Na Onda da Ciência
EDITORIAL
Na Onda da Ciência
In the wave of science
Nuno Garrido1,*
1Diretor da Revista Motricidade; Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro,
Portugal
Neste final do ano gostaria de abordar uma modalidade que tem agregado muitos
simpatizantes em todo o mundo e que tem cada vez mais atletas a praticar
competições regulares, o surf. Faço esta abordagem ao surf por várias razões.
Uma delas é pelo facto da nossa revista ser portuguesa, ser publicada em
português e de termos em Portugal vários quilómetros de costa com vários tipos
de ondas para se surfar. A segunda razão deve-se ao facto inédito de termos um
campeão do mundo do Júnior Tour português, o Vasco Ribeiro. Além de se ter
sagrado campeão, nos 4 primeiros lugares há 2 portugueses e 2 brasileiros. A
terceira e a quarta razões advêm da diáspora portuguesa, pois no ranking do
World Qualification Series (WQS), entre os 10 primeiros, há 5 brasileiros
qualificados diretamente para o World Championship Tour (WCT), e no WCT existe
a possibilidade inédita do campeão do mundo falar português, o jovem brasileiro
Gabriel Medina. Além de Gabriel Medina com 21 anos de idade, o americano Kelly
Slater, que foi o mais novo (20 anos) e mais velho (39 anos) campeão do mundo,
procura o seu 12º título mundial com 42 anos de idade, e o australiano Mick
Fanning (33 anos) que tenta o seu 4º título mundial. Finalmente, porque
gostaria de me referir ao estado da ciência no que diz respeito a publicações
especificamente ligadas ao surf.
A primeira intervenção da ciência no surf aparece com a engenharia mecânica,
por volta de 1940, a desenvolver pranchas, 20 vezes mais leves, de poliestireno
herdado da aviação; a segunda veio indiretamente da Oceanografia através da
previsão da direção, tamanho, velocidade e período das ondas, útil durante a 2ª
grande guerra para o desembarque dos aliados na Normandia (Westwick, 2013).
Especificamente para a curiosidade levantada, a Engenharia Mecânica e a
Oceanografia ficam afastadas do nosso escopo. Nesse sentido foi feita uma
pesquisa breve por artigos onde figurasse o surf como objeto de estudo. A
pesquisa por artigos foi realizada na Pubmed e na Web of science com as
palavras-chave “surfing” e “surfers” not “internet”, “web”, “gene”, “genetic” e
“genomics”. Foram devolvidos 564 resultados, que depois de verificados
refinaram num total de 133 artigos relacionados diretamente com o surf e seus
praticantes. O resultado da pesquisa foi dividido em 3 grupos, Medicina e
Lesões, onde se enquadravam os artigos que descrevem etiologias, tratamentos e
prevalência de patologias relacionadas com a atividade, assim como alguns
estudos de caso; Ciências do Desporto, onde se enquadravam os trabalhos
relacionados com aspetos fisiológicos, biomecânicos e psicológicos relacionados
com o desempenho durante o surf; e Outros, onde se enquadravam os trabalhos de
religião e de populações minoritárias. A maior parte dos trabalhos devolvidos
na pesquisa enquadravam-se no grupo de Medicina e Lesões (67%), sendo o segundo
grupo o das Ciências do Desporto (31%), ficando o grupo dos Outros com um valor
residual (3%).
Perante um desporto que tem um crescente número de praticantes, de todas as
idades, e sobretudo porque, em termos de desempenho competitivo há uma
variabilidade muito elevada dos resultados (Mendez-Villanueva, Mujika, &
Bishop, 2010) e uma imprevisibilidade quanto às condições de prática (por
exemplo, a idade que separa os 3 candidatos deste ano é de 10 anos do 1º para o
2º, e de 20 anos do 1º para o 3º), muito há ainda por fazer de forma a diminuir
a distância entre a ciência e a prática.
A homenagem que deixo aos surfistas portugueses e brasileiros estende-se também
aos colegas portugueses e brasileiros que têm desenvolvido pesquisas onde o
objeto de estudo é o surf, nomeadamente na área da Medicina e Lesões (Base et
al., 2007; de Moraes et al., 2013) e na área das Ciências do Desporto
(Alcantara et al., 2012; Bandeira & Rubio, 2011; Bandeira, 2014; Moreira
& Peixoto, 2014; Peirão & Santos, 2012; Ramos et al., 2012, 2013;
Romariz et al., 2011; Souza, et al., 2012; Vaghetti et al., 2007).
Confesso que seria do nosso agrado ter 3 campeões mundiais qua falam português
(Junior Tour, WQS e WCT). Esperamos, qualquer que seja o resultado desta
competição, que a investigação nesta modalidade, fértil em campos de estudo,
prolifere e permita um desenvolvimento sistémico assente cada vez mais em bases
e métodos científicos.
Chegamos ao final de mais um ano apresentando o número 4 do volume 10 da
Motricidade. Quero deixar o meu apreço a todos que escolheram a Motricidade
para divulgar os seus trabalhos e enaltecer o papel da excelente equipa que
connosco trabalha, bem hajam.
Desejo a todos votos de um excelente final de ano, de uma agradável leitura e
boas ondas, se for caso disso.