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EuPTCVHe0874-02832015000200016

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variedadeEu
ano2015
fonteScielo

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Cuidar: da condição de existência humana ao cuidar integral profissionalizado

Introdução O cuidar tem sido caracterizado como tema central na enfermagem. Os enfermeiros encontram neste conceito, cuidar/cuidados, a definição do que fazem, e do conhecimento que utilizam e criam enquanto disciplina.

Leininger (1978) diferencia cuidado, de cuidado profissional e de cuidado profissional de enfermagem. Se assumirmos que o cuidado é o resultante de cuidar, o esclarecimento deste conceito torna-se útil para a reflexão epistemológica e para construção disciplinar. Sendo o cuidar uma ação e uma atitude disponibilizada e utilizada pelos humanos, qual o sentido que lhe é atribuído? Como se estruturou esse sentido? É recente ou funda-se nos primórdios da humanidade? Sendo uma ação e atitude generalizadamente humana, qual o significado da sua apropriação, como conceito central, por um grupo profissional, e por uma disciplina do conhecimento (enfermeiros/enfermagem)? Para o esclarecimento deste conjunto de interrogações partimos de textos da antiguidade clássica, eventualmente dos primeiros textos onde expressamente surge a noção de cuidar.

Encontramos na literatura três textos clássicos de grande interesse para a compreensão do conceito cuidar, são eles: O Primeiro Alcibíades de Platão (428/ 427-348/347 a.C.); o drama Filoctetes de Sófocles (497/496–406/405 a.C.); a Fábula/Mito Cura de Higino (64–17 a.C.).

No primeiro texto, Platão, coloca em diálogo Sócrates (469/470–399 a.C.) e Alcibíades (450-404 a.C.) para dissertar acerca do cuidado de si; no segundo, Sófocles num drama sobre a desgraçada vida de Filotectes revela-nos a dimensão ética do cuidar; no terceiro, Higino transmite-nos através de uma fábula/mito a essência estruturante do cuidar para a dimensão humana.

Como objetivo desta reflexão teórica propomo-nos ir ao encontro do significado profundo do cuidar e dos contributos que daí surjam para a construção disciplinar. A reflexão teórica parte da identificação de textos primordiais para a noção de cuidar, da sua leitura e análise reflexiva pessoal, tendo em conta interpretações que filósofos e outros pensadores foram construindo sobre os mesmos textos, encontrando sentidos e significados para o conceito cuidar em confronto interpretativo com o pensamento de teóricos de enfermagem da atualidade.

Desenvolvimento/Dissertação O Primeiro Alcibíades, de Platão No dizer de Foucault (1994) é em O Primeiro Alcibíades que se encontra a mais remota elaboração filosófica do cuidado de si. Ainda suscita alguma dúvida a atribuição da autoria deste texto a Platão. Sendo que a data da sua redação é incerta, pelo que alguns consideram que o texto pode ser apócrifo.

No Primeiro Alcibíades, Platão, coloca em diálogo o jovem aristocrata Alcibíades com Sócrates. Tem como ponto de partida a questão de saber como este pode conquistar o poder de governar os demais (Dalbosco, 2006). Sócrates faz Alcebíades [Alcibíades] ver que sua formação ao governo de outras pessoas dependeria de sua constante comparação com seus rivais, mas, além disso, dependeria também, fundamentalmente, do modo como ele iria cuidar de si mesmo (Dalbosco, 2006, p. 33).

A forma do cuidado de si expressa em Alcibíades era determinada por estas condições: 1 - aqueles que deveriam se ocupar de si mesmos eram jovens destinados a exercer o poder; 2 - o objetivo era o bom exercício do poder; 3 - a forma exclusiva onde ocupar-se de si é conhecer a si próprio (Damasio, 2014, p. 1).

Segundo Foucault (1994), conhecer-se a si mesmo está ligado ao cuidado de si, é a necessidade de tomar conta de si que conduz ao conhece-te a ti próprio.

Estamos perante o cuidado de si como condição para o conhece-te a ti próprio, ideia implícita em toda a cultura greco-romana e explicita após o Alcibíades.

Vejamos um excerto:

Sócrates Então responde: o que significa a expressão Cuidar de si mesmo? Pois pode muito bem dar-se que não estejamos cuidando de nós, quando imaginamos fazê-lo. Quando é que o homem cuida de si, mesmo? Ao cuidar de seus negócios, cuidará de si mesmo? (Platão, 2007, p.

273)

E ainda,

Sócrates E então? Poderíamos conhecer a arte que nos deixa melhores, se não soubéssemos o que somos? Alcibíades Impossível.

Sócrates Quer seja coisa fácil, quer difícil, Alcibíades, o que é certo é que, conhecendo-nos, ficaremos em condições de saber como cuidar de nós mesmos, o que não poderemos saber se nos desconhecermos. (Platão, 2007, p. 275)

Damasio (2014) refere que Foucault ao considerar a existência destes dois preceitos realça que em Alcebíades, no entanto, o gnôthi seauton [conhece-te a ti mesmo] sempre teve uma espécie de subordinação ao epimeleia heautou [cuidar de si], como uma maneira de aplicação concreta da regra geral de ocupar-se de si-mesmo (p. 1).

Na Grécia clássica [período de 500-338 a.C.] e, depois, na Grécia helenística [338-146 a.C.], as máximas fundamentais da arte de viver, que traduzem a grande regra da conduta tanto para a vida individual quanto para a vida social dos gregos, prescreviam não apenas gnoti sauton, o que significa conhece-te a ti mesmo, mas também epimeleisthai sauton, isto é, tomar conta de si, cuidar de si, ter cuidado consigo. (Rocha, 2011, p. 9)

Efetivamente é em Foucault (1994) que encontramos clarificado que para os gregos, o cuidado de si configura uma das regras de conduta da vida social e pessoal.

O cuidado de si é um conceito que vai evoluir ao longo dos séculos até aos dias de hoje acompanhando o desenvolvimento das sociedades. Desde logo evolui da Grécia Clássica para a Grécia do Império.

Esta ênfase no cuidado de si, predominante na era helenística, devia- se ao fato de sua cultura cosmopolita ter modificado completamente o modo de viver tradicional do cidadão e do povo grego em geral. A res publica deixara de ser regida pelas Assembleias das Cidades e passara a ser trabalhada pelos administradores do Império. Perdendo seu estatuto de cidadão, o homem grego tornou-se um súbdito do Imperador, e não encontrando mais, na Polis, a proteção que nela antes tinha, ele foi coagido pela força dos acontecimentos a fechar-se em si mesmo, a buscar no seu íntimo novas energias, novas metas morais pelas quais viver. Assim, o homem descobriu-se como indivíduo, e, não contando mais com a tutela das Cidades-Estado, teve que tomar, nas suas mãos, as rédeas de seu próprio destino. (Rocha, 2011, p. 9-10)

Na Grécia, na passagem das Cidades-Estado para o Império, transforma-se o conceito ocupar-se de si, universalizando-se. O cuidar de si deixa de ser apenas uma obrigação ligada à educação, sobretudo das elites citadinas, para se transformar naquilo que todos se devem ocupar ao longo da vida (Foucault, 1994).

Quando o essencial deixa de estar naturalmente assegurado pela cidade-estado e o enfoque para a sobrevivência é conduzido ao plano individual, o cuidado de si adquire outra dimensão.

O cuidado de si é questionado ou valorizado e percebido como essencial para o ser humano, a partir do momento que as pessoas tomam consciência do seu direito de viver e do estilo de vida que têm. (Carraro & Radunz, 2003 citado por Silva et al., 2009, p. 5). O cuidado de si tornou-se um verdadeiro fenómeno cultural como princípio de toda conduta racional, Não se ignorando que ele sofreu uma série de outras transformações no cristianismo primitivo, medieval, no renascimento e no século XVII. (Damasio, 2014, p. 1).

Castro, Viana, e Bara (2010) referem Foucault, segundo o qual a razão mais essencial pela qual o preceito cuidado de si foi sendo apagado da história do pensamento ocidental se chamaria de momento cartesiano nascimento da racionalidade moderna no século XVII (p. 1282). Esta racionalidade qualifica o conhece-te a ti mesmo e desqualifica o cuidado de si.

A requalificação do cuidado de si vem a surgir posteriormente em A Comédia Humana de Balzac (1830-1840), trata-se de um trabalho que inclui todo o ser do sujeito para tornar sua vida uma arte autofinalizada como na cultura de si do período do helenismo (Castro et al., 2010, p. 1297).

O conceito de cuidado de si, sob o ponto de vista da disciplina de enfermagem, torna-se aparentemente próximo do conceito de autocuidado, a este propósito Silva et al. (2009) refere que o autocuidado está centrado no paradigma da totalidade, adota o pressuposto de que o ser humano é a somatória de suas partes o cuidado de si está atrelado ao paradigma da simultaneidade a pessoa é um todo maior (p. 7). Assim, segundo estes autores, o autocuidado liga-se ao paradigma da totalidade, onde a saúde adquiriu um aspeto objetivo, totalizante, como resultado de soma de partes, por outro lado, o cuidado de si, relaciona-se com o paradigma da simultaneidade que valoriza o subjetivo do ser humano. Ambos de interesse para a perceção do cuidar nos cuidados de enfermagem hoje.

Filoctetes, de Sófocles Resumo do drama, no relato de Carvalho (2008):

Filoctetes participou na expedição dos Atridas contra Ílion ao comando de sete naus. Não chegou às praias troianas: em Crise, junto ao altar da divindade que dava nome à ilha, mordeu-o no uma serpente. A ferida infetou de modo voraz e pestilento, tornando- o imprestável para a missão; pus repugnante escorria dela, dores intoleráveis provocavam gritos e gemidos que, de tão horríveis, selvagens e agoirentos, perturbavam libações e sacrifícios. Ulisses persuadiu os outros chefes a abandoná-lo na erma ilha de Lemnos; nove anos volvidos, o adivinho troiano Heleno, capturado pelo Cefalénio, predisse que Troia não cairia sem Filoctetes e o seu arco.

A tragédia de Sófocles parte do ponto em que Ulisses aporta a Lemnos, acompanhado de Neoptólemo, com a missão de levar a arma e o herói.

Não podendo expor-se, por temer a vingança [de Filoctetes], ciente de que força e persuasão seriam inúteis, usa perversamente o jovem [Neoptólemo], instruindo-o a enganar Filoctetes, ganhando-lhe a confiança para que o seguisse, crente de que o resgatava de regresso à pátria.

O filho de Aquiles [Neoptólemo], começa por recusar, em nome de princípios morais, mas obedece. O estratagema de Ulisses resulta.

Filoctetes sofre um episódio doloroso violentíssimo e, antes de cair no sono, consigna ao jovem o arco. Ao acordar, percebe-se de novo traído e abandonado, inerme, à mercê das feras, sem poder prover à subsistência. Neoptólemo, tocado de admiração pela força existencial do herói e de piedade pelos seus tormentos, revolve-se na crise moral que o instiga a seguir os sãos princípios da sua verdadeira natureza; tem um rebate de consciência, revela a verdade, volta atrás e restitui o arco, contrastando Ulisses. Às ameaças deste e aos argumentos benévolos do jovem, que lhe asseguram a cura e a glória em Troia, Filoctetes resiste, recusando ajudar os responsáveis pela sua miséria, e persuade Neoptólemo a regressarem a casa, abandonando o exército Atrida ao fim desastroso.

Porque a ordem universal não pode ser distorcida e para que se cumpra o obscuro plano que a rege, aparece Héracles, deus ex machina, induzindo-os a navegar para Troia e a conquistá-la, garantindo a reconciliação do herói consigo mesmo, com a história e com o divino.

(Carvalho, 2008, p. 156)

Estamos perante o abandono. Abandono de um ser em sofrimento, e de aproveitamento da situação de desfavorecimento, mas também pelo rebate de consciência que conduz à compaixão e ao cuidar.

Para Gemelli (2010), encontra-se em Filoctetes

intrincadas e tensas relações entre os personagens que precisam uns dos outros não apenas para realizarem ou alcançarem seus objetivos, mas até mesmo para se definirem. Neoptólemo é o mais suscetível dos três personagens dessa tragédia por sua condição ainda potencial O jovem nesta missão, encontra ou testemunha, pela primeira vez, toda a grandiosidade e a baixeza que resulta das decisões dos homens.

(Gemelli, 2010, p. 32)

A partir da personagem paradigmática de Filoctetes, Carvalho (2008), propõem-se avaliar

as dores que atravessam as nossas vidas [e que] têm feito especular filosofia, literatura e arte ninguém sofreu como ele, segundo o coro de Sófocles («De nenhum outro mortal / eu, sei, nem de outiva, nem por o ter visto, / de homem que tenha encontrado sorte mais adversa do que este»), usarei as suas infinitas dores tormento físico, ultraje do banido, solidão do inválido, consumição do ódio, desespero metafisico. (Carvalho, 2008, p. 155)

A tragédia Filoctetes, de Sófocles, transporta-nos para a dimensão ética do cuidar apelando à compaixão para com o Homem, à escala singular (Zagalo- Cardoso & Silva, 2010, p. 84).

Estes autores interrogam-se:

Esta belíssima narrativa, com dois mil e quinhentos anos, que mensagem ética pode imprimir, na reflexão sobre a proteção das pessoas ditas com deficiência física? Olhando para o exemplo de Neoptólemo, deveríamos compadecer-nos de Filoctetes somente por causa das suas chagas ou por ver nele outro rosto, um outro rosto humano, que nos interpela a exigir de nós uma postura respeitosa para com todos os humanos. (Zagalo-Cardoso & Silva, 2010, p. 86)

O questionamento vai mais longe, para Zagalo-Cardoso e Silva (2010),

pois sendo todos nós pessoas necessitadas e prestadoras de cuidados não somos propriamente um estorvo para os outros como o herói grego foi tratado pelos companheiros. Se pensarmos na falta de Cuidado, numa perspetiva mais ampla, vamos encontrar essa atividade abominável dentro das nossas próprias casas, uma vez que é, também, natural que os idosos e os doentes se vejam acometidos de uma redução das suas habilidades físicas e psicológicas para o desempenho das suas atividades: não é por outro motivo se não a nossa falta de cuidados que não raramente vemos estes ficarem esquecidos . (Zagalo-Cardoso & Silva, 2010, p. 86)

A dimensão ética está desde logo colada ao cuidar, quando se é impelido a cuidar responde-se necessariamente a uma opção, encontra-se solução assertiva ou não assertiva, uma resposta dilemática para um problema que nos confronta.

A Fábula/Mito Cura, de Higino Borges-Duarte (2010) no texto A Fecundidade Ontológica da Noção de Cuidado. De Heidegger a Maria de Lourdes Pintasilgo, recorda-nos que Heidegger reproduz no parágrafo 42 de Ser e Tempo, a fábula/mito cuidar, recolhida por Hyginus [Higino] na sua coletânea de Fabulae com o n.º 220. Reproduzindo-a no essencial, desta forma:

Certo dia, ao atravessar um rio, o Cuidado (Cura) viu um terreno de barro. Pensativo, tomou um pouco de barro e começou a dar-lhe forma.

Enquanto refletia sobre o que tinha feito, apareceu Júpiter. Cuidado pediu-lhe que lhe insuflasse espírito. Júpiter acedeu de bom grado.

Quando, porém Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado, Júpiter proibiu-lho, exigindo que lhe fosse imposto o seu nome.

Enquanto Júpiter e o Cuidado discutiam, surgiu a Terra (Tellus). Mas quando também ela quis dar o seu nome à criatura, por ter sido feita de barro, que era um pedaço do seu corpo, começou uma grande discussão. De comum acordo, pediram a Saturno que fizesse de juiz. E ele tomou a seguinte decisão, que pareceu justa: Júpiter, porque lhe deu o espírito, receberá de volta este espírito, por ocasião da morte dessa criatura. A Terra, que lhe deu o corpo, receberá, também de volta o seu corpo, quando a criatura morrer. Ao Cuidado, porém, que moldou a criatura, ficará esta entregue durante a sua vida. E uma vez que entre vós acalorada discussão acerca do nome, decido eu que esta criatura será chamada Homem (homo), isto é, feita de humus, que significa terra fértil. (Borges-Duarte, 2010, p. 118-119)

Rocha (2011) chama a atenção que o termo latino Cura, usado por Higino, tem muitos significados, entre os quais o de tratamento das doenças No contexto da fábula, o termo Cura tanto pode ser traduzido por cuidado, quanto pelos termos angústia, preocupação, inquietação e solicitude (p. 4). Refere ainda (Rocha, 2011) que,

quando se tratou de dar um nome à figura modelada, não houve consenso entre os seus personagens. Júpiter, o deus do céu e a deusa da terra, Tellus, não chegando a um consenso sobre o nome da figura, apelaram para Saturno, o deus do tempo, a fim que ele dirimisse a questão. E é precisamente no veredicto pronunciado por Saturno [deus do tempo], que se encontra o essencial da narrativa de Higino. (Rocha, 2011, p.

10)

Segundo Borges-Duarte (2010),

o essencial parece-me ser: a criação humana não é cunhada nem pelo espírito, nem pelo corpo, que lhe são emprestados em vida, mas que com a morte se dissolvem e retornam a quem lhos emprestou, mas por aquilo que lhe deu forma o Cuidado, que o transe e mantém em vida.

(Borges-Duarte, 2010, p. 120)

Acrescentando,

não é a distinção de alma e corpo e a sua união constitutiva o que caracteriza ontologicamente o humano, mas o seu levar o ser no seu ser, ocupando-se dele, de si, cuidando de e tendo cuidado, desvelando-se por e no viver. É este cunho, eminentemente temporal, que define formalmente o Dasein como ser o , designação heideggeriana do humano na sua suprema dignidade. (Borges-Duarte, 2010, p. 120)

Em Silva et al. (2009) encontramos clarificação a cura faz parte constitutiva, mas quem vai decidir é o tempo, pois o homem não será nada se não for o tempo, o mundo. O ser existe enquanto ser-no-tempo (p. 3). Enquanto ser vivido, vivente ou com potencial para viver, não é espirito nem matéria, é projeto e/ou concretização de vida.

Laviola (2013, p. 22) menciona que Heidegger, no Ser e Tempo, a partir da angústia, como abertura de possibilidades e com um encontrar-se a partir de si mesmo apresenta o ser Dasein como cuidado. O homem é assim entendido como um poder ser no mundo. E isso o angustiará (Laviola, 2013, p. 21).

O Dasein comporta três carateres fundamentais ontológicos intimamente unidos entre si: A existencialidade poder ser do ser ai ligado à liberdade de escolha; fatualidade poder ser, um ser-adiantado em relação a si em algum lugar, a ser lançado no mundo; ser-do-decair, a fuga diante do estranhamente dele mesmo, motivado pela angústia. E, é precisamente porque é um poder-ser, seu modo de ser não é o de uma realidade objetivamente dada ou essencialmente determinada.

Heidegger (2012) refere que Segundo Scheler, a pessoa nunca deve ser pensada como uma coisa ou como uma substância; ela é ao contrário, a unidade imediata covivida do vivenciar e não uma coisa somente pensada por trás e fora do imediatamente vivido (p. 155).

Acerca da importância essencial do cuidado em Heidegger, encontramos em Boff (1999),

do ponto de vista existencial, o cuidado se acha a priori, antes de toda atitude e situação do ser humano, o que sempre significa dizer que ele se acha em toda atitude e situação de facto. Quer dizer, o cuidado se encontra na raiz primeira do ser humano, antes que ele faça qualquer coisa. E, se fizer, ela sempre vem acompanhada de cuidado e imbuída de cuidado. (Boff, 1999, p. 13)

O conceito de cuidado remetido ao ser com os outros onde a sua compreensão começa a partir da ocupação com utensílios e a seguir com a solicitude para com os outros (Almeida, 2008, p. 14).

Para Roselló (2009) o cuidar, , está na mesma génese do ser humano, pois é Cuidado quem cria o homem e lhe protege. Precisamente por isso, a ação de cuidar revela algo muito próprio da humanidade do homem, revela sua íntima constituição. (p. 118).

E ainda,

mediante a ação de cuidar, o ser humano se humaniza, ou seja, assume plenamente sua humanidade e, além disso, assemelha-se enormemente a seu criador, o que significa que a ação de cuidar enobrece o ser humano, o eleva à categoria dos deuses, pois mediante ela imita seu criador, o deus Cuidado. (Roselló, 2009, p. 118)

Também para Boff (1999) no cuidado se encontra o ethos fundamental humano (p.

1), para ele a ética mínima que salvaguarda a vida, as relações sociais e a preservação da natureza funda-se precisamente na essência do ser humano como cuidado. Ainda em Boff (1999) o cuidado somente surge quando a existência de alguém tem importância para mim e passo a dedicar-me a ele (p.2), concluído Silva, et al. (2009) cuidar de alguém é ter estima e apreço pela pessoa, querendo o seu bem-estar de forma integral. (p. 2).

Roselló (2009), cita Pellegrino (1985) dizendo que o cuidado integral é uma obrigação moral dos profissionais da saúde, englobando quatro sentidos: compaixão; ajudar na autonomia; convidar a desejar-se ajudar; colocar alguém no centro de ação. Atribuindo ao cuidado, como refere Silva et al. (2009) desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção, bom trato; um modo de ser mediante o qual a pessoa sai de si e centra-se no outro (p. 2).

Retomando uma perspetiva heideggeriana, num enquadramento psicanalista, aqui com proveito para o enriquecimento concetual do cuidar, diz Rocha (2011) clinicar é dedicar-se ao cuidado dos clientes com preocupação, desvelo e solicitude. Sendo assim, o desdobramento que Heidegger fez da Sorge (cuidado) em Besorgen (ocupação) e Fürsorgen (preocupação e solicitude) abre perspetivas novas (p .23).

Voltando a Boff (1999) cuidar é mais do que um ato é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro (p. 12).

Em Laviola (2013) a solicitude do cuidado com o outro, ou seja, a preocupação- com é um elemento constitutivo do homem. Faz parte de seu modo-de-ser. Quando este se relaciona com os outros, a marca da preocupação, do cuidado evidencia- se (p. 26), e segundo esta autora, Heidegger, utiliza este mito exatamente para ilustrar que a solicitude é marca do homem no mundo. Ela seria um cuidado integral, que abrange todas as dimensões do homem (p. 10).

De todo, cuidar, é muito mais do que prestar cuidados (fazer), para além da ação dirigida, é disponibilidade, solicitude e compaixão. Como bem expressa Hesbeen (2001), muitos profissionais da saúde

podem, quer por hábito, quer pontualmente, exercer a sua profissão sem, por várias razões, cuidarem ou estarem verdadeiramente atentos à singularidade da pessoa à qual se dirigem. Nesses casos, estão a prestar cuidados mas não a cuidar. A ajuda que prestam e que convém não subestimar é, à partida, limitada porque depende essencialmente de atos ou tarefas dirigidas ao corpo da pessoa o corpo objeto , mas não verdadeiramente à pessoa corpo sujeito. (Hesbeen, 2001, p.

17)

De outra grandeza é o alargamento da consideração do cuidar, indo para além do ato (prestar cuidados), para a atitude (desvelo, solicitude, disponibilidade, compaixão cuidar).

Esta reflexão poderá ajudar na abertura do conceito à significação acerca do cuidar em enfermagem procurando a especificidade disciplinar. Queirós (2014) constata num estudo sobre os conceitos disciplinares em uso por estudantes de mestrado e de licenciatura em enfermagem que o cuidar é o termo e conceito mais utilizado com maior apropriação. (p. 40).

Mas nem sempre se consegue perceber se existe por parte dos enfermeiros a interiorização da riqueza conceptual e o sentido operativo que o termo cuidar proporciona.

Conclusão Seguindo a classificação dos cuidados de Leininger (1978), referida anteriormente, o cuidar profissional de enfermagem, sendo mais do que prestar cuidados, é mais do que o cuidado meramente profissional de pessoas ou de coisas (cuidadores do cabelo, das unhas, dos sapatos, da roupa). Nessa medida embora aproximando-se da noção do cuidar universal não profissionalizado (por exemplo o das nossas mães) profissionaliza-o, e dá-lhe no âmbito disciplinar de enfermagem, um cunho e uma roupagem específica a profissionalização da atitude cuidativa (com desvelo, compaixão, solicitude). Atitude cuidativa, que tem por base e fundamento identitário, o cuidar inerentemente humano, condição primeira de humanidade expresso e percebido desde Alcibíades; constitutivo e fundador do ser humano como relata Higino; com inerente imperativo ético, bem patente em Filoctetes.

O cuidar nos cuidados profissionais de enfermagem, diferencia-se de outros cuidados também profissionais, que não de enfermagem, e dos cuidados informais, que considera para além da ação (prestação de cuidados), também a solicitude, a compaixão, a disponibilidade, de forma dirigida, intencional, organizada e integrada.

Assim percebemos o cuidar de enfermagem como um cuidar integral profissionalizado.

O cuidar, de si e dos outros, autocuidado ou cuidado com os que nos rodeiam, cola-se e é inerente à nossa condição de humanos. Este constantemente questionado, sobretudo em forma de dilema ético, e revestido de várias nuances, acompanhando o desenvolvimento civilizacional desde a antiguidade clássica, é percebido hoje, como ação e atitude profissionalizada dando corpo à enfermagem.

O cuidar, condição de existência humana, é no âmbito da enfermagem, entendido como um cuidar integral profissionalizado, maximizado, disponibilizado e quando em ação é usuário e gerador de conhecimento próprio, que em simbiose com outros saberes, sendo recriado e sistematizado, lugar ao conhecimento específico de enfermagem.


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