Comportamentos de risco dos adolescentes portugueses e influência do meio
ambiente
INTRODUÇÃO
A adolescência, período de transição da infância para a vida adulta, é uma fase
de intensa transformação biológica acompanhada da procura de independência e
identidade pessoal e uma necessidade de experimentar sensações novas(1-3).
Nesta fase da vida o indivíduo está mais exposto às influências do meio
ambiente onde se encontra inserido, desde a família e a escola à comunidade em
geral, apresentando maior vulnerabilidade para o desenvolvimento de condutas
desajustadas(3-5). Dentro destas condutas, o consumo de substâncias lícitas ou
ilícitas assume particular relevância e torna os adolescentes mais suscetíveis
a baixa autoestima, ansiedade, depressão e a comportamentos sexuais de risco
(4).
Os resultados mais recentes do Inquérito Escolar Europeu sobre o Consumo de
Álcool e outras Drogas (ESPAD)(6) revelam que, a partir de 2007, houve uma
estabilização no consumo de tabaco (ao contrário da tendência descendente que
vinha a ser descrita) e um aumento no consumo excessivo pontual de bebidas
alcoólicas nos últimos anos, apesar da ligeira diminuição no consumo global
desta substância; o consumo de drogas ilícitas (predominantemente o canábis)
aumentou até 2003, diminuiu ligeiramente em 2007 e tem-se mantido estável desde
então. Destaca-se que os países com elevada prevalência de consumo de uma
substância tendem igualmente a apresentar prevalências relativamente elevadas
para outras substâncias, pelo que uma das recomendações para a próxima
estratégia (nona) da União Europeia de luta contra a droga é a aposta numa
abordagem mais integrada tanto para as drogas lícitas como para as ilícitas(7).
Relativamente à atividade sexual, a idade da primeira relação sexual alterou-se
bastante nas últimas duas décadas, evidenciando uma tendência de antecipação,
facto que se associa inerentemente a um risco acrescido de infeções sexualmente
transmissíveis, gravidez não desejada e interrupção voluntária da gravidez em
idades jovens (8,9).
A Educação para a Saúde compete não só aos profissionais de saúde, professores
e família como também aos meios de comunicação social, organizações sociais,
desportivas e religiosas(10). É definida pela Organização Mundial de Saúde como
uma ação exercida sobre os indivíduos no sentido de modificar os seus
comportamentos, a fim de adquirirem e conservarem hábitos de saúde saudáveis,
aprenderem a usar judiciosamente os serviços de saúde que têm à sua disposição
e estarem capacitados para tomar, individual ou coletivamente, as decisões que
implicam a melhoria do seu estado de saúde e o saneamento do meio em que vivem
(10). Na prática trata-se de difundir processos de ensino-aprendizagem, não de
prescrever comportamentos, mas sim de promove-los(10).
OBJETIVOS
Caracterizar uma população de adolescentes de uma área urbana do grande Porto
quanto ao consumo de álcool, tabaco, canábis e outras drogas ilícitas e seu
padrão de sexualidade; analisar a influência do contexto socio-ambiental
(família, grupos de pares, escola, desempenho escolar e saídas noturnas) e
comparar os comportamentos dos adolescentes portugueses com o dos adolescentes
europeus. Pretende-se ainda intervir de forma dirigida na comunidade escolar
estudada.
MATERIAL E MÉTODOS
Estudo transversal, descritivo, de base populacional e amostra de conveniência
de adolescentes inscritos numa escola secundária pública urbana (8º e 9º anos
de escolaridade), com realização de um questionário anónimo e confidencial de
auto-resposta por escrito, em sala de aula sob supervisão do professor, entre
Outubro e Novembro de 2012. O questionário foi elaborado pelos autores através
da adaptação do 2011 Middle School Youth Risk Behavior Survey (Centers for
Disease Control and Prevention ' CDC), validado para a população americana, e
era composto de 47 perguntas de escolha múltipla (em anexo). O consentimento
informado aos encarregados de educação dos menores foi solicitado pela escola.
Os dados obtidos foram codificados e registados numa base de dados informática
(Excel®), e posteriormente analisados com o programa SPSS 18.0® (estatística
descritiva e inferencial). Utilizou-se o teste do Qui-quadrado para comparação
de proporções e o nível de significância adotado foi 0,05. Foram estudadas as
seguintes variáveis: sexo, idade, escolaridade, número de retenções escolares,
número de elementos do agregado familiar, escolaridade do encarregado de
educação, saídas noturnas com amigos, consumo de tabaco, álcool, canábis ou
outras drogas ilícitas, idade de primeiros consumos destas substâncias,
consumos nos últimos 30 dias, consumos nos familiares e amigos, acessibilidade
das substâncias, idade de início de atividade sexual, número de parceiros
sexuais, atividade sexual sob o efeito de substâncias psicoativas, contraceção,
frequência da consulta de planeamento familiar, utilização de contraceção de
emergência, gravidez e interrupção voluntária da gravidez.
Após a análise dos dados obtidos, foi realizada uma sessão formativa interativa
sobre a temática. Este trabalho foi desenvolvido no âmbito da Educação Afetivo-
Sexual e Saúde Escolar, projeto Saber para Ser.
RESULTADOS
Obteve-se um total de 141 inquéritos, sendo 53,9% dos adolescentes do sexo
feminino. A média de idades foi de 13,8 anos (mínimo de 12, máximo de 16 anos).
Frequentavam o 8º ano de escolaridade, 55,3% dos adolescentes; 34,0% tinha tido
pelo menos um ano de retenção escolar. As famílias eram nucleares em 73,8% e
compostas maioritariamente por três ou quatro elementos. A escolaridade do
encarregado de educação era maioritariamente o ensino básico (68,8%); 52,5% dos
adolescentes gostariam de obter um nível de ensino superior. Mais de um terço
nunca saía à noite com os amigos (34,8%), 7,8% saíam frequente/diariamente; dos
que saíam (n=91), a maioria voltava para casa antes da meia-noite (63,7%),
11,0% após as duas horas.
Consumo de tabaco:Um terço dos adolescentes já tinha experimentado tabaco
(33,3%) (Gráfico_1); a idade média em que fumaram um cigarro inteiro pela
primeira vez foi de 12,8 anos. Deste grupo, consumiram tabaco no último mês
40,4% (n=19); diariamente, 10,5% (n=2). Não se verificou diferença
estatisticamente significativa entre o consumo no sexo masculino e feminino
(ϰ2=0,377, p=0,356). A maioria dos adolescentes que fumaram no último mês fumou
entre dois e cinco cigarros por dia (52,6%, n=10) e nenhum adolescente fumou
mais de dez cigarros por dia no referido período. Cerca de metade dos
adolescentes (47,4%) comprou o próprio tabaco e em 42,1% dos casos foi-lhes
oferecido por outra pessoa.
Consumo de álcool:Cerca de um terço dos adolescentes já tinha consumido
álcool (33,8%) (Gráfico_2); a idade média em que consumiram uma bebida
alcoólica pela primeira vez foi de 12,5 anos. Deste grupo, consumiram álcool no
último mês 63,8% (n=30), e, destes, 23,3% (n=7) respondeu ter consumido mais do
que cinco bebidas alcoólicas em algumas horas num dia do último mês. Metade dos
adolescentes comprou as bebidas numa loja, restaurante, bar, discoteca ou
evento público.
Consumo de canábis e outras drogas ilícitas:Relativamente ao consumo de
canábis, 8,5% (n=12) dos adolescentes já tinha experimentado (Gráfico_3), com o
primeiro consumo a ocorrer a uma idade média de 13,5 anos. Cerca de metade dos
adolescentes que já tinham consumido canábis, fizeram-no nos 30 dias anteriores
à data do inquérito (n=6), destes, quatro referiram ter consumido uma a duas
vezes neste período; os restantes fizeram-no dez a 19 vezes (n=1) e 20-39 vezes
(n=1). Um adolescente (0,7%) referiu já ter consumido cocaína ou heroína e três
(2,1%) referiram já ter consumido outras drogas ilícitas, como anfetaminas,
ecstasy ou cogumelos mágicos.
Policonsumo:Nos últimos 30 dias, 2,8% (n=4) dos adolescentes tinham consumido
pelo menos três drogas de abuso e 7,1% (n=10) duas. A maioria dos adolescentes
(71,6%, n=101) revelou não ter consumido nenhuma destas substâncias no mesmo
período. O consumo de tabaco e de álcool associaram-se significativamente, não
só entre eles (ϰ2=22,477, p=0,000) mas também com o consumo canábis (ϰ2=40,239,
p=0,000; ϰ2=7,531, p=0,020, respetivamente) ou outras drogas ilícitas
(ϰ2=19,682, p=0,002; ϰ2=11,140, p=0,009, respetivamente). Os três adolescentes
que referiram já ter consumido outras drogas (anfetaminas, ecstasy ou cogumelos
mágicos), referiram também já ter consumido tabaco, álcool e canábis.
Padrão de sexualidade:Vinte e um adolescentes (14,9%) eram sexualmente ativos
(Gráfico_4). A idade média de início de atividade sexual foi de 13,7 anos (13,3
no sexo masculino e 14,2 no sexo feminino). Relativamente ao número de
parceiros sexuais, oito (38,1%) adolescentes tiveram apenas um; 10 (47,6%)
tiveram dois parceiros e dois (4,8%) adolescentes do sexo masculino referiram
ter tido três e quatro parceiros sexuais, respetivamente; uma adolescente não
respondeu. Não utilizaram preservativo na última relação sexual, 28,6% (n=6)
dos adolescentes, destes, dois não utilizaram nenhum método para prevenir
gravidez, três utilizaram um contracetivo oral e um, um outro tipo de
contraceção hormonal. Apenas um terço (n=7) dos adolescentes sexualmente ativos
referiram já ter ido a uma consulta de planeamento familiar (seis do sexo
feminino, um do sexo masculino); 44,0% (n=62) dos adolescentes não sabia em que
consiste uma consulta de planeamento familiar. Relativamente à utilização da
contraceção de emergência, três adolescentes referiram já ter utlizado, e um
referiu que a sua parceira já o tinha feito. Uma adolescente de 15 anos já
tinha efetuado interrupção voluntaria da gravidez. Verificou-se associação
estatisticamente significativa entre atividade sexual e o consumo de tabaco
(ϰ2=18,270, p=0,000), álcool (ϰ2=9,908, p=0,004) e canábis (ϰ2=23,157, p=0,000)
nos últimos 30 dias ou outras drogas ilícitas (ϰ2=17,516, p=0,003). Dos
adolescentes sexualmente ativos, 23,8% (n=5) referiram ter tido relações
sexuais sob efeito de álcool, canábis ou outras drogas ilícitas.
Contexto socio-ambiental:O consumo de tabaco e de canábis nos últimos 30 dias
associou-se significativamente com o consumo no agregado familiar (ϰ2=10,768,
p=0,001; ϰ2=27,220, p=0,000, respetivamente) (Gráfico_5) e no grupo de amigos
(ϰ2=8,838, p=0,012; ϰ2=17,516, p=0,000, respetivamente) (Gráfico_6). O consumo
de álcool nos últimos 30 dias associou-se significativamente com o consumo no
grupo de amigos (ϰ2=53,030, p=0,000), mas não se verifica associação
estatisticamente significativamente com a embriaguez frequente no agregado
familiar (ϰ2=0,558, p=0,614). Nos três casos de adolescentes que já tinham
consumido outras drogas ilícitas, os amigos mais próximos também já tinham
consumido (ϰ2=32,951, p=0,000).
Verificou-se associação estatisticamente significativa entre retenções
escolares e consumo de tabaco, álcool e canábis nos últimos 30 dias ou outras
drogas ilícitas (ϰ2=8,290, p=0,005; ϰ2=4,939, p=0,024; ϰ2=12,142, p=0,001;
ϰ2=5,939, p=0,038, respetivamente) (Gráfico_7).
Verificou-se ainda associação estatisticamente significativa entre as saídas à
noite com amigos e o consumo de tabaco e álcool e nos últimos 30 dias
(ϰ2=5,683, p=0,012; ϰ2=12,597, p=0,000, respetivamente) (Gráfico_8), mas não
com o consumo de canábis ou outras drogas ilícitas (ϰ2=3,338, p=0,073;
ϰ2=1,633, p=0,275, respetivamente).
A escolaridade do encarregado de educação não se associou significativamente
com nenhum dos consumos (ϰ2=0,224, p=0,894; ϰ2=0,295, p=0,863; ϰ2=4,059,
p=0,131; ϰ2=0,578, p=0,749 respetivamente).
DISCUSSÃO
Constatamos que o álcool e o tabaco são as drogas legais e a canábis a droga
ilegal mais consumidas na nossa amostra populacional, tal como tem sido
descrito a nível nacional e internacional(2,4). Comparativamente à população
espanhola (segundo o relatório do ESTUDES 2010, que inclui uma amostra de
31.967 estudantes entre 14 e 18 anos)(11), na nossa amostra, a idade média de
início de consumo destas drogas foi aproximadamente um ano mais precoce (13,7,
13,5 e 14,7 comparativamente com 12,5, 12,8 e 13,5, respetivamente). Esta
precocidade de início de consumos pode ter repercussão nos hábitos do adulto,
pois o início prematuro associa-se a maior dependência, tanto na quantidade
como na duração do consumo, o que leva a um aumento da morbi-mortalidade(1). É
de salientar ainda a precocidade do início de consumo de canábis, já que o
início do consumo desta antes dos 16 anos tem sido associado ao desenvolvimento
futuro de formas de consumo de droga mais intensivas e problemáticas(7). É
fundamental que os profissionais de saúde, professores e família tenham
consciência da importância da deteção precoce dos consumos destas substâncias,
já que a prevenção da dependência é tanto mais efi quanto mais cedo se deteta o
risco(1). Dados os resultados obtidos, consideramos que a idade entre os 11-12
anos deve ser tida em conta na implementação das estratégias preventivas na
nossa região.
Segundo dados do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência de 2012(7),
Portugal é o quarto país europeu com uma prevalência mais baixa (15,1%) de
consumo de canábis pelo menos uma vez na vida na população entre os 15 e ou 24
anos, ficando apenas à frente da Roménia, Grécia e Chipre; o país com a
prevalência mais elevada é a Republica Checa (52,2%), seguida da Espanha,
França e Dinamarca. De acordo com os dados do ESTUDES 2010(11), 17,5% da
população espanhola entre 14 e 18 anos, tinha consumido canábis nos últimos 30
dias; na nossa amostra observamos um consumo nos últimos 30 dias de 4,3%, o que
corrobora os resultados descritos. Apesar da proibição da venda de tabaco e
álcool a menores, estes continuam a adquiri-los em estabelecimentos públicos, o
que indica a grande acessibilidade e o escasso controlo da venda destas
substâncias no nosso meio, com falta de cumprimento da norma vigente. Tendo em
conta que a disponibilidade das drogas de abuso está descrita como um fator
importante relacionado com o seu consumo, é fácil supor que nesta fase de vida,
em que se unem diferentes fatores como curiosidade, busca de sensações novas e
a pressão do grupo de pares, a probabilidade de se iniciar o consumo é muito
elevada(1).
Nos últimos anos tem-se assistido a uma mudança no padrão do consumo de álcool,
do padrão tradicional mediterrâneo, caracterizado pela vinculação do consumo
às refeições e em contexto familiar para o padrão anglo-saxónico, em que se
bebe muita quantidade, em curtos períodos de tempo em contexto lúdico
extrafamiliar(1). Este facto também se constatou na nossa amostra, em que cerca
de um quarto dos adolescentes que consumiram álcool no último mês, consumiram
em pelo menos um dia, mais de cinco bebidas alcoólicas em apenas algumas horas.
No nosso estudo, o tabaco foi um preditor do consumo de outras drogas de abuso,
tal como tem sido descrito(1); do ponto de vista preventivo, este dado é de
extrema importância na medida em que os programas dirigidos à prevenção do
consumo de tabaco possam ter repercussão na prevenção do consumo de outras
substâncias.
Os consumos nos familiares ou amigos, as saídas à noite e o mau desempenho
escolar associaram-se significativamente aos consumos dos adolescentes, assim
consideramos fundamental conhecer o contexto socio-ambiental dos adolescentes,
identificando grupos vulneráveis, nos quais estratégias de prevenção seletivas
seriam recomendadas(4,10,12,13).
Relativamente à atividade sexual, diferentes estudos têm evidenciado um início
cada vez mais precoce(14); na nossa amostra, 14,9% dos adolescentes já tinham
iniciado a atividade sexual, com uma idade média de 13,7 anos. Em Portugal, de
acordo com o estudo Health Behaviour in School-Aged Children 2010(8), que
inclui alunos de 6º, 8º e 10º ano, 16,9% referiram já ter tido relações
sexuais, o que é concordante com os nossos resultados. Ainda de acordo com o
mesmo estudo, dos 29,0% dos alunos do 10º ano que já tinham iniciado atividade
sexual, a maioria (81,8%) refere ter sido com 14 anos ou mais. A precocidade da
coitarca referida na nossa amostra pode dever-se a um viés relacionado com a
inclusão de jovens de menor idade. No sexo feminino, a primeira relação sexual
verificou-se mais tarde que no sexo masculino, o que corrobora resultados
anteriores(9). Quase um terço dos adolescentes sexualmente ativos não tinha
utilizado preservativo na última relação sexual. Este dado é preocupante pois,
apesar de todos estes adolescentes terem educação afetivo-sexual e saúde
escolar, a informação parece não ter sido exercida de forma a promover o
comportamento adequado. Relativamente à consulta de planeamento familiar, 44%
dos adolescentes inquiridos referiram não saber em que consistia. Este dado
permite-nos inferir outros agentes (meios de comunicação social, amigos ou
familiares) como principais responsáveis pela informação destes jovens, que
pode ser inadequada e influenciada por crenças populares, contribuindo desta
forma para comportamentos sexuais de risco. A associação signifi entre consumo
de tabaco, álcool e canábis e atividade sexual tem também um papel importante
nos comportamentos sexuais; estas substâncias podem reduzir a capacidade de
discernimento e comunicação e fazer perder o controlo sobre si próprios,
provocando uma falsa sensação de segurança no momento e muitos arrependimentos
do dia seguinte. Um comportamento sexual seguro poderia ter prevenido os
quatro casos de utilização de contraceção de emergência e o caso de interrupção
voluntária da gravidez referidos.
CONCLUSÃO
A precocidade de início de consumo de tabaco, álcool e canábis na nossa amostra
é alarmante, pelo que consideramos que as estratégias preventivas na nossa
região devem ser dirigidas às idades entre os 11-12 anos. O facto do consumo de
tabaco ter sido um preditor do consumo de outras substâncias, permite-nos
inferir que os programas dirigidos à prevenção do consumo de tabaco possam ter
repercussão na prevenção de outros consumos. Os consumos nos familiares ou
amigos, as saídas à noite e o mau desempenho escolar associaram-se
significativamente aos consumos dos adolescentes, assim consideramos essencial
conhecer o contexto socio-ambiental dos adolescentes, identificando grupos
vulneráveis, nos quais estratégias de prevenção seletivas seriam recomendadas.
A nível individual, o profissional de saúde deve realizar sempre uma avaliação
biopsicossocial global do adolescente de forma a detetar fatores de risco e
fatores protetores e identificar os sinais de alarme(4,10). Verificamos também
uma associação entre atividade sexual e consumos. Estes factos, juntamente com
a precocidade da coitarca são preocupantes e podem desencadear as condutas
sexuais de risco observadas (em que quase um terço admite ter tido relações
sexuais desprotegidas). O desconhecimento relativo às consultas de planeamento
familiar em quase metade da nossa população é também inquietante. A prevenção
de condutas desajustadas deve ser parte integrante dos cuidados de saúde ao
adolescente, seja nos serviços vocacionados para a Medicina do Adolescente,
seja na Consulta de Pediatria Geral ou em Cuidados de Saúde Primários(4,10). As
circunstâncias externas e exigências do meio ambiente são um claro
condicionante dos comportamentos dos adolescentes(13), pelo que a implementação
de medidas preventivas cabe não só ao profissional de saúde, como também à
família, à escola e à sociedade em geral(4).