos dados optou-se pela tecnica de analise de conteudo (Bardin,
1977) que permitiu o estabelecimento das areas tematicas, das categorias e
subcategorias para subsequente tratamento e analise dos resultados. Dado o
numero de entrevistas nao se considerou necessario recorrer a nenhum programa
informatico.
Resultados e Discussao
Relativamente a caracterizacao da amostra do estudo, todos os entrevistados sao
do sexo feminino, com idade media de 50,8 anos e uma media de 29,6 anos de
exercicio profissional. Depreende-se, portanto, uma longa carreira profissional
da amostra. Esta experiencia profissional e, em grande parte, concretizada ao
nivel dos cuidados de saude primarios, apesar de quatro entrevistadas terem
referido tambem experiencia ao nivel dos cuidados de saude diferenciados.
O exercicio da categoria de enfermeiro chefe e de 4,5 anos para quatro das
entrevistadas, de 6 anos para duas, e de 9 anos para uma, sendo que tres delas
tem mais de 10 anos de exercicio nesta categoria. Todas as entrevistadas
possuem o grau de licenciatura que lhes foi conferido pelo curso de estudos
superiores especializados, o que lhes confere tambem o titulo de enfermeira
especialista numa area de Enfermagem. Quanto ao nivel da formacao complementar
destacam-se tres enfermeiras com pos-graduacao em gestao/administracao de
servicos de saude e uma com grau academico de mestre.
Nesta seccao serao apresentados os resultados obtidos a partir das seguintes
areas tematicas identificadas: Area Tematica I - Conteudo do CP em enfermeiros
chefe; Area Tematica II - Percecao da violacao do CP; Area Tematica III -
Reacoes a violacao do CP.
Area Tematica I: Conteudo do contrato psicologico
A analise dos conteudos das entrevistas permitiu identificar duas categorias
nesta area tematica. A primeira categoria relaciona-se com aquilo que o
enfermeiro chefe espera receber da organizacao. A segunda categoria diz
respeito aquilo a que estao dispostos a dar.
No que se refere a categoria do que esperam receber identificam-se quatro
subcategorias: reconhecimento profissional; satisfacao no trabalho; progressao
na carreira e remuneracao compensatoria.
Relativamente ao reconhecimento profissional exemplifica-se com o discurso da
E4 ( ) ja que fui enfermeira chefe substituta durante muito tempo, ao
concorrer passei a ser chefe de carreira e dai ter o reconhecimento legal que
me era devido ( ) (marco, 2011). A satisfacao no trabalho pode ser
exemplificada pela E1 ( ) satisfacao no trabalho, para que todos os
enfermeiros consigam desempenhar o seu trabalho o melhor que sabem e podem ( )
(fevereiro, 2011). A progressao na carreira, para a E9 e verbalizada desta
forma ( ) durante muitos anos nao pensei em progredir na carreira, mas depois
achei que devia faze-lo dai o concurso para chefe ( ) tambem para me realizar
profissionalmente ( ) (maio, 2011). Finalmente, obter uma remuneracao
compensatoria tambem foi mencionado como uma das subcategorias que as
enfermeiras esperavam receber da organizacao. A titulo de exemplo, a E5 ( ) as
questoes de ordenado sao tambem importantes quando se muda de categoria, de
certa forma tambem pensei nisso ( ) (abril, 2011).
Na categoria que identifica o que o enfermeiro chefe esta disposto a dar a sua
entidade empregadora, destacam-se quatro subcategorias: desempenho de
excelencia, lealdade a hierarquia, lealdade a organizacao e lealdade a classe
profissional.
O desempenho de excelencia e exemplificado, desta forma, pela E4 ( ) quando
tomei posse como chefe, pensei nas minhas responsabilidades e no desempenho do
meu papel que pudesse ser um contributo para a melhoria da prestacao de
cuidados a populacao ( ) (marco, 2011). A lealdade com a hierarquia pode ser
ilustrada pelo excerto da E5 ( ) a nossa carreira e uma carreira centrada nas
hierarquias e eu sempre as reconheci e respeitei ( ) (abril, 2011). Ja a
lealdade a organizacao pode ser identificada na E3, que refere que ( ) fiz
sempre o meu melhor que sabia e podia gerir esta casa como fosse a minha
propria casa ( ) (marco, 2011), e pela E4 ( ) na tomada de posse esta
implicito um compromisso de lealdade com a instituicao ( ) (marco, 2011).
Surge tambem, a lealdade a classe profissional evidenciada nos discursos de E4
( ) eu continuo a achar que a enfermeira chefe e para defender a classe ( )
qualquer chefe que queira lutar pelo seu papel tem de lutar pelos enfermeiros
( ) (marco, 2011).
A semelhanca de resultados encontrados por Menegon e Casado (2006), este estudo
vem demonstrar que os enfermeiros chefe esperam receber da sua entidade
empregadora a possibilidade de construcao de uma carreira, receber um ordenado
compensador, serem reconhecidos pelo seu desempenho. Quanto ao que estao
dispostos a dar em troca, a organizacao, constatou-se que pretendem dar o seu
melhor; serem leais a organizacao e a classe profissional.
A analise destes dados permite inferir que a premissa apontada por Rosseau
(1995) de que a questao chave do CP esta na crenca de que uma promessa foi
feita e uma contrapartida e oferecida em troca, obrigando assim as partes a um
conjunto de obrigacoes reciprocas, nao e efetivamente concretizada, ja que as
promessas por parte da organizacao nao sao cumpridas e contudo, os enfermeiros
sempre estiveram disposto a oferecer em troca o seu melhor.
Area Tematica II: Percecao da violacao do contrato psicologico
Um elemento central do CP e a crenca do empregado de que a organizacao
empregadora esta a altura das suas promessas e compromissos. Quando um
colaborador toma consciencia que a organizacao nao cumpriu as suas promessas ou
obrigacoes entao estes experienciam uma violacao deste contrato.
A percecao da violacao do CP pelos enfermeiros chefe identifica-se tendo por
base a distincao do conceito de quebra e de violacao proposto por Morrison e
Robinson (1997) e Cassar e Briner (2011), uma vez que a violacao e entendida
como o estado emocional e afetivo que pode, sob certas circunstancias, decorrer
da crenca de que a organizacao nao conseguiu manter adequadamente o contrato.
A revolta, o ressentimento, o despeito, a tristeza, a frustracao e a humilhacao
sao as subcategorias encontradas no discurso dos entrevistados, que permitem
identificar o tema da percecao de violacao do CP.
A revolta e mencionada por E2 ( ) sinto e uma grande revolta com o que
aconteceu ( ) (fevereiro, 2011). O ressentimento pode ser bem identificado
pelo discurso de E1 ( ) magoou muito ouvir dizer em publico pelos altos
responsaveis da organizacao dizer agora deixou de haver enfermeira chefe ( )
(fevereiro, 2011). Ja o despeito, pode ser sentido atraves do discurso de E2
( ) isto passou-se aqui no centro de saude numa reuniao onde estavam medicos,
administrativos e auxiliares e disseram: agora ja nao existe enfermeira chefe,
eu fiquei que nem queria acreditar e disse meu Deus o que e isto!?( )
(fevereiro, 2011). A tristeza foi mencionada desta forma pela E6 ( ) alguma
tristeza de como retrocedemos e de como a carreira de enfermagem tem vindo a
ser desmoralizada ( )(abril, 2011). O sentimento de humilhacao e referido
desta forma por E5 ( ) sinto-me humilhada, nao sou ouvida na organizacao onde
trabalho ( ) (abril, 2011), e a frustracao pode ser sentida nas declaracoes de
E8 ( ) ninguem me tratou mal, ninguem me bateu, mas nao imagina a frustracao
diaria ( ) (maio, 2011).
Todos os enfermeiros chefe percecionaram violacao do CP. As principais
manifestacoes da violacao sao evidenciadas atraves de sentimentos de revolta,
ressentimento e frustracao, sentimentos tambem identificados num estudo
realizado por Zagenczyk et al. (2011).
Quando se atinge um determinado estatuto dentro de uma classe profissional
espera-se ser tratado em funcao desse estatuto. Foi o que se identificou aqui,
pois todos os enfermeiros chefe procuraram construir um percurso profissional
que os levasse a serem tidos em consideracao pela organizacao. A forma como se
sentiram tratados (a falta de respeito pelo seu percurso, pelo seu esforco e
pela sua dedicacao) sao os principais fatores que os levam a sentirem-se
defraudados e, consequentemente, percecionarem a violacao do CP. O desrespeito
(no entender deles) por parte dos seus superiores hierarquicos, e em especial a
demonstracao publica desse desrespeito fa-los sentir feridos de morte. Pode-se
referir que estes enfermeiros estao em esgotamento emocional, tal como
identificam Gakovic e Tetrick (2003). Considera-se, portanto, que mais do que a
perda que estes sentiram, o que mais contribuiu para a percecao da violacao do
CP foi a forma como esta perda se deu. Todos os enfermeiros chefe referiram que
para serem chefes passaram por um concurso publico, fizeram provas das suas
capacidades e depois sentiram perder tudo aquilo que conquistaram. Este foi
tambem um fator importante que contribuiu para se sentirem violados na sua
ideologia profissional e de como o seu percurso profissional se iria
desenrolar. Importa ainda referir que esta perda se da por decreto-lei e nao
pela efetiva perda das suas capacidades ou vontade de exercer tal categoria.
Area Tematica III: Reacoes a violacao do contrato psicologico
Na generalidade, a investigacao mostra que a violacao do CP tem consequencias
serias para os trabalhadores e para as organizacoes (Gakovic & Tetrick,
2003; Cassar & Briner, 2011; Menegon & Casado, 2006; Jafri, 2012).
A analise dos discursos permitiu constatar que houve violacao do CP dos
enfermeiros em estudo, e estes apontam as consequencias dessa violacao. Assim,
para esta area tematica identificaram-se duas categorias: reacoes ao nivel
pessoal e ao nivel profissional.
A nivel pessoal identificaram-se as seguintes subcategorias: o desencantamento
e o embotamento.
O desencantamento com a profissao pode ser ilustrado pelo seguinte fragmento de
discurso da E1 ( ) se calhar se olhasse para tras tinha abracado aquilo que
estou a fazer agora [coordenacao de uma Unidade de Cuidados na Comunidade
(UCC)] ( ) sem ser enfermeira chefe, ja que para isso precisei de fazer o
concurso publico ( ) (fevereiro, 2011). Importa aqui clarificar que para ser
coordenador de uma Unidade de Cuidados na Comunidade nao e necessario ser
enfermeiro chefe, basta ser detentor do titulo de especialista. Isto ajuda a
entender os sentimentos de desencantamento com a situacao em que se encontram
algumas das enfermeiras em estudo. Ja o embotamento concretiza-se no seguinte
fragmento de E1 ( ) o papel da enfermeira chefe foi condicionada ( ) deixei de
ter um papel ativo na questao dos recursos humanos ( ) (fevereiro, 2011).
A nivel profissional destacam-se a negacao da nova condicao profissional, um
menor empenhamento e a intencao de sair da organizacao (pedido de reforma). A
negacao da nova categoria profissional (resistencia a mudanca e sofrimento
psicologico) e evidenciada por todos os entrevistados. Ilustra-se com
fragmentos de discursos que demonstram bem a dificuldade da aceitacao a nova
condicao profissional. Assim, E4 refere que ( ) eu por algum motivo me recusei
a fazer outras funcoes que nao fossem funcoes de enfermeira chefe nunca
abdiquei disso ( ) (marco, 2011). Ja E6 salienta ( ) eu esclareci com a
equipa que mantinha o meu papel de chefe ate que sai nova legislacao ( )
(abril, 2011). Um menor empenhamento organizacional e visivel no discurso de E2
( ) dantes levava trabalho para casa, porque no servico nao me consegui
concentrar agora deixei de o fazer ( ) (fevereiro, 2011). E3 adianta que ( )
agora nao estou para me chatear dou o nome, porque precisam de uma pessoa com
as minhas habilitacoes [para a criacao formal da Unidade de Cuidados da
Comunidade] mas mais nada, motivacao nao tenho nenhuma; ja nao estou para me
chatear ( ). Duas das enfermeiras chefes, referem a intencao de sair da
organizacao manifestado pelos pedidos de reforma antecipados, argumentando que
( ) nao vou negar que estou a espera da aposentacao, la meti os papeis porque
estas mudancas que estamos a viver precipitaram a minha aposentacao ( )
(marco, 2011) ' E3, e que ( ) esta situacao toda levou--me a pensar na
possibilidade em ir para a reforma antecipada para me poder afastar do servico
( ) - E5 (abril, 2011).
Este estudo vem corroborar os resultados de outras investigacoes sobre as
implicacoes da violacao do CP (Krivokapic-Skoko et al., 2010; Chambel &
Peiro, 2003).
Parece que a percecao da violacao do CP, nesta amostra, esta fortemente
relacionada com a forma como o processo de ajustamento a nova categoria foi
conduzido. Salienta-se que mais do que as alteracoes, parece ter sido a forma
como o processo foi conduzido que induziram a percecao de violacao do CP.
Rousseau (1995) aponta que muitas das causas da violacao do contrato se
relacionam com a mudanca dos superiores hierarquicos na organizacao. Os dados
obtidos e analisados confirmam que, em parte, foi o que aconteceu na
organizacao em estudo. Embora as circunstancias nao sejam, na totalidade,
identicas as apontadas pela autora, considera-se que os pressupostos estao
presentes. Os enfermeiros chefe identificam a organizacao com a direcao de
Enfermagem, desta forma pode apontar-se o enfermeiro diretor como o
representante direto da organizacao. Entende-se, portanto, que no caso da
organizacao em estudo, a forma como todo o processo foi conduzido pela direcao
da organizacao, em especial o enfermeiro diretor, teve responsabilidade direta
nos sentimentos de violacao do contrato que foram experienciados, ja que foi
este o responsavel que conduziu o processo de transicao para a nova categoria e
nao respeitou o quadro ideologico da profissao.
Conclusao
O presente estudo propos-se conhecer o conteudo do CP, bem como identificar se
existiu percecao de violacao desse contrato e que implicacoes advieram dessa
percecao na dinamica da relacao entre estes enfermeiros chefe e a sua
organizacao empregadora.
Os resultados obtidos permitiram identificar e compreender o espectro de
vivencias e contrariedades ou oportunidades que o enfermeiro chefe encontra
numa determinada fase da sua carreira profissional, bem como a forma como este
profissional processa tais experiencias.
Constatou-se que o conteudo do CP dos enfermeiros chefe centra-se na sua
relacao de troca com a organizacao, e situa-se em duas dimensoes: aquilo que
os enfermeiros chefe esperam receber e o que estao dispostos a dar a
instituicao. No que se refere ao que esperam da organizacao identificaram-se: o
reconhecimento profissional, a satisfacao com o trabalho, a construcao de uma
carreira e uma remuneracao compensatoria. Quanto ao que estao dispostos a dar
identificaram-se: a lealdade a hierarquia, a lealdade a organizacao, um
desempenho de excelencia e a lealdade a profissao, o que leva a supor uma
identidade com uma causa superior ao autointeresse.
Todos os entrevistados revelaram que percecionaram violacao do CP, por parte da
entidade empregadora. As principais consequencias que advieram desta percecao
foram evidenciadas atraves de sentimentos de ressentimento, despeito, tristeza,
revolta, frustracao e humilhacao. Quanto as principais reacoes a violacao do CP
foram identificadas o desencantamento com a profissao, embotamento (sofrimento
psicologico), a precipitacao para a reforma (intencao de sair da organizacao),
um menor empenhamento, a negacao da nova condicao profissional e a
desmotivacao.
A percecao de violacao do CP parece estar fortemente relacionada com a forma
como o processo de ajustamento a nova categoria foi conduzido, mais do que a
propria mudanca, em si, causada pela alteracao da nova carreira.
Destaca-se, portanto, que a conduta das alteracoes da carreira deve ser gerida,
de forma efetiva, pelos superiores hierarquicos, ja que todos os entrevistados
referiam que um dos fios condutores da sua atuacao passa pela lealdade a
hierarquia e estes sentiram-se abandonados pela mesma e/ou desrespeitadas por
elas.
Em conformidade com os resultados obtidos, abrem- -se algumas possibilidades
para futuras investigacoes. Entre elas sugere-se estudar o conteudo do CP
destes profissionais agora face a nova condicao profissional. Sugere-se ainda,
e tendo em consideracao o contexto do estudo (Unidade Local de Saude do Alto
Minho, ser constituida por 13 centros de saude e dois hospitais), estudar o CP
de enfermeiros chefe dos cuidados de saude primarios. Esta sugestao parte da
constatacao apontada por Rousseau (1995) de que o contexto do exercicio
profissional e um dos construtores do CP.