A evolução da investigação em desporto na última década
EDITORIAL
Existe a ideia generalizada entre a maioria dos académicos e investigadores que
nos últimos cinco a dez anos se tem verificado uma evolução particularmente
acentuada da produção científica em Desporto, Educação Física e áreas afins.
Com todas as limitações que lhe estão associadas, existem vários indicadores
bibliométricos que são recorrentemente selecionados para uma análise mais
aprofundada.
Considere-se para o efeito o Web of Science® de 02 de Junho de 2015. Entre o
ano de 2005 e Junho de 2015 foram publicados 67031 trabalhos na área do
Desporto, o que daria uma média de praticamente 6700 artigos por ano, ou de uma
forma mais prosaica, 18.35 artigos por dia, 0.76 artigos por hora. Pese embora
dizer que se publica praticamente um trabalho em Desporto por hora em revista
de topo, parecer um tanto demagógico; não deixa de também ser uma boa forma de
demonstrar como a investigação a nível internacional se tornou tão competitiva.
Faça-se de seguida a análise por países com maiores níveis de produtividade. Em
primeiro lugar surge os Estados Unidos da América (15735, 23.47%), seguido da
Inglaterra (5961, 8.89%) e fecha o pódio a Austrália (4644, 6.92%). O Brasil
aparece em oitavo lugar (2075, 3.09%) e Portugal em décimo sétimo (778, 1.16%).
Apenas para haver um melhor entendimento da evolução que tem ocorrido, o Brasil
passou de sensivelmente 50 artigos no ano de 2005 para pouco mais de 350 em
2014 e Portugal de pouco menos de 20 para 160. A título ilustrativo, Inglaterra
em 2005 teve pouco menos de 300 trabalho publicados e em 2014 quase 800. Ou
seja, com base nestes indicadores dir-se-ia que os dois países lusófonos têm
vindo a diminuir a distância em comparação com países anglo-saxónicos com maior
tradição académica. Claro que há fatores que não estão a ser tomados aqui em
consideração para além da dita tradição, tais como, investimento público e
privado em Ensino, Ciência & Tecnologia quer em valor absoluto quer em
termos relativos do PIB, percentagem da população a frequentar o sistema de
ensino terciário, etc.
Mas como tocamos no assunto dos países lusófonos versus os anglo-saxónicos,
talvez a comparação entre grupos de países com uma mesma matriz socio-cultural
e linguística possa ser interessante. Os países anglo-saxónicos produziram
29643 dos trabalhos (44.22%), os lusófonos 3052 (4.55%), os francófonos 2937
(4.38%), os hispânicos 2633 (3.92%) e os eslavos 666 (0.9%). Repare-se que
países que estão na base do que são hoje as Ciências do Desporto, como os do
leste da Europa, tem-se vindo a afastar da liderança. Muitos dos fundamentos em
Psicologia, Fisiologia, Biomecânica ou Treino Desportivo tiveram origem em
autores do Leste da Europa. Provavelmente nestes países continuam a existir
investigadores com elevadas competências e produzir conhecimento útil. Contudo,
este não chega aos chamados países ocidentais porque a sua difusão não é feita
numa língua de fácil entendimento para não-eslavos.
Voltando aos indicadores bibliométricos mas ponderando a língua adotada para
comunicar os resultados da investigação. Entre 2005 e 2015, 51916 (77.45%)
trabalhos foram publicados em língua inglesa. O coreano foi usado em 9334
(13.92%) e o Português em 1269 (1.89%) entradas na Web of Science® nessa
década. Ciência é sinónimo de produção de conhecimento, mas também da sua
difusão e partilha com os pares. Repare-se que o coreano é a segunda língua
mais utilizada, mas com uma média de citações por trabalho de 0.01 (índex H de
04), além que o país se encontra em 22º lugar do ranking. Indubitavelmente,
após a segunda guerra mundial, o inglês tornou-se a língua franca da Ciência.
Este não é espaço para explicar o motivo para que tal tenha acontecido, mas é
dado incontornável. Para que um trabalho tenha uma maior exposição, terá de ser
comunicado num língua que a larga maioria dos pares entenda.
Foi com base nestes factos que foi decidido que a Revista Motricidade tem de
acompanhar a realidade atual caso se queira manter como publicação de
referência. Portanto, em breve uma das regras de submissão de trabalhos será
alterada. Manter-se-á a premissa que o aspeto determinante na avaliação do
trabalho é o rigor metodológico e a definição do problema científico em causa.
Contudo, num mundo global como aquele em que vivemos hoje, não se pode ignorar
que de pouco serve publicar trabalhos de qualidade se depois não são
entendíveis por autores que não dominem o português. Assim, a partir de Janeiro
de 2016 os trabalhos submetidos à Revista Motricidade terão de ser redigidos em
língua inglesa. Os trabalhos em língua portuguesa entretanto aceites serão
publicados nos próximos números e os que se encontrem em processo de revisão
continuarão a ser tomados em consideração.