Home   |   Structure   |   Research   |   Resources   |   Members   |   Training   |   Activities   |   Contact

EN | PT

EuPTCVHe0872-07542012000400004

EuPTCVHe0872-07542012000400004

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-0754
ano2012
Issue0004
Article number00004

O script do Java parece estar desligado, ou então houve um erro de comunicação. Ligue o script do Java para mais opções de representação.

Dores de Crescimento

INTRODUÇÃO As dores de crescimento são a causa mais comum de dor musculoesquelética na infância e um motivo frequente de consulta em idade pediátrica(1-7).

Foram mencionadas pela primeira vez na literatura médica em 1823, pelo médico francês Marcel Duchamp. Ele foi o primeiro a notar que um grande número de crianças apresentavam um aumento da frequência de dores musculoesqueléticas e aplicou o termo dores de crescimento para as descrever, acreditando que elas eram causadas pelo rápido crescimento esquelético(3,8).

Desde então, vários autores investigaram esta condição, contudo a natureza exacta e a etiologia permanecem desconhecidas(2-5).

Alguns autores consideram que a denominação dores de crescimento é errada, pois é consensual que o processo de crescimento deve ser indolor, senão todas as crianças deveriam sentir dor. Têm assim surgido na literatura médica denominações alternativas, como dores nocturnas benignas da infância(9)ou dores recorrentes dos membros inferiores(8). Contudo, a designação dores de crescimento é universalmente aceite pois deixa implícito o seu carácter benigno e transitório.

O presente trabalho tem como objectivo fazer uma revisão bibliográfica actual sobre a etiologia, apresentação clínica, diagnóstico, diagnóstico diferencial e tratamento das dores de crescimento.

EPIDEMIOLOGIA As dores de crescimento ocorrem em crianças entre os três e os 12 anos de idade (1,6), com uma frequência ligeiramente superior no sexo feminino segundo algumas séries(10,11). A sua prevalência varia entre 2,6-49,4% consoante a população estudada, a idade das crianças e a definição clínica utilizada(7).

ETIOLOGIA A etiologia das dores de crescimento é desconhecida. Contudo, parece que nada têm a ver com o crescimento pois: não coincidem com os períodos de maior crescimento (primeiros dois anos de vida e puberdade); raramente afectam os membros superiores e outras zonas do corpo, que também crescem; e não afectam o crescimento das crianças que as têm(11).

Foram propostas várias teorias para tentar explicar as dores de crescimento. A primeira delas, a teoria da fadiga, foi proposta em 1894, por Bennie, sugerindo que a dor ocorreria devido ao uso excessivo das pernas(8). E é um facto que os pais muitas vezes associam os episódios de dor com períodos de maior actividade física da criança(2). Em 1938, surgiu a teoria anatómica, descrita por Hawksley, com base na constatação de que muitos casos de dores de crescimento estavam associados a um defeito postural ou ortopédico (ex. escoliose, lordose, joelho valgo, plano)(8). Uma terceira teoria, introduzida em 1951, por Naish e Apley(11), a teoria psicológica ou emocional, propunha que alguns factores psicossociais poderiam mediar esta situação (por ex. famílias disfuncionais, tipo de personalidade depressiva ou ansiosa e stress). Até ao momento, não estudos que comprovem nenhuma destas teorias.

Na última década, têm sido feitos alguns estudos para tentar determinar a causa das dores de crescimento. O Quadro I apresenta resumidamente três estudos recentes que propõem novas teorias quanto à etiologia das dores de crescimento, tal como se descreve no texto que se segue:

Quadro I ' Resumo dos estudos recentes que propõem novas teorias quanto à etiologia das dores de crescimento (DC).

Baixo limiar para a dor: O limiar para a dor em crianças com dores de crescimento encontra-se significativamente reduzido em comparação com o grupo controlo. Os autores sugerem que isto poderá indicar que as dores de crescimento são um síndrome doloroso não-inflamatório generalizado que ocorre na infância(12).

Diminuição da resistência óssea: A velocidade de transmissão ultrassónica através do osso foi medida usando um ecógrafo e verificou-se que a resistência óssea da tíbia em crianças com dores de crescimento era significativamente menor que no grupo controlo. Os autores colocaram como hipótese que a fadiga óssea com a actividade poderia originar as dores nos membros inferiores(13).

Perfusão vascular alterada: Para alguns especialistas as dores de crescimento poderiam estar relacionadas com alterações da perfusão vascular. No entanto, as cintigrafias ósseas realizadas não demonstraram diferenças significativas entre as crianças com e sem dores de crescimento(14).

Hipermobilidade articular: a impressão clínica de que as crianças com dores de crescimento têm hiperlaxidez articular. Contudo, como não uma ferramenta universalmente válida para avaliar a hipermobilidade nas crianças, esta hipótese ainda não foi testada(9).

CLÍNICA As dores de crescimento ocorrem em crianças em idade pré-escolar e escolar(15).

Localizam-se em ambos os membros inferiores (nas coxas, nas pernas e na fossa poplítea). A dor pode também ocorrer nos membros superiores, mas apenas em conjugação com dor nos membros inferiores. Em geral, não envolve as articulações. As crianças quase nunca referem um ponto doloroso concreto com o dedo, mas sim deslizam a palma da mão sobre as zonas dolorosas. Surge ao fim do dia ou à noite e pode acordar a criança, mas na manhã seguinte, quando ela se levanta, não apresenta qualquer dor e é capaz de realizar as suas actividades normais. Geralmente dura menos de 30 minutos e tem uma intensidade variável, desde muito ligeira a muito intensa. A dor é caracteristicamente intermitente, alternando a sua presença com intervalos sem dor que podem ser de dias a meses, apesar de em algumas ocasiões poderem apresentar-se diariamente(4,6,10,11).

A literatura médica refere que, durante e após os episódios de dor, não são evidentes alterações musculoesqueléticas nem articulares no exame objectivo(6).

Aproximadamente um terço dos casos estão associados a dor abdominal recorrente e/ou cefaleias. É comum haver história familiar de dores de crescimento ou de queixas reumáticas(4,10,11).

DIAGNÓSTICO Não existe nenhum exame complementar que permita fazer o diagnóstico de dores de crescimento. Assim, perante uma criança saudável com uma apresentação típica, que permanece sem dor durante o dia, o diagnóstico pode geralmente ser feito com base em critérios de inclusão e de exclusão (Quadro II) (2, 10).

Quadro II ' Dores de crescimento ' critérios de inclusão e de exclusão.

Um estudo caso-controlo recente, concluiu que as dores de crescimento permanecem um diagnóstico clínico e que se forem considerados critérios de inclusão e de exclusão precisos, não necessidade de exames laboratoriais para estabelecer o diagnóstico(16).

Perante quadros clínicos com características atípicas ou na presença de critérios de exclusão, será prudente solicitar exames complementares, como por exemplo, hemograma completo, velocidade de sedimentação ou proteína C reactiva e/ou radiografias. Se for detectada alguma alteração nos resultados destes exames, exclui-se o diagnóstico de dores de crescimento.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico diferencial de dor intermitente nos membros inferiores é extenso.

No entanto, de seguida é feita uma breve referência às principais patologias a ter em conta, a maioria das quais pode ser excluída com base na história clínica e no exame físico(4).

O traumatismo é uma causa comum de dor nos membros. Poderá haver história de traumatismo e podem ser visíveis equimoses ao exame objectivo. Geralmente não causa dor crónica e intermitente, típica das dores de crescimento.

As infecções, como por exemplo a artrite séptica e a osteomielite aguda, estão habitualmente associadas a doença febril e dificilmente se confundem com dores de crescimento. Contudo, a apresentação clínica clássica pode estar ausente se a infecção estiver a ser parcialmente tratada com antibióticos.

Os tumores ósseos são muitas vezes esquecidos. No caso de tumores malignos, como o osteossarcoma ou o sarcoma de Ewing, a dor é persistente e de severidade crescente. O osteoma osteóide é um tumor benigno, caracterizado por dor intermitente, unilateral, que geralmente piora à noite e pode interromper o sono. A criança com leucemia ocasionalmente apresenta dor óssea vaga, mas poderá também ter outros sinais/sintomas como por exemplo, febre recorrente, palidez e petéquias.

No caso das osteonecroses, de que é exemplo a Doença de Legg-Calvé-Perthes, a criança apresenta diminuição da mobilidade da anca.

A anemia de células falciformes e a hemofilia são outros dois diagnósticos diferenciais a considerar. O primeiro deverá ser pensado em crianças de raça negra com dor nos membros e anemia. As hemartroses são comuns em casos moderados a severos de hemofilia.

As doenças reumáticas, particularmente as espondilartropatias como a artrite psoriática e a artrite reactiva, podem causar dor nocturna.

Finalmente, casos subtis de raquitismo podem ser confundidos com dores de crescimento.

TRATAMENTO Em muitos casos bastará o esclarecimento da família acerca da natureza benigna destes episódios, evitanto deste modo preocupações e medos desnecessários.

Muitas crianças obtêm alívio da dor com a massagem das zonas dolorosas ou através da aplicação de calor local. Na maioria dos casos não está indicada a administração de qualquer medicamento pois as dores são de curta duração. Nos casos mais aparatosos poderá estar indicado o tratamento sintomático com analgésicos (por ex. paracetamol ou ibuprofeno). Em crianças com episódios muito frequentes, pode ser útil a administração de analgésicos preventivos à tarde (por ex. naproxeno).

Exercícios de estiramento muscular podem aliviar as crianças com sintomas crónicos. Em 1988, Baxter e Dulberg, fizeram um estudo com 36 crianças com dores de crescimento, e verificaram que as crianças tratadas com um regime de exercícios de estiramento muscular obtinham resolução mais rápida dos seus sintomas que as crianças do grupo controlo(4). Contudo, não está claro até que ponto a melhoria ocorreu devido ao exercício ou devido ao aumento da atenção por parte dos pais que era requerida duas vezes por dia.

PROGNÓSTICO O prognóstico das dores de crescimento é muito bom. Não estão associadas a nenhuma patologia orgânica séria e em 100% dos casos as dores desaparecem com a idade(6). Na maioria dos casos, ocorre resolução até 24 meses após o início.

CONCLUSÃO As dores de crescimento são uma entidade frequente na prática pediátrica. Até à actualidade ainda não é conhecida a sua etiologia. O seu diagnóstico é clínico, com base em critérios de inclusão e de exclusão. É importante conhecermos as suas características de modo a evitarmos duas situações: por um lado atribuir o diagnóstico de dores de crescimento a situações claramente orgânicas e que podem ser graves e por outro lado solicitarmos exames complementares a crianças com quadros típicos de dores de crescimento.


transferir texto