Caso endoscópico
O nosso doente de hoje é uma menina de 10 anos que recorreu à nossa consulta
por ter dores abdominais em cólica localizadas ao andar superior do abdómen,
associadas a episódios de vómitos incoercíveis, inicialmente alimentares e
depois aquosos, que motivaram recurso por diversas vezes ao Serviço de Urgência
com necessidade de internamento. Estes episódios resolviam após hidratação
endovenosa e tratamento com metoclopramida e por vezes butilescopulamina. A
doente teve durante os dois anos anteriores cerca de seis episódios com curta
duração e passando bem, sem qualquer sintoma, no intervalo entre as crises.
Durante os episódios não apresentava sintomas gerais e o estudo analítico
efetuado não evidenciava alterações. Não estabelecia qualquer relação entre os
episódios e a ingestão de qualquer tipo de alimentos nem com medicamentos.
Filha única de pais saudáveis com normal desenvolvimento estaturo-ponderal e
psicomotor. Sem antecedentes pessoais ou familiares relevantes. O seu exame
objetivo era normal.
Era portadora de estudo radiológico do intestino delgado por trânsito que não
evidenciava alterações. O hemograma, a função hepática e renal e o exame
sumário de urina eram normais e realizou endoscopia digestiva alta que permitiu
observar ao nível duodenal a imagem (Figura_1) que mostramos.
Qual lhe parece o diagnóstico mais adequado?
1 ' Exame normal
2 ' Neoplasia duodenal
3 ' Leiomioma
4 ' Compressão extrínseca duodenal
COMENTÁRIOS
A imagem endoscópica apresentada mostra-nos uma zona abaulada do lado direito
da imagem, com cerca de 2,5cm de diâmetro, sugerindo ou lesão submucosa ou
compressão extrínseca, uma vez que a mucosa parece íntegra. Ao toque com pinça
verificávamos que se tratava de estrutura com alguma dureza e a mucosa desliza
facilmente sobre a lesão. Uma vez que não dispúnhamos de ecoendoscopia a doente
efetuou TAC (Figura_2) abdominal que revelou a existência de rim direito mal
rodado, com duplicação do sistema excretor, com pielões distintos e
proeminentes, estando o superior em relação anatómica com a segunda e terceira
porções duodenais. Não se observou qualquer lesão da parede duodenal. Em face
deste resultado a doente foi observada pela Urologia Pediátrica que decidiu
proceder a intervenção cirúrgica durante a qual se confirmou a duplicidade e
dilatação do sistema excretor e mobilidade anómala do rim direito. Foi efetuada
pieloplastia e fixação do rim. Após a intervenção cirúrgica a doente ficou
clinicamente bem e não voltou a ter qualquer episódio de dor o vómitos nos dois
anos de seguimento. Concluímos estar perante compressão extrínseca
duodenalintermitente causada por rim anómalo. A hipótese de leiomioma ou até de
um tumor do estroma (GIST) era possível mas ficou excluída pelo TAC e a
neoplasia duodenal é uma lesão da mucosa e não submucosa pelo que não
constituía uma verdadeira alternativa.