A influência da ginástica laboral na coordenação motora global e no tempo de
reação de condutores de autocarro
INTRODUÇÃO
O trabalho tem um papel importante na vida do homem pois, além de ser fonte do
seu sustento, possibilita sentir-se útil, produtivo e valorizado (Lima, 2003).
No entanto, quando realizado sob condições inadequadas, pode ser prejudicial à
saúde e causar doenças, levando à inatividade física e ocupacional. Empresas de
diferentes setores passaram a investir em atividades que têm como objetivo
reduzir os problemas ocupacionais ocasionados pelo excesso de trabalho, como a
ginástica laboral.
A ginástica laboral pode ser considerada um programa de melhoria da qualidade
de vida no trabalho e também um agente motivador para a mudança no estilo de
vida das pessoas (Guimarães, 2008; Silva & Juvêncio, 2004). Diversos
estudos têm sido desenvolvidos com trabalhadores em diferentes setores de
empresas e indústrias, os quais evidenciam a ginástica laboral como uma forma
de prevenir, diagnosticar e amenizar doenças e problemas decorrentes da má
postura (Corazza, Cortes, & Rossato, 2007; Martins & Barreto, 2007;
Szeto & Lam, 2007).
A grande maioria dos estudos convergem principalmente para os aspetos físicos,
para a presença de desconfortos causados pela repetitividade de movimento e na
qualidade de vida dos trabalhadores. Sabe-se que para a realização bem-sucedida
de qualquer habilidade motora deve-se considerar o desenvolvimento de elementos
que estão subjacentes ao sucesso da realização da tarefa, tais como
coordenação, força, flexibilidade, equilíbrio, tempo de reação, entre outros,
justificando a importância em investigar estes elementos.
Diferentes estudos evidenciam também a coordenação motora em diferentes
populações e contextos, tais como: o efeito da prática regular de exercícios
físicos nas capacidades funcionais de idosas (Katzer, Antes, & Corazza,
2012); influência da idade, sexo, estado socioeconómico, percentagem de
adiposidade corporal (Valvidia et al., 2008), entre outros. Os estudos revelam
que a prática de atividades e/ou exercícios físicos proporcionam aumento dos
níveis desta capacidade motora, ocasionando movimentos realizados de maneira
harmónica e refletindo em ganhos na qualidade de vida dos seus executantes. Os
estudos com enfoque no tempo de reação têm sido realizados com estudantes,
surfistas, esgrimistas, jogadores de futsal, encontrando melhores resultados no
tempo de reação para pessoas fisicamente ativas (Borysiuk, 2008; Chagas et al.,
2005; Rascelik, Basgöze, Türker, Narman, & Ozker, 1989; Vaghetti, Roesler,
& Andrade, 2007).
Nesse contexto, a prática da ginástica laboral tem sua importância justificada,
pois além de oferecer aos seus praticantes a possibilidade da execução de
exercícios dentro do ambiente de trabalho, pode contribuir de maneira
significativa no aprimoramento das capacidades percetivo-motoras.
Ao adotar as variáveis acima (tempo de reação e coordenação motora global) e
considerando o ambiente de trabalho, como no caso de condutores de autocarro,
percebe-se que a maioria das tarefas realizadas exige, além da atenção e
coordenação motora, principalmente a coordenação motora global nas tarefas como
pisar no pedal da embraiagem e efetuar a troca de mudança. Para além disso, o
tempo de reação é solicitado em tarefas que exigem concentração, atenção e uma
velocidade comportamental adequada durante o percurso diário.
A partir das considerações sobre a ginástica laboral e a importância das
capacidades percetivo-motoras, e na ausência de estudos contemplando a análise
destas variáveis em conjunto, o presente estudo teve como principal objetivo
verificar os efeitos de um programa de ginástica laboral na coordenação motora
global e tempo de reação de condutores de autocarros urbanos.
MÉTODO
O presente estudo explora as relações entre variáveis que frequentemente não
podem ser associadas a relação causa-efeito, caraterizando-se como uma pesquisa
descritiva correlacional (Thomas, Nelson, & Silverman, 2012).
Participantes
A amostra foi constituída por 60 condutores, do sexo masculino, com média de
idades de 37.06 ± 7.66 anos e funcionários de empresas de transportes coletivos
urbanos. Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos, sendo
o grupo 1 (G1) submetido a sessões de ginástica laboral, duas a três vezes por
semana, com duração de 15 minutos por sessão, num período mínimo de 1 ano e não
apresentavam qualquer tipo de lesão física que impedisse a participação no
estudo ou a realização de exercícios fora do ambiente de trabalho. O grupo 2
(G2) não realizou aulas de ginástica laboral.
Instrumentos
Foi realizada inicialmente uma anamnese a fim de verificar se os sujeitos
apresentavam algum tipo de lesão diagnosticada, a frequência das aulas de
ginástica laboral, bem como se realizavam algum tipo de atividade física/
exercício físico fora do ambiente de trabalho.
O tempo de reação foi avaliado através de um software desenvolvido em linguagem
de programação object pascal, com recurso à ferramenta Borland Delphi7. Esse
software, criado e validado por Pereira et al. (2007), foi conectado a um
computador que avalia o Tempo de Reação Simples (TRS) e o Tempo de Reação de
Escolha (TRE) a partir de um estímulo visual. Para a avaliação da coordenação
motora global foi utilizado o Teste de Coordenação Motora Ampla – BURPEE
(Johnson & Nelson, 1979).
Procedimentos
Esta pesquisa foi realizada de acordo com a resolução nº 196/96 do Conselho
Nacional de Saúde (CNS) e aprovada em seus aspetos éticos e metodológicos pelo
Comité de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria sob o
protocolo nº 0339.0.243.000-09. Antes da realização dos testes, os
participantes leram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
sobre os trâmites da pesquisa.
Os participantes do estudo possuíam, em média, uma jornada de trabalho de oito
horas diárias sendo que os intervalos e as pausas eram definidos de acordo com
a escala dos horários disponibilizada aos trabalhadores.
As aulas de ginástica laboral, ofertadas pelas próprias empresas, eram
realizadas sempre no início da jornada de trabalho. As sessões de prática
tinham em média 15 minutos de duração, com enfoque principalmente em exercícios
de alongamento, aquecimento, relaxamento e atividades recreativas, realizadas
individualmente, em duplas ou em grupos.
A coleta de dados procedeu-se nas próprias empresas, individualmente, em salas
reservadas, ambiente adequado e iluminado para ambos os grupos. Após a
realização da anamnese, os participantes executaram os testes na respetiva
ordem TRS, TRE e BURPEE, com intervalo de 10 minutos entre eles. Antes da
execução do TRS e TRE foi dada uma tentativa de familiarização para cada teste.
Os testes eram constituídos por 20 tentativas e a apresentação dos estímulos
ocorria em intervalos de tempo aleatórios. Uma breve explicação sobre a
realização do teste de BURPEE precedeu a execução do mesmo, com a demonstração
dos movimentos pelo avaliador.
Análise Estatística
Os dados do estudo foram submetidos a estatística descritiva. A normalidade dos
dados foi analisada por meio do teste de Shapiro-Wilk, o qual mostrou
distribuição normal apenas para as variáveis TRS e TRE no grupo experimental.
Para os dados que não possuíram normalidade, utilizou-se o teste não
paramétrico de Mann-Whitney. O programa SPSS for Windows, versão 14.0, foi
utilizado para o tratamento estatístico dos dados, assumindo um nível de
significância de 5%.
RESULTADOS
A Tabela_1 apresenta as médias e desvios-padrão das variáveis BURPEE Acertos,
TRS e TRE. Além disso, apresenta a comparação entre grupos nestas variáveis.
É importante destacar que, tratando de resultado de desempenho, se os escores
da variável coordenação motora global mostram-se elevados indica que o sujeito
movimenta-se de forma harmónica, coordenada e percebe-se fisicamente capaz para
realizar determinadas atividades. Já para o TRS e o TRE quanto menores os
resultados apresentados, melhor é o desempenho do sujeito em relação à tarefa.
A Tabela_1 apresenta diferenças estatisticamente significativas no desempenho
motor da variável coordenação motora global entre grupos, tendo o grupo G1
apresentado melhores escores.
O grupo G2 demonstrou tempos médios de reação (simples e de escolha) superiores
aos do grupo G1, embora sem significância estatística.
DISCUSSÃO
Os resultados da presente investigação vão ao encontro dos resultados obtidos
por Santos e Fernandes Filho (2004, 2007). No primeiro estudo, os autores
procuraram identificar, dentre outros aspetos, as qualidades físicas básicas de
70 policiais (soldados, cabos e sargentos) integrantes do BOE (Batalhão de
Operações Especiais) utilizando o protocolo BURPEE. Os participantes obtiveram
média de 4.78 repetições. Já Santos e Fernandes Filho (2004) em estudo com
oficiais para-quedistas encontraram média de 5.80 repetições. Esses achados
confirmam o bom desempenho apresentado pelos participantes do G1, uma vez que
os militares anteriormente citados participam de programas de treino físico
diariamente, ao contrário dos participantes deste estudo que praticavam
atividades de alongamento e relaxamento apenas duas a três vezes por semana.
Silva e Fernandes Filho (2008) avaliaram as qualidades físicas que caracterizam
os atletas de pentatlo masculino de alto rendimento brasileiro, utilizando
também o protocolo de BURPEE. Os participantes obtiveram média de 16.67 partes
executadas. Ao fazer uma análise comparativa com o presente estudo, percebe-se
que os resultados mostram-se superiores aos obtidos pelos condutores,
considerando que eles são atletas de alto nível, enquanto neste estudo, os
participantes não praticavam nenhum tipo de atividade física fora do ambiente
de trabalho. Os autores ainda enfatizam que a coordenação não só é um elemento
básico numa gama variada de práticas desportivas, mas também é elemento útil na
vida diária doméstica e profissional, podendo ser melhorada com a prática e/ou
treinos.
Outro estudo que também dá suporte a estes achados foi o realizado por Katzer e
Corazza (2007). As autoras aplicaram o mesmo protocolo em académicos do Curso
de Educação Física, sendo que a média obtida para o grupo foi de 14.85
repetições. Percebe-se que os resultados obtidos pelos condutores do G1 são
próximos aos alcançados pelos estudantes, considerando que estes são
praticantes de exercícios físicos, enquanto no presente estudo, os sujeitos
apenas praticaram ginástica laboral no ambiente de trabalho. Os achados
demonstram que apesar da prática de ginástica laboral ser desenvolvida num
pequeno período de tempo (15 minutos) ainda assim pode trazer benefícios sobre
o desempenho dos participantes.
Contreira e Corazza (2009) verificaram o efeito da ginástica de academia nas
capacidades percetivo-motoras, especificamente na coordenação motora global de
15 jovens universitárias, iniciantes na modalidade, e verificaram, através do
Protocolo de BURPEE, diferenças estatisticamente significativas no desempenho
motor da variável do início do experimento (9 repetições) para o final do
experimento (12 repetições) após 10 sessões de ginástica. Ao confrontar com os
resultados do presente estudo, percebe-se que as médias das participantes do
estudo anteriormente citado revelaram-se inferiores aos resultados deste
estudo; no entanto, deve-se considerar que as universitárias eram iniciantes
nesta modalidade, enquanto os condutores praticaram ginástica laboral durante
pelo menos um ano.
Em estudo realizado por Nishioka, Dantas, e Fernandes Filho (2007) os autores
verificaram em 13 bailarinos, de ambos os sexos, na faixa etária de 19 a 21
anos, diferentes qualidades físicas básicas, dentre estas a coordenação motora.
Os participantes apresentaram os seguintes resultados no Teste de BURPEE:
mulheres (17.31 repetições) e homens (17.80 repetições). As médias das
participantes revelaram-se superiores aos resultados dos motoristas, no
entanto, deve-se considerar que os participantes do presente estudo não
praticavam nenhum tipo de atividade física fora do ambiente de trabalho,
enquanto os bailarinos praticavam frequentemente atividades de constante
movimentação corporal.
Ainda, com o propósito de verificar a coordenação motora global e fina,
flexibilidade e os aspetos emocionais em trabalhadores praticantes de ginástica
laboral, os resultados encontrados por Corazza et al. (2007) demonstraram que
após 2 meses de prática da ginástica laboral os trabalhadores apresentaram
resultados superiores nessas capacidades, o que se refletiu beneficamente na
saúde dos praticantes.
Com relação às variáveis TRS e TRE, os resultados encontrados no presente
estudo não apontaram diferença estatística. Acredita-se que, por realizarem
diariamente uma tarefa que exige TR, como o ato de dirigir, os condutores já
possuem esta capacidade motora bem desenvolvida. Contrário aos achados desta
pesquisa, os resultados encontrados em diferentes estudos (Borysiuk, 2008;
Contreira & Corazza, 2009; Pereira, Teixeira, Villis, & Corazza, 2009;
Rascelik et al., 1989; Vaghetti et al., 2007), evidenciam que o tempo de reação
apresenta melhores resultados quando os sujeitos são estimulados nas atividades
desportivas a melhorar os níveis de desempenho durante a realização de uma
tarefa ou de uma modalidade desportiva, o que se assemelha diretamente ao
estudo, quando contrapõem-se o resultado do G1, que realizou aulas de ginástica
laboral, com o G2 (grupo controlo).
De um modo geral, a ginástica laboral utiliza técnicas de alongamento,
fortalecimento muscular, coordenação motora e relaxamento (Oliveira, 2007).
Percebe-se, de acordo com os resultados encontrados que, a prática de ginástica
laboral apresenta efeitos benéficos na coordenação motora global. Esse achado
pode estar atribuído a essa prática ser realizada anteriormente à jornada de
trabalho, denominada preparatória. A ginástica laboral preparatória tem como
função preparar os indivíduos para a jornada de trabalho conforme suas
necessidades de velocidade, força ou resistência, aperfeiçoando a coordenação
(Cañete, 2001). No entanto, não há uma compreensão de que a ginástica laboral
desenvolvida durante (ginástica laboral compensatória) ou após o trabalho
(ginástica laboral de relaxamento) apresentaria melhorias na coordenação motora
global. Deste modo, estudos devem ser realizados para comparar a eficácia
dessas diferentes classificações sobre a coordenação motora global.
Outro aspeto a ser abordado consiste na eficácia da quantidade de prática.
Evidências na literatura têm demonstrado que a ginástica laboral com duração em
média de três meses a um ano apresenta benefícios como, alívio das dores
corporais, diminuição dos casos de lesões por esforços repetitivos e distúrbios
osteomusculares relacionados ao trabalho (Sampaio & Oliveira, 2008). Para
além disso, quanto mais uma habilidade é praticada, maiores serão as chances de
se obter êxito na sua execução. Sendo assim, a ginástica laboral deve ser
incentivada nas empresas não somente para diminuir as dores causadas pelo
excesso de trabalho, mas sim para a melhoria dos elementos que estão
subjacentes ao sucesso da realização da tarefa, como a coordenação motora e o
tempo de reação.
O presente estudo apresenta como uma de suas limitações o fato da coleta de
dados ter sido realizada em horários distintos em função das escalas de
horários dos trabalhadores. Visto que a coleta era realizada no intervalo entre
uma escala e outra, os participantes devido ao desgaste mental e físico
ocasionado pelo trabalho podem não ter demandado atenção suficiente para a
execução dos testes, prejudicando os resultados das variáveis TRS e TRE, já que
as mesmas apresentam como pressuposto básico a atenção. Recomenda-se que, em
estudos futuros realizados com a variável tempo de reação (simples e de
escolha), as coletas sejam realizadas no mesmo horário, evitando desgastes
físicos e mentais dos participantes. Sugere-se também que mais estudos sejam
feitos com essa população, relacionando a tarefa executada com o sono e como
este pode causar efeitos prejudiciais no desempenho dos motoristas.
CONCLUSÕES
O presente estudo verificou o efeito benéfico da ginástica laboral sobre a
coordenação motora global de condutores de autocarro evidenciando que esta
prática foi eficaz para a melhora dessa variável, que é importante na
realização das tarefas diárias e laborais. No entanto, em relação ao TRS e TRE
não foi encontrada diferença estatística.
Embora o programa de ginástica laboral não tenha proporcionado efeitos
benéficos para a variável analisada, a prática desta habilidade motora é de
suma importância para a saúde do trabalhador em virtude de apresentar melhorias
na postura, diminuição da dor, prevenção de doenças ocupacionais, melhoras nos
aspetos físicos e psíquicos, bem como ganhos no relacionamento interpessoal.
O presente estudo traz sua contribuição ao constatar também a importância da
prática da ginástica laboral para as capacidades percetivo-motoras,
demonstrando que esta modalidade contribui para mudanças satisfatórias no
repertório motor. É importante ressaltar que a melhora dessas capacidades é
essencial para a realização de movimentos harmoniosos e precisos no trabalho e
nas demais atividades cotidianas, pois reflete nas condições de saúde e no
aumento da qualidade de vida.