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EuPTCVHe0871-34132012000500001

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variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0871-3413
ano2012
Issue0005
Article number00001

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Erotonomia: Revisão bibliográfica a propósito de um caso clínico

REVISÃO DA LITERATURA EVOLUÇÃO HISTÓRICA As manifestações da doença mental nos relacionamentos interpessoais de carácter amoroso sempre suscitaram interesse na história da humanidade, nomeadamente na Psiquiatria.

Desde os tempos de Hipócrates, Plutarco e Galeno até à actualidade foram usados diferentes termos para descrever essas manifestações. São exemplo: furor uterinus (ninfomania), melancolia eróticae amor insanus (erotomania).1 Entre os autores dos séculos XVI-XVIII que mais contribuíram para a evolução da definição de Erotomania, salientam-se De Ferrand (1575-1623), Bartholomy Pardoux (1545-1611) e Esquirol (1772-1840).2 Este último autor criou o conceito de monomania erótica e definiu a Erotomania como um delírio de amor excessivo.3 Identificam-se quatro fases distintas na evolução histórica do entendimento da doença.3 Desde a era clássica até finais do século XVII, a Erotomania era vista como umadoença do estado geral causada por um amor não correspondido.Numa segunda fase, a Erotomania caracterizou-se pela prática excessiva de amor físico sendo a ninfomania o protótipo da doença. Em 1820, Zeiler definiu a Erotomania como uma loucura parcial e marcou a terceira fase na história da doença- a Erotomania enquanto manifestação de doença mental resultante de um amor não correspondido. Esta visão permaneceu durante cerca de um século, sendo progressivamente desenvolvida e actualizada até à quarta fase da história da Erotomania na qual vigora a actual definição de Erotomania- convicção delirante de que se é amado por outra pessoa.

Destacam-se os autores Emil Kraepelin, em Maniac-Depressive Insanity and Paranoia, que considerou a Erotomania um subtipo da paranoia,4 Sigmund Freud, que denominou a Erotomania por amor em excesso5 e Bernard Hart (1921) que aplicou o termo old maid's insanitypara descrever o quadro erotomaníaco em mulheres idosas e solteiras com marcadas características persecutórias.6,7 Apesar dos importantes contributos destes autores, importa referir que foi a partir do psiquiatra francês Gatian de Clérambault (1872-1934) que se desenhou o conceito de Psicose Passional, enquanto quadro de psicose distinto do delírio interpretativo, baseado em processos ideativos precisos (o Postulado) com conceito director únicoe com características comuns entre si: afecto exaltado, predomínio dos sentimentos, poder emocional e paixão mórbida. A Erotomania foi considerada, pelo autor, uma psicose passional, assim como os delírios de reivindicação e de ciúme.8 Em 1921, Clérambault descreveu, pela primeira vez, o postulado essencial da doença- convicção delirante de união amorosa com outra pessoa de estatuto superior a qual foi a primeira a apaixonar-se e a tentar a aproximação- e delineou as características associadas a esta premissa fundamental (temas derivados). Segundo o autor, a Erotomania podia ser um síndrome clínico sobreposto a outro, um síndrome prodrómico ou uma entidade autónoma.8 Desde então, a Erotomania ficou conhecida, na literatura francesa, por Síndrome de Clérambault.

Importa distingui-lo do Síndrome Kandinsky-Clerambault, muitas vezes confundido com o primeiro, apesar de diferentes e independentes.9 A existência do quadro como entidade nosológica autónoma, tal como defendido por Clérambault, foi sempre controversa. Henry Ey, a partir da classificação de Psicose Delirante Crónica, aproximou-se de Clérambault, distinguindo o delírio passional, enquanto psicose delirante crónica bem sistematizada, do qual a Erotomania seria um subtipo.10 Nas classificações actuais, inicialmente denominada por psicose atípica na DSM- III, surge como subtipo da perturbação delirante crónica ou paranóia na DSM- III-R, aproximando-se da visão Kraepeliniana. Actualmente, a condição está inserida na CID-1010 e no DSM-IV-TR11 entre as Perturbações Delirantes crónicas, neste último, como o subtipo erotomaníaco.

ASPECTOS CLÍNICOS E DIAGNÓSTICO A Erotomania é considerada uma condição rara mas desconhece-se a sua incidência exacta. Acredita-se que o seu diagnóstico possa ser subestimado, sendo a doença erroneamente classificada dentro de patologias psicóticas mais abrangentes.2,5,12 De acordo com Pearce, a revolução sociocultural da última metade do século e a maior liberdade de expressão fará da Erotomania uma psicose ainda menos frequente no futuro.2 A Erotomania pode manifestar-se em qualquer idade desde a adolescência até à idade avançada13 e predomina no sexo feminino, excepto em amostras forenses, em que o sexo masculino é o predominante.14 Não se associa a nenhuma faixa etária, raça, cultura ou estado sócio-económico específicos, existindo, na literatura, relatos de casos em todos os continentes terrestres.2 A ocorrência intra-familiar é rara e o objecto de amor é geralmente do sexo oposto. Alguns casos de Erotomania entre homens e mulheres homossexuais foram relatados.15,16 Está descrita a presença de associação familiar da doença, não existindo, contudo, evidência de causa genética.7 Apesar da evidência de uma variabilidade intercultural do modo de apresentação, a Erotomania destaca-se por apresentar um quadro clínico transcultural.17 Parafraseando Enoch e Ball, a Erotomania de Clérambault trata fundamentalmente de ser amado e não de amar.18 Partindo do postulado inicial de Clérambault- C'est l'Objet qui a commencé et qui aime le plus ou qui aime seul,definem-se os temas derivados do síndrome15: o objecto não pode ser feliz sem ele, o objecto não pode ter um valor completo sem ele, a convicção de que o objecto está livre pois o seu casamento não é válido, o estabelecimento de uma vigilância ou de uma protecção contínuas do objecto, conversação indirecta com o objecto, ausência de impedimentos de qualquer ordem para o relacionamento, pelo contrário, consentimento universal do romance e o denominado comportamento paradoxal ou contraditório do objecto. Este último, o comportamento paradoxal, é essencial e está sempre presente no quadro. Constitui uma interpretação delirante do doente em relação aos comportamentos de rejeição por parte do objecto, sentindo-os como tentativas para pôr à prova o seu amor, como resultado da abulia do objecto ou da influência de pessoas que o tentam separar deste.

Clérambault demonstrou uma evolução sistematizada do delírio ao longo de 3 estados afectivos: estado de esperança, ressentimento e rancor, sendo este último o mais importante e, de facto, o gerador do síndrome. As características do quadro são parcialmente influenciadas por factores individuais. Segundo o autor, quanto maior a componente imaginativa do delírio, mais fraca é a sua componente afectiva.15 Tal como referido, Clérambault considerou que a Erotomania podia ser uma entidade autónoma ou uma condição associada a outra doença mental.8 Neste sentido, Clérambault descreveu duas formas da psicose: a forma pura ou primária e a forma secundária. Na forma primária, o delírio erotomaníaco é a única manifestação psicótica, não existem alucinações e o início é abrupto. A doença é bem definida e com evolução crónica. A forma secundária está associada a outras psicoses, geralmente a Esquizofrenia Paranóide, sendo frequentes as ideias de grandeza, misticismo e persecutórias. O início é gradual, a doença é difusa e mal definida. Existe a possibilidade de substituição do objecto de amor.5 Seeman identificou duas formas distintas da psicose- a forma fixa e a forma recorrente. Na forma fixa, o objecto do amor é um indivíduo anónimo com quem o doente nunca teve nenhum contacto. O delírio permanece imutável e tem um curso crónico. São doentes dependentes dos pais, sem vida sexual activa, submissos e sem auto-estima; são frequentemente diagnosticados como esquizofrénicos. Na forma recorrente, o objecto do amor é um indivíduo poderoso e reconhecido, sendo frequente a existência de um contacto fortuito prévio. Após as investidas amorosas sem sucesso, o doente aceita a impossibilidade do seu amor e repete outro ciclo com outro objecto. São doentes mais independentes, com uma vida sexual mais activa mas insatisfeita, mais impulsivos, ambiciosos e com melhor auto-estima. Está, geralmente, associada à doença bipolar e perturbações da personalidade.19 Embora tradicionalmente tidas como ausentes na forma primária da Erotomania, as alucinações tácteis de ser-se tocado pelo objecto do delírio amoroso foram descritas por Krafft-Ebing e, posteriormente, denominadas por Kraepelin de dreamy hallucinations.7,20 O quadro clínico da Erotomania pode persistir silencioso durante anos17 sendo detectado apenas quando o doente apresenta comportamento violento ou de perseguição do objecto do seu delírio que culmina num processo criminal. A Erotomania tem sido cada vez mais relatada e estudada pela ciência forense, enquanto forma de perseguição obsessiva. Na sua investigação forense, Meloy (1989) identificou a denominada Erotomania borderline16,21 que difere da Erotomania pela ausência do delírio- o doente é capaz de reconhecer que não é correspondido mas apresenta uma perturbação grave dos afectos que resulta na perseguição potencialmente violenta do outro. Esta condição assemelha-se à obsessão simples,uma das formas de perseguição obsessiva de Zona et al.

(1993).21,22 Meloy (1999) descreveu, ainda, a existência do fenómeno de triangulação na perseguição patológica- transferência da energia inicialmente dirigida ao objecto amoroso para uma terceira pessoa que o doente considera um obstáculo ao seu amor.16 Foram identificados como preditores do risco de violência associada à Erotomania: o sexo masculino, baixo nível socio-económico e a presença de ciúme. Outros autores como Menzies et al. acrescentaram os seguintes factores: existência de múltiplos objectos de amor e comportamento anti-social prévio à doença.14 Encontram-se, na literatura, referências a casos de comportamentos predatórios dirigidos a profissionais de saúde e professores. Alguns autores defendem que estes grupos profissionais apresentam maior risco de serem envolvidos nos delírios de Erotomania.16 Estão descritas as combinações do Síndrome de Clérambault com o de Capgras2, 12, 13, 16, 23 o de Folie à deux2,12, 23 e de Fregoli.16 O conceito de Erotomania foi, desde sempre, alvo de tentativas de conceptualização e incluído em diferentes diagnósticos e não existem, de facto, guidelines específicas de diagnóstico.24 Taylor et al. (1983) apresentaram os seguintes critérios de diagnóstico: convicção delirante de que o indivíduo, geralmente uma mulher, é amada por um homem; contacto mínimo ou inexistente com o objecto do seu amor; este é inatingível; os comportamentos do homem são interpretados como protectores ou persecutórios e, apesar do delírio erótico, a mulher permanece casta.5 Para os autores Ellis & Mellsop (1985), o diagnóstico de Erotomania pura constitui-se por: convicção delirante de comunicação amorosa; o objecto do amor delirante é de estatuto superior; foi o primeiro a apaixonar-se; foi o primeiro a tentar aproximar-se e permanece fixo; curso crónico da doença; início súbito, isto é, num período inferior a 7 dias; o doente racionaliza o comportamento paradoxal do seu objecto do amor e ausência de alucinações.25 Revendo a literatura até então, os autores constataram que nenhum dos casos clínicos relatados satisfazia a totalidade dos seus critérios.

Gillet et al. adicionaram o critério de diagnóstico de que a convicção delirante ocorre sem obnubilação da consciência (inclear consciousness). A partir do estudo de 11 doentes aos quais foram aplicados os critérios de Ellis & Mellsop, os autores evidenciaram a raridade do síndrome que nenhum doente apresentou um score de Erotomania pura superior a 80%. Os autores sugeriram que o diagnóstico de Erotomania pode ser feito apenas com base na presença de uma convicção delirante de comunicação amorosa (um dos critérios de Ellis & Mellsop), após a exclusão de outras perturbações psiquiátricas ou orgânicas.25 Finalmente, a DSM-III-R incluiu a Erotomania dentro dos critérios diagnósticos estandardizados de perturbação delirante crónica. Apesar da existência destes critérios, os critérios de Ellis & Mellsop continuam a suscitar interesse na actualidade. Numa revisão de 15 casos de Erotomania, Kennedy et al verificaram que estes critérios mantêm-se válidos na avaliação dos doentes com Erotomania.17

ETIOLOGIA Tal como defendido por De Clérambault, a Erotomania pode ser secundária a psicoses primárias, sobretudo a Esquizofrenia e doença bipolar, ou a estados orgânicos agudos ou crónicos. Existem relatos de casos de Erotomania resultantes de depressão major mas também de infecção pelo HIV,traumatismo cranioencefálico, atraso mental, gravidez e alterações endocrinológicas (doença de Cushing e uso de contraceptivos orais), uso de anfetaminas e abuso de álcool.26 Outros casos de demência de Alzheimer27, convulsões e hemorragia subaracnóidea6 também foram associados a quadros de Erotomania.

Ellis & Mellsop (1985) aplicaram a sua definição operacional de Erotomania e constataram que a Erotomania na sua forma pura é demasiado rara aproximando- se da opinião de Lehman (1980) que a negava como síndrome independente.

Concluíram que a maioria dos casos de Erotomania diziam respeito a formas secundárias a outras patologias psiquiátricas, sendo a Esquizofrenia a mais frequente.25 Aliás, Hollender & Callahan (1975) tinham sugerido que a Erotomania primária era um subtipo de paranóia e a Erotomania secundária um subtipo da Esquizofrenia Paranóide.12 Apesar de geralmente associada à Esquizofrenia e doença bipolar, encontra-se, na literatura, referência à depressão como a causa mais frequente da Erotomania secundária (Ghaziuddin 1991).16 Neste sentido, os autores Signer & Cummings (1987) defenderam que uma perturbação do humor está invariavelmente presente na Erotomania. Tal posição está de acordo com a constatação de Signer da presença de indicadores de perturbação afectiva com predomínio de estados hipomaníacos nos casos descritos por Clérambault.15 Atendendo à Erotomania pura ou primária, tal como Clérambault defendia, encontra-se uma multiplicidade de explicações etiopatogénicas.

Tradicionalmente, a Erotomania foi explicada com base em factores psicodinâmicos, como a homossexualidade, heterossexualidade e narcisismo. Freud encarava a Erotomania como uma manifestação de um centro de conflito da paranóia resultante de processos de negação, deslocamento e projecção.5 Seeman, relativamente à forma recorrente da doença descrita por si, aproximou-se da interpretação freudiana que implica a defesa contra desejos homossexuais e a tentativa de conferir poder e sucesso à própria imagem corporal. na forma fixa da psicose, defendeu que o doente procurava uma defesa contra impulsos heterossexuais agressivos pois, inconscientemente, sabia da inatingibilidade de uma relação sexual.19 Outros autores implicaram, também, o processo de afastamento de impulsos homossexuais nas causas da Erotomania. São exemplos Enoch et al. que defenderam a procura de uma figura paterna erotizada segura, estável e inatingível associada à necessidade de o doente afastar de si os impulsos homossexuais.2 Estando a Erotomania tipicamente associada a doentes pouco atraentes fisicamente e sexualmente inexperientes, Segal considerou a existência de uma tentativa de diminuição da inferioridade por compensações psicológicas, projectando construções delirantes narcísicas em pessoas mais valorizadas socialmente.1 Similarmente, atendendo à vida solitária e carente de afectos dos doentes, Kraepelin e Clérambault encararam a Erotomania como um mecanismo compensatório de frustrações (Kraepelin) ou uma resposta ao orgulho sexual (Clérambault).1 Hollender & Callahan também enfatizaram o papel de uma procura narcísica de alento para um ego, segundo os autores, deficitário devido a experiências vivenciais traumáticas.

Raskin & Sullivan sugeriram que a psicose constitui uma função adaptativa, protectora da depressão e solidão do doente após uma perda significativa, conferindo segurança e controlo face à perda ou ameaças de perdas sucessivas.28 Por sua vez, outros autores colocaram a hipótese de a Erotomania resultar de um amor-próprio negado por um doente com personalidade narcísica e projectado noutra pessoa.2, 15 Esta posição não foi consensualmente aceite, acreditando-se ser pouco provável um indivíduo narcísico negar o amor a si mesmo. Aliás, Jordan2 acrescenta que o amor-próprio está muito poucas vezes implicado nos casos descritos na literatura.


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