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EuPTCVHe0871-34132015000200001

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National varietyEu
Year2015
SourceScielo

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Lombalgia: Um diagnóstico diferencial raro

Introdução A dor lombar é uma queixa frequente nas consultas de Medicina, estimando-se que 80% da população irá apresentar esta queixa em algum momento da sua vida, dos quais 90% terão um curso benigno1. Embora a maioria dos doentes apresentem uma causa neurológica ou os teomuscular para as queixas, cerca de 8% apresentam uma causa não-mecânica, condicionada por patologia visceral2, cujo atraso no diagnóstico pode ter consequências graves e potencialmente fatais.

A lista de diagnósticos diferenciais é extensa, apresentando alguns diagnósticos especificidades relevantes.

Devida à extensa lista de diagnósticos diferenciais, foram criadas red flags (Tabela_2 ), cuja presença durante a história clínica e/ou exame objetivo, implica um estudo etiológico mais aprofundado.

Os autores descrevem o seguinte caso clínico para alertar para a necessidade de se proceder à história clínica e exame objetivo cuidadoso em doentes com queixas de lombalgia.

Caso clínico Sexo feminino, 68 anos, previamente autónoma, com antecedentes pessoais de: - Doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) de etiologia tabágica -Cardiopatia isquémica com enfarte agudo do miocárdio submetido a angioplastia 6 meses antes -Hipertensão arterial; Diabetes mellitustipo 2 Internada no Serviço de Medicina Interna por traqueobronquite aguda a descompensar DPOC e Insuficiência cardíaca (IC) de base. Apresentava concomitantemente Hipertensão arterial (HTA) de difícil controlo farmacológico e lombalgia intensa com 3 meses de evolução, não agravada pelo movimento e sem alívio com o repouso.

Ao exame objetivo, a dor lombar não era exacerbada a palpação das apófises espinhosas lombares ou dos músculos para vertebrais. O Lasègue era negativo bilateralmente, bem como o Murphy renal.

Foram pedidos exames imagiológicos que revelaram uma cifose dorsal de 48º e escoliose lombar direita de . Na radiografia de perfil lombar (Figura_1 ), notava-se esboço de imagem sacular de contornos calcificados anteriormente a L3-L4.

Foi pedida AngioTC abdominal (Figura_2 e Figura_3 ) que revelou a presença de um AAA com uma extensão longitudinal de 125mm por 50x50mm de diâmetros axiais. Apresentava envolvimento da artéria mesentérica inferior e da emergência da artéria renal esquerda, associada a rim atrófico não funcionante.

À data de alta, encontrava-se estabilizada do ponto de vista respiratório, mantendo ligeiras queixas álgicas lombares, e em lista de espera para colocação de endoprótese.

Discussão Os Aneurismas da Aorta Abdominal (AAA) são definidos por uma dilatação focal da Aorta abdominal >3cm e têm uma prevalência de 7.6% em homens e 1.3% em mulheres entre os 65 e 80 anos4. Os antecedentes pessoais de tabagismo, aumentam o risco de vir a desenvolver AAA entre 3 a 5 vezes, bem como todos os seguintes factores: presença de antecedentes familiares com AAA Or 1.94 (95% IC: 1.63- 2.32); doença coronária OR 1.52 (95% IC: 1.37-1.68); hipercolesterolémia OR 1.44 (95% IC: 1.27-1.63) e doença cerebrovascular OR 1.28 (95% IC: 1.11-1.47)5.

Estima-se que cerca de 50% dos doentes com Aneurismas da Aorta Abdominal apresentem queixas de dor lombar. O mecanismo da dor ainda não se encontra esclarecido, admitindo-se várias hipóteses como a da erosão dos corpos vertebrais, trauma dos tecidos moles adjacentes e pequenas disseções da íntima.

uma das hipóteses mais debatidas é a de que a aterosclerose e a disseção da Aorta abdominal cause alterações do fluxo circulatório local, com consequente hipóxia dos músculos paravertebrais e discos vertebrais.

O principal risco dos AAA é a sua rutura, que se encontra associada a elevadas taxas de mortalidade, morrendo cerca de 62% dos doentes antes da admissão hospitalar. Mesmo a própria intervenção cirúrgica após rutura tem uma taxa de mortalidade de 80%, o que enfatiza a importância do diagnóstico precoce.

O caso apresentado trata-se de um diagnóstico diferencial raro de lombalgia, com uma apresentação inicial com uma única red flag: a ausência de melhoria das queixas álgicas com o repouso. no entanto, a doente apresentava múltiplos fatores de risco como idade superior a 65 anos, ser fumadora, portadora de doença pulmonar obstrutiva crónica e aterosclerótica e de ter sido submetida a procedimento endovascular 6 meses antes.

Apenas após o diagnóstico se obteve uma etiologia para a hipertensão arterial resistente à terapêutica farmacológica, explicada pelo ligeiro compromisso da origem da artéria renal direita (único rim funcionante) e consequente hiperatividade do eixo renina angiotensina-aldosterona.

A doente não apresentava sinais imagiológicos sugestivos de erosão dos corpos vertebrais (sugerida como causa de dor em alguns estudos), admitindo-se como possível origem das queixas álgicas uma compressão radicular por posterolistese grau I de L4 sobre L5, provavelmente condicionada pela compressão da dilatação aórtica anterior.

Considerando as dimensões do aneurisma diagnosticado, a doente apresentava um risco de morte por rutura de 25% no primeiro ano e de 50% nos 5 anos seguintes.

O AAA, embora raro, é um diagnóstico diferencial relevante de lombalgia que, pela sua gravidade, deve ser tido em consideração na abordagem destas queixas.


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