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EuPTCVHe0874-02832013000300014

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variedadeEu
ano2013
fonteScielo

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Infeção do trato urinário relacionada com o uso do cateter: revisão integrativa

Introdução A infeção do trato urinário (ITU) pode ser definida como a inflamação das vias urinárias que apresenta sintomas associados e presença de bactéria na urina (Alves, Luppi e Paker, 2006). O trato urinário é um dos sítios mais comuns de infeção hospitalar (IH), o que resulta em repercussão económica, potenciais complicações, sequelas e danos intangíveis à população.

O cateterismo urinário é um dos procedimentos mais praticados na área da saúde.

De inestimável valor para o diagnóstico e tratamento dos processos patológicos, os primeiros registos da sua utilização datam das civilizações egípcias. Cerca de 80% das ITU estão associadas ao uso e ao tempo de permanência do cateter. No cateterismo urinário de alívio e intermitente (realizado em intervalos rotineiros), os cateteres são retirados logo após o esvaziamento da bexiga, o que implica menores taxas de ITU. No cateterismo urinário de demora os riscos para infeção são maiores e mais significativos após 72 horas de permanência do cateter, o que pode ainda ser agravado pelo trauma do tecido uretral durante a inserção (Baptista, 2002; Lenz, 2006).

Vários são os fatores que fazem do cateterismo urinário um importante meio para o desenvolvimento de ITU, dentre os quais se destacam a presença do cateter na uretra, que remove os mecanismos de defesa intrínsecos do hospedeiro, e o balão de retenção do cateter que impossibilita o esvaziamento completo da bexiga e pode ocasionar multiplicação dos micro-organismos (Alves, Luppi e Paker, 2006; Souza Neto et al., 2008).

Diversas medidas têm sido tomadas ao longo do tempo para tentar minimizar o aparecimento da ITU pelo uso do cateter. Dentre elas algumas foram contestadas, como o uso de técnica asséptica e do esvaziamento da bexiga em intervalos pré- estabelecidos, e outras trouxeram avanços, como a utilização do cateterismo intermitente realizado com técnica limpa.

Atualmente, várias organizações continuam a propor e a pesquisar recomendações para o controle da ITU, com especial foco de atenção no uso do cateter urinário (Center for Disease Control and Prevention, 2009); no entanto, os índices de ITUs associadas ao uso do cateter ainda são alarmantes, o que acresce à prática clínica do enfermeiro indagações relacionadas com a escolha, modo de realização da técnica de inserção e manutenção do cateter, orientação da equipa de enfermagem, entre outros.

Nesse sentido, este estudo tem o objetivo de realizar a revisão integrativa da literatura para identificar evidências científicas que relacionam o cateter urinário de alívio, intermitente e de demora com a infeção de trato urinário.

Metodologia Estudo realizado através da revisão integrativa da literatura (Mendes, Silveira e Galvão, 2008). A pergunta elaborada para a seleção dos artigos foi: qual é a relação entre a infeção de trato urinário e o cateter urinário de alívio, intermitente e de demora? De acordo com o catálogo da Bireme foram definidos para a busca os descritores: cateterismo urinário, técnica, instrumentação, instrumento, enfermagem. Todos os descritores foram combinados entre si. As bases de dados utilizadas foram a Medical Literature Analysis and Retrieval System on line (MEDLINE), Literatura Latino- Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Web of Science.

A busca dos artigos foi realizada de janeiro a março de 2011. Foram incluídos artigos publicados no período de janeiro de 2001 a março 2011, nos idiomas inglês e português, que responderam à pergunta da pesquisa e estavam disponíveis na íntegra. Após leitura exaustiva dos títulos e resumos, realizada criteriosamente por todos os autores, entre os 250 artigos encontrados, onze responderam aos critérios de inclusão e compuseram a amostra. Foram excluídos 239 artigos, por não responderem aos critérios de inclusão estabelecidos.

Os artigos selecionados foram lidos na íntegra e posteriormente analisados com o auxílio de um instrumento de coleta de dados bibliográficos, proposto por Ursi e Galvão (2006), que contempla dados relacionados com a identificação de autoria, ano e periódico de publicação, delineamento metodológico, intervenção estudada, principais resultados e conclusões.

A análise da classificação das evidências do estudo foi fundamentada na proposta de Stetler et al. (1998) que classifica os estudos de acordo com seis níveis de evidência, sendo: Nível I, estudos relacionados com a metanálise de múltiplos estudos controlados; Nível II estudos experimentais individuais; Nível III, estudos quase-experimentais, como ensaio clínico não randomizado, grupo único pré e pós teste, além de séries temporais ou caso-controlo; Nível IV, estudos não experimentais, como pesquisa descritiva, correlacional e comparativa, com abordagem qualitativa e estudos de caso; Nível V, dados de avaliação de programas e obtidos de forma sistemática e Nível VI, opiniões de especialistas, relatos de experiência, consensos, regulamentos e legislações (Stetler et al., 1998). O detalhamento metodológico foi fundamentado em Polit, Beck e Hungler (2004) e a apresentação dos resultados foi realizada através de relatório descritivo (Polit, Beck e Hungler, 2004).

Resultados Conforme demonstra o Quadro_1, os artigos analisados foram publicados entre os anos de 2005 e 2009. Dentre eles seis foram publicados em periódicos médicos, quatro em periódicos de enfermagem e um em periódico farmacêutico.

O quadro_2 apresenta os objetivos, método, nível de evidência e amostra estudada nos artigos analisados. A quase totalidade dos estudos tem nível de evidência IV.

Conforme demonstra o Quadro_3, entre as pesquisas estudadas nove abordam os fatores de risco para o desenvolvimento de ITU, uma os fatores de risco para o uso do cateter e uma comparou o uso de cateter lubrificado e não lubrificado.

Conforme demonstra o quadro_3, os fatores de risco para o desenvolvimento de ITU relacionados com o uso do cateter urinário foram destacados nos artigos analisados. Houve citação de mais de um fator de risco por artigo avaliado.

Discussão Embora a ITU seja um assunto frequente nos meios de divulgação científica, académica e nos ambientes de cuidado à saúde, nas bases de dados pesquisadas foi possível identificar apenas duas publicações em periódicos de enfermagem, o que demonstra o baixo nível de investimento em investigação no assunto por parte da profissão. Além disso, entre os artigos analisados, a maior parte pode ser caraterizada como pesquisa descritiva, o que lhes confere baixo nível de evidência científica (Stetler et al., 1998), e consequentemente pouca confiança na sua aplicabilidade prática.

A maioria das pesquisas analisadas foram publicados principalmente a partir da metade da primeira década de 2000, com maior concentração nos anos de 2006, 2008 e 2009. No ano de 2009 as pesquisas e avanços tecnológicos para a prevenção do trato urinário relacionados com o cateter urinário levaram à revisão das diretrizes publicadas pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) em 1981. A publicação divulgada em 2009, além de atualizar a anterior, revê as evidências disponíveis sobre o que leva à infeção do trato urinário relacionada com o uso do cateter urinário e as recomendações específicas para a implementação e avaliação de desempenho da vigilância epidemiológica relacionada a ITU ocasionada pelo uso do cateter (Center for Disease Control and Prevention, 2009). A nova diretriz não apresenta importantes alterações nos princípios gerais de prevenção de ITU relacionados com o uso do cateter urinário, no entanto traz orientações e esclarecimentos específicos baseados em revisões sistemáticas da literatura publicadas até julho de 2007, priorizando as recomendações para a prevenção (Center for Disease Control and Prevention, 2009).

É de responsabilidade do enfermeiro a realização da inserção do cateter urinário, embora em alguns países, como por exemplo no Brasil, profissionais de nível médio da enfermagem possam executar o procedimento (Mazzo et al., 2011).

Embora essa intervenção seja rotineira na prática clínica do enfermeiro e da enfermagem, na amostra desse estudo foi possível observar que a maior parte da produção literária relacionada com a ITU e a inserção do cateter foi publicada pela área médica. Destaca-se ainda que embora não tenha sido essa a pergunta de pesquisa dessa revisão, o objetivo da maioria dos estudos analisados foi avaliar o perfil epidemiológico das ITUS. Apenas dois estudos trabalharam com as ações relacionadas com a equipa de enfermagem, e os restantes focaram as suas metas nas complicações e medidas preventivas do uso do cateter; na comparação entre dois tipos de cateteres e no estudo da bacteriúria. Enquanto ciência, compete à enfermagem e ao enfermeiro a produção e divulgação dos resultados da pesquisa no assunto. A divulgação dos resultados da pesquisa são um dos meios de visibilidade e de demonstração de autonomia da profissão e profissionais, e os periódicos da área têm se mostrado como importantes instrumentos de veiculação de informações.

Os fatores predisponentes para o aparecimento de ITU pelo uso do cateter foram o principal assunto abordado nas pesquisas analisadas e também o foco desta investigação. Conforme os artigos pesquisados, o tempo de permanência do cateter foi considerado um dos mais relevantes para o desenvolvimento de ITU.

As ITUs surgem em entre 1 a 2% dos pacientes submetidos ao cateterismo urinário intermitente e entre 10 e 20% dos pacientes submetidos a cateterismo urinário de demora por períodos curtos (Souza Neto et al., 2008). O risco da ITU é diretamente proporcional ao tempo de permanência do cateter, aumentando em 2,5% para um dia, 10% para dois ou três dias, 12,2% para quatro ou cinco dias, podendo chegar a 26,9% quando o tempo de permanência do cateter for igual ou maior a seis dias de uso (Stamm et al., 2006; Savas et al., 2006).

Por ser uma das práticas predominantemente realizadas pela enfermagem, o uso e a inserção do cateter implicam na responsabilidade do enfermeiro em discutir os critérios de sua indicação, necessidade, tempo de permanência e implantar medidas que reduzam a incidência das ITUs.

A utilização de medidas assépticas como a lavagem das mãos, a inserção do cateter urinário com assepsia, a não desconexão do cateter urinário do coletor, o cuidado com a extensão de saída do coletor de urina, o cuidado em evitar o refluxo de urina da sonda para a bexiga, a ausência de irrigações, a correta indicação do uso do cateter, a utilização de tamanho correto de cateter, a expansão recomendada do balonete, a correta fixação do cateter, além da educação permanente ao longo da vida da equipa de enfermagem, são medidas indispensáveis para a prevenção de ITU (Alves, Luppi e Paker, 2006; Vieira, 2009).

Num indivíduo hígido a maior extensão do aparelho urinário é estéril; no entanto, os centímetros distais da uretra masculina e feminina apresentam uma flora uretral composta por bactérias patogénicas e não patogénicas, o que se agrava na mulher pela disposição anatómica da sua genitália externa e pelo fato da uretra feminina ter um comprimento aproximado de 3,5 a 4,0 cm (Lenz, 2006; Hinrichsen et al., 2009).

Os bacilos gram-negativos são os principais agentes causadores das ITU e dentre eles o de maior importância é a Escherichia Coli. Isso ocorre devido às características oportunistas desse agente e da sua necessidade de se multiplicar num ambiente com grande quantidade de água. As características dos micro-organismos gram-negativos não fermentadores da glicose formarem um biofilme leva, em caso de tratamento, à necessidade de remoção de todo o sistema de sondagem (Hinrichsen et al., 2009).

Dentre ainda os fatores de risco para o aparecimento de ITUs associados ao uso do cateter urinário destacam-se na amostra analisada a idade avançada e as patologias de base. O avanço da idade e o processo de envelhecimento podem levar a diversas alterações funcionais e anatómicas como a instabilidade, a menor contratilidade da bexiga e sua baixa complacência, além da deterioração das células da mucosa e da submucosa (Stamm et al., 2006; Stamm et al., 2007; Almeida, Simões e Raddi, 2007). Entre as patologias mais frequentes associadas à prevalência de ITU relacionadas.

Com o uso de cateter urinário, foram identificadas o diabetes mellitus e a hipertensão arterial. Na diabetes mellitus, a relação com a ITU dá-se pela presença de glicose na urina, o que facilita a proliferação microbiana (Alves, Luppi e Paker, 2006). No entanto, não foi encontrado nenhum dado na literatura que relacione a hipertensão arterial com a ITU.

É frequente observar a administração de antibioticoterapia em pacientes utilizadores de cateter urinário. Estudos prospetivos demonstram que o uso de antibióticos pode adiar mas não prevenir a infeção, e que o seu uso profilático em pacientes que utilizam cateter urinário de demora é justificado somente quando algum procedimento invasivo génito- urinário for realizado, para impedir o risco do desenvolvimento de uma bacteremia e/ou de choque séptico (Stamm et al., 2006).

Os artigos analisados que não abordaram os fatores de risco para ITU, estudaram os fatores de risco para o uso do cateter e outras complicações, como traumatismo uretral, dor e falso trajeto, os quais usualmente são causados pelo atrito do cateter mal lubrificado contra a mucosa uretral e por manobras intempestivas (Lenz, 2006). Um dos estudos analisados que procurou comparar a ITU pelo uso de cateter estéril lubrificado e limpo não lubrificado observou que não houve diferença na incidência de infeção urinária, mas que ocorreram menores taxas de incidências de complicações quando o cateter pré- lubrificado era utilizado, uma vez que esse material apresenta menor resistência ao ser introduzido na uretra (Martins et al., 2009; Souza et al., 2007). Estudos têm demonstrado que o uso de cateteres revestidos de teflon ou hidrofílicos melhoram a suavidade da superfície dos cateteres e proporcionam isolamento para a uretra contra o látex, reduzindo as reações ao látex em pacientes sensíveis (Newman, 2007).

É possível identificar no mercado dos produtos de saúde uma grande variedade e qualidade de materiais, o que também compreendem os cateteres urinários (Baptista, 2002; Lenz, 2006). Para a utilização desses produtos é necessário que as instituições adotem políticas que visem à adequação dos procedimentos de enfermagem, com efetiva participação do enfermeiro na produção de pesquisa e qualificação da equipa, e que estudos relacionados com os custos e benefícios dos materiais sejam realizados, para que cada vez mais ocorra a aquisição de produtos inovadores e adequados aos mais diversos tipos de cateterismo urinário, levando à diminuição dos riscos de complicações e garantindo processos de um cuidado seguro ao paciente na assistência de enfermagem a eliminação urinária.

Conclusão Uma vez que a inserção do cateter urinário é um dos principais problemas de infeção hospitalar da atualidade, é de fundamental importância a participação de todos os profissionais da área da saúde na adoção de medidas preventivas que envolvem o seu uso de forma racional, visando cada vez mais a redução do tempo da sua utilização e a melhoria dos procedimentos na inserção e manutenção do cateter.

Embora com baixa evidência nas bases pesquisadas, as quais podem ter sido fator limitante desse estudo, a maior parte dos artigos estuda o cateter de demora e relacionam o tempo da sua permanência com o aparecimento de ITUs.

O cateterismo urinário é uma prática rotineira realizada predominantemente pela enfermagem, desde a sua inserção até ao manuseio do sistema de drenagem. Os enfermeiros são a chave para a avaliação da pertinência do uso continuado do cateter, identificando as complicações e implementação de práticas de cuidados para minimizar complicações. No entanto, os estudos analisados demonstram que é pequeno o número de artigos produzidos pelos profissionais da área. É necessário incrementar no corpo de conhecimento da enfermagem a produção de conhecimentos sobre o assunto para subsidiar as discussões, orientações e treinamento da equipa, propondo diretrizes atualizadas, protocolos inovadores e materiais adequados que podem oferecer segurança aos profissionais e pacientes.


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