Comportamento de cultivares de mamona (Ricinuscommunis) sob diferentes
densidades populacionais, no estado do Tocantins
Introdução
A mamoneira (Ricinus communisL.) é uma oleaginosa (família Euphorbiaceae) de
grande importância no Brasil e no mundo. Cultura produzida tradicionalmente em
pequenas e médias propriedades tem importante valor social como geradora de
renda e empregos no campo. Na área industrial são inúmeras as possibilidades de
aplicações e também de utilização como potencial energético (Turatti et al.,
2002). A mamoneira é importante também devido à sua tolerância à seca, sendo
também plantada com excelentes resultados em diversas regiões do país. Tem-se
verificado que há uma procura energética crescente em todo mundo, onde as
prioridades voltam-se para fontes energéticas renováveis, destacando-se dentre
elas a mamoneira como excelente alternativa, diminuindo os impactos negativos
sobre o meio ambiente, além de incentivo à fixação de populações e geração de
renda no campo (Silva et al., 2008b).
O rendimento médio da mamona em bagas, no Brasil, na safra 2006/2007 foi de 728
kg.ha-1 (CONAB, 2007). A perda de competitividade é explicada pelo baixo nível
tecnológico do produtor, uso incorreto de insumos e principalmente pela falta
de cultivares melhoradas, adaptadas para colheita manual e/ou mecânica e para
resistência às doenças, o que encarece o custo de produção (Savy Filho et al.,
1999). O conhecimento do arranjo espacial ideal de plantas para cultivares de
mamoneira, implica em tecnologia de produção para o produtor, com baixo custo.
O arranjo apropriado de plantas da cultura confere ganhos em habilidade
competitiva com plantas daninhas e em produtividade das culturas. Maior
capacidade de supressão de plantas daninhas obtém-se quando se reduz o
espaçamento entrelinhas da cultura (Pires et al., 2001). O mesmo efeito
acontece quando é incrementada a densidade populacional (Harker et al., 2003).
Espaçamentos menores, respeitando a densidade adequada de plantas podem
propiciar uma melhor utilização dos recursos do ambiente, favorecendo uma
rápida cobertura do solo, resultando em incremento da produção (Bianchi et al.,
2007).
A população de plantas é definida, pelo espaçamento entre linhas e pela
densidade de plantas na linha, que proporcionam a escolha do melhor arranjo
espacial a ser utilizado. A distância entre as plantas na linha, embora seja
uma técnica simples e praticamente sem custo para o produtor, tem grande
impacto na produtividade (Silva et al., 2008a).
A densidade é quantificada em termos de número de indivíduos por unidade de
área e determina o tamanho da área disponível por planta. O arranjo espacial é
definido como padrão de distribuição de plantas e determina a forma geométrica
da área disponível para cada indivíduo num plantio (Willey & Rao, 1981).
Assim, por exemplo, numa lavoura cultivada no espaçamento de 2,0m x 2,0m, com
uma planta por cova, a população teórica será de 2.500 plantas/ha e o arranjo
espacial, quadrangular.
A conveniência do produtor em consorciar a mamona com culturas alimentares para
minimizar os custos de produção ou a necessidade do tráfego de máquinas,
animais ou do próprio homem para fins fitossanitários, definirá na escolha do
arranjo espacial de uma lavoura (Azevedo et al., 2006).
Quando submetida a grandes densidades populacionais, a mamoneira ramifica
menos, sendo que cultivares de porte médio podem se comportar como cultivares
de porte baixo, emitindo somente um ou dois racemos por planta, o que
possibilita uma maior uniformidade de plantas e maturação dos frutos,
facilitando a colheita mecânica e aumentando o índice de colheita (Ferreira et
al., 2006; Moshkin, 1986).
Azevedo et al. (2006), utilizando densidades de plantas de 2.500 a 5.000
plantas por hectare e avaliando a variação do arranjo espacial em uma cultivar
de mamona, observaram que os componentes da produção, assim como o rendimento
da mamona em baga não sofreram alteração, porém encontrou os maiores
rendimentos no arranjo de fileiras simples (2,0m x 1,0m) com 1 planta/cova
(56%) e no arranjo duplo (4,0m x 1,0m x 1,0m) com duas 2 plantas/cova (54%).
Silva et al. (2008b) verificaram que as variedades de porte médio (AL Guarany
2002 e IAC Guarani), resultam em incremento da produtividade sem alterar os
componentes do rendimento no aumento da densidade de semeadura, até uma
população de 12.500 plantas por hectare.
Objetivou-se com este trabalho avaliar a influência de diferentes densidades
populacionais em características agronômicas de quatro cultivares de mamona, em
Gurupi ' TO.
Material e Métodos
O experimento foi implantado na Universidade Federal do Tocantins ' Campus
Universitário de Gurupi, 287 m de altitude, 11º 43' S e 49º 04' W, num solo
vermelho amarelo distrófico. O preparo da área foi realizado com uma gradagem e
posterior nivelamento. O plantio foi realizado no dia 18 de dezembro de 2007,
com adubação de 150 kg ha-1 da formulação 5-25-15 de NPK. A colheita foi feita
até o final de agosto de 2008. O delineamento experimental utilizado foi blocos
ao acaso em esquema fatorial, sendo o primeiro fator os tratamentos com
densidades populacionais de 5.600, 7.400, 11.000 e 22.000 plantas ha-1 e o
segundo fator as cultivares (IAC 226, Guarani, Nordestina e Paraguaçu).
As características avaliadas foram altura da planta (AP), medindo-se com fita
métrica do solo até o último ramo; altura dos cachos (AC) medindo-se com fita
métrica do solo até o último cacho; produtividade de cachos por hectare (PCHA),
pesando os cachos da parcela e convertendo-os a valores de produção por
hectare; peso de sementes por hectare (PSHA), pesando-se em balança analítica
as sementes de cada tratamento e porcentagem dos cachos com mofo (%CM),
contando-se o número de plantas com podridão cinzenta (Botrytis ricini)e
multiplicando por 100 para as quatro cultivares avaliadas. Os dados foram
analisados por meio de análise de variância e aplicado o teste de Tukey (1949)
a 5% de probabilidade às suas médias.
Resultados e Discussão
Para as densidades populacionais (Quadro_1), as características altura de
planta e altura de cacho demonstraram influência não significativa pelo teste F
(P>0,05), enquanto as características produtividade do cacho, peso da semente e
porcentagem de cachos com mofo apresentaram efeito altamente significativo pelo
teste F (P<0,01). Para cultivares (Quadro_1), todas as características
estudadas apresentaram influência altamente significativa pelo teste F
(P<0,01). Quanto à interação entre as densidades populacionais e cultivares
(Quadro_1), todas as características apresentaram valores menores que 1% de
probabilidade pelo teste F.
A altura média das plantas variou entre 295 cm (7.400 plantas ha-1) e 319 cm
(5.600 plantas ha-1) mas não se registrou diferenças estatisticamente
significativas entre as médias das alturas das plantas (AP) para as diferentes
densidades populacionais (Quadro_2). Quanto às cultivares para esta
característica, a Nordestina obteve a maior AP (346 cm), valor não
significativamente diferente das cultivares IAC 226 e Paraguaçu. A cultivar
Guarani foi a que obteve a menor AP (244 cm), diferenciando-se
significativamente das demais.
Quando se planeja fazer colheita mecanizada, deve-se plantar uma cultivar de
porte baixo e pouca ramificação lateral para permitir a passagem de
colheitadeiras de milho nas quais foram feitas adaptações para a colheita da
mamona, sendo a colheita manual indicada para pequenas e médias propriedades,
onde a mão-de-obra é disponível e abundante (Silva, 2007). É importante
ressaltar que o crescimento vegetativo da mamoneira está diretamente
relacionado à disponibilidade hídrica durante o ciclo da cultura, pois o
aumento do fornecimento de água às plantas promove um maior crescimento lateral
e consequentemente aumenta a competição por luz, induzindo a um maior
crescimento em altura (Severino et al., 2006).
Com relação à altura dos cachos (Quadro_3) nota-se que não houve diferença
significativa entre as densidades populacionais e nem entre as cultivares IAC
226, Nordestina e Paraguaçu, que obtiveram as maiores médias de altura dos
cachos. Já a cultivar Guarani diferenciou-se das outras, obtendo a menor média
de altura de cachos, independentemente da densidade populacional, que aliada à
baixa estatura (Quadro_2), apresenta aptidão para colheita mecânica. O
comportamento das cultivares foi heterogêneo quanto à maior AC nas diferentes
densidades populacionais, com as cultivares Nordestina e Paraguaçu alcançando
valores máximos (253 e 261, respectivamente) na máxima densidade populacional.
Já a cultivar Guarani alcançou valor máximo (202) na densidade populacional de
11.000 plantas ha-1; a IAC 226 obteve valor máximo (263) na densidade
populacional de 7.400 plantas ha-1.
A densidade populacional pode influenciar a altura de plantas em função da
competição entre plantas por água, luz e nutrientes, de acordo com Severino et
al. (2004) que afirmam, que em condições de boa disponibilidade de água e
nutrientes, as plantas tendem a crescer excessivamente. Além disso, a altura de
planta está correlacionada com altura do cacho (AC), de modo que plantas com
menores portes e cachos mais baixos, favorecem a colheita manual, que é a
predominante no Brasil.
Para o aproveitamento mais eficiente dos nutrientes fornecidos pelo solo, o
controle eficiente de plantas daninhas e maior eficiência de uso da água do
solo durante o desenvolvimento da cultura e o arranjo adequado entre as plantas
é de extrema importância. No caso da mamoneira, a densidade de plantas por área
apresenta efeito significativo na produtividade não só do cacho principal, mas
também, dos cachos laterais (Moshkin, 1986).
O estudo do peso da semente por planta em mamona assume grande importância,
visto que a semente contém 90% do ácido ricinoléico, único ácido gordo
hidroxilado, que confere ao óleo características singulares, possibilitando
utilização industrial em ampla escala (Albuquerque et al., 2008).
É provável que o menor peso se deva ao desenvolvimento incompleto da semente
que pode ter menor quantidade de reservas, principalmente óleo e proteínas
(Lucena et al., 2006). Analisando os dados deste trabalho (Quadro_4),
verificou-se que houve diferença significativa entre as populações e entre as
cultivares. A população de 22.000 plantas ha-1 apresentou maior média no peso
de sementes e a população de 5.600 plantas ha-1 a menor média. Já comparando as
cultivares, notou-se que a cultivar Guarani apresentou a maior média no peso de
sementes, sendo a cultivar IAC 226 a menos produtiva. Portanto, a cultivar
Guarani e a população de 22.000 plantas ha-1 foram as mais produtivas na região
deste estudo.
Nazareno et al. (2011), avaliaram quatro cultivares de mamona e observaram que
a cultivar Guarani apresentou o maior peso de sementes também, com 754 kg ha-1,
inferior ao encontrado no presente trabalho, apresentando uma produtividade 86%
maior. A podridão cinzenta é uma das mais comuns e destrutivas doenças da
mamoneira, pois afeta as inflorescências, os cachos e as sementes, reduzindo a
produção de óleo pela diminuição dos frutos colhidos (Lima et al., 2001). O
agente etiológico (o fungo Botrytis riciniGodfrey) causa aparecimento de
pequenas manchas de tonalidade azulada no caule, folhas e inflorescências, as
quais exsudam gotas de líquido amarelo; frutos e inflorescências atacados podem
apodrecer e tomar cor escura, causando assim o chochamento das sementes (Lima
et al., 2006).
Quanto à porcentagem de cachos com mofo (%CM) observou-se diferenças
significativas entre as densidades populacionais e cultivares (Quadro_5). A
densidade populacional de 5.600 plantas ha-1 apresentou maior média de
porcentagem de cachos com mofo, sendo significativamente diferente das demais;
este fato pode estar associado a uma maior circulação de ar entre as plantas.
Em relação às cultivares observou-se que IAC 226 e Nordestina apresentaram
maiores médias, que foi significativamente diferente das cultivares Guarani e
Paraguaçu.
Conclusões
Foi verificado um comportamento diferencial das cultivares em função das
densidades populacionais; A cultivar Guarani apresentou, de modo geral, o maior
peso de sementes e características favoráveis à colheita mecanizada.