Caso cirúrgico
Lactente de três meses com boa evolução estatutoponderal e psicomotora, sem
antecedentes de relevo.
Desenvolveu anomalia genital, aparentemente indolor, com evolução desde o
nascimento e noção de agravamento ao longo do tempo. Trata-se de uma patologia
congénita, que se tornou mais evidente com o crescimento do lactente.
Lactente observado no serviço de urgência, e orientado para consulta externa de
Cirurgia Pediátrica.
Qual o seu diagnóstico?
DIAGNÓSTICO
Pénis oculto exacerbado pela associação com hidrocelo bilateral volumoso.
COMENTÁRIOS
Anomalias dos órgãos genitais externos são particularmente preocupantes devido
ao significado inconsciente emocional dessas estruturas reprodutivas e pela
possível repercussão futura das deformidades. O Pediatra deve diagnosticar e
orientar precocemente. A variedade de patologias associadas aos órgãos genitais
externos amplia a complexidade destas malformações(1). O pénis oculto é uma
anomalia invulgar, cuja etiologia não está completamente esclarecida. A fáscia
de Dartos não se desenvolveu até à sua configuração elástica normal, que
permitiria o deslizamento livre da pele sobre as camadas mais profundas do
pénis. Estas fibras não elásticas retraem a extensão do pénis, que tem
comprimento adequado(2-5).
Outras condições que promovem o pénis oculto: défice de pele peniana, adesão
anormal da túnica albugínea à fáscia de Buckou excessiva gordura pré-púbica.
Entre as complicações associadas encontramos as balanites recorrentes(6).
A principal queixa parental foi de encurtamento peniano. Neste caso particular,
foi exacerbado pelo volumoso hidrocelo bilateral. O hidrocelo pode obscurecer a
presença de pénis oculto, sendo que a observação pelo cirurgião e meticuloso
exame físico não devem deixar escapar a simultaneidade das duas condições, uma
vez que, a correção cirúrgica apenas do hidrocelo, não resolveria esta condição
(7).
Interessa ainda referir que cada uma das patologias existe isoladamente e este
caso constituiu de alguma forma, um desafio, pela raridade da presença
simultânea das duas condições.
Pretendemos com este caso, valorizar a correção cirúrgica precoce, entre os
doze e os dezoito meses de vida, o que se traduz em benefício na diminuição da
ansiedade parental, e evita intercorrências infeciosas e as repercussões
futuras na autoestima da criança. As técnicas cirúrgicas aplicáveis são
inúmeras(8,9). Os pais devem ser esclarecidos. É uma patologia benigna cuja
cirurgia se justifica, com excelente outcome, resultados imediatos e
complicações raras(10,11).
Palavras-chave:Hidrocelo bilateral, pénis oculto, anomalia genital, cirurgia
pediátrica.